SENSO COMUM, [1]

SAMBA E DISCURSO POPULAR [2]

Ricardo Azevedo[3]

 

Resumo:

Em tempos de excessiva valorizao do indivduo e da expresso individual e singular, tempos da vanguarda, da Ҝltima moda e do conhecimento de ponta, a noo de senso comum costuma ser sistematicamente desprezada e tratada como mera obviedade ou redundncia. A crena em tais premissas naturalmente resultam num certo discurso que poderia ser chamado de moderno, hegemnico e escolarizado. Os objetivos desse  artigo so: 1) colocar em discusso essas premissas; 2) demonstrar que, ao contrrio, o senso comum corresponde a um insubstituvel acervo de conhecimento humano; e 3) demonstrar, atravs de algumas letras de samba, como o referido acervo pode ser visto como um verdadeiro recurso no mbito do discurso popular.

 

Palavras-chave: formas literrias populares – cultura popular – msica popular – oralidade – literatura comparada

 

Abstract:

In modern times of excessive individualism and single expression valuation, times of "vanguard", new wave and "updated knowledge", a notion as "common sense" has been put aside, systematically, and has been seen as simple obviousness or redundancy. Naturally, the belief in such assumptions has resulted in a certain discourse which could be called "modern, hegemonic and schooled". The purposes of this article are: 1) to discuss these assumptions; 2) to demonstrate, instead, that "common sense" represents an irreplaceable assemblage, a reserve of human knowledge; and 3) based on some Samba lyrics, to demonstrate how said assemblage or reserve can be seen as an important resource in popular discourse.

 

Keywords: Literary popular forms, Popular culture, Brazilian popular music – Orality – Comparative Literature

 

A expresso senso comum costuma apresentar significados divergentes. Pode ser vista como o resultante de uma faculdade da alma capaz de reunir e coordenar nossas sensaes a respeito de um mesmo fenmeno, determinando assim nossa percepo a respeito do mesmo.

Pode ser tambm o conjunto das opinies to geralmente admitidas, numa dada poca e num dado meio, que as opinies contrrias aparecem como aberraes individuais, inteis de se

refutar... (LALANDE, 1993, p.998), ou seja, um conjunto de paradigmas que implicam grande consenso.

Porm, para os filsofos de Port-Royal, comeo do sculo XVII, preciso lembrar, o senso comum no uma qualidade to comum como se pensa (CUVILLIER, 1961, p.142).

 

 Em geral, o discurso moderno, hegemnico e escolarizado tem associado o senso comum a noes como lugar-comum, frmula, o mesmo de sempre, esteretipo, clich e, sempre nesse sentido pejorativo, poderia ser sintetizado por expresses como obviedade, banalidade, redundncia e falta de originalidade.

Trata-se de uma viso limitada, ela sim preconceituosa e estereotipada, sobre um assunto bastante complexo, multifacetado e amplo.

Para estudiosos do conhecimento como os socilogos Peter Berger e Thomas Luckmann, o conhecimento do senso comum, e no as idias, deve ser o foco central da sociologia do conhecimento. precisamente este conhecimento que constitui o tecido de significados sem o qual nenhuma sociedade poderia existir (BERGER; LUCKMANN, 2002, p. 30).

Creio que essa diferenciao entre conhecimento, algo pragmtico e situado, e idia, algo terico e virtual, nos ajuda a compreender o modelo de conscincia popular, essencialmente fundado no conhecimento prtico das coisas.

Mesmo que de forma esquemtica, tenho oposto o modelo popular a outro modelo de conscincia, o moderno, hegemnico e escolarizado, largamente difundido, que poderia ser considerado o modelo oficial e que, naturalmente, tem seu discurso.

Refiro-me existncia, numa mesma sociedade e numa mesma poca, de diferentes padres sociais, ticos e estticos.

Fato que o mundo da nossa vida cotidiana, mundo da nossa subjetividade e das nossas idiossincrasias, est impregnado de senso comum e este constitui parte vital do que chamamos de realidade. O mundo da vida cotidiana no somente tomado como realidade certa pelos membros ordinrios da sociedade, na conduta subjetivamente dotada de sentido que imprimem a suas vidas, mas um mundo que se origina no pensamento e na ao dos homens comuns, sendo afirmado como real por eles. (Idem, p.36).

Por esse vis, o senso comum seria uma espcie de acervo desenvolvido ao longo dos sculos contendo inumerveis interpretaes pr-cientficas e quase-cientficas sobre a realidade cotidiana... (Idem, p.37) admitidas como certas, consensuais e paradigmticas.

