Imagens iluminando
livros·
Ricardo Azevedo
1
Vou falar de alguns
livros que, com suas imagens, marcaram minha infância e, acho, influíram em
minha decisão de me tornar desenhista.
O primeiro foi um livro
velho, um grandão de capa dura, grosso e cheio de desenhos coloridos, impresso
em Portugal no começo do século. Não trazia título, nome do autor, editora,
data de impressão, nada. Nenhuma referência bibliográfica. Suas páginas eram
impressas só na frente com os versos permanecendo em branco. Com certeza, eram
gravuras soltas usadas como material escolar, coisa do tempo dos meus avós, que
ficaram guardadas e, mais tarde, meu pai juntou e mandou encadernar com um
título genérico na lombada: Livro de Gravuras.
Ainda não sabia ler
quando descobri esse livro. Lembro-me de ficar folheando suas páginas, da
primeira à última sem pular uma, encantado pelos desenhos. Cada prancha tratava
de um assunto e o conjunto das imagens formava uma espécie de inventário: nossa
mobília, nossas louças, intrumentos agrícolas, intrumentos musicais,
ferramentas, coisas diversas, pessoas da família, animais domésticos e
selvagens,árvores, plantas, flores, frutas, povoados, habitações, as estações
do ano, as invenções modernas, fenômenos atmosféricos, o mar, armas antigas e
modernas, os meios de comunicação, jogos infantis, tipos de raças humanas e por
aí afora. Este livro velho foi um verdadeiro tesouro para mim. Durante anos,
quando não tinha nada para fazer, sentava na sala, abria o calhamaço e ficava
olhando e olhando. Conforme crescia e aprendia coisas, suas imagens iam
ganhando novos e outros significados. Não cansava de examinar aquelas frutas,
aquelas flores, animais e objetos. Pensava: – Como é possível alguém desenhar
tão bem? Minha vidinha de criança pequena ganhava sentido através de tantas
imagens. Era como se o livro me revelasse que todas as coisas – eu inclusive –
faziam parte de uma imensa e riquíssima estrutura. Tudo no mundo parece que se
interligava e essa sensação me apaziguava e ao mesmo tempo me fascinava.
Com o Livro de
Gravuras, hoje eu vejo, tomei consciência do tamanho do mundo e de quanta
coisa existe e merece ser vista. Recebi também através dele – afinal suas
imagens mostravam detalhadamente um cotidiano de outra época – uma primeira
visão do Tempo e da História.
Havia, preciso dizer, no
pé de cada página, uns textinhos compostos em corpo pequeno. Nunca os li. O
verdadeiro e maravilhoso texto do Livro de Gravuras eram, sem dúvida,
suas imagens.
2
Outro livro
inesquecível: A cidade dos anõezinhos de Willian Dohaney, Edições
Melhoramentos, sem data.
Adorava este livro de
capa amarela não tanto pelo texto. O tal Dohaney escrevia e desenhava mas era
nos desenhos que seu trabalho mais brilhava. Suas ilustrações cheia de cores
eram muito bonitas e generosas.
Imagine se, sem que a
gente percebesse, existisse um bando minúsculo de anõezinhos vivendo e
usufruindo às escondidas de nosso espaço cotidiano. Era essa, mais ou menos, a
idéia de onde o autor partiu para realizar seu trabalho.
Os anõezinhos moravam
num terreno baldio dentro de uma bota. Brincavam de patinação em cascas de
banana. Usavam lápis como estacas para prender o varal. Trepavam em flores como
se fossem árvores. Enfrentavam problemas com os cachorros, passarinhos, abelhas
e besouros. Usavam dedais como panelas. Faziam excursões para dentro da casa
das pessoas quando estas saíam e, nessas ocasiões, tomavam banho de piscina na
pia do banheiro e ainda surrupiavam morangos da mesa ainda posta.
As imagens do livro
mostravam esses espaços e objetos realísticamente, de tal forma que conseguiam
criar, pelo menos para mim, a sensação de que tudo aquilo podia mesmo
acontecer. Minha cabeça de menino viajava. Olhava e olhava aqueles desenhos.
