Cultura popular, literatura e
padres culturais
Ricardo Azevedo[1]
Sinopse
Para tratar das relaes entre cultura popular e
literatura, creio que seja necessrio considerar, mesmo que de forma bastante
esquemtica, a existncia de pelo menos dois modelos culturais: o popular e
tradicional e o oficial, moderno e escolarizado. Ambos correspondem a maneiras
entrelaadas, por vezes bastante divergentes, de enxergar a vida e o mundo. O
primeiro seria enraizado, por exemplo, na valorizao de sistemas hierrquicos assim
como na cultura oral e suas implicaes. O segundo, na valorizao do
individualismo assim como na cultura escrita e suas implicaes. Cada um destes
modelos culturais tem gerado discursos construdos a partir de diferentes
padres sociais, ticos e estticos.
O artigo tenta apontar algumas dessas inmeras e complexas diferenas e
suas conseqncias na construo dos discursos.
Sociedades so organizaes humanas complexas e diversificadas. Quanto maiores, maiores as chances de existirem em seu seio diferentes modos de apreenso da vida e do mundo.
Creio que para falar em cultura popular, considerando o Brasil, preciso pensar, mesmo que seja de forma bastante esquemtica, na existncia de dois sistemas de conhecimento atuando de forma mais ou menos dialgica, um influenciando o outro, embora isso ocorra em graus diferentes.
A realidade, naturalmente, algo inefvel, mutante e multifacetado que ultrapassa qualquer binarismo. O que se prope aqui um modelo geral e esquemtico para pensar sobre um assunto denso e multifacetado. Espero que, mesmo sendo precrio, ele possa ser til.
Falei em sistemas de conhecimento e isso implica hbitos mentais e padres sociais, ticos e estticos.
Vamos chamar um desses sistemas de cultura oficial, aquela representada pelo poder poltico e pelas elites culturais e econmicas, cultura cujos padres, contedos e valores esto organizados de forma relativamente sistemtica, formatada e esquematizada. Seus paradigmas so transmitidos por escolas e universidades, por livros, mtodos e teorias, assim como pela mdia, jornais, revistas, televiso, publicidade etc. Em princpio, esse conhecimento depende diretamente da cultura escrita.
Apesar de sua grande diversidade, tal sistema apresenta certa homogeneidade. Por exemplo, os programas educativos, independentemente de graus, so coordenados por ministrios, secretarias estaduais e municipais e ou tendem a ser os mesmos no Brasil inteiro. Esses programas podem ser considerados homogneos tambm por outra razo: so baseados em informaes fixadas por texto.
Por outro lado, a televiso veicula mais ou menos o mesmo conjunto de valores, discursos, linguagens e modas por todos os cantos do pas. O mesmo ocorre com os produtos industriais divulgados pela propaganda e suas mensagens que, no geral, obedecem aos mesmos princpios e, bom lembrar, implicam uma bem determinada forma de pensar e enxergar a vida e o mundo.
Vamos chamar o outro sistema de conhecimento de cultura popular. Tal sistema rene um conjunto imenso de manifestaes e existe paralelamente cultura oficial. Porm, ao contrrio desta, se desenvolve de forma catica, espontnea e no programada, sendo construdo no dia-dia da vida cotidiana. A cultura popular diversificada, heterognea e heterodoxa e apresenta as mais variadas facetas e graduaes nas diferentes regies do pas. Pode-se dizer que sua produo costuma ser expresso de cada contexto onde se desenvolve. Melhor seria trata-la no plural: culturas populares.
Falo de forma bastante esquemtica e os problemas so muitos. Por exemplo: o que popular? Afinal, como sabemos, todo mundo pertence ao povo. Ricos e pobres, alfabetizados e analfabetos, patres e empregados, doutores e gente que mal e mal concluiu o primeiro grau, todos so representantes do povo brasileiro.
Mesmo assim, preciso reconhecer, algumas pessoas parecem ser mais do povo do que outras.
No toa, existem expresses como gr-fino, ricao, bacana, colarinho branco e tubaro.
E expresses como povo, galera, ral, populacho e z povinho.
Quem o z povinho?
So, obviamente, as pessoas de classes baixas, as populaes rurais que ainda restam, as camadas empobrecidas das periferias urbanas ou as classes operrias de baixo poder aquisitivo. Em suma, so os pobres dos grandes centros e a maioria dos homens do campo.
No preciso fazer uma pesquisa para dizer que essa imensa camada da populao est muito mais mergulhada em uma cultura no oficial e espontnea, uma cultura popular, do que no sistema de conhecimento oficial, particularmente no que diz respeito escola, at porque boa parte dela passou muito pouco ou nem passou pelos bancos escolares.
No sou estatstico mas talvez cerca de 130 milhes de brasileiros (75% da populao) sejam incapazes de utilizar a leitura e a escrita em benefcio prprio. Refiro-me a ler jornais, revistas, bulas de remdio, manuais tcnicos e contratos. Refiro-me incapacidade de enviar uma mensagem importante por escrito. Refiro-me a compreender o que dizem os locutores dos jornais televisivos cheios de jarges, abstraes, termos tcnicos e estatsticas.
Neste sentido, pode-se associar a noo de popular tanto a baixo poder econmico como a baixo grau de instruo. Mas isso tambm discutvel.