Dizem Berger e Luckmann que entre as mltiplas realidades, uma se apresenta como realidade por excelncia: a realidade da vida cotidiana. Sua posio privilegiada autoriza a dar-lhe a designao de realidade predominante (Idem, p.38).

E o que seria da realidade da vida cotidiana sem o senso comum?

Por exemplo, o que convencionamos chamar de atitude natural nada mais do que simplesmente a atitude da conscincia do senso comum precisamente porque se refere a um mundo que comum a muitos homens. O conhecimento do senso comum o conhecimento que eu partilho com os outros nas rotinas normais, evidentes, da vida cotidiana (Idem, p.40).

Nesse sentido, a realidade da vida cotidiana Ҏ admitida como sendo a realidade. No requer maior verificao, que se estenda alm de sua simples presena (Idem).

Alis, para Berger e Luckmann, interpretar significa principalmente inserir-se na ordem do cotidiano ou da vida cotidiana, que, por sua vez, vive mergulhada no senso comum e dominada por motivos concretos e pragmticos.

Trata-se do oposto sugerido pela interpretao de um texto moderno ou erudito, criado muitas vezes, como numa espcie de jogo, tendo em vista a interpretabilidade, ou seja, criado para ser interpretado.

Note-se que para os dois socilogos, a atitude terica poderia ser descrita simplesmente como a contestao da realidade cotidiana.

Por outro lado, a linguagem comum, popular e acessvel, a linguagem comum de que disponho para a objetivao de minhas experincias, funda-se na vida cotidiana e conserva-se sempre apontando para ela mesmo quando a emprego para interpretar experincias em campos delimitados de significao (Idem, p.43).

De fato, a linguagem popular, pblica, compartilhvel e acessvel, pode ser de grande utilidade para lidar com assuntos especiais. Um tema complexo tratado atravs de um discurso prolixo estar fatalmente condenado obscuridade, ambigidade,   relao no-dialgica.

Quanto ao pressuposto erudito e moderno de que um tema complexo demanda necessariamente uma linguagem complexa – at porque ambos na realidade seriam indissociveis, postura curiosa para um modelo que se prope analtico –, trata-se, a meu ver, apenas de uma viso cultural, baseada num certo modelo de pensamento que, por vezes, apresentado como o modelo. Tal padro pode ser adotado pensamento oficial, hegemnico e escolarizado mas no deve, nem de longe, ser identificada com a postura popular.

Na prtica, a referida viso deveria, isso sim, ser mais discutida. comum, no mbito dos estudos universitrios, encontrar autores que abordam temas complexos de forma bastante acessvel. timos exemplos so Mikhail Bakhtin, Norbert Elias, Louis Dumont e Antnio Cndido. O inverso, infelizmente, tambm verdadeiro.

Volta e meia, penso nas palavras irnicas de Fritz Perls. Segundo ele, um texto complicado pode servir ҈ trplice funo de confundir o leitor, aumentar a auto-estima do escritor e obscurecer pontos que supostamente deveriam ser esclarecidos (PERLS, 1981, p. 17).

Na verdade, como lembram Berger e Luckmann mesmo especialistas como mgicos e cientistas – a provocao deles – vivem em uma realidade compartilhada e (...) no s a vida cotidiana, a vida concreta, vive mergulhada no senso comum e dominada por motivos pragmticos, como uma grande parte do acervo cultural do conhecimento consiste em receitas para atender a problemas de rotina (BERGER; LUCKMANN,  2002, p. 65).

Os dois socilogos observam a situao relacional e social humana, independentemente dos modelos de conscincia construdos socialmente, afinal [u]m elemento importante de meu conhecimento da vida cotidiana o conhecimento das estruturas que tm importncia para os outros. (Idem).

E como as instituies so a realidade exterior, o indivduo no as pode entender por introspeco. Tem de sair de si e aprender o que elas so, assim como tem de aprender o que diz respeito natureza. (Idem, p. 86).

Como se v, so idias e concepes que ampliam e valorizam em muito a necessidade de discutir o senso comum, a meu ver o pano de fundo do discurso popular.

A partir delas pode-se sugerir que a introspeco, a autoconscincia e a reflexividade – elementos constituintes e paradigmas do chamado pensamento crtico – possivelmente tenham sofrido uma valorizao exagerada na sociedade moderna e tal valorizao parece ter impregnado seu discurso.

Para o antroplogo Clifford Geertz, saber que a chuva molha, que o fogo queima, que a pedra dura, que a morte vem, que tudo passa etc. acaba formando um sistema que se expande at abranger um territrio gigantesco de coisas que so consideradas como certas e inegveis, um catlogo de realidades bsicas da natureza, acessveis a todos e, note-se, quase sempre independentemente de culturas. A chuva molha, a pedra dura e a morte vem em todas a culturas conhecidas.

