A didatização e a
precária divisão de pessoas em faixas etárias: dois fatores no processo de
(não) formação de leitores[1]
“A ciência é
incapaz de resolver os mistérios finais danatureza,
porque nós somos parte da natureza e, portanto, do mistério que tentamos
resolver.”
Max Plank
“A
leitura do mundo antecede a leitura da palavra”
Paulo
Freire
É imprescindível
compreender e enfrentar a questão da formação de leitores, para que o Brasil
possa se desenvolver como sociedade e sair, definitivamente, da situação de
desigualdade social em que se encontra.
As dificuldades,
entretanto, são muitas e de diferentes ordens.
Há problemas conjunturais tais como a
existência de numerosos pais analfabetos ou semi-analfabetos; famílias
dependendo do trabalho infantil para poder sobreviver; pessoas morando em
casas, por vezes de um só cômodo, sem espaço e iluminação adequados para a
leitura.
Há o preço do livro,
alto para os padrões nacionais de renda, e a quase inexistência, fora dos
grandes centros, de livrarias e
bibliotecas.
Há o contato de crianças
com adultos – pais e professores – que, apesar de alfabetizados, não são
leitores.
Há, além disso, questões
teóricas, não menos importantes, como a da própria conceituação do que seja a
leitura ou a da determinação das implicações cognitivas envolvidas na aquisição
da escrita.
É razoável afirmar, em todo o caso, que
crianças e jovens com uma situação social minimamente equilibrada e que, por
sorte, mantenham contato com adultos leitores – referimo-nos a leitores de fato
e não apenas gente alfabetizada – tenham boas chances de também se tornarem
leitores.
Em compensação,
dificilmente vão se tornar leitoras crianças, mesmo as socialmente
privilegiadas, que tenham contato com adultos – sejam eles pais, parentes ou
professores – que recomendam e elogiam a leitura, indicam nomes de livros e
escritores “clássicos”, defendem a importância dos livros mas, na verdade, não
são leitores, não apreciam a literatura, nem sequer sabem usar livros. São
apenas “politicamente corretos”.
Leitores são pessoas que sabem diferenciar uma obra
literária de um texto informativo; pessoas que lêem jornais mas também lêem
poesia; gente, enfim, que sabe utilizar textos em benefício próprio, seja para
receber informações, seja por motivação estética, seja como instrumento para
ampliar sua visão de mundo, seja por puro e simples entretenimento.[2]
Como sabemos, devido, entre outros fatores, ao número
pequeno de livrarias e bibliotecas, a escola, no Brasil acabou se tornando um
grande espaço mediador da leitura. É na escola que a maioria das crianças vai
ter seu primeiro contato com o livro.
Entre os vários e complexos problemas resultantes da
mediação escola-leitura, pretendemos, neste breve artigo, salientar dois: a
didatização do livro e a apresentação de um mundo onde as pessoas estão
divididas em faixas de idade.
Infelizmente, muitas de nossas crianças – e boa parte
dos adultos –ainda confunde livros didáticos com livros de literatura.
Nas camadas mais pobres da população, a situação é
bastante grave. Crianças pobres só têm acesso quase que exclusivamente aos
livros e textos didáticos e informativos, fornecidos gratuitamente pelas
escolas públicas. Para elas, portanto, o
livro é sinônimo de escola, informações e lições.
Em outras palavras, ao que parece, boa parte de nossas
crianças é levada a acreditar que todos os livros existentes são necessária,
intrínseca e essencialmente didáticos, ou seja, tratam de um ramo específico do
conhecimento (de uma determinada matéria) e contêm regras, leis, métodos,
lições e informações unívocas que precisam ser aprendidas.