Achava-os – e eram mesmo – incrivelmente bem feitos. Lembro-me de muitas vezes
me perguntar como uma pessoa conseguia desenhar assim.
3
Preciso falar de um
outro livro de imagens.
Tinha eu uns oito ou
nove anos de idade e estava fuçando os livros de meu pai quando achei este,
fininho, escondido entre outros num lugar bem alto da estante.
Era um documento
fotográfico com o título Jamais esqueceremos, sem nome de editora nem
data de publicação, sobre os campos de concentração nazistas. Nunca tinha visto
nem imaginado nada parecido. As fotos, em preto e branco, mostravam gente
esquálida, gente mutilada, cadáveres empilhados no chão, crianças mortas,
câmaras de tortura, tudo muito ruim. Fui perguntar ao meu pai o que era aquilo.
Ele falou da guerra, dos campos de prisioneiros e dos judeus. Mandou guardar o
livro. Disse que não era coisa para criança.
Tenho certeza de que não
era coisa nem para criança nem para adulto. Impossível, independentemente de
faixas etárias, não ficar marcado por imagens como aquelas. Foi, acho, meu
primeiro contato com esse outro lado do mundo, da vida e dos homens. Se fôsse
um texto sobre o assunto eu, menino ainda, teria dormido antes de terminar o
primeiro parágrafo. As imagens fotográficas, entretanto, eram implacáveis. Não
respeitaram minha idade, meu grau de instrução, minha inocência, nada. Entraram
em mim como uma espécie de luz.
Mais tarde, assisti
filmes, li romances, entrei em contato com reportagens e documentos sobre o
assunto, mas até hoje, quando se fala em II Guerra Mundial, as primeiras
imagens que me vêm são em preto em branco tiradas de um livro fininho escondido
no alto de uma estante.
4
Agora, um livro em dois
volumes: os Primores da Pintura no Brasil, uma retrospectiva de nossa
pintura organizada por F. Acquarone e A. de Queiroz Vieira e publicada em 1942.
O tipo da publicação luxuosa, com capa dura, vinhetas desenhados por Belmonte e
reproduções de primeiríssima qualidade, coladas, uma a uma, nas páginas. Nos
volumes não consta nome de editora.
Consultei muito esses
dois volumes elegantes durante minha infância. As pinturas, que iam de Franz
Post ao jovem Portinari, passando por Almeida Junior, abordavam tudo o quanto é
assunto: históricos com cenas heróicas e patrióticas; imagens bíblicas;
paisagens; naturezas mortas; cenas rurais e urbanas. Alguns trabalhos eram
muito bonitos mas o que mais me agradava nos Primores eram os quadros
com mulheres nuas. Ficava espantado de poder pegar aqueles livros, espiar
aquelas mulheres todas e ninguém falar nada. Foram as primeiras mulheres nuas
que vi na vida. A maioria em pose distraída, como se não soubessem que estavam
sendo pintadas.
Viviam deitadas na cama,
preguiçosas, lendo livros e cartas com os seios de fora, tomando banhos de
cachoreira ou mesmo tocando piano completamente à vontade. Olhava, olhava,
olhava e pensava com meus botões: – Deve ser muito bom conhecer e saber
desenhar tudo isso!
5
Aproveito para falar
sobre o trabalho de Belmonte.
A Folha da Manhã publicou
entre 1939 e 42, acho, umas brochuras reunindo caricaturas e charges do grande
desenhista, a maioria sobre a guerra, todas publicadas anteriormente no jornal.