Nas palavras de Geertz, a religio se baseia na revelao, a cincia na metodologia, a ideologia na paixo moral. Os argumentos do senso comum, porm, no se baseiam em coisa alguma, a no ser na vida como um todo. O mundo [e, eu acrescentaria, a experincia prtica] sua autoridade (GEERTZ, 1999, p.114).

E diz Geertz ainda que a anlise do comum [...] deve, portanto, iniciar-se por um processo que reformule esta distino esquecida, entre uma mera apreenso da realidade feita casualmente [...] e uma sabedoria coloquial com ps no cho que julga ou avalia esta realidade (Idem, 115).

preciso ser claro: os indivduos nascem, crescem e amadurecem num mundo cotidiano de objetos de senso comum e de atos prticos. Tal mundo, segundo Clifford Geertz, constitui a realidade capital da experincia humana – capital no sentido de ser este o mundo no qual estamos solidamente enraizados, cuja inerente realidade pouco podemos questionar (por mais que possamos questionar certas pores dela) e de cujas presses e exigncias raramente podemos escapar. Um homem, at mesmo grandes grupos de homens, pode ser esteticamente insensvel, no preocupado religiosamente e no equipado para perseguir a anlise cientfica formal, mas no pode ter uma falta total de senso comum, e assim mesmo sobreviver (GEERTZ, 1989, p. 135).

Em outras palavras, o discurso do senso comum expressaria primordialmente as questes prticas, contextuais, vitais, relacionadas existncia concreta, vista como atualizao, e no como virtualidade ou abstrao.

E a vida concreta, vida do senso comum, lida necessariamente com assuntos como o envelhecimento, a morte e as relaes entre os homens, temas vitais e difceis para o homem.

Imagine o leitor uma sociedade com escolas que ignorem e no valorizem o senso comum. Seria lamentvel e, infelizmente, isso ocorre em todas as escolas que conhecemos!

Gramsci acreditava que o saber do fazer e o saber do pensar populares [...] so um saber de fragmentos, no utilitrio e no capaz portanto de refletir a vida social tal como ela (BRANDO, 1982, p.101).

Trata-se obviamente de uma viso equivocada, sobretudo se levarmos em conta que o senso comum, trao do discurso popular, , como acredito, elemento fundamental, verdadeiro substrato de qualquer coisas que possa ser chamada de vida social tal como ela .

Prefiro, evidentemente, as palavras de Walter Benjamin, que, em seu clssico estudo O narrador – Consideraes sobre a obra de Nikolai Leskov, abordou a experincia de vida, o senso prtico e o conselho. Para Benjamin, o conselho tecido na substncia viva da existncia tem um nome: sabedoria (BENJAMIN, 1993, p. 200), sabedoria, note-se, que Benjamin, ope informao algo bem mais impalpvel do que a forma como costuma ser apresentada at porque necessita de atualizao peridica.

No confundir, ressalte-se logo, o conselho, muitas vezes plurissignificativo, portador da sabedoria (que trata de assuntos existenciais paradoxalmente concretos e ambguos), com a lio, sempre unvoca, monolgica, normativa, prescritiva, portadora da informao e, note-se, constantemente atualizvel.

hora de lembrar a sugesto do filsofo John Searle a respeito da existncia de uma teoria implcita. Tal teoria seria construda num processo de longa durao a partir de noes e princpios do senso comum. Sabemos que o que significa um sorriso ou o choro. Sabemos identificar a dor. Sabemos que a gua molha, que o fogo pode ser perigoso e queima, que o trabalho cansa e que a unio costuma fazer a fora. Para Searle o imenso conjunto de conhecimento representado pela teoria implcita, ou seja, pelo senso comum, um substrato fundamental do comportamento humano (SEARLE, 1984, p.73-4).

Vejamos o que ele diz.

Segundo Searle, as pessoas reconhecem a existncia dos princpios tericos enraizados no senso comum mas caoam deles alegando que so meramente uma teoria popular e deveriam se suplantados por alguma explicao mais sria, sistemtica, objetiva e cientfica do comportamento humano. Searle desconfia desta pretenso. Nas suas palavras, Aristteles e Descartes sentir-se-iam plenamente familiarizados com a maior parte de nossas explicaes do comportamento humano, mas no com as nossas explicaes dos fenmenos biolgicos e fsicos. A razo habitualmente aduzida para isso que Aristteles e Descartes dispunham de uma teoria

primitiva da Biologia e da Fsica, por um lado, e de uma teoria primitiva do comportamento humano, por outro; e que, enquanto progredimos na Biologia e na Fsica, no fizemos um avano comparvel na explicao da conduta humana. Quero sugerir uma concepo alternativa. Penso que Aristteles e Descartes, tal como ns, j possuam uma teoria sofisticada e complexa da

conduta humana. Penso igualmente que muitas explicaes, supostamente cientficas do comportamento humano, como as de Freud, empregam efetivamente mais do que substituem os princpios da nossa teoria implcita da conduta humana (Idem, p.74).