Acontece que, por outro lado e para complicar, possvel, no Brasil, pensar em pessoas de nvel universitrio, pertencentes s classes mdias e altas [20% da populao?], com poder econmico, acesso ao conhecimento de ponta em todos os nveis e, mesmo assim, por razes familiares e outras, serem vinculadas a hbitos mentais populares, se pensarmos em valores, princpios e estilos de vida, ou seja, determinados padres sociais, ticos e estticos.
O que interessa aqui? Ressaltar que, no geral, a cultura popular no a mesma cultura da escola, do saber sistemtico, erudito, cientfico, tcnico e impessoal transmitido por professores e livros didticos ou universitrios.
Alis, quando vista como conhecimento, a cultura do povo costuma ser desprezada pelo modelo oficial.
Mas como explicar as obras de Joo Guimares Rosa, Jos Candido de Carvalho, Manoel de Barros, Ariano Suassuna, Heitor Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Heckel Tavares, Guerra Peixe, Radams Gnatalli, Antonio Carlos Jobim, Baden Powell, Egberto Gismonti, Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Antnio Nbrega, Tarsila do Amaral, Volpi, Portinari, Aldemir Martins, Helio Oiticica, Siron Franco, Gilvan Samico e tantos outros? Como seriam as obras desses grandes artistas se delas fossem retirados os traos populares?
Surge a questo: afinal,
que conjunto de procedimentos, tcnicas, imagens e linguagens populares foram
apropriados, mesmo que em graus diferentes, por esses artistas considerados
cultos? Embora no sistematizado em programas, livros, mtodos e compndios,
esse conjunto corresponde, sim, ao que chamamos de conhecimento
Infelizmente, como disse Eric A Havelock, tornou-se moda
nos pases industrializados considerar as culturas no-letradas como no–culturas.
Havelock adverte que uma cultura oral merece ser considerada e estudada nos
seus prprios termos. E referindo-se literatura, acrescenta que ela
...escapar nossa compreenso enquanto efetuarmos a sua critica
exclusivamente de acordo com as regras da composio letrada. (C.f. HAVELOCK,
Eric A. A revoluo da escrita na Grcia
e suas conseqncias culturais. Unesp e Paz e Terra, 1996, p.101 e p.190.)
Dou um exemplo. O
improviso procedimento conhecido e tradicional, utilizado recorrentemente nas
artes do povo e at na vida popular. Basta lembrar gambiarras com o
fornecimento de luz, a arquitetura dos favelados etc. Tento dizer que, at por
razes de sobrevivncia, o quebra galho, o jeitinho, as mutretas e a
criatividade, ou seja, o improviso, so marcas constantes da vida popular.
preciso lembrar, pensando em arte, que o improviso representa um recurso, uma
espcie de mtodo, uma forma
construtiva, um procedimento e pode ser ensinado.
Alis, aprendido pelo jovem artista popular que observa e imita o repentista
e versejador mais velho e experiente. Tal recurso, humano e muito expressivo,
tende a ser ignorado e simplesmente desaparecer do modelo de conhecimento
oficial. Nunca ouvi falar de uma escola que abordasse programaticamente o
recurso do improviso. uma pena e uma perda!
Outro aspecto relevante para a compreenso das culturas do povo seu claro e profundo vnculo com a oralidade
Sabemos que boa parte das manifestaes populares e do conhecimento do povo marcada pela transmisso feita boca a boca, de modo informal, de forma espontnea, na base do quem conta um conto aumenta um ponto. Mas quais as implicaes de tudo isso nos discursos?
Vamos pensar num recado escrito.
Algum
precisa transmitir um recado importante.
Se o tal recado for enviado por escrito, seu autor estar livre e
independente da situao face-a-face e de um contexto determinado, concreto e
situado. Note-se que, por estar fixado, o discurso escrito pode atravessar o
tempo. Isso significa que possvel ler o recado de algum que j morreu faz
tempo. Por no estar diante do leitor, quem manda a mensagem dever construir
um discurso necessariamente mais complexo, afinal, precisar estruturar o texto
numa certa ordem para que sua argumentao fique transparente, esclarea os
pontos essenciais e entre em detalhes de forma que o que se quis dizer esteja
representado no texto. Em outras palavras, para funcionar, tal recado precisa
prever certas perguntas de seu eventual leitor.
Alm
disso, no recado escrito, o autor pode tambm, se quiser, ser original,
recorrer a artifcios de linguagem, inventar palavras novas, arriscar-se a
ambigidades, criar imagens inusitadas, experimentar jogos sintticos,
parodiar, estilizar, fazer citaes ou ilaes e, ainda, optar pela
sobreposio dos cdigos verbal e visual, uma vez que o texto est escrito e
fixado num suporte como papel ou outro. Seu autor pode tambm abordar temas
obscuros de seu exclusivo interesse pessoal. Pode ainda ser, por exemplo,
propositadamente agressivo, at porque no h qualquer perigo de revide.