Na época, alguém da família mandou encadernar e anos depois o material caiu em
minhas mãos. Adorava esses livros. Os assuntos e os personagens – Stalin,
Hitler, Getúlio, Chamberlain, Churchill, Selassié, Franco etc. – eram
praticamente desconhecidos e de nenhum interesse para mim, menino de menos de
dez anos.. Aquelas imagens, entretanto, tinham uma força extraordinária. O
desenho de Belmonte consegue ser elegante, despojado e expressivo ao mesmo
tempo. Era a mágica dos desenhos quem me fazia procurar aqueles livros,
despertando em mim um inesperado interesse em tão complicados assuntos de política
internacional. Admirava o traço, as texturas, o humor, as cenas criativas, as
caricaturas que pareciam ter vida. Tenho certeza de que Belmonte está entre os
grandes artistas brasileiros e, em sua área, entre os melhores do mundo. Pena que tão pouca gente ainda se
lembre dele.
6
Li bastante revistinha
quando era criança. Cavaleiro Negro e seu alterego Dr. Robledo, Flecha
Ligeira, Bronco Piller, Arqueiro Verde, Capitão Marvel
(quem lembra do Dr. Silvana?), Texas Kid, Brucutu, Ferdinando
e Luluzinha, entre outros. Gostava muito do Fantasma e do Mandrake, mais
pelas histórias que pelos desenhos. Nunca fui, porém, nenhum fanático por
quadrinhos com uma exceção: As aventuras de Tintin.
Ganhei meu primeiro
Tintin com uns nove ou dez anos de idade. Era em inglês e eu não entendia nada:
The crab with the golden claws – em capa dura – Ed. Methuen, 1958.
Os desenhos me
fascinaram tanto que, mesmo sem poder ler o texto, logo passou a ser um dos
meus livros prediletos. Ficava folheando o álbum, olhando aquelas imagens e
tentando decifrar a história. Senti pela primeira vez na vida e na pele a
necessidade urgente de conhecer outra língua. Mais tarde, arranjei outro álbum,
esse em espanhol – Aterrizage en la luna – também capa dura – Ed.
Juventud, 1959. Foi uma maravilha. Era difícil, mas dava para entender tudo.
Admirei ainda mais os desenhos – neste volume, particularmente bem acabados – e
dei boas risadas com o capitão Haddock – desde então meu personagem predileto –
e com as trapalhadas dos irmãos Dupont e Dupond. Descobri, em seguida, que estavam vendendo no
Brasil as aventuras completas editadas, creio, em Portugal pela editora
Flamboyant. Mais tarde foram publicadas pela Record. Só sei que, aos poucos,
fui comprando toda a coleção e mergulhando nesse universo maravilhoso criado
por Hergé. Personagens como o capitão Haddock e o professor Girassol são
simplesmente fantásticos. Mas, e os outros? General Alcazar, Rastapapoulos,
Castafiore, dr. Müller, o terrível Abdallah... Quantas vezes me peguei com um
álbum na mão, admirando sua arquitetura, suas histórias, seu humor
delicado? Quantas e quantas vezes não
parei para admirar seus desenhos?
7
Teoricamente, o trabalho
de um escritor deveria ser marcado por certos livros que leu e o trabalho de um
ilustrador por certas imagens que viu. Na prática, não creio que as coisas
funcionem assim. É possível que um escritor seja influenciado, por exemplo,
pela concepção visual de algum artista plástico, por determinados filmes ou
pelo teatro. Da mesma forma, é perfeitamente possível encontrar um artista
plástico marcado por certos livros que
leu.
A diferença entre o que
absorvemos através de textos e o que absorvemos através de imagens precisaria,
a meu ver, ser melhor estudada.
Para ficar num exemplo:
a maioria das escolas até hoje ignora solenemente a importância, as
peculiaridades e as possibilidades do conhecimento transmitido através de
imagens.
Com os pontos levantados
neste pequeno artigo pretendi, em todo o caso, falar da força poderosa, e
muitas vezes esquecida, das imagens como transmissora insubstituível de
conhecimento; da importância das imagens na formação intelectual e ética das
pessoas; da influência imensa e difícil de medir das imagens na construção da
“visão de mundo” de cada um de nós.
· Publicado na Revista Releitura, Publicação da Prefeitura de Belo Horizonte “Pensar BH”- Belo Horizonte _ Dezembro de 2002 – Nº 16