E esses princpios implcitos e fundamentais relativos conduta humana, quero ressaltar, foram concebidos e construdos longe de universidades, laboratrios, modelos tericos ou pesquisas e estatsticas cientficas mas, sim, de forma espontnea, emprica, assistemtica e intuitiva, la bricoleur, atravs das relaes, das trocas e da acumulao de experincia entre os homens ao longo do tempo.

Sabedoria – vista como experincia concreta e conhecimento sobre a vida prtica – e atualizao – vista como informao que passou por uma reviso – so noes que no combinam.

Pois bem, o senso comum revela-se ser um elemento fundamental, assim como as noes de hierarquia e religiosidade, do tecido que constri o pensamento popular.

Senso comum e conselho, atuando sinergicamente, formam esse acervo valioso, insubstituvel e imenso de especulaes e consideraes a respeito da vida e o mundo composto, por exemplo, pelos ditados populares. Trata-se de uma sabedoria absolutamente compartilhvel, impregnada pelo discurso-ns (refiro-me a um discurso capaz de gerar identificao na maioria das pessoas) e construda por meio da noo da semelhana entre as pessoas ou da existncia de pontos comuns entre todos ns.

Prova disso que analfabetos e letrados de todos os nveis e posies sociais utilizam recorrentemente noes populares, do senso comum, bastante heterodoxas do ponto de vista moral, e sempre pragmticas, que podem ser muito bem exemplificadas por ditados como: muito ajuda quem no atrapalha, contra esperto, esperto e meio, em briga de pedra garrafa no entra, em toda parte h um pedao de mau caminho, quem anda montado na razo no carece de espora, boi sonso, a cornada certa, quem elogia toco coruja, galinha velha no escolhe minhoca, em casa de enforcado no se fala em corda, quem no sabe nadar, bota

a culpa no rio, quem est de fora joga melhor, quem avisa amigo , quem anda na linha, o trem esbagaa, muito atura quem precisa, mal de muitos, consolo , homem velho, saco de azares, quem pariu Mateus que o embale, em tempo de tempestade qualquer buraco abrigo, o melhor tempero a fome, mais vale um hoje do que dois amanhs, na boca de gente ruim ningum presta e assim por diante.

Para Jack Goody, provrbios so concentrados da sabedoria coletiva.[4]

A mesma sabedoria coletiva do senso comum, desenvolvida longe de laboratrios e de teorias abstratas e perto da experincia concreta de vida, pode ser encontrada nas quadras populares que circulam por todo o pas. A exemplo dos ditados, no poucas vezes, abordam assuntos complexos da vida humana concreta, sempre por meio de uma linguagem absolutamente acessvel e fcil de memorizar:

 

As idades neste mundo

Tm os quinhes desiguais

Moo pode mas no sabe

Velho quer no pode mais

 

Eu queria, ela queria

Eu pedia, ela negava

Eu chegava, ela fugia

Eu fugia, ela chorava

 

Eu tenho medo da morte

E para morte eu nasci

Tenho medo da viagem

Caminho que eu nunca vi

 

Tu fingiu que me enganava

Eu fingi que acreditei

Foste tu que me enganaste

Ou fui eu que te enganei?

 

Muitas adivinhas populares, descendentes, segundo Andr Jolles (1976), de enigmas arcaicos, so pura linguagem figurada, verdadeiras metforas, e tambm especulam sobre o sentido da vida e das coisas do mundo concreto:

O que , o que ?

Quem faz nunca vai querer

Quem compra no quer usar

Quem usa no pode ver

Quem v no vai desejar?

R. o caixo de defunto

 

O que , o que ?

Quanto mais cresce menos se v

Quanto mais se tira maior fica

Sempre se quebra quando se fala

Quanto mais se perde mais se tem?

R. a escurido, o buraco, o segredo ou o silncio e o sono

 

O que , o que ?

Deus d na primeira vez

Na segunda vez Deus d

Na terceira quem quiser

Que se vire e v comprar?

R. os dentes

 

O que , o que ?

Essa coisa invisvel

Quem compra nunca quer ter

roupa que mulher veste

Mas o marido no v?