Num
recado assim, pode ser indiferente para seu autor se a mensagem ser
compreendida ou no. possvel at imaginar que ela seja incompreensvel,
ambgua, obscura e hermtica de propsito ou programaticamente. Todas essas
atitudes e recursos so possveis porque, no texto escrito, o leitor poder ler
e reler vrias vezes, consultar dicionrios, pedir a opinio de outras pessoas,
refletir sobre o que leu e, assim, gostando ou no, construir sua
interpretao.
importante notar, mais uma vez que, ao escrever, todo autor conta automtica e
necessariamente com uma interpretao, mesmo que em graus diferentes. Basta
comparar os textos A gua ferve a 100 graus e Os cavalos da aurora
derrubando pianos/avanam furiosamente pelas portas da noite (Poema barroco
de Murilo Mendes). O preo da comunicao clara na mensagem por escrito a
impessoalidade, como se v no primeiro exemplo.
preciso lembrar ainda que todo texto
escrito obrigatoriamente um solilquio, ou seja, nele o orador sempre est
falando sozinho.
Vamos
agora pensar num recado falado,
Neste
caso, o autor precisa ser claro e direto pois v-se diante de um ouvinte, uma
pessoa de carne e osso, concreta e situada.
Sendo
assim suas estratgias so necessariamente outras.
No
costuma fazer sentido, num discurso falado, numa comunicao face-a-face, a
utilizao de um vocabulrio complicado ou falar uma coisa para dizer outra.
Tambm no parece ser a melhor estratgia, num discurso de viva voz, entrar em
muitos detalhes, pois isso seria confuso e cansativo. No convm, ainda,
abordar assuntos por meio de pontos de vista demasiadamente singulares ou
complexos. Tambm no aconselhvel partir para as citaes. melhor evitar
falar em outras lnguas. melhor fugir de sintaxes pouco usuais. arriscado
inventar palavras ou recorrer a imagens e metforas obscuras ou pessoais
demais.
Se
o autor de um recado de viva voz for agressivo e xingar o ouvinte vai correr o
risco de levar uma surra.
Salvo
em certas cerimnias religiosas, que implicam desejos e crenas por parte de
seus fiis, so desconhecidos recados de viva voz dados por gente morta.
Abro
parnteses: todos ns, religiosos e ateus, letrados e iletrados, modernos e
tradicionais, somos movidos pelos mais variados desejos e crenas.
Volto
aos discursos. Em suma, o discurso escrito e o discurso oral obedecem a modelos
construtivos diferentes, tm objetivos diferentes e exigem estratgias
diferentes.
No
contato direto, face-a-face, o que eu quero dizer e o que eu digo costumam
estar sobrepostos. Se isso no ocorrer provavelmente no vou ser compreendido e
algum logo vai gritar: Pra a, no entendi o que voc disse!. H excees,
os atos de fala indiretos, mas isso outra histria que no cabe discutir aqui
(C.f. SEARLE, John R. Expresso e
significado. Estudos da teoria dos atos de fala. Martins Fontes, 2002).
Se
h uma caracterstica fundamental do discurso popular, creio, o fato de ele,
em princpio, ser criado e construdo, tanto faz se oralmente por um poeta
analfabeto, ou por meio da escrita, no caso de um poeta alfabetizado, tendo
como pressuposto a comunicao oral, ou seja, a situao da comunicao feita
face-a-face e suas implicaes, algumas delas descritas acima.
Quero
dizer que h textos escritos que se assumem como o que so: mensagens escritas.
Nelas, o escritor escreve para ser lido e o leitor l com a postura de quem l
um texto escrito, o que pressupe poder reler, consultar dicionrios, analisar
e interpretar.
H
porm textos escritos que funcionam como mensagens ditas de viva voz. Neste
caso, o escritor escreve como, ou quase como, quem fala e o leitor l como, ou
quase como, quem escuta algum falando em voz alta num contato face-a-face.
Neste
caso, mesmo considerando o texto escrito, o autor se coloca na posio
imaginria de quem d um recado de viva voz.
Os
primeiros so textos tpicos da cultura escrita, portanto, marcados pela
escolarizao. Por vezes podem ser tcnicos, utilitrios e impessoais. Por
vezes podem ser hermticos, abstratos e demandam necessariamente interpretao.
Os segundos so textos marcados pela oralidade. Estes so como um recado de viva voz, pretendem sempre ser compreendidos e, por essa razo, tendem a utilizar uma linguagem clara e pblica para tratar de assuntos compreensveis a todos.
Boa parte da literatura e da poesia impressa produzida tendo como base e pano de fundo a cultura escrita, ou seja, a possibilidade de releitura, anlise e interpretao, com as implicaes advindas da.
Creio que a literatura popular, e tambm a literatura para crianas e jovens, tendem a adotar o modelo marcado pela oralidade, ou seja, o escritor escreve quase como se estivesse falando de viva voz a outra pessoa num contato face-a-face situado, com as implicaes advindas da.
O
que pretendo ressaltar? Que ambos os textos demandam do escritor diferentes
estratgias e procedimentos com a linguagem.
Na minha viso, essas diferenas entre estratgias e modelos construtivos deveriam ser mais estudadas e conhecidas na escola e mesmo na universidade. No creio que sejam.
Chegou a hora de fazer uma comparao, ainda que breve e esquemtica, entre o que chamo de modelo oficial e de modelo popular.
Creio que seja possvel identificar o modelo oficial e escolarizado com a chamada cultura moderna. E a modernidade, hegemnica em nossos dias, tem cultivado alguns valores que merecem ser melhor discutidos.
