Ricardo
Azevedo[2]
Aproveito este espaço para apresentar alguns pontos e
dúvidas que têm sido importantes para mim, não só como autor de livros para
crianças e jovens há mais de vinte anos, mas também como pessoa tentando
compreender a vida e o mundo.
Nossa tradição cultural tem pressuposto a existência
de um “universo infantil”, que se configura em oposição a outro, o “universo
adulto”, ambos tratados como fatos naturais, nítidos, lógicos e indiscutíveis.
São conhecidas as diferenças entre adultos e crianças:
adultos costumam ser capazes de pensar abstratamente; podem ter maior
capacidade de concentração e de trabalho; fisicamente são mais fortes do que
crianças; em geral conseguem controlar suas emoções e, em geral, são capazes de
exercer sua sexualidade com plenitude.
Supor, porém, que adultos e crianças formem dois
universos, dois grupos homogêneos de pessoas, parece ser uma visão bastante
equivocada e reduzida, para não dizer ingênua, de qualquer coisa que se possa
chamar “realidade”.
Vou contar uma experiência pessoal. Meu pai tinha um
sítio em Itaquaquecetuba, perto de São Paulo. Na época, isso faz quarenta anos,
a região era rural, com sítios, pequenas granjas, plantações de verduras,
algumas olarias e muito mato. Meus irmãos e eu passávamos lá as férias e quase
todos os fins de semana. Fiz amizade com a criançada do lugar, filhos de
caseiros, camponeses e pequenos sitiantes. Com eles joguei bola, pesquei
tilápia e lambari, aprendi a tirar mel de marimbondeiro, comer içá e jogar bola
de gude. Um dia, chegando ao sítio, soube que um dos nossos companheiros tinha
se suicidado. Eu tinha uns 9 anos. Nunca ouvira falar em suicídio, nem mesmo
sabia que uma pessoa podia se matar. Foi um choque. O menino chamava-se Sérgio
e era filho de japoneses que viviam da plantação de verduras. Parece que o
Sérgio queria estudar mas seu pai preferia que ele trabalhasse na terra. Diante
do conflito, o menino optou por tomar formicida.
Ele era como todos nós: brincava, jogava bola, corria
para lá e para cá, dava risada e tudo o mais.
Faz sentido imaginar que crianças, mesmo tendo a mesma
idade, formem algum tipo de grupo
homogêneo?
Se pensarmos em aulas de ginástica, a divisão de crianças em faixas etárias
parece ser um procedimento bastante razoável. Se considerarmos as matérias
escolares também. Pode ser uma estratégia inteligente reunir crianças da mesma
idade para ensiná-las a compreender a
Língua Portuguesa, as regras gramaticais, a matemática, a História e as
ciências, afinal, pessoas da mesma idade podem ser consideradas indivíduos com,
mais ou menos, as mesmas características e no mesmo estágio físico e
neurológico.
Mas, e levando-se em conta a humana (e óbvia)
diferença entre as experiências
individuais de cada um?
Sérgio poderia ter tomado outra atitute. Obedecer ao
pai, levar na brincadeira, enfrentar o pai, dar um tempo, desobedecer, adoecer,
fugir de casa, pedir ajuda.
O que pode se
passar dentro da alma de uma pessoa, seja ela criança ou não?
Olhando bem, a
idéia de que exista um “universo infantil” pressupõe que algumas
capacidades cognitivas, vivências e sentimentos fazem parte deste universo, e
outras não.
Quanto às capacidades, não vou discutir neste artigo. Só
gostaria de lembrar que certas características cognitivas consideradas
“infantis” permanecem, como demonstrou Luria, entre outros estudiosos, em
adultos que não tiveram acesso à cultura escrita (cf. ONG, W. Oralidade e cultura escrita , Papirus Editora, 1998).
Quanto às vivências e sentimentos, com certeza não é o
que parece (e seria desumano se o fosse!). A vida simplesmente acontece,
independentemente de teorias educacionais, fases cognitivas discutíveis, rótulos e genéricas faixas etárias.
Um menino de oito anos que vive, por exemplo, uma
situação econômica estável e, por alguma
razão, fica pobre, não seria outro se, de alguma forma, pudesse ter permanecido
em sua vida anterior, tranqüila e estável? Tudo indica que sim.
Em nosso país, há crianças de 8 anos que já trabalham
para ajudar suas famílias. Há crianças de 10 que tomam conta de irmãos menores,
cozinham e lavam roupa, enquanto os pais vão trabalhar. Há também meninas de 11
anos que já são mães (portanto, em tese, avós com menos de 30 anos).
