Aspectos da literatura
infantil no Brasil, hoje[1]
Ricardo Azevedo
Vou
tentar levantar certos pontos que julgo
importante debater toda vez que o assunto literatura para crianças e jovens
entra
Acho
importante começar contextualizando um pouco as coisas.
Vamos
discutir literatura infantil num país marcado por um imenso desequilíbrio
social, onde 10% da população detêm mais de 50% da renda; onde metade da
população, cerca de 85 milhões de pessoas, tem menos de 20% por cento da renda;
onde aproximadamente 26 milhões de pessoas (15% da população) são analfabetas;
onde o número de semi-analfabetos, gente incapaz de ler um jornal, um livro ou
uma bula de remédio, gente sem acesso a nenhum tipo de informação elementar – a
respeito, por exemplo, de higiene, prevenção de doenças, localização
geográfica, História, cidadania, direitos humanos, justiça e política –
corresponde talvez também a metade da população; onde 53 milhões de crianças
estão matriculadas no 1º e 2º graus, mas delas somente 65% (de 53 apenas 33
milhões de pessoas) conseguem terminar o curso; portanto, onde, hoje, cerca de
19 milhões de crianças e jovens vão
acabar fora da escola; onde 4,5% da população entre 10 e 15 anos de idade
trabalha, e ainda onde, hoje, cerca de
1 milhão de crianças infelizmente nunca
foi nem irá à escola. Segundo a Folha de S.Paulo, edição de domingo, 23/7/2000,
20% da população brasileira, cerca de 34 milhões de pessoas, nunca foi ao
dentista, com todas as implicações que isso representa, inclusive infecções
crônicas, dores e tudo o mais.
É
levando em consideração este contexto, reconstruído aqui com dados aproximados
– não sou economista, nem estatístico –
que gostaria de colocar e discutir certas questões.
Fala-se
muito em formação de leitores. Nosso país realmente vai ser outro quando sua
população for formada por leitores, gente que saiba diferenciar uma obra
literária de um texto informativo; gente que leia jornais mas também leia
poesia; gente, enfim, que saiba utilizar textos em benefício próprio, seja para receber informações, seja por motivação
estética, seja como instrumento para ampliar sua visão de mundo, seja por puro
e simples entretenimento.
Considerando
nosso desequilíbrio social, formar leitores evidentemente é um imenso desafio.
A maioria de nossas crianças é filha de pais analfabetos ou semi-analfabetos,
ou seja, voltando para casa elas não têm com quem discutir suas lições. E nem
mesmo espaço, uma vez que suas casas, muitas vezes um único cômodo, não
costumam possibilitar o isolamento mínimo que a leitura requer. Por outro lado, boa parte de nossas crianças,
refiro-me àquelas que têm chance de ir à escola, não têm dinheiro para comprar
livros e só têm acesso a livros e textos didáticos e informativos fornecidos
gratuitamente pelas escolas públicas. Na minha visão, textos didáticos são
essenciais para a formação das pessoas, mas não formam leitores. É preciso que
concomitantemente haja acesso à leitura de ficção, ao discurso poético, à
leitura prazerosa e emotiva, para que
isso aconteça.
Outro
ponto: se cerca de 15% da população brasileira são analfabetos, um outro
contingente, imagino algo em torno dos
40% da população, ou é alfabetizado precariamente porque, por exemplo,
precisou abandonar os estudos para trabalhar, ou, mesmo tendo estudado, não
conseguiu, por alguma razão, adquirir o
hábito da leitura.
Essas
pessoas são adultas, sabem ler um pouco, mas não têm preparo para encarar
uma literatura que se utilize de uma
linguagem mais elaborada, que recorra a referências culturais específicas ou
aborde temas abstratos e
intelectualizados. Mesmo para acompanhar, através dos jornais, as
medidas do governo, os meandros das questões políticas ou econômicas, muitos,
no Brasil, sentem dificuldade diante do vocabulário, em geral técnico e
elitista, utilizado pela imprensa, inclusive a televisão.
Essa
questão, creio, merece ser discutida. Mostra que, em nosso país, a chamada literatura adulta e também o jornalismo,
tirando naturalmente a imprensa sensacionalista ou esportiva, são feitos pela e para uma certa elite.
Há, na
verdade, um abismo separando a maioria da população e alguns dos mais
importantes autores nacionais, refiro-me por exemplo a Machado de Assis, Mário
de Andrade, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira,
Ferreira Gullar, João Cabral de Mello Neto entre outros.
Isso
não é, nem de longe, uma crítica a esses autores que eu admiro e que estão
entre os maiores artistas da nossa língua. É apenas uma óbvia constatação.