R. o luto

 

O que , o que ?

Separa as coisas do mundo

Na terra manda e desmanda

Sobe morro, desce morro

Vive parada e no anda?

R. a cerca

 

 

Poderia citar frases feitas conhecidas de todos, mas nem por isso menos interessantes, como dar n em pingo dՇgua ou trocar seis por meia dzia ou chutar cachorro morto ou mijar pra trs; trocadilhos, como bife ali na mesa, transmimento de pensao ou faca de dois legumes; trava-lnguas, como quem paca cara compra, cara paca pagar ou um sapo dentro do saco/ o saco com o sapo dentro/ o sapo batendo papo/ o papo cheio de vento, parlendas e outras saborosas e instigantes brincadeiras com palavras inventadas a partir do modelo de conscincia popular, mas paro por aqui. A cultura popular extraordinariamente  rica mas agora vamos falar de samba. Nele o senso comum, a sabedoria concreta, pragmtica e ldica do povo, uma presena constante.

Muitos temas recorrentes no samba – famlia, hierarquia, contexto, solidariedade, festa, comida, malandragem e religiosidade, entre outros – so fundados no imenso, precioso e vital acervo do senso comum.

A recorrncia de ditados e frases feitas, representaes e reafirmaes do senso comum,  evidente em numerosos sambas. No creio que seja necessrio colocar as letras por inteiro. Selecionei apenas os trechos em que ditados ou quadras so utilizados.

Aviso ao leitor que as letras de samba no  sero apresentadas em ordem cronolgica mas sim alfabtica. O recurso, como sabemos, tpico de manifestaes da cultura escrita e se caracteriza pela descontextualizao. Fao isso propositalmente pois quero ressaltar a recorrncia de certos temas e procedimentos independentemente de perodos e recortes histricos datados.

Comeo com gua e azeite de Monsueto:

Quis tapar o sol com a peneira

Agora est na hora de chorar

Voc gua e sou azeite

No podemos nos misturar

(MONSUETO, 2000, gravado em 1962)

 

 Aos ps da santa cruz de  Z da Zilda e Marino Pinto:

O corao tem razes

Que a prpria razo desconhece

Faz promessas e juras

Depois esquece

(JOO GILBERTO, 1990 - gravaes de 1958)

 

Atire a primeira pedra de Mario Lago e Ataulfo Alves:

Eu sei, mulher, que voc mesma vai dizer

Que eu voltei pra me humilhar

, mas no faz mal

Voc pode at sorrir

Perdo foi feito pra gente pedir

(MRIO LAGO, s/d., gravado em 1973).

 

Cada macaco no seu galho de Riacho:

Cho chu, cada macaco no seu galho

Eu no me canso de falar

Cho chu, o meu galho na Bahia

Cho chu, o seu em outro lugar

Cho chu, cada macaco no seu galho

Cho chu, eu no me canso de falar

Cho chu, o meu galho na Bahia

Cho chu, o seu em outro lugar

(RIACHO, s/d, gravado em 1974)

 

Camaro com chuchu de Nei Lopes:

A mar hoje no t pra peixe

No t pra sardinha

Nem pra baiacu

Quanto mais pra camaro

Camaro t caro pra chuchu

(JOVELINA PROLA NEGRA, 2000)

 

Casa um da vila de Monsueto e Flora Matos:

Eu sinto sede
Eu sinto fome
Mas mulher de amigo meu

Pra mim homem

(MARTINHO DA VILA, 1999, gravado em 1973).

 

Coberto de ouro de Waldemar Gomes e Afonso Teixeira:

Eu digo e repito

Que no acredito

No teu juramento

Cesteiro que faz um cesto

Faz um cento

(ARACY DE ALMEIDA, 1997, gravado em 1942).

 

Corda no pescoode Guinto e Adalto Magalha:

E o povo como est?

T com a corda no pescoo

um dito popular

Deixa a carne e ri o osso

Mas a vida dessa gente

Aposto que est um colosso

Mas da fruta que eles gostam

Eu como at o caroo

(BETH CARVALHO, 2001, gravado em 1986).

 

E eu no  fui convidado  de Z Luiz e Nei Lopes:

Vou lhe dizer um ditado

Do meu tempo de garoto

Quem tem cabra que segure

Porque o bicho t solto

Diga pro seu novo amor

Que ele um tremendo pastel

Eu quero um pedao do bolo

Seno vai ter rolo nessa lua de mel

()

Vou lhe dizer outra coisa

Sem ter medo de resposta

Quem teme guas passadas

No nada em rio de costas

(NEI LOPES. s/d., gravado em 1999).