O espao curto e o assunto vasto mas vou tentar levantar certos pontos de discusso.
Quais seriam alguns elementos caractersticos da cultura moderna?
Em primeiro lugar, a valorizao da ao individual, o que implica no individualismo (C.f. DUMONT, Louis. O individualismo.Uma perspectiva antropolgica da ideologia moderna. Rocco, 2000 ou DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heris – Para uma sociologia do dilema brasileiro. Zahar, 1979).
Segundo os tericos do assunto, o individualismo corresponde idia de que o homem seja livre, igual e autnomo
Livre (da as idias de livre arbtrio, livre pensamento, livre iniciativa, livre comrcio);
Igual (supe a igualdade de oportunidades ou a igualdade perante a lei)
Autnomo (trata-se da capacidade de se auto-governar, ou seja, de agir segundo leis e interesses prprios).
Neste modelo, conhecido de todos ns e alastrado em boa parte do mundo contemporneo, o homem, em suma, v-se livre para construir o significado de sua vida, de suas relaes com o Outro, de suas relaes com a sociedade etc.
livre tambm para construir seu discurso da forma que quiser, com liberdade e autonomia, ou seja, independentemente da platia ou do leitor
Como tal discurso marcado pela cultura escrita, pode se dar ao luxo de ser complexo e hermtico afinal, fixado por texto, pode ser relido, analisado e interpretado. Isso ocorre mesmo na msica popular.
Retirei todos os exemplos deste artigo de letras da nossa msica popular.
Vejamos a letra de Panis et circensis de Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Eu quis cantar
Minha cano
iluminada de Sol
Soltei os
panos sobre os mastros no ar
Soltei os
tigres e os lees nos quintais
Mas as pessoas
na sala de jantar
So ocupadas
em nascer e em morrer
Mandei fazer
De puro ao
luminoso um punhal
Para matar o
meu amor e matei
s cinco horas
na avenida central
Mas as pessoas
na sala de jantar
So ocupadas
em nascer e em morrer (...)
Agora um trechinho de Outras palavras de Caetano Veloso
Nada dessa
cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava
me e papai alma buena dicha loca
Neca desse
sono de nunca jamais nem never more
Sim dizer que
sim pra Cil pra Ded pra Dadi e D
Crista do
desejo o destino deslinda-se em beleza
Outras
palavras outras palavras (...)
Trata-se de textos nitidamente marcados pela modernidade e
pela cultura escrita.
So discursos interessantes porm complexos, complicados, fragmentados, abstratos (ou seja, no visualizveis) que necessariamente demandam interpretao.
Por outro lado, no discurso moderno, certos temas tendem a desaparecer. Penso agora na famlia mas poderia me referir ao trabalho, festa ou ao envelhecimento entre muitos outros assuntos. Na verdade, a situao relativa vida familiar ou a mera meno famlia, na modernidade, parecem no fazer mais sentido. que pertencer a uma famlia implica no ter liberdade, igualdade e autonomia. Como explica Louis Dumont, a famlia um elemento pr-moderno (op.cit).
A referncia famlia surge raramente no discurso marcado pela modernidade, pelo menos na msica popular. H excees, claro, mas no geral, quando aparece, muitas vezes adota tom analtico, critico e irnico.
Vejamos trechos de Mame coragem de Caetano Veloso e Torquato Neto:
Mame, mame
no chore
A vida assim
mesmo
E eu fui-me
embora
Mame, mame
no chore
Eu nunca mais
vou voltar por a
Mame, mame
no chore
(...)
Pegue uns
panos pra lavar
Leia um
romance
Veja as contas
do mercado
Pague as prestaes
(...)
Seja feliz
Mame, mame
no chore
Eu quero, eu
posso
Eu quis, eu fiz...
Eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz. Sem dvida, estamos diante de um discurso moderno e individualista. Como vimos, a modernidade costuma valorizar a liberdade e a autonomia com relao s hierarquias e isso fica claro neste texto.
Vejamos Eu no sou da sua rua de Branco Mello e
Arnaldo Antunes:
Eu no sou da
sua rua
Eu no sou o
seu vizinho
Eu moro muito
longe, sozinho
Estou aqui de
passagem
Eu no sou da
sua rua
Eu no falo a
sua lngua
Minha vida
diferente da sua
Estou aqui de
passagem
Esse mundo no
meu
Esse mundo no
seu
Outro exemplo: Metamorfose ambulante de Raul Seixas:
Prefiro ser
Essa
metamorfose ambulante
Do que ter
aquela velho opinio formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora o oposto
do que eu disse antes
Prefiro ser
Essa
metamorfose ambulante
Do que ter
aquela velho opinio formada sobre tudo...
Nessas letras, o individualismo aflora com toda fora: a voz que fala ou canta parece sentir-se nica, singular, diferente de tudo e de todos.
So tpicos discursos modernos que denotam uma viso de mundo claramente marcada pela crena no modelo individualista.
Os textos citados acima, em todo caso, no tm nada a ver
com a cultura popular
que o modelo popular, mesmo quando visto de forma esquemtica, de certo modo o oposto a tudo isso.
Em primeiro lugar, neste padro, costuma haver uma grande valorizao das redes hierrquicas.