Por outro lado, é possível encontrar jovens de mais de
vinte anos que nunca, nem de longe, pensaram
Além disso, há
filhos de pais separados; há crianças que sofreram abusos emocionais, físicos,
sexuais; há traumas; há temperamentos; há sonhos; há fantasias e vivências
absolutamente pessoais (o gosto, os afetos, os prazeres, a paixão, a
perspectiva do sublime.).
Para complicar, não é difícil encontrar, num mesmo
grupo de idade, pessoas oriundas de tradições, culturas e concepções de mundo
diferentes.
Todos, quero lembrar, ricos ou pobres, com ou sem
traumas, alienados ou não, são, ou poderiam ser, leitores e, talvez, um
dia, irão sentar-se e ler um livro, meu
ou de outro autor.
Como não levar em consideração tais fatores na hora de
escrever um texto?
Como não perguntar que recursos, além dos prescritos
pela ideologia do “universo infantil” , estão, afinal, virtual e
potencialmente, presentes na infância?
Uma criança, tenho certeza, é algo maior e mais
complexo do que uma simples, higiênica e abstrata categoria piagetiana. Não se
trata de uma crítica ao pensador ilustre mas, sim, à forma simplista e
utilitária com que, por vezes, teorias como as dele e de outros estudiosos são
aplicadas (cf. “Jogo e iniciação literária” in ZILBERMAN, Regina; MAGALHÃES,
Lígia C. Literatura Infantil: Autoritarismo e Emancipação. Ática, 1982.)
Continuando com o mesmo raciocínio, o que são adultos?
Não será uma inacreditável simplificação tratá-los como uma massa homogênea e
abstrata?
Creio que vale a pena lembrar alguns pontos comuns
entre adultos e crianças: ambos sentem dor física; ambos são, em graus
diferentes, dependentes de inúmeros fatores, sociais, afetivos, políticos e
outros; podem ter dúvidas com relação ao
que seja a “realidade”; estão em busca, conscientemente ou não, de um certo
grau de auto-conhecimento; são passíveis de sentimentos como ciúme, vaidade,
inveja, ódio, amor, tristeza ou alegria; são passíveis de agir egoísticamente;
sentem prazer e desprazer; fazem brincadeiras; apreciam o conforto e a
segurança; podem ser incompreensíveis ou incoerentes; estão em permanente processo de
transformação; sentem medo; obedecem a instintos como o de auto-defesa entre
muitos outros; recorrem a linguagens
orais, gestuais etc; tendem a querer ser
independentes; são sexuados; podem
adoecer; são mortais; costumam temer a
morte; são capazes de cometer suicídio; necessitam do contato físico,
sexo-afetivo, em graus diferentes, talvez, não importa; têm na curiosidade um
princípio vital; são, por princípio, seres sociais, entre outros exemplos.
Tento dizer que, na minha visão, é impossível e até
irresponsável escrever para crianças sem tomar uma posição diante de tudo isso.
Autores que acreditem na existência de um “universo
infantil” certamente vão fazer um tipo de trabalho bastante diferente de
outros, entre os quais eu me incluo, que partam do princípio de que adultos e
crianças são muito mais parecidos do que diferentes e compartilham um mesmo e
único universo.
O assunto, reconheço, é amplo e complexo pois, entre
outras coisas como a própria noção do que seja literatura, envolve ideologia, valôres culturais, visões pré-determinadas do que
sejam a “realidade”, a existência e o mundo.
Mesmo assim, vou tentar concluir com alguns comentários que, espero, sirvam,
ao menos, para levantar uma discussão ou alguma reflexão.
1)
O conjunto de
informações previstas pelos programas educacionais, açambarcado e dividido
entre as diferentes matérias
escolares tais como o idioma nacional e
sua regras, a matemática, as ciências, a História, entre outras, em que pese
sua fundamental importância, tende a apresentar um modelo reduzido e lógico da
realidade sendo, portanto, a meu ver,
insuficiente para realmente formar pessoas;
2)
Para além dessas
matérias, existem um sem número de assuntos, também fundamentais, mas que, por
serem subjetivos, imensuráveis e não passíveis de lições, acabam relegados a um
segundo plano, quando não simplesmente
ignorados. Eles dizem respeito, por exemplo, a temas como a “busca do
auto-conhecimento” e a “busca da identidade”. Esclareço que não estou me
referindo a qualquer categoria filosófica ou estética mas, sim, ao simples fato
de que todos nós, o tempo todo, em qualquer lugar, época e cultura, estamos
envolvidos, formal ou informalmente, em constantes processos de aprendizado;
tendemos a procurar reconhecer e separar o que gostamos do que não gostamos; ou
fazer tais e tais planos; ou agir assim e não assado. Por outro ângulo, estamos
sempre envelhecendo, o que significa estar mudando permanentemente. Um homem de
80 anos nunca teve 80 anos antes, por essa razão vai ter que aprender mais
sobre si mesmo, “buscar auto-conhecimento”, para lidar com sua nova idade. Tais
fatos, banais e cotidianos, implicam no
que aqui estou chamando de “busca do auto-conhecimento” e “busca da
identidade”.
