Texto e imagem: diálogos e linguagens dentro do livro[1]

Ricardo Azevedo[2]

 

O fato de ser escritor e desenhista tem me possibilitado certas experiências curiosas. Volta e meia, sou convidado a visitar escolas para conversar com professores sobre literatura infantil. Nessas ocasiões, recebo, em geral, perguntas sobre os textos: como surgiu a idéia de tal livro; como foi criado tal personagem; porque em certo texto a narrativa obedece determinada ordem e não outra; se tal assunto pertence ou não ao “universo infantil” (aliás, o que seria mesmo esse aparentemente tão nítido “universo infantil”?) e coisas assim. Quando chega o intervalo, na hora do cafezinho, só aí, vêm as perguntas sobre ilustração: que técnica usei em tal livro; por que optei por usar duas linguagens visuais em certo trabalho; por que antecipei ou omiti tal cena em tal estória; qual o papel adequado para a aquarela e assim por diante.

Deve haver mil motivos originando essa situação, mas dois deles me parecem bastante prováveis: a) as pessoas costumam ter uma formação mais sólida em literatura que em artes plásticas e b) as pessoas, talvez por isso mesmo, acabam não valorizando muito os desenhos, acham que o texto é mais importante, acham que ilustrações são uma espécie de enfeite e que indagar sobre o assunto não passa de mera curiosidade pessoal.

Se o leitor perguntar a um professor quantos escritores ele conhece, vai ouvir (com um pouco de sorte) uma lista de nomes, antigos e atuais. Se perguntar sobre artistas plásticos a lista vai murchar completamente.

Essa falta de informação sobre imagens, claro, não contribui para o exame e avaliação das ilustrações de um livro pois, afinal, se existe uma frondosa, complexa e colorida árvore formada pelas artes plásticas (pintura, escultura, desenho, gravura, cenografia, fotografia etc.) a ilustração é, sem dúvida, uma de suas ramificações.

Como o assunto é muito amplo, vou tentar colocar algumas questões e adotar certas posições no intuito de, sem querer ser conclusivo, alimentar uma discussão sobre o tema ilustração de livros[3] .

 

1) Exposições de grande tradição como a “Bienal de Ilustração de Bratislava” ou a “Exposição da Feira de Bolonha” costumam expor e premiar ilustrações sem tocar na questão do texto. Observamos lindos desenhos mas não conhecemos os textos ilustrados. Como saber, então, se essas ilustrações são boas ou não? Como saber como dialogam, se é que dialogam, com o significado do texto? Como saber se acrescentam, ou não, significado ao texto? Como saber, em que pese serem tecnicamente bem realizadas, se são óbvias ou não? Como saber a forma com que se relacionam com a mancha do texto dentro da página? Como saber como tal e tal situação, fundamental na estrutura do texto, foi resolvida?

Na minha visão, se essas exposições são super interessantes no sentido de mostrar originais, apontar novas técnicas etc, são, por outro lado, incapazes de distinguir boas e más ilustrações.

Um desenho simples, feito com poucos traços, sem maiores pretensões técnicas pode ser, sempre a meu ver, infinitamente melhor ilustração do que um desenho rebuscado, construído a partir de uma técnica requintadíssima, mas que em relação ao texto só consegue ser redundante.

Nada contra, evidentemente, que ilustrações sejam expostas como pinturas. Esquecer, porém, as diferenças essenciais entre os dois gêneros me parece um tremendo equívoco. Pinturas não têm textos como referência, não foram feitas para serem impressas e nem para ocuparem, antes de qualquer coisa, páginas dentro de um livro.

 

2) Fica difícil falar em ilustração sem lembrar que, necessariamente, um livro ilustrado, ao nível da linguagem[4] é composto de, pelo menos três sistemas narrativos que se entrelaçam: a) o texto propriamente dito (sua forma, seu estilo, sem tom, suas imagens, seus motivos, temas etc); b) as ilustrações (seu suporte: desenho? colagem? fotografia? pintura? e também, em cada caso, sua forma, seu estilo, seu tom etc) ; c) o projeto gráfico (a capa, a diagramação do texto, a disposição das ilustrações, a tipologia escolhida, o formato etc.).

Examinando bem, há livros em que esses três sistemas têm autoconsciência e procuram o diálogo e outros em que isso não ocorre.