Neste caso, o homem v a si mesmo como uma pessoa integrante de uma complexa teia de relaes humanas e consangneas, tanto sociais quanto msticas, o que implica na valorizao da famlia, do contexto em que se vive, da vizinhana, de grupos de interesses comuns, da religiosidade (por definio, um sistema hierrquico capitaneado por deus ou deuses), de parentes que j morreram etc.
Isso significa que
a) a pessoa v-se como algum que necessariamente pertence a esquemas hierrquicos: a famlia, a vizinhana, a comunidade, a escola de samba, o time de futebol, a crena religiosa etc. assim como a certa cultura e a certas tradies pelas quais de alguma forma acredita ter obrigaes e responsabilidades;
b) nenhuma pessoa pode se sentir igual afinal pertence a um certo patamar hierrquico e deve, por exemplo, respeitar os mais velhos que esto num patamar acima. Neste modelo, costumam ter reconhecida sua autoridade, sabedoria e experincia. Afinal, conhecem a tradio, sabem o que aconteceu antigamente, detm a experincia de vida e so fonte de conhecimento real. A Velha Guarda das escolas de samba so um exemplo entre muitos.
O modelo hierrquico supe ainda uma grande sensao de familiaridade entre as
pessoas[c.f. BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Mdia e no Renascimento. Hucitec, 1993]. Trata-se de uma igualdade humana diferente da que costuma ser valorizada na modernidade. Nada tem a ver com princpios objetivos e tericos mas sim com uma espcie de identificao natural entre todas as pessoas. Neste modelo, no fundo, todos somos parecidos afinal somos filhos de Deus, gente de carne e osso, gente que tem famlia, amores, necessidades prticas e que festeja e trabalha como todo mundo.
Falamos da igualdade como um valor moderno mas, preciso esclarecer, neste caso ela representa um princpio terico. Trata-se de uma igualdade na diferena: somos iguais por sermos nicos e singulares. Nada a ver com a viso popular.
c) ningum, no padro hierrquico, se considera autnomo nem a autonomia faz sentido. Um homem sozinho, no mundo popular, est lascado. Nesse ambiente, como sabemos, comum o trabalho em parcerias e mutires, mes que deixam de trabalhar para cuidar de filhos da vizinhana etc. Neste caso, a interdependncia entre as pessoas vista como algo natural e, como o povo diz, a unio faz a fora. At o poeta culto, vez por outra, se lembra disso, afinal, nas palavras de Joo Cabral de Melo Neto um galo sozinho, no tece uma manh.
No modelo popular, a autonomia pode existir mas excepcionalmente quando, por exemplo, as regras so quebradas: filha que foge com o namorado, filhos que partem para ganhar dinheiro e cair no mundo, desavenas entre pai e filho etc.
Como vimos, no modelo moderno e individualista, tende a ser valorizada a voz singular do artista, suas idiossincrasias, seus interesses e temas particulares. O artista pode dizer o que quiser, sobre o que quiser, como quiser, com liberdade, autonomia e independncia com relao platia.
Podemos chamar esse discurso de discurso-eu
No modelo hierrquico, tende a ser valorizada a voz compartilhvel, o vocabulrio pblico e os temas que dizem respeito a todas as pessoas
Neste caso, o artista busca cantar e tocar em assuntos que digam respeito a ele, claro, mas ao mesmo tempo a todos. No geral, so textos enraizados na vida concreta e nos eventos do dia-a-dia.
Podemos chamar esse discurso de discurso-ns
Vejamos algumas letras de samba, discursos populares que costumeiramente tratam de
assuntos relativos vida cotidiana sempre de forma compartilhvel. Comeo com O pai coruja de Z Roberto, sucesso de Zeca Pagodinho que faz referncia famlia:
Amigo no leve
a mal
Mas isso o
meu dever
Se quer
namorar minha filha
Moa de
famlia, precisa saber
Comigo na
moda antiga
No tem boa
vida de encher a barriga
E depois
correr
O velho no
de bobeira, vai pegar voc
Segundo a letra, se o namorado quiser se casar mesmo, vai ser bem recebido e at ganhar
De presente
um luxuoso apartamento
Mobiliado de
frente pro mar, pronto pra morar
Mas se suas intenes forem outras
Porm se for
171[estelionatrio], um p rapado
Se mete no
meio de um fogo cruzado
Uma bala
perdida, cuidado, ela pode te achar
Ta vendo, aqui
na minha casa um lar de alegria
Eu no deixo
entrar pirataria
Se eu soltar
meu cachorro, ele vai te pegar, amigo! (....)
Vale a pena relembrar um trechinho de Trem das onze de Adoniran Barbosa
No posso ficar
Nem mais um minuto com voc
Sinto muito amor
Mas no pode ser
Moro em Jaan
Se eu perder esse trem
Que sai agora s onze horas
S amanh de manh
E alm disso mulher, tem
outra coisa
Minha me no dorme
Enquanto eu no chegar
Sou filho nico
Tenho a minha casa pra morar
E eu no posso ficar . . . .
A meno famlia, assunto da vida banal e cotidiana, a voz que sai de dentro de uma estrutura hierrquica com pais, mes, filhos, avs e tios recorrente nas letras de samba e, creio, marca do discurso popular.
Tal discurso trata o ouvinte (ou o leitor) como algum prximo e familiar, algum cujo pressuposto a identificao, e tem como princpio bsico a igualdade entre poeta e platia a respeito das coisas da vida e do mundo.