Abrindo um parênteses, em nossa sociedade – pelo menos
em seus estratos organizados – muitos adultos, diante de uma criança,
aparentemente só conseguem enxergar um papel a cumprir: o de “professor”. Por
analogia, dentro dessa concepção, só haveria espaço para um tipo de livro: o
que “ensina”. Uma das implicações dessa postura é a apresentação da infância
como sendo formada por seres imaturos, incoerentes, egoístas, irracionais,
indisciplinados, sem discernimento, selvagens, sem juízo, impulsivos,
caprichosos, inseguros, parciais, desiquilibrados, indisciplinados,
inexperientes, irriquietos, irresponsáveis, ignorantes e errados por princípio,
indivíduos cegos com relação às coisas da vida e do mundo, que precisam mudar,
crescer, ser domados e assim, finalmente, amadurecer e compreender a
“realidade”, as regras complexas e a sabedoria líquida e certa do mundo adulto.
O mundo adulto, por sua vez (e em
oposição), seria composto por seres maduros, coerentes, altruístas, sérios,
racionais, disciplinados, com discernimento, civilizados, ajuizados, comedidos,
controlados, razoáveis, seguros, imparciais, isentos, equilibrados,
disciplinados, capazes de distinguir a “realidade” da “fantasia”, experientes,
quietos, responsáveis, sábios e corretos por princípio (!).
O resultado dessa tradição, dessa
visão do que seria o universo e a “alma infantil” é a apresentação e descrição
de um mundo bastante idealizado, regido por normas de conduta abstratas e
pré-concebidas, onde a priori,
independentemente de tudo, adultos são sempre equilibrados e coerentes,
contradições e ambigüidades inexistem na idade madura e realidade e razão,
nessa faixa de idade, são sempre nítidas e sob controle. Em tal mundo, adultos
são identificados como seres previsíveis e lógicos em busca de sua “natural”
integração ao status quo. Naturalmente,
num contexto assim, várias tendências intrinsecamente humanas,
independentemente de faixas etárias, tais como o egocentrismo, a incoerência, a
passionalidade, a parcialidade, a busca do prazer, a curiosidade, a dúvida, a
irreverência, a predisposição de representar e a vontade, às vezes irracional,
de jogar, brincar e experimentar, – todos, por sinal, elementos ligados à
subjetividade e à particularidade – ou
não existem ou são condenados e substituídos pelo auto-controle, pelo
equilíbrio, pela racionalidade, pela coerência, pela imparcialidade, pela
objetividade, pela isenção, pela sabedoria e pelos "bons"
sentimentos.
Com a idealização e, mesmo, a
desumanização do ser adulto, cria-se uma espécie de fosso separando crianças e
adultos, como se existissem dois estados etários sólidos, homogêneos e de
contorno absolutamente nítido e, por conseguinte, como se entre crianças e
adultos não houvessem pontos comuns.[3]
Mas voltemos aos livros.
Como se sabe, existem diversos tipos de livros. Há,
por exemplo e para ficar em nosso assunto, uma imensa diferença entre livros
didáticos e algo que possa ser chamado de literatura infantil.
Livros didáticos são utilitários por definição (sua
utilidade em geral é apresentada já na capa: Gramática, História, Ciência,
Matemática); têm compromisso com as matérias do currículo oficial; apresentam
discurso impessoal e objetivo; pretendem transmitir informações; pretendem ser
unívocos (são preparados para que seus leitores cheguem às mesmas conclusões);
necessitam de atualização períodica, afinal, o conhecimento e as metodologias
mudam com o passar do tempo. Veja-se o
seguinte texto:
“Nem todos os homens teem a mesma côr. Não é igual a sua maneira de
viver em toda a parte. Teem costumes e hábitos diferentes (...) Os negros matam
as aves e os animais com flechas, porque
não teem espingardas. Os povos selvagens precisam as vezes, de ser castigados, porque são maus. Não sabem lêr e
escrever porque não querem. Eu não
quero comer que não tenho fome. Tu
não comerás que não tens fome. Êle
comeria porque tem fome. Estuda que aprenderás. Estudarei porque preciso.”
Trata-se de um texto didático português do princípio
do século XX que demonstra o quanto a atualização periódica é uma necessidade
básica para o livro didático.[4]
A nosso ver,
textos didáticos são essenciais para a formação das pessoas, têm seu
sentido e seu lugar, mas não formam leitores. É preciso que, concomitantemente,
haja acesso à leitura de ficção, ao discurso poético, à leitura prazerosa e
emotiva. É necessário que alguém chore, sonhe, dê risada, fique emocionado,
fique identificado, comungue, enfim, com o texto, para que ocorra a formação do
leitor.
