Ricardo Azevedo*
Quem se dispuser a visitar escolas para conversar com crianças e
professores cedo ou tarde vai escutar frases do tipo “o problema aqui é que os
alunos, principalmente depois dos nove, dez anos, não querem mais saber de
ler”.
Existem, provavelmente, diversos fatores influindo negativamente
no processo de formação de leitores: o descompasso entre o preço dos livros e a
precária condição social de boa parte dos alunos; a falta de bibliotecas e
salas de leitura; a quase inexistência de livrarias; o convívio de crianças com
adultos, inclusive professores, sem o hábito da leitura, entre outros.
Há mais um: a imensa confusão diante da variedade de livros,
refiro-me àqueles dirigidos ao público infantil, oferecida pela indústria
editorial.
Basta examinar essas obras de perto para verificar que não formam
um grupo homogêneo mas, sim, conjuntos diferentes com características bastante
específicas.
Mesmo correndo riscos, pois as fronteiras entre os diferentes
grupos nem sempre são nítidas, vale a pena tentar separar os livros de
literatura infantil propriamente dita, o principal assunto aqui, de outros que
utilizam o objeto livro como suporte.
Antes de mais nada, é bom
ressaltar, todas as categorias de livros são importantes, têm seu espaço
conceitual e sua razão de ser. A indiferenciação entre elas, entretanto,
constitui um engano que pode confundir leitores, autores, editores, professores
e críticos. Mais que isso: a meu ver, tem afastado o leitor da literatura.
Como veremos, livros para crianças e literatura infantil são
assuntos que, em princípio, podem pouco ou nada ter em comum.
Examinando o material oferecido nas prateleiras das livrarias,
encontramos os seguintes tipos de livros:
1) Os didáticos: livros
essencialmente utilitários, constituídos de informações objetivas que, em
resumo, pretendem, exclusivamente, transmitir conhecimento e informação. São,
por princípio, instrumentos ligados ao ensino, aos programas educacionais e às
matérias do currículo escolar regular. Olhando bem, costumam apresentar, em
seus textos, uma linguagem impessoal e neutra, construída de forma a obedecer
os parâmetros oficiais da Língua. Para o livro didático, é fundamental passar informações e mensagens da forma
mais clara, objetiva e simples possível, sem dar margem a nenhum tipo de
interpretação. Seu texto busca, portanto, ser transparente, objetivo, direto,
unívoco e conclusivo. Duas outras coisas: a) essas obras são sempre
comprometidas com o conhecimento científico oficial e, quase sempre, com os
valores sociais vigentes; b) necessitam de atualização periódica, afinal, o
conhecimento científico vive em permanente evolução, fundada em novas
descobertas, teorias, tecnologias e metodologias.
Alguns exemplos do texto didático:
“Há uma tendência muito forte
para confundirmos os fonemas com as letras. É importante que você não faça
essa confusão. Os fonemas são sons,
são falados e ouvidos. As letras são sinais escritos
que procuram representar esses sons; assim, colocadas sobre o papel, as letras
são visíveis. Confundindo letras e
fonemas, você correrá o risco de não perceber certos detalhes importantes da Fonologia, que é a parte da Gramática
que estuda os fonemas.” [1]
Ou
“O Brasil é banhado pelo
oceano Atlântico, desde o cabo Orange até o arroio Chuí, numa extensão de 7.408
km, que aumenta para 9.198 km se considerarmos as saliências e reentrâncias do
litoral, ao longo do qual se alternam praias, falésias, dunas, mangues,
recifes, baías, restingas e outras formações menores.” [2]
Ou
“Nem todos os homens teem a mesma côr. Não é
igual a sua maneira de viver em toda a parte. Teem costumes e hábitos
diferentes (...) Os negros matam as aves e os animais com flechas, porque não teem espingardas. Os povos
selvagens precisam as vezes, de ser castigados, porque são maus. Não sabem lêr e escrever porque não querem. Eu não quero comer que não tenho fome. Tu não comerás que não tens fome. Êle comeria porque
tem fome. Estuda que aprenderás.
Estudarei porque preciso.” *
Cito esse último texto de propósito. Foi retirado de um livro
português do início de século, por sinal, maravilhosamente ilustrado, destinado
a crianças pequenas. Através dele, fica clara a necessidade, urgente
urgentíssima, de atualização periódica apresentada pelo livro didático.