Vejamos o samba-choro S vendo que beleza de Henrico. Como o ttulo indica, qualquer um que entre em contato com a tal casinha na Marambaia e, claro, for como todo o mundo, ter a mesma gostosa sensao.
Eu tenho uma
casinha l na Marambaia
Fica na beira
da praia
S vendo que
beleza
Tem uma
trepadeira que na primavera
Fica toda
enflorescida de brincos de princesa
Quando chega o
vero
Eu sento na
varanda
Pego o violo
comeo a tocar
Minha morena
que est sempre bem disposta
Senta-se a meu
lado tambm a cantar (....)
Note-se que ricos e pobres, cultos e analfabetos, adultos e crianas, todos compreendemos e podemos facilmente nos identificar com um texto assim
Peo ao leitor que pegue as letras de samba ou, por exemplo, de msica caipira, e veja quantas e quantas vezes aparecem expresses como a gente, a turma, a rapaziada, a galera, o pessoal, o povo etc.
O leitor, se puder, compare com letras da moderna msica popular e verifique a diferena. Nelas, a tendncia do ponto de vista exclusivamente eu aflorar preponderante.
O samba da minha
terra
Deixa gente
mole
Quando se
dana todo mundo bole
Quem no gosta
de samba
Bom sujeito
no
Ou ruim da
cabea
Ou doente do
p...
Note-se o ponto de vista ns presente o tempo todo.
Note-se que neste modelo o diferente, quem no gosta de samba, no valorizado e, ao contrrio, tratado com alguma incompreenso.
Ou um trecho de No pagode do Vav de Paulinho da Viola:
Domingo, l na
casa do Vav
Teve um
tremendo pagode
Que voc no
pode imaginar
Provei do
famoso feijo da Vicentina
S que da
Portela que sabe
Que a coisa
divina
Tinha gente de
todo lugar
No pagode do
Vav
So textos que representam claramente o discurso-ns cujo pressuposto a grande identificao e familiaridade entre todas as pessoas.
Sobre o artista popular do mundo oral, quero lembrar
Collingwood. Segundo ele, toda expresso de emoo do artista popular expressa
no o eu sinto, mas o ns sentimos (C.f. HAVELOCK, Eric A. Prefcio a Plato,
Papirus, 1996).
Em outras palavras, neste caso, o poeta opta em tratar de assuntos que dizem respeito a ele e a todos, e no de assuntos singulares que dizem respeito exclusivamente a ele.
No modelo popular, em suma, valorizada a voz compartilhvel, o vocabulrio pblico, os temas que dizem respeito a todas as pessoas, os recursos que favoream a memorizao (refres e frmulas, por exemplo), as imagens visualizveis (no abstratas, que preferem as aes e no idias) e o discurso que possa ser memorizado e seja compreendido com imediatez. No pouco!
Sugiro, portanto, mesmo que de forma esquemtica, a importncia de se levar em conta a existncia de dois discursos originrios de diferentes padres sociais, ticos e estticos: o discurso eu – oficial e moderno, marcado pela escrita (e suas tendncias). E o discurso ns – popular e tradicional, marcado pela oralidade (e suas tendncias).
bom deixar claro que isso nada tem a ver com qualidade. Ambos os discursos, dependendo do caso, podem ser bem ou mal resolvidos.
O que importa: o reconhecimento de que ambos costumam ser
criados e construdos a partir de pressupostos e paradigmas diferentes.
preciso fazer uma crtica ao modelo oficial moderno individualista e sua tendncia a valorizar a liberdade, a igualdade e a autonomia.
Indiscutivelmente, liberdade, igualdade e autonomia so conquistas histricas e dizem respeito a qualquer coisa que se possa chamar civilizao. Mesmo assim, so passveis de discusso afinal, se levadas ao p da letra, como verdades absolutas, podem se transformar em agentes da descivilizao.
Penso aqui nas idias de Norbert Elias. Para ele, nada indica que estejamos indo rumo civilizao. que as foras civilizatrias e as foras descivilizatrias vivem em permanente combate. Por exemplo, a cincia e a tcnica trouxeram mais sade e conforto aos homens. Trouxeram tambm poluio e a crescente destruio do meio ambiente.
A administrao dessas foras civilizatrias e descivilizatrias algo complexo que diz respeito a todos ns.
Para Elias, bom lembrar, ao processo civilizatrio correspondem transformaes do habitus social dos seres humanos na direo de um modelo de auto-controle mais bem proporcionado, universal e estvel mas mais que isso. Corresponde tambm capacidade de um ser humano [de] se identificar com outros seres humanos, em relativa independncia do grupo a que pertenam, e portanto, amplia-se tambm sua capacidade de sentir simpatia por eles. Descivilizao significa ento uma transformao em direo oposta... (C.f. ELIAS, Norbert. Escritos & Ensaios 1 –Estado, processo, opinio pblica,Jorge Zahar Editor, 2006).
Nesses termos, note-se, civilizao significa ou representa humanizao, no sentido da identificao, e no da diferenciao, entre seres humanos.
timos temas para serem debatidos na escola, em qualquer nvel ou grau!