Falar em literatura, como sabemos, significa falar em
ficção e discurso poético, mas muito mais do que isso. Significa abordar
assuntos vistos, invariavelmente, do ponto de vista da subjetividade. Significa
a motivação estética. Significa remeter ao imaginário. Significa entrar em
contato com especulações e não com lições. Significa o uso livre da fantasia
com forma de experimentar a verdade. Significa a utilização de recursos como a
linguagem metafórica. Significa o uso criativo e até transgressivo da Língua. Significa
discutir verdades estabelecidas, abordar conflitos, paradoxos e ambigüidades
(um príncipe transformado num sapo ou uma menina, Raquel, que em sua bolsa
amarela guarda a vontade de crescer e de ser um menino ou uma personagem, Peter
Pan, que se recusa a crescer). Significa, enfim, tratar de assuntos tais como a
busca do auto-conhecimento, as iniciações, a construção da voz pessoal, os
conflitos entre gerações, os conflitos éticos, a passagem inexorável do tempo,
as transgressões, a luta entre o caos e a ordem, a confusão entre a realidade e
a fantasia, a inseparabilidade do prazer e da dor (um configura o outro), a
existência da morte, as utopias sociais e pessoais entre outros.
São assuntos, note-se, sobre os quais não há o que
“ensinar”. Não são constituídos por informações atualizáveis ou mensuráveis. São
temas, isso sim, diante dos quais adultos e crianças podem apenas compartilhar
impressões, sentimentos, dúvidas e experiências.
E isso nos leva ao segundo dos dois pontos que aqui
tentamos discutir de forma breve.
Se a divisão de pessoas em faixas etárias – o
pressuposto de que grupos de idade apresentam, em princípio, as mesmas
características e seriam de alguma forma homogêneos – faz sentido quando pensamos em aulas de ginástica
ou mesmo se levarmos em consideração os conteúdos das várias matérias
escolares, organizados e subdivididos em graus – por exemplo da 1ª à 8ª série – quando falamos da vida mesmo e da
experiência humana – ou da literatura –,
a paisagem é muito outra.
É preciso lembrar o óbvio: uma criança é um ser humano
e não uma categoria abstrata e lógica. Logo, está exposta a inúmeros fatores:
contextos sociais e familiares, seu próprio temperamento, acasos e acidentes,
sentimentos, experiências concretas de vida, traumas, concepções culturais, entre
outros fatores.
É possível encontrar uma criança mais experiente que
um adulto. Qualquer uma abandonada, e são tantas por aí!, que viva debaixo de
uma ponte, pode ter muito a contar sobre a experiência e os limites do ser
humano. Qualquer criança alfabetizada, por outro lado e em tese, pode ensinar
adultos analfabetos.
É preciso lembrar que um homem de oitenta anos está em
pleno processo de aprendizado pois nunca teve oitenta anos antes.
É preciso lembrar que, em certas camadas da população,
é possível encontrar avós de trinta anos de idade, mães com doze anos e jovens
da mesma idade que já trabalham e ajudam ou mesmo sustentam a casa.
É preciso lembrar que em certas camadas da população,
é possível encontrar jovens de vinte anos ou mais, que nunca trabalharam nem
têm qualquer noção do que seja uma sociedade, a política ou a cidadania.
É preciso dizer que as implicações cognitivas impostas
pela aquisição da escrita e da leitura são fatores a serem levados
É preciso ainda lembrar que adultos e crianças
apresentam algumas diferenças conjunturais e muitas semelhanças estruturais:
têm sentimentos, são mortais, são sexuados, sentem fome, prazer e dor física,
sonham, podem confundir realidade e fantasia, podem sentir medo, gostam de ser
bem tratados, e assim por diante.