O mesmo
fenônemo pode ser observado, por exemplo, na música popular. Um compositor
conhecido internacionalmente, Antonio Carlos Jobim, compositor que eu amo,
nunca foi propriamente popular mas, sim, um músico preferido pelas elites e
pelos grupos sociais mais bem informados.
Tenho
certeza de que fatos assim ocorrem em
todos os lugares do mundo. As artes e a literatura foram há muito tempo
incorporadas pelas elites. Creio porém que a situação fica mais aguda num país
como o nosso onde a desigualdade social é imensa.
Estou querendo chegar no seguinte ponto: tenho certeza de
que a literatura infantil produzida no Brasil tem, além das crianças, um outro
público: adultos incapacitados para uma leitura abstrata, culta e complexa.
O
ponto, como se vê, requer uma discussão ao mesmo tempo artística e ética.
É
extraordinário imaginar que obras aceitas e amadas por crianças podem também
estar contribuindo para ampliar a sensibilidade e a visão de mundo de adultos,
através da discussão de temas existenciais, políticos e outros.
Poderia
citar textos para crianças que fazem uma reflexão política como O reizinho
mandão ou O que os olhos não vêm de Ruth Rocha; História meio ao contrário de
Ana Maria Machado; As voltas do meu coração de Fanny Abramovich ou então textos
mais existenciais como os de Lygia Bojunga, Marina Colasanti entre muitos
outros.
Evidentemente,
este aspecto traz para o escritor de livros infantis e juvenis brasileiro, quer
ele queira ou não, uma espécie de desafio, uma dupla responsabilidade: escrever
temas e assuntos que interessem e respeitem seu público sem, ao mesmo
tempo, perder de perspectiva que, por
vezes, seu trabalho será lido por um outro público, maior, provavelmente
indefinido, mas para o qual essa leitura talvez tenha um significado muito
importante.
Um
segundo ponto de discussão diz respeito aos vínculos complexos existentes entre
a literatura infantil e a escola.
Foram
produzidos no último ano cerca de 68 milhões de livros de literatura infantil e
juvenil, 17% de um mercado de 400 milhões de livros. Sabemos que essa produção
não seria tão expressiva se não fossem as adoções escolares. De norte a sul do
país, escolas têm adotado livros de literatura para serem lidos em classe tendo
como objetivo, entre outros, formar leitores. Como no Brasil existem menos de
3.000 livrarias, ou seja, em tese, uma livraria para cada grupo de 56 mil
pessoas, fica evidente que se não fosse a atuação das escolas, a produção de
livros seria reduzida dramaticamente.
As implicações dessa relação direta entre produção
literária e escola merece alguns comentários.
1) a meu ver, nossas escolas, tirando as exceções de praxe
que por sorte existem, infelizmente não estão preparadas para lidar com a
literatura e acabam transformando o que deveria ser uma leitura intuitiva,
pessoal, prazerosa, livre, emocional, um contato espontâneo com o discurso
poético e com a ficção em uma atividade didática, compulsória, impessoal e
utilitária. Uma leitura para ser avaliada através de critérios bons para as
matérias informativas mas estranhos à literatura. Uma leitura com perguntas
cujas respostas já estão pré-determinadas nas fichas preparadas por editoras.
Tento dizer que uma abordagem unicamente utilitária de um texto literário não é
adequada, nem vai contribuir na formação de nenhum leitor.
Quero
esclarecer que sou totalmente favoravel à adoção dos livros nas escolas.
Acredito que se há um interesse da literatura dentro do ensino regular é sua
capacidade de trazer à baila temas e assuntos subjetivos como a busca do
auto-conhecimento, as paixões humanas, as utopias pessoais, as iniciações, a
ambigüidade, a dupla existência da verdade, a luta inevitável entre o velho e o
novo, ou seja, assuntos importantes que não são passíveis de lições mas sim de
especulações. Assuntos diante dos quais adultos e crianças só podem sentar e
compartilhar impressões. Em suma, a meu ver, qualquer leitor para aprender a
construir a própria voz, e isso todos nós estamos fazendo ao longo da vida,
precisa ter acesso a textos que privilegiem a voz pessoal e o discurso subjetivo.
2) como
a escola, para ministrar os cursos, divide os alunos em faixas etárias, isso
acaba se refletindo na produção literária. É comum escutar a pergunta: “o livro
foi feito para crianças de 8 ou de 10 anos?” Ora, dividir pessoas em faixas
etárias pode ser prático e até tem uma certa lógica mas é sempre uma redução.