 

҃ um qu que a gente tem de Ataulfo e Torres Homem:

um qu que a gente tem

Ai, muita gente diz que bamba

Mas quem bom j nasce feito

um qu que a gente tem

()

E quem tem boca vai a Roma

Sentimento no comenta

Pretenso e gua benta

Cada um toma a que quer

(ATAULFO ALVES. s/d, gravado em 1941).

 

 Filosofia do samba de Candeia:

Pra cantar samba

Vejo o tema na lembrana

Cego quem v

S aonde a vista alcana

Mandei meu dicionrio s favas

Mudo quem s se comunica com palavras

Se um dia nasce, renasce o samba

Se o dia morre, revive o samba

(PAULINHO DA VIOLA, 1999, gravado em 1971).

 

Laranja madura de Ataulfo Alves:

Laranja madura

Na beira da estrada

T bichada Z

Ou tem marimbondo no p

(ATAULFO ALVES. s/d, gravado em 1966).

 

Madalena do Juc adaptado por Martinho da Vila a partir de congueiros capixababas:

Minha me no quer que eu v
Na casa do meu amor
Eu vou perguntar a ela
Eu vou perguntar a ela
Se ela nunca namorou
()

O meu pai no quer que eu case
Mas me quer namorador
Eu vou perguntar a ele
Eu vou perguntar a ele

Por que ele se casou

(MARTINHO DA VILA, s/d).

Malandro sou eu  de Arlindo Cruz, Franco e Sombrinha:

Segura teu santo seu moo

Teu santo de barro

Que sarro! Dei a volta no mundo

E voltei pra ficar

Eu vim de l do fundo do poo

No posso dar mole pra no refundar

(ARLINDO CRUZ, 2003)

 

 Meu piro primeiro  de J. Garcia e Nilo Dias:

Farinha pouca, meu piro primeiro

Este um velho ditado do tempo do cativeiro

E a Xica assim dizia

Na hora de preparar

Pro piro ficar gostoso

Tem que saber temperar

E eu falei pra voc...

(BEZERRA DA SILVA, s/d).

 

Nega do patro  de Otaclio da Mangueira e Ari do Cavaco:

Ela nega do patro

(Eu j disse que no)

Laranja, laranja madura, na beira da estrada

Dando mole ningum quer

rabo de foguete

Ou tem marimbondo no p

(ZECA PAGODINHO, 1996).

 

 O bom pastor de Pedro Butina, Regina Bezerra e Laureano:

Abriu a bblia nos dez mandamentos

Mas s disse oito, a madame pulou

Cad o no roubar e no matar

Ele disse foi erro do tal editor

E tambm pergunte para o seu marido

Se no parlamento ele nunca roubou

E se a senhora acha que eu estou errado

Est esquecendo a voz da razo

Porque quem rouba a mulher de ladro

Tem direito tambm a 100 anos de perdo

(BEZERRA DA SILVA, 2001).

 

Isaura de Rubens da Mangueira:

Todo rico quando morre

Foi porque Jesus levou

Todo pobre quando morre

Foi cachaa que matou

(BETH CARVALHO, 1998).

 

O que ser de mim de Ismael Silva e Nilton Bastos:

Minha malandragem fina

No desfazendo de ningum

Deus quem nos d a sina

E o valor d-se a quem tem

(MRIO REIS E FRANCISCO ALVES, 1997, gravado em 1931).

 

Quem pode, pode de Bucy Moreira e Haroldo Torres:

Quem pode, pode

Quem no pode se sacode

Se voc no pode

Deixa quem pode batucar

Estou notando que voc no batuqueiro

Ento nesse terreiro

Voc no pode ficar

(BUCY MOREIRA, s/d., gravado em 1973)

 

Saudosa maloca de Adoniran Barbosa:

Mato Grosso quis gritar, mas em cima eu falei
O homem est com razo
Nis arranja outro lugar
S se conformemos quando o Joca falou:
Deus d o frio conforme o cobertor
E hoje nis puxa a paia nas gramas do jardim
E pra esquecer nis cantemos assim

(ADONIRAN BARBOSA, 2002).

 

Concluo com Tim tim por tim tim de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques:

Morreu um rei

Salve o rei que vai chegar

No sei sofrer, no sei chorar

S sei me conformar

(JOO GILBERTO, 1977).

 

O senso comum evidentemente no se reduz ao provrbio. Ditos populares propem, isso sim, noes que devem ser associadas ao imenso universo constitudo pelo senso comum. Vejo tal universo como o pano de fundo, o lugar a partir do qual o discurso popular construdo, pelo menos, o discurso do samba.