2) Os livros paradidáticos:
também essencialmente utilitários, constituídos de informações objetivas que,
em resumo, pretendem transmitir conhecimento e informação. Em geral, abordam
assuntos paralelos ligados às matérias do currículo regular, de forma a
complementar aos livros didáticos.
Por exemplo: uma publicação sobre a Mata Atlântica discutindo aspectos da
ecologia, criada de forma a complementar o livro de Biologia utilizado
regularmente em sala de aula. É importante lembrar que o grupo dos paradidáticos pode apresentar diferentes
graus de didatismo. Fazem parte do mesmo conjunto obras praticamente
equivalentes ao livro didático e
outras onde a ficção se destaca. São aquelas que, através de uma história
inventada, pretendem ensinar o leitor a não ter medo do dentista ou a amar a
natureza. Em outras palavras, mesmo lançando mão da ficção e da linguagem
poética, os livros paradidáticos têm
sempre e sempre o intuito final de passar algum tipo de lição ou infomação
objetiva e esclarecedora. Como nos didáticos,
ao terminar de ler uma obra paradidática,
todos os leitores devem ter chegado à uma mesma e única conclusão. Quais
seriam os temas dos livros paradidáticos?
Resumindo, justamente
assuntos como a preservação do meio ambiente; a educação sexual; a prevenção de
doenças; o amor à natureza; a educação moral e cívica; os livros sobre a
emancipação feminina; a cidadania; a igualdade entre os sexos; os direitos
humanos; os direitos das minorias; os direitos do consumidor; as fobias tipo
medo de dentista e medo de escuro; as maravilhas da matemática; as
características da vida no campo e da vida na cidade; os animais em extinção; a
prevenção contra o uso de drogas, entre outros temas, vistos sempre, repito, do
ponto de vista do conhecimento objetivo, didático e utilitário.
A obra de Monteiro Lobato, fundadora, num certo sentido, de nossa
moderna literatura para crianças, curiosamente apresenta uma espécie de
hibridismo: por um lado, leva o leitor a penetrar em um microcosmo mágico,
original, ricamente ficcional, composto por personagens como Emília, Visconde
de Sabugosa, o Marques de Rabicó, as viagens com o pó de pirilimpimpim etc.; de
outro lado, é repleta de utilitarismo, recorrendo inúmeras vezes à intenção
pedagógica. Vejamos um trecho de Serões
da Dona Benta, onde a boa senhora explica como nosso planeta se formou:
“Pedrinho abriu a boca e Dona
Benta continuou:
– A nova hipótese diz que
durante o tempo em que a nebulosa formada pelo derrame da estrela se fixou na
forma dos planetas atuais, um dos pedaços passou a ser a nossa Terra – mas
muito menor que hoje. A Terra foi crescendo à custa dos meteoritos que constantemente
caíam sobre ela, como ainda hoje acontece, embora em menor quantidade.” [3]
Note-se que o livro paradidático,
a exemplo do didático, também
necessita periodicamente de atualização.
Continuo com um poema de Guilherme de Almeida:
“Todos sabem que Marina
é muito boa menina,
embora tal não pareça,
porque é um pouquinho travessa...
Estudiosa, comportada,
anda sempre muito asseada,
ouve a mamãe, não reclama,
vai cedinho para a cama” [4]
Ou com este de Maria da Conceição Torres Garcia:
“Um pão.
De um lado
Bastante creme de leite,
Orégano e azeite.
Do outro
Bastante requeijão.
Uma fatia de tomate...
Agora uma sardinha
–Dessas em latinha–
Uma pitada de sal
Nunca vai lhe fazer mal.
E olhe...Antes que alguém lhe peça...
Coma tudo bem depressa!
É brincadeira...
Mastigue direitinho
Pra sentir bem o gostinho!” [5]
São textos que manipulam informações concretas, conceitos
supostamente mensuráveis ou normas de bons costumes e, ao mesmo tempo, recorrem
à ficção através de um discurso literário e poético. Por serem essencialmente
informativos, repito, os livros paradidáticos
também necessitam de atualização periódica: a astronomia muda; os países mudam;
a ecologia muda; dentistas já deram mais medo; minorias sociais mudam; os
costumes, a família, a economia, a pedagogia ou as posturas diante da
sexualidade, também.