3)
Mas há mais assuntos que
costumam permanecer afastados da escola: os
relativos às emoções e afetos; os
relativos à nossa relação com a morte; à nossa relação com o Outro; à passagem
inexorável do tempo; à nossa relação com
as perdas; à nossa relação com a ambigüidade;
à nossa relação com a carência afetiva; com nossa corporalidade e suas
implicações; com os valôres sociais e morais vigentes; com a metafísica; com o
que seja a efemeridade, a utopia, a loucura, a fantasia e a realidade, entre
uma infinidade de outros temas vitais mas ausentes das matérias que formam os
currículos oficiais.
4)
Como tentei mostrar
anteriormente, tais assuntos, apesar de não poderem ser medidos, nem serem
passíveis de “lições”, dizem respeito a qualquer ser humano, independentemente
de faixas etárias. Assim como todos nós,
bebês e idosos de 90 anos estão, conscientemente ou não, mergulhados num
processo ininterrupto de aprendizado. Não seria bom que crianças soubessem
disso sobre si mesmas e também sobre os adultos? Note-se que a ideologia do
“universo infantil” prevê que, em tese, só crianças estejam em processo de
aprendizado, pois adultos, seres maduros e equilibrados, já sabem o que querem
e o que são (!).
5) Apenas a título de ilustração, mais como um
parênteses, quero lembrar que muito
raramente se vê uma escola que, ao menos no segundo grau, dê a seus alunos aulas sobre primeiros-socorros. Pode ser
usual, mas nem por isso deixa de ser
estranho. Que tipo de pessoa, afinal, pretende-se
formar?
6)
Argumentar que tais
assuntos fogem do âmbito escolar seria desvincular vida e escola. Tal ponto de
vista, embora inaceitável, talvez ajude a explicar, por exemplo, o assassinato do índio pataxó.
Quero encerrar dizendo que, a meu ver, o papel da
literatura dentro da escola é essencial. Entre todos os livros oferecidos ao
leitor somente na literatura ele vai encontrar, por exemplo, uma personagem
paradoxal, Raquel, que numa bolsa amarela guarda sua vontade de crescer, sua
vontade de ser menino e sua vontade de tornar-se escritora; ou uma menina,
Alice, que viajando por um país imaginário localizado no fundo da terra, tem
oportunidade de meditar sobre o que é ser adulto e ser criança, de discutir a
lógica das coisas e das palavras, de constatar a dificuldade de se discernir o
que é e o que não é a realidade; ou vai entrar em contato com a ambigüidade e
riqueza de “uma casa muita engraçada que não tinha teto nem tinha nada”; ou os
“issos ou aquilos” da qual a vida é recheada; ou ainda os tantos e tantos
heróis que, ignorando lições e informações datadas e oficiais (portanto,
note-se, atualizáveis periodicamente) decidem partir para conhecer o mundo;
enfrentam gigantes, dragões e forças desconhecidas; recebem ajudas inesperadas;
contam com a sorte e o acaso; por vezes passam períodos sob o domínio de algum
encanto e, no fim, acabam casando com a princesa e até virando reis, ou seja,
realizam os sonhos de muitos e muitos de nós: viajar, conhecer a vida e o
mundo, enfrentar desafios, encontrar o parceiro amoroso e conseguir uma certa
estabilidade econômica.
Infelizmente, tais assuntos costumam andar afastados
dos currículos escolares mas, é preciso reconhecer, têm interessado a seres
humanos de todas as idades, em diferentes épocas e lugares e, por essa razão,
acredito, precisariam encontrar um espaço mais nítido dentro da escola, não
para serem “ensinados” mas, sim, discutidos e compartilhados por professores e
alunos ou por adultos e crianças.
A literatura, através da ficção e da linguagem
poética, pode ser um instrumento determinante para esse encontro e para essa
troca.
Ricardo Azevedo é escritor, desenhista e doutor em
letras pela Universidade de São Paulo.