Infelizmente, em tempos utilitrios de tcnicos e especialistas preocupados exclusivamente com seus nichos de conhecimento, isso no tem acontecido. Essa ausncia alm de ser um problema cultural tem outro vis: um claro carter poltico, melhor dizendo, de despolitizao.
Mas falemos de liberdade.
muito bom ser livre, mas, sou livre para colocar meus interesses particulares acima dos interesses coletivos e destruir a natureza para obter mais lucro ou induzir pessoas a comprar remdios sem receita mdica como se fossem simples produtos de consumo?
Sou livre para fabricar e comercializar produtos que comprovadamente viciam e minam a sade apenas para meu lucro pessoal?
Sou livre para ser pedfilo?
Caso no seja, ento a liberdade no to livre assim!
Sobre a igualdade.
muito bom ser igual mas, convenhamos, como falar em igualdade e livre concorrncia num pas onde 80% da populao analfabeta ou semi-analfabeta? Num pas onde
h prises especiais para quem tem nvel universitrio? E ainda, onde, dependendo da cor da pele, aumenta consideravelmente a tendncia de a pessoa ser considerada suspeita de algum crime?
Por outro lado, como a crena na igualdade tende a eliminar as hierarquias, neste modelo no faz sentido valorizar a experincia das pessoas mas velhas. Valorizar por que se somos todos iguais?
No por acaso, na modernidade, a velhice desprezada, afinal velhos costumam ser pessoas desatualizadas, ultrapassadas, antiquadas, fora de moda, esto por fora e, ainda por cima, so dependentes. Obviamente, a independncia, sinnimo de liberdade e autonomia, altamente valorizada no padro individualista [c.f. LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. A vida americana numa era de esperanas em declnio. Rio de Janeiro, Imago, 1983].
At crianas, neste contexto, so levadas a dizer: pai voc no entende porque quero um tnis que acende luzinha. Voc est por fora!.
que neste modelo, no poucas vezes, se confunde liberdade e autonomia com a mera sociedade de consumo e seus interesses comerciais apresentados como a ltima palavra para quem livre e sabe o que quer, leia-se, livre para escolher algum produto. Impossvel esquecer da propaganda, em plena ditadura militar, num contexto de proibies, prises e censuras de toda ordem: liberdade uma cala velha, azul e desbotada.
Nesse ambiente, ao lado do realmente novo e inovador, algo bastante raro, surgem todo tipo de simulacros e bobagens descartveis, algo mais do que comum.
Sobre autonomia.
Sou de fato autnomo para governar a mim mesmo seguindo minhas prprias leis e meus prprios interesses?
Peo ao leitor que, considerando homens, culturas e sociedades, d um nico exemplo concreto de autonomia.
Neste ambiente, surgem frases inacreditveis como Quem sabe o que quer fuma Minister. Trata-se de autonomia com relao ao conhecimento e inteligncia!
Para muitos, o modelo individualista tende a gerar a guerra de todos contra todos.
que a idia individualista tende ser exclusivista por definio. O que interessa o meu interesse, o meu jeito de ser, o meu gosto, a minha classe social, a minha cultura, a minha linguagem, a minha crena etc. O resto, o diferente de mim, deve ser excludo, para no dizer destrudo. Dou um trgico exemplo: alguns jovens da elite, estudantes de escolas consideradas timas, transformados em pessoas individualistas, alienadas e imbecilizadas, que costumam sair por a tirando rachas de automveis, fazendo quebra-quebra ou matando ndios, mendigos, empregadas domsticas, garons e prostitutas.
Surge a despreocupao individualista, descivilizada, egocntrica e imbecilizada com relao ao futuro, com afirmaes do tipo: e da que daqui a 50 anos no vai haver gua ou comida para todos? At l eu j morri!
Um pequeno exemplo da incoerncia do modelo moderno. Seu discurso, pelo menos na msica popular, quase no fala na famlia, tericos afirmam que a famlia uma instituio pr-moderna mas obviamente ela continua a existir, tericos tm famlias, pais, avs e filhos, ps modernos casam, separam, casam de novo, envelhecem e viram vovs cheios de netos e bisnetos.
No estou aqui para defender a famlia. Tento dizer que confundir teorias e princpios abstratos com a vida prtica costuma distorcer a viso que temos da realidade.
preciso fazer tambm uma crtica ao modelo popular,
tradicional e hierrquico.
No podemos idealizar a tradio popular. Hierarquias podem ser verdadeiras prises sociais. Castas ou divises entre nobres e plebeus nada mais so do que modelos hierrquicos
Famlias por vezes so instituies amorosas e importantes na formao das pessoas. Podem tambm ser lugares sufocantes de flagrante desrespeito a indivduos, violncia, loucura, simbiose, dependncia, mimo, auto-complacncia, autoritarismo, transgresses, exploraes e abusos de todo tipo.
No modelo hierrquico, pais podem se dar ao luxo de determinar com quem seus filhos devem casar, suas profisses, sua religio etc. Podem inclusive explora-los para ganhar dinheiro.
Em suma, neste modelo pode surgir a situao de sermos obrigados a respeitar pessoas que mesmo sendo consideradas hierarquicamente superiores, no merecem qualquer respeito. Podemos ser levados a construir nossas vidas seguindo padres preconceituosos e castrativos seguindo leis sem sentido, padres por meio dos quais nossos legtimos desejos individuais e subjetivos so relegados a um segundo plano.