 

3) É importante notar que um mesmo texto dado para dez ilustradores terá sempre dez soluções diferentes. Caberá ao editor, e este, a meu ver, no caso do livro para crianças, é um de seus papéis mais importantes, escolher o ilustrador que, com seu trabalho e sua criatividade, possa ampliar o potencial significativo do texto.

 

4) É impossível negar que todo o texto ilustrado vai, necessariamente, receber interferência de suas ilustrações. A energia, a leitura (ilustrar é interpretar), o imaginário, a linguagem, as cores, o clima, a técnica, as referências icônicas, tudo o que o ilustrador fizer, vai alterar e interferir na leitura (e no significado) do texto.

Mal comparando, é como um pianista acompanhado pelo contrabaixo. Os dois instrumentos, as idéias dos dois músicos, as referências e a cultura musical de cada um, tudo vai entrar na construção do som. Dependendo da música, o solo predominante será de um ou de outro instrumento. Mesmo quando o solo é feito pelo piano tendo por trás o contrabaixo este, de repente, cresce enquanto o piano fica só na base. De repente, parece que ouvimos dois contrabaixos tocando. É o piano imitando o baixo. Outras vezes, o baixo vai para o agudo e finge ser um violão.

Algo parecido pode acontecer, em graus diferentes, entre o texto e as imagens de um livro.

Um autor ou editor que pretenda publicar um texto sem interferências deve publicá-lo sem ilustrações. O texto, em todo caso, continuará sujeito às influências do formato, do papel, do tipo de letra (um livro sobre computação e outro sobre floricultura exigem, em princípio, tipologias diferentes), da capa, da qualidade de impressão etc.

 

 

 5) Vamos agora imaginar a seguinte situação: o carro quebra numa noite escura. O leitor acende a luzinha do teto, vasculha o porta-luvas e acha o manual de instruções do veículo. Descobre, faz de conta, que o manual não tem imagens mostrando as partes do painel, o motor, os pneus, nada. Todas as informações vieram por escrito e ainda por cima em corpo 8, ou seja, num tamanho de letra bem miúdo!

Eis um exemplo onde a linguagem visual ganha força. Uma descrição verbal do painel, por remeter à abstração, é incomparavelmente mais complicada do que um simples desenho esquemático com umas setinhas.

Agora, suponhamos que a companhia telefônica decidiu fazer uma lista diferente: no lugar do convencional texto com nomes e endereços, optou-se por colocar a foto do rosto e da casa de cada assinante. Imagine a confusão: – Fulano não usava barba? Antes ela era tão magrinha! Será que esse careca de bigode é ele? Mas a casa dela não tinha uma árvore na frente?

Fora isso, as tais listas ficariam imensas.

Eis um caso em que a linguagem visual, concreta e direta, pode ser bastante inadequada.

Tudo isso importa quando pensamos em ilustração de livros. Como, por exemplo, identificar, dentro de um determinado texto, as situações que, em princípio, não devem ser ilustradas (seja por serem literárias[5] , seja por serem explícitas demais[6] , o ideal é deixar sua construção para a imaginação do leitor), de outras onde as imagens podem e devem crescer, deitar e rolar?

 

6) Na literatura infantil há textos que prescindem da imagem e outros onde texto e imagem são indissociáveis. O que acontece quando um texto que prescinde de imagem é ilustrado? Seu universo de significação é alterado? Como funciona a parceria da palavra com a imagem na construção da narrativa? Falando de crianças: uma criança de 6 anos, recém alfabetizada, precisa de ilustrações que a ajudem a compreender o texto. Três anos depois, já lendo com fluência, as ilustrações teriam para ela exatamente que função?

 

7) Outro aspecto vale a pena ser ressaltado: que tipo de texto, afinal, vai ser ilustrado? A questão é imensa mas pelo menos uma diferenciação bem genérica é possível fazer: a) há textos didáticos, ou seja, textos com motivação utilitária, que pretendem transmitir informações objetivas sobre determinado assunto e necessitam de atualização periódica (novas informações, métodos e teorias vivem surgindo) e b) literários, ou seja, resumindo[7] , textos com motivação estética, que pretendem abordar os assuntos de forma (sempre) subjetiva, através da ficção e da linguagem poética e que, além disso, não são passíveis de atualização a não ser ortográfica.