Para aulas de ginástica faz todo o sentido. Mas, e quando entramos no terreno
da experiência pessoal? Quem é mais maduro: um menino de 11 anos que já
trabalha para ajudar a família ou um jovem de vinte anos que nunca trabalhou e
acha que a vida é tirar rachas de automóveis ou aprender jiujitsu e sair
batendo nos outros? É impossível esquecer o assassinato do índio Galdino, feito
por jovens adultos da elite estudados e educados. Por outro lado, como se sabe,
pesquisadores da oralidade como Luria já mostraram que adultos analfabetos têm
mecanismos mentais diferentes de adultos letrados. O pensamento oral é
construído através da fala, do gesto e da memória. Sem contar com arquivos como
dicionários e manuais, nem com teorias e
conceitos abstratos, pré-determinados e
fixados por textos, essa outra forma de pensar acaba sendo mais livre para ser intuitiva. É, com certeza, menos analítica e
abstrata, tendendo a fazer associações que o pensamento científico, em
princípio, condenaria. Estou tentando dizer duas coisas: primeiro, que
analfabetos têm outra forma de interpretar o que costumamos chamar de
“realidade” e, segundo, que muitas vezes
o que por nós é considerado “infantil”, na verdade, equivale ao pensamento de pessoas de qualquer
idade que não sabem ler nem escrever.
3) como
a escola é o “mercado” surge a pressão de produzir trabalhos que atendam a
demanda desse mercado. Faz sentido imaginar que livros didáticos sejam
produzidos de forma a atender aos programas educacionais, mas o mesmo não
ocorre com a literatura. Muito ao contrário, na minha visão, cabe à literatura
trazer para dentro da escola o novo ponto de vista, a forma de dizer original,
o estranhamento, o que ainda não havia sido pensado. Outra coisa: é importante
lembrar quantas idéias e formas o “mercado” nunca vislumbrou e que, mesmo
assim, acabaram sendo definitivamente aceitas e incorporadas, ampliando a visão
de mundo do leitor.
Não
pretendo generalizar, mas é preciso reconher que boa parte da indústria
editorial pretende produzir apenas uma
ficção que seja palatável às escolas. O resultado disso tem sido o surgimento
de livros emasculados, muitas vezes utilitários, sempre “politicamente corretos”,
incapazes de transgredir, incapazes de trazer novas idéias ou de inovarem, pois
tudo isso poderia não ser aceito pela escola.
Em
qualquer lugar do mundo, a escola tem sido, tirando as exceções de praxe, uma
representação do conhecimento e dos valores oficiais (= elitistas) da sociedade,
uma representação do status quo, ou seja: as concepções escolares têm sido
conservadoras por definição.
Considerando
isso, restringir o uso da literatura aos muros escolares pode ser, na minha
visão, um malefício à literatura pois,
com isso, muitas de suas características essenciais tendem a desaparecer.
Tendem
a desaparecer as experimentações formais, o discurso poético, o uso criativo do
léxico, a polissemia, a ambigüidade.
Tendem
a desaparecer os temas polêmicos, o discurso subjetivo, o uso livre da ficção,
a discussão dos valores sociais estabelecidos, a discussão ética, a
apresentação do homem, não como um elemento lógico e previsível, sempre
buscando a integração ao status quo, mas o homem como um ser paradoxal, por
vezes incompreensível ou incoerente, mergulhado num constante processo de
modificação e ressignificação; mergulhado na busca de seu auto-conhecimento e
na construção de um significado para sua vida.
Uma das
maiores ameaças que a literatura pode sofrer, é essa: ser reduzida a um trabalho
ficcional domesticado e utilitário, visando unicamente abordar temas
determinados pela escola ou por quem quer que seja.
O autor
de livros para crianças no Brasil vive, portanto, esse permanente dilema ético:
participar do sistema industrial produzindo livros, melhor dizer produtos,
“politicamente corretos”, ou manter sua integridade de escritor e cidadão,
correndo o risco de ver seus livros não editados.
Naturalmente,
estou colocando a questão de forma esquemática. Há no Brasil, por certo,
algumas editoras competentes que conseguem atuar a partir dos princípios
capitalistas e, ao mesmo tempo, ser independentes e criativas. Há também
excelentes livrarias, pelo menos nos grandes centros, e escolas que atuam no
sentido de formar, e não informar, e de criar uma mentalidade realmente crítica
e renovadora em seus alunos.
Para
concluir, gostaria de dizer que falar em crianças significa falar nas pessoas
que um dia vão nos substituir e que para isso precisarão receber informações de
todo o tipo, mas mais do que isso. Crianças são artífices do novo, das idéias
que ainda ninguém teve, das concepções que vão suplantar as que temos
atualmente. Para tanto elas precisam ter uma formação livre e criativa,
precisam saber lidar com a ambigüidade, precisam aprender a se expressar,
precisam aprender a ter coragem de dizer a palavra nova, o pensamento que ainda
nunca foi pensado. Neste aspecto, a literatura pode dar uma grande e
insubstituível contribuição.
[1] Palestra feita no I Salão do Livro - Encontro Internacional de Literaturas