Fora isso, o modelo popular pode ainda dar margem a nepotismos, favorecimento de amigos, procedimentos ticos incivilizados etc.
Isso sem falar no surgimento de donos de verdades culturais, cultuadores de razes e origens, regionalismos, nacionalismos e xenofobias, posturas excludentes e apaixonadas de fundo claramente mtico.
Afinal, o que pretendo ressaltar? O fato de que vivemos entre diferentes padres culturais que atuam sinergicamente e que preciso no s reconhece-los como examina-los criticamente e discuti-los.
Confundir modernidade com civilizao me parece um erro crasso. No mnimo, o modelo moderno est em construo e necessita de aperfeioamento.
Acreditar que a tradio, por si s, v resolver qualquer problema erro to grave quanto acreditar mtica e acriticamente na modernidade.
Tradio e modernidade so ligadas umbilicalmente e atuam sinergicamente. A lgica das culturas , como sabemos, permanecer e simultaneamente mudar. Outra coisa veleidade, arrogncia e preconceito.
Com o modelo moderno talvez fique mais fcil compreender e valorizar o desenvolvimento individual, nossas singularidades, nossas experimentaes com idias, linguagens etc.
Com o modelo tradicional talvez fique mais fcil compreender e valorizar o fato de sermos pessoas vinculadas aos grupos e comunidades a que pertencemos.
Ambos os aprendizados so fundamentais.
As escolas, independentemente de graus e nveis, seriam um timo lugar para dar incio e fomentar essas discusses. Fugir delas, creio, nada mais do que pura alienao.
O assunto das relaes entre cultura popular e literatura muito amplo.
Envolveria, por exemplo, falar na grande valorizao do pensamento terico, impessoal e analtico, e seu respectivo discurso, difundido pelas escolas. Envolveria tambm falar em sua contrapartida: o pensamento assistemtico baseado na experincia prtica, no aprender fazendo ou vendo o outro fazer, no improviso, no mtodo intuitivo do bricoleur (penso naturalmente em Lvi-Strauss), assim como no conhecimento tradicional (presente, por exemplo, nos ditados populares: quem anda na linha o trem esbagaa ou com a ona morta fcil fazer a foto ou quem est de fora, joga melhor etc.), pensamento difundido pela cultura popular e seu discurso.
Envolveria contrapor uma tica de princpios, construda a partir de valores abstratos (igualdade, iseno, isonomia etc.) e textos fixos e consultveis, a uma moral ingnua construda pela convivncia, marcada pela oralidade, mantida pela memria, moral sempre relativa, interessada e adaptvel caso a caso.
Em suma, seria preciso falar em muito mais coisa, mas paro por aqui.
Em resumo:
1) tentei mostrar que vivemos s voltas com pelo menos dois modelos culturais: a viso de mundo moderna, oficial e escolarizada e a viso de mundo tradicional e popular. So diferentes hbitos mentais, padres sociais, culturais, ticos e estticos, diferentes maneiras de enxergar os homens, a vida e o mundo. Tais modelos implicam diferentes discursos;
2)
no pretendi dizer que a literatura popular e tradicional melhor ou pior do
que a literatura moderna e escolarizada mas sim mostrar que ambas so criadas a
partir de princpios diferentes e que isso tem implicaes. Creio que dentro das escolas, para o
estudo da literatura e do fazer literrio, seria interessantssimo comear
mostrando, por exemplo, letras de
samba de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Z Kti e outros vinculados potica
tradicional e popular. Depois mostrar letras de compositores vinculados ao
modelo letrado como Chico Buarque, Caetano e Gil, analisando as diferentes
formas de construir os textos dos dois grupos de artistas. Em seguida,
compararia tudo isso com as obras de Drummond, Bandeira, Murilo Mendes,
Ferreira Gullar, Haroldo de Campos, Joo Cabral de Melo Neto etc. O aluno seria
levado a perceber que no h qualquer evoluo em jogo mas, sim, diferentes
padres culturais e procedimentos criativos. No seria uma bela, rica e
prazerosa maneira de introduzir a poesia ao leitor iniciante?
3) creio que conhecer os recursos literrios populares, marcados pela oralidade, num pas como o nosso, pode ser uma contribuio fundamental para a formao de leitores e at para uma maior integrao social.
4) creio que num pas, com as caractersticas do nosso, conhecer a cultura popular uma questo fundamental. Gostaria de citar Mrio de Andrade: Sempre considerei o problema mximo dos intelectuais brasileiros a procura de um instrumento de trabalho que os aproximasse do povo. (C.f. ANDRADE, Mrio. Entrevistas e depoimentos. Org. Tel Porto Ancona Lopes. T.A. Queiroz. 1983.).
5)
quis lembrar ainda que ser tradicional ou moderno no implica, em si,
qualquer valor mas, sim, diferentes modelos de conscincia.
Para terminar, creio que conhecer e reconhecer diferenas entre a cultura oficial e a cultura popular, aceitando que ambas, e no apenas a oficial, sejam relevantes, uma questo de auto-conhecimento social, pode ampliar nossa viso de mundo e permitir que a gente consiga pensar melhor sobre nossa sociedade, sobre nossa arte, sobre nossa literatura, sobre nossa educao e sobre ns mesmos.