No pretendo com esses exemplos afirmar que ditados, frases feitas ou quadras populares no sejam utilizados pelos compositores da moderna msica brasileira (de um modo geral, compositores mais vinculados ao modelo oficial, hegemnico e escolarizado). Ao contrrio, creio que esses recursos esto disseminados em quase todas as canes. Quero ressaltar, isso sim, que so trao importante e caracterizador do samba e de um discurso que poderia ser consideradopopular.

Gostaria de comentar o caso de Bom conselho, obra de Chico Buarque:

Oua um bom conselho

Que eu te dou de graa

Intil dormir que a dor no passa

Espere sentado

Ou voc se cansa

Est provado

Quem espera nunca alcana

Venha, meu amigo

Deixe esse regao

Brinque com meu fogo

Venha se queimar

Faa como eu digo

Faa como eu fao

Aja duas vezes

Antes de pensar

Corro atrs do tempo

Vim de no sei onde

Devagar que no se vai longe

Eu semeio vento

Na minha cidade

Vou pra rua e bebo a tempestade

(CHICO BUARQUE, 1997, p. 99).

 

Esta bela cano um exemplo interessante, no mbito da moderna msica popular brasileira, do uso de ditados populares, ou seja, do uso de importantes conceitos do senso comum e de um recurso tpico do discurso popular, adotados pelo pensamento crtico, analtico e reflexivo, caracterstico do modelo hegemnico e oficial.

Gravada em 1972, em plena ditadura militar, a cano sem dvida se refere, ou tambm se refere, quele triste perodo histrico brasileiro. Naquele dado momento sociopoltico, abordado analiticamente e com viso geral e distanciada, falar intil dormir que a dor no passa, quem espera nunca alcana, devagar que no se vai longe representava um convite reflexo crtica e tomada de conscincia, alm de ser uma clara e corajosa contestao aos ditames do regime militar e autoritrio.

Para alm disso, preciso notar, o compositor lanou mo de procedimentos como a pardia e a desautomatizao, recursos caractersticos da modernidade. Neste plano, o texto de Chico Buarque, creio, se afasta bastante do modelo popular e tradicional, pragmtico e direto por excelncia.

No plano da conscincia popular, entretanto, conscincia enraizada na pessoa dentro de uma hierarquia, inseparvel da religiosidade, muito mais ligado ao contexto local do que ao contexto geral, muito mais vinculado soluo de problemas imediatos da vida pessoal, concreta e prtica, e ainda, num ambiente de muita dificuldade e privao, noes como intil dormir que a dor no passa, quem espera nunca alcana, devagar que no se vai longe tambm tm sentido, no h dvida. Esto representadas, de forma no sistemtica, por ditados como quem sabe faz a hora, cutia ficou sem rabo de tanto fazer favor, deixa estar jacar, que a lagoa h de secar, um dia da caa, outro do caador, passarinho que come pedra sabe o rabo que tem, quem muito se abaixa, o cu lhe aparece e quem no chora, no mama. Por outro lado, noes como o tempo tudo cura, dormir para a dor passar, quem espera sempre alcana e devagar que se vai longe, anlogas a apressado come cru, a pressa passa e a bosta fica, bezerro que berra muito no mama e dar tempo ao tempo, tambm fazem parte importante do repertrio heterodoxo do senso comum.

Vale lembrar o samba-toada Tempo de Z Luiz e Nelson Rufino. Nele a voz que canta acredita em dar tempo ao tempo. Conta a histria de um amigo que buscava a glria de forma apressada e esqueceu que o tempo tem lugar e hora marcada. Resultado: teve que esperar sentado e assim aprendeu mais. Segundo o samba amor, trabalho, vida cotidiana e saudade, cada um tem seu tempo. E conclui

 

Veja a fruta que amadura

Por processos no normais

No tem a cor, nem o cheiro

Nem sabor das naturais

(ROBERTO RIBEIRO, s/d).

 

Quero ressaltar o seguinte. Independentemente de modelos de conscincia, de tradies e modernidades, no territrio da vida mesmo, concreta e situada, h de fato momentos em que quem espera nunca alcana e devagar que no se vai longe, mas igualmente h momentos em que dar tempo ao tempo pode ser bem melhor.

Apesar de, parece claro, no ter sido essa a inteno de Chico Buarque, o texto de Bom conselho, se descontextualizado, ou seja, se lido hoje, por exemplo, por algum que ainda no tinha nascido em 1972, pode servir para reforar a associao mecnica e simplista entre popular e conservadorismo, ignorncia, atraso, inoperncia, preguia, comodismo e, por outro lado, relacionar mecanicamente modernidade a progresso, evoluo, inovao, desenvolvimento, conhecimento, ao e avano.