3) Livros-jogo, como por
exemplo as obras Onde está Wally?, Olho mágico etc, independentemente de
seu eventual interesse, não têm nada a ver com a literatura infantil. Pertecem
ao grupo dos jogos e passatempos como o Banco
Imobiliário, Mico, War, o baralho, os vídeo games e outros, com um
diferencial: utilizam o livro como suporte.
4) Livros de imagem: são
aqueles que contam histórias através de imagens, abdicando do texto verbal. Na
verdade, podem ser didáticos ou não. Muita gente, curiosamente, acredita que os
livros de imagens foram concebidos
tendo em vista, exclusivamente, crianças pequenas, não alfabetizadas. Ora,
vivemos num tempo onde a linguagem visual é extremamente representativa e faz
parte da nossa vida cotidiana, vide o cinema, a televisão, vídeos, CD-roms,
clips, publicidade etc. Não há nada que impeça um livro de imagens de ser dirigido, por exemplo, ao público adulto.
Em outras palavras, os livros de imagem
correspondem a uma linguagem que pode ser empregada de diversas maneiras.
5) Abro um parênteses para falar do CD-rom. Trata-se de um novo
suporte, talvez de vida curta por conta dos avanços da Internet, que pode atuar
como instrumento pedagógico, ser um jogo e, eventualmente, funcionar como um
novo suporte para obras literárias ou artísticas.
6) Chegamos, finalmente, aos livros de literatura infantil, na verdade, a real preocupação aqui. Não vou
nem tenho a pretensão de definir a literatura, assunto complicado, cheio de
opiniões e teorias, por vezes, antagônicas. Mesmo assim, é possível fazer
certas afirmações. A literatura, por exemplo e em termos, é uma arte (em
oposição à ciência) feita de palavras; utiliza sempre e sempre o recurso da
ficção (senão seria História, reportagem, biografia etc.); tem motivação
estética (ou seja, em princípio não tem utilidade fora buscar o belo, o
poético, o lúdico e o prazer do leitor); não é, portanto, utilitária (é
“inútil” no sentido de que, objetivamente falando, não serve para nada, nem
pretende ensinar nada); recorre ao discurso poético (quer dizer, preocupa-se
com a linguagem em si, com sua estrutura, seu tom, seu ritmo, sua sonoridade);
vincula-se à voz pessoal, à subjetividade, ao ponto de vista inesperado e
particular sobre a vida e o mundo (note-se que no livro didático a visão pessoal é substituída pela perspectiva impessoal,
enraizada em valores pré-determinados e consensuais); pode e costuma ser
ambígua (ao suscitar diferentes interpretações); pode brincar com as palavras e
até inventá-las (ou seja, não precisa seguir rigidamente os parâmetros oficiais
da Língua); tem a ver, por exemplo, com conceitos como a aventura, o romance, o
suspense, a tragédia (na literatura infantil: Seis vezes Lucas de Lygia Bojunga ou Dias difíceis de Fanny Abramovich), a comédia etc. A literatura
costuma tratar de assuntos, subjetivos por princípio, sobre os quais não tem
cabimento dar aula: a paixão, a morte, a busca do auto-conhecimento, a amizade,
a alegria, os afetos, as perdas, o desconhecido, o imensurável (o gosto, o
prazer, o amor, a beleza etc.), a busca da felicidade, a astúcia, o ardil, os
sonhos, a dupla existência da verdade, a relatividade das coisas, a injustiça,
o interesse pessoal versus o coletivo, o livre arbítrio, a passagem inexorável
do tempo, o paradoxal, o conflito entre o velho e o novo etc. Na verdade, ela
pode falar de qualquer tema, todos os abordados pelos paradidáticos por exemplo, desde que o mesmo seja visto pelo ângulo
da ficção, da subjetividade e da poesia.
Resumindo, talvez seja possível afirmar que os livros didáticos e paradidáticos são escritos por alguém que, em graus diferentes,
pretende ensinar o leitor. São, portanto, comprometidos com a “lição”. Em
oposição, os livros de literatura infantil colocam questões humanas vistas no
plano da expressão pessoal (e não da informação baseada no conhecimento
consensual e objetivo) através da ficção e da linguagem poética. São, em outros
termos, ligados à “especulação” (não consigo encontrar palavra melhor).