 

Dois exemplos de textos nitidamente didáticos:

 

“AIMORÉS ou AIMBERÉS. Povo indígena extinto que, no séc.XVI, vivia em regiões hoje situadas em Minas Gerias, Bahia e Espírito Santo. Os Aimorés usavam botoques e eram mais altos e mais claros que os Tupinambás. Referidos genericamente como Tapuias, supõe-se que falavam língua do tronco Macro-Jê. Bastante aguerridos, não se deixavam seduzir e escravizar. Entraram em muitos conflitos com os colonos e índios a eles aliados.”[8]

 

Ou então

 

  “É muito grande a diversificação morfológica externa dos caules, sendo facilmente reconhecidos os caules aéreos: haste (cravo), prostrado (abóbora), estolho (morango), volúvel ( campânula), colmo (cana), estipe (palmeiras), tronco (mangueira, carvalho)”.[9]

 

Textos desse tipo apresentam um referencial preciso e objetivo. Para ilustrá-los, em princípio, é necessário recorrer a imagens impessoais e unívocas que não dêem margem a outras leituras, apelando, em geral, para a linguagem fotográfica, desenhos comprometidos com o “realismo”, com a documentação, esquemas etc.

Agora vejamos dois textos literários:

 

“Fada Sempre–Viva mora numa casa que também é fada: é um casa–fada com janelas encantadas. As janelas abrem–se sobre paisagens que imaginamos. A janela daqui mostra um lugar cheio de borboletas. A janela dali mostra um céu estrelado, com lua, dragão e astronauta. A janela do meio mostra o pensamento. E como o pensamento é coisa de repente, a janela abre para o branco. Quem olhar por ela pensa o que quer.”[10]

 

Ou então

 

“Era uma casa

Muito engraçada

Não tinha teto

Não tinha nada

Ninguém podia

Entrar nela não

Porque a casa

Não tinha chão

Ninguém podia

Dormir na rede

Porque na casa

Não tinha parede etc.” [11]

 

Textos assim primam pela subjetividade, pela ambigüidade, pela motivação estética, pelo estranhamento, pela plurissignificação, pela visão poética e particular da realidade. Como desenhar “objetivamente” uma casa que também é fada? Janelas que abrem para paisagens “que imaginamos”? Como demonstrar visualmente que o pensamento “é coisa de repente”? A que referência recorrer, por outro lado, diante de um poema que menciona e descreve uma casa sem teto, nem parede, nem chão?

Diante do texto literário (= poético), cada um de nós vai ter um sentimento, uma leitura e uma explicação. Imagine, agora, ilustrá-lo. As imagens, tal como o texto, também sairão, necessariamente creio eu, marcadas pela subjetividade, pela ambigüidade, pela plurissignificação, pelo enfoque poético, pela visão particular e pessoal da realidade.

Distinguir livros didáticos de livros de literatura pode ser um excelente começo para se pensar em ilustração de livros.

 



[1] Esse texto saiu de uma palestra feita no 11º COLE - Congresso de Leitura do Brasil - UNICAMP - 1997.

[2] Ricardo Azevedo, escritor e ilustrador, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.

[3] Há outros tipos de ilustração, por exemplo, a publicitária.

[4] Simplificando: um sistema de signos com função simbólica e capacidade de formar discursos que transmitem vários tipos de mensagem que, por sua vez, possibilitam a interação entre pessoas.

[5] Imagine ilustrar, literalmente, ao pé da letra, a “virgem dos lábios de mel”!

[6] Ao ilustrá-las, corremos o risco de fixar e empobrecer o potencial significativo do texto.

[7] Naturalmente não pretendo definir o que seja literatura, assunto complexo e cheio de teorias antagônicas, mas sim apenas apontar algumas de suas características mais evidentes.

[8] LARROUSSE CULTURAL. Dicionário temático. São Paulo, Nova Cultural, 1995.

[9] CESAR, SEZAR. Biologia 2. 4ª ed. São Paulo, Atual, 1984, p.20.

[10] ORTHOF, Sylvia. A Fada Sempre–Viva e a Galinha–Fada. São Paulo, FTD, 1994, p.4 e 5.