No examinados os diferentes modelos de conscincia e seus pressupostos, tais associaes, a meu ver, apesar de disseminadas, no passam de esteretipos tericos, vazios e equivocados, alm de preconceituosos.

Parte significativa do discurso da moderna msica popular brasileira, fruto de um modelo de conscincia que presume a predominncia de elementos como a voz individual, o pensamento crtico, a autoconscincia, a reflexividade e a autonomia, em suma, o que poderia ser chamado de discurso-eu, costuma considerar, como vimos, o senso comum sinnimo de lugar-comum, frmula, esteretipo ou clich, em suma, falta de originalidade.

Tal modelo parece partir da crena de que s atravs do chamado pensamento crtico o artista-indivduo – na solido, nas profundezas da alma do artista, na liberdade e na autonomia do seu processo criativo interior, individualizado, singular e nico – pode criar obras significativas capazes de ampliar o universo de significao, desautomatizar as mentes comuns ou expandir as conscincias.

Pois bem, acredito que obras criadas a partir do modelo de conscincia popular, baseado na voz pessoal, nas hierarquias e no senso comum, tambm nascem de um pensamento crtico, tenham autoconscincia e reflexividade.

Ocorre que seu pano de fundo, o substrato para a atuao de tais recursos, corresponde a um modelo que valoriza a pessoa (oposta a indivduo como ensinou Dumont)  e a relao entre pessoas, a pessoa e sua relao com um contexto concreto e, em vez de idias, teorias e informaes, a sabedoria, ou seja, o conhecimento construdo a partir da experincia prtica de vida. Sua representao o discurso-ns, que pressupe, naturalmente, um pensamento crtico-ns, uma autoconscincia-ns e uma reflexividade-ns.

Em outras palavras, enquanto o processo criativo moderno individualizado, livre e autnomo, pressupe a reflexividade e a auto-reflexo e, ainda, tende abordagem distanciada e crtica, ou analtica e verticalmente profunda, baseada em idias, teorias e informaes, o processo popular parece ser relacional por excelncia, constri-se necessariamente a partir da relao com o outro e da relao com o contexto imediato.

Demanda, portanto, a horizontalidade, uma reflexo essencialmente dialgica, uma reflexo com o outro, uma reflexo-ns, sempre baseada na sabedoria da existncia concreta e situada. Por ser limitado pelo horizonte do ns, tal processo pode ser considerado, sem dvida, menos profundo ou singular, menos especializado e tpico, mas ganha em abrangncia, como representao de um ethos e um pathos coletivo, cujo potencial de compartilhamento e identificao imenso.

Acreditar, com convico, que a verdade, o melhor ou a arte sejam originrias, necessariamente, de um dentro-de-si, e no de um dentro-de-ns, faz parte do modelo de conscincia oficial proposto pela modernidade individualista, crtica e hegemnica. Se tal presuno corresponde realidade, parece ser pura ideologia, que costuma se manifestar, segundo Berger e Luckmann, a partir do momento em que uma particular definio da realidade chega a se ligar a um interesse concreto de poder.

Para Norbert Elias, na ideologia, o exigido e o desejado fundem-se, na conscincia, com o que existe observavelmente. O pensamento ideolgico permeado por fantasias afetivas e de falta de rigor na reflexo sobre esses acontecimentos (ELIAS, 1994, p. 74).

Para Wander Nunes Frota, note-se, a modernidade tende a evitar o rural simplesmente por serem suas metas incompatveis com as coisas do campo e no por qualquer outra razo (FROTA, 2003, p.172).

Ao que parece, a cultura popular, seus padres, procedimentos e sua lgica no escolarizada tem sido desprezada, considerada atrasada por no se coadunar e at contradizer os paradigmas oficiais.

Enquanto a estrutura de conscincia moderna est umbilical e ontologicamente vinculada cultura escrita, a estrutura mental popular tem como pressuposto essencial o senso comum e a oralidade.

 

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[1] Este artigo corresponde ao sub-captulo 6.12, pginas  559 a 578, da tese Abenoado e danado do samba: as formas literrias populares: o discurso da pessoa, das hierarquias, do contexto, da oralidade, da religiosidade, do senso comum e da folia, FFLCH rea: Teoria Literria USP, defendida em 2004, ainda no publicada.

[2] Publicado na Boitat - Revista do GT de Literatura Oral e Popular ANPOLL www.uel.br/revistas/boitata n5

[3] Escritor e doutor em Letras.

[4] Para Goody (1988, p. 142), provrbios so concentrados da sabedoria coletiva.