Não faz sentido, é preciso dizer, falar em atualização periódica,
a não ser a ortográfica, quando pensamos em literatura, seja ela infantil ou
não.
Seria, naturalmente, perda de tempo pretender ser conclusivo
diante de um assunto tão amplo. A obra de Monteiro Lobato, como foi dito,
apresenta características que invadem o didatismo e, ao mesmo tempo, a
literatura. Em Pinóquio encontramos a
mesma situação: a mais desatualizada lição de moral de braço dado com a mais
maravilhosa e emocionante ficção.
No geral, entretanto, quero argumentar, um jovem leitor que
confunda livros que pretendem ensinar coisas objetivas, com outros que
pretendem, principalmente, de forma poética e lúdica, especular sobre a
existência terá, a meu ver, boas chances de afastar-se da literatura. Cansa
receber lição o tempo todo! É preciso, por outro lado, reconhecer perante os
jovens que a vida apresenta inúmeros aspectos diante dos quais não faz sentido
falar em lições unívocas e objetivas. É preciso ainda que o leitor, jovem ou
não, também entre em contato com textos de ficção, emotivos e lúdicos, que se
espantem diante da complexa e ambígua paisagem representada pelo que chamamos
“realidade”. Eis o exemplo de uma obra assim:
“– Quando eu lia contos de
fadas, pensava que essas coisas jamais aconteciam, e cá estou eu metida numa
dessas estórias! Deve haver algum livro escrito sobre mim, deve haver! E quando
eu crescer, escreverei um...mas eu já cresci” – e acrescentou, cheia de
tristeza: “pelo menos aqui não existe
mais espaço para crescer.”
“Mas então” – pensou Alice –
“será que nunca vou ficar mais velha do que estou agora? Sempre é um
consolo...nunca ser uma mulher velha...mas então terei sempre lições para
aprender! Oh, isso não, disso é que
eu não gostaria mesmo!”.[6]
Trata-se de um trechinho das Aventuras
de Alice no País da Maravilhas. Na casa de um certo coelho, Alice encontra
uma garrafinha, bebe seu conteúdo, cresce despropositadamente e fica entalada
na sala. A partir de fatos estranhos como este e outros, a menina acaba
especulando sobre temas que interessam a todos nós, independentemente de faixas
etárias: os limites entre a fantasia e a realidade; as diferenças entre adultos
e crianças; a deterioração de muitas convenções; e ainda, por coincidência, o
nosso tema: a questão da oposição entre o didatismo e a ficção.
Sobre o tema da busca do auto-conhecimento, apenas para citar um
exemplo, vale lembrar A bolsa amarela,
de Lygia Bojunga. Eis um trechinho:
“Cheguei em casa e arrumei
tudo que eu queria na bolsa amarela. Peguei os nomes que eu vinha juntando e
botei no bolso sanfona. O bolso comprido eu deixei vazio, esperando uma coisa
bem magra para esconder lá dentro. (...) Abri um zipe; escondi fundo minha
vontade de crescer; fechei. Abri outro zipe; escondi mais fundo minha vontade
de escrever; fechei. No outro bolso de botão espremi a vontade de ter nascido
garoto (ela andava muito grande, foi um custo pro botão fechar). Pronto! a
arrumação tinha ficado legal. Minhas vontades tavam presas na bolsa amarela,
ninguém mais ia ver a cara delas.” [7]
Estamos diante de um texto poético e
metafórico. Raquel é um ser humano como todos nós, tanto faz a faixa etária,
procurando conhecer a si mesma. O livro aborda assuntos onde não cabe a lição
objetiva. Ensinar o quê? São emoções, são impressões, sonhos e desejos da
personagem. Trata-se, isso sim, de uma especulação singular e poética a
respeito da busca do sentido da existência. Deste ponto de vista A bolsa amarela é um livro inútil (não
ensina nada objetivamente) e, ao mesmo tempo, imprescindível (aborda questões
onde não cabe o ensino e sim a especulação e o compartilhar).
Um professor diante de um aspecto gramatical, da Biologia ou da
História do Brasil, pode apresentar dados considerados indiscutivelmente concretos
e ensinar o aluno.