Vejamos a descrição feita por Chrètien de Troyes, no
século XII, de Cliges, o heróico personagem de sua obra Cliges ou a que fingiu de morta. Apaixonado pela bela Fenice, noiva e, depois,
esposa de seu tio, o rei, Cliges enfrenta a tudo e a todos, usa da coragem, da
magia e do ardil e acaba ficando com a moça para si.
“Para evocar a beleza de Cliges, quero fazer uma
descrição que será apenas uma breve passagem. Ele estava na flor da idade, pois
tinha cerca de quinze anos. Era mais belo e gracioso que Narciso, que sob o
olmo viu na fonte sua forma a ao vê-la tanto a amou que morreu, conforme
contam, porque não a pôde alcançar.(...) Tinha nariz bem feito, boca bela, e
era de tão grande estatura que Natureza não o poderia ter feito melhor, pois em
um único colocara o que dá em parcelas a todos. Conhecia melhor a esgrima e o
arco que Tristão, sobrinho do rei Marc, e melhor também a caça com pássaro e a
caça com cães. Nenhuma qualidade lhe faltava.”[5]
Como comparar o jovem Cliges com um adolescente atual,
retratado, em geral, como um ser cheio de espinhas usando aparelho de dentes,
um “aborrescente”, infantilizado, irresponsável, subestimado, confuso e, apesar
de escolarizado, alheio a si mesmo e aos assuntos da vida e do mundo?
É preciso reconhecer, convenhamos, de uma vez por
todas, que a divisão de pessoas em faixas etárias é apenas um procedimento
histórico, cultural e ideológico, que vem sendo tratado, equivocada e
infelizmente, como “natural”.
Que capacidades estão virtualmente
disponíveis nas crianças e jovens, e quais delas realmente estão sendo
desenvolvidas hoje? O que ocorre com pessoas que têm suas potencialidades
bloqueadas?
As respostas a essas indagações
talvez ajudem a explicar o assassinato do índio Galdino por jovens estudantes
do segundo e terceiro grau, estudados, diplomados e, paradoxalmente,
preconceituosos, alienados e infantilizados.
Gostaríamos de lembrar as palavras
ditas em 1681 por um certo Marechal de Cailliére, que criticava as novas
concepções educacionais que dariam início às escolas modernas.
“Não basta conhecer a ciência ensinada no colégio. Há
outra ciência que nos ensina como devemos nos servir daquela (...) uma ciência
que não fala nem grego nem latim, mas que nos mostra como utilizar essas
línguas. Encontramo-la nos palácios, entre os príncipes e os grandes senhores. Ela
esconde-se também nas ruelas de mulheres, deleita-se entre as gentes de guerra
e não despreza os comerciantes, os lavradores ou os artesões. Ela tem por guia
a prudência e, como doutrinas, as conversações e a experiência das coisas”[6]
Concluindo, a crença num mundo abstrato e higiênico,
dividido em faixas etárias, mundo que simplesmente ignora a experiência das
coisas, concreta e individual, vivida por cada um de nós, somada à confusão
existente entre os diferentes tipos de livros produzidos – confusão, diga-se de
passagem, alimentada justamente pelas concepções que arbitrariamente dividem
pessoas em faixas de idade – podem ajudar muito a estabelecer “fatias” do
mercado editorial ou a facilitar a organização burocrática das escolas, mas, a
nosso ver, não têm contribuido para formar cidadãos criativos, participantes,
dotados de senso crítico e visão humanista da vida e do mundo. Nem para a
formação de leitores, ou seja, pessoas que saibam utilizar livros em benefício
próprio.
[2] C.f. nosso artigo “Aspectos da Literatura Infantil Brasileira” in Revista Releitura, Belo Horizonte, 2001, nº 15.
[3] C.f. Nossa dissertação de mestrado “Como o ar não tem, cor se o céu é azul? Vestígios do contos populares na literatura infantil” disponível na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo.
[4] Temos o livro mas, infelizmente, o mesmo não tem capa nem informações bibliográficas.
[5] TROYES, Chrétien. Romances da Távola Redonda. São Paulo, Martins Fontes, 1991, p. 93.
[6] ARIÈS, Phillipe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro, Guanabara, 1981, p..242.