Quando os pais do mesmo aluno se separam ou quando alguém se
apaixona ou quando alguém fica obcecado ou quando examinamos a trajetória de um
indivíduo em busca de sua própria voz ou quando uma pessoa resolve começar tudo
de novo ou quando alguém anda deprimido ou quando alguém morre (seja um herói
como Ayrton Senna, seja o pai de uma criança, seja uma criança) ou diante do
incompreensível ou diante do imensurável (o gosto pessoal ou o prazer, por
exemplo) ou diante do paradoxal, o professor, questionado, vai ensinar o quê?
Assuntos como esses, humanos, banais e cotidianos, simplesmente não cabem em
lições e só permitem especulações e trocas de impressões.
Seriam esses, entre outros e numa
simplificação, justamente os assuntos e temas peculiares à literatura.
Se há uma “utilidade” da literatura na escola, muito mais que
ensinar gramática e coisas assim, é a de possibilitar, no plano da expressão, o
contato do leitor com uma linguagem expressiva, renovadora e poética, e, no
plano do conteúdo, a discussão de temas que, no fundo, acabam sempre
especulando sobre a construção do significado da existência.
Obviamente não pretendo, repito, ser conclusivo diante de assuntos
tão imensos. Evitar, porém, o debate em torno de uma classificação dos livros
infantis, sob qualquer pretexto, parece-me irresponsável: a confusão entre a
arte (e a ficção) e o didatismo utilitário costuma ter o perverso dom de
afastar as pessoas, independentemente de faixas etárias, da leitura e,
principalmente, da literatura.
Para encerrar, recorro a um trecho de Peter Pan. Refere-se à lagoa da Terra do Nunca. Com a palavra o
narrador, dirigindo-se diretamente ao leitor:
“Se você fechar os olhos e
for uma pessoa sortuda, por vezes conseguirá ver um ajuntamento disforme de
cores suaves suspensas em meio à escuridão. Aí então, se você apertar um pouco
mais os olhos, este ajuntamento tomará forma e as cores se tornarão tão vivas
que, com mais uma apertada nos olhos elas chegariam a pegar fogo. Mas um
segundo antes que tudo se incendeie, você vê a lagoa. É o mais perto que se
pode chegar da lagoa estando aqui no continente, só por um momento celestial.
Se fosse possível ter dois momentos, talvez você visse as margens e ouvisse as
sereias cantando.” [8]
Eis aí um excelente método para vislumbrar o território ficcional,
subjetivo, mágico, metafórico, imensurável, utópico e ambíguo, portanto
profundamente humano, da literatura.
Resumo
Este trabalho
propõe uma classificação geral e uma caracterização para os diversos tipos de
livros produzidos atualmente pela
indústria editorial e dirigidos ao público infantil. Cada tipo de livro possui
determinadas peculiaridades, um
determinado tipo de discurso, têm objetivos distintos e é criado a partir de
pressupostos bastante definidos. Como conclusão, o artigo defende que a indiferenciação entre os diferentes tipos de obra pode afastar o leitor da noção
de arte e literatura e,
consequentemente, da própria leitura.
* Ricardo Azevedo, escritor e ilustrador, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.
[1] NICOLA, José de e INFANTE, Ulisses. Portugues Palavras e Idéias 8ª Série. São Paulo, Scipione, 1990, p.
10.
[2] ANTUNES, CELSO. Geografia do
Brasil 2º Grau. São Paulo, Scipione, 1990, p.53.
* Texto
extraído de um livro didático ilustrado, publicado provavelmente em Portugal,
no começo do século. Tenho a obra em mãos mas ela, infelizmente, não apresenta
nenhum dado bibliográfico, nem mesmo o título.
[3] LOBATO, Monteiro. Serões de
Dona Benta. São Paulo, Círculo do Livro, 1989, p. 178.
[4] “O sonho de Marina”, de Guilherme de Almeida, apud ZILBERMAN, R.;
LAJOLO, M. Literatura Infantil Brasileira
- História & Histórias. São Paulo, Ática, 1984, p. 146.
[5] GARCIA, Maria da Conceição Torres. Coma este poema. São Paulo,
Arte Livre, 1983, p. 13.
[6] CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no País das Maravilhas e outros
textos. Trad. Sebastião Uchoa Leite. Rio de Janeiro,
Fontana/Summus, 1977, p.64
[7] NUNES, Lygia Bojunga. A bolsa amarela 6ª ed.. Rio de Janeiro, Agir, 1981, p.30