Pensando em ilustrações de livros[1]
Ricardo Azevedo[2]
Conta-se que Franz Kafka, o grande escritor checo de
língua alemã, andou, certa ocasião, negociando com uma editora a publicação de
seu texto A metamorfose. Um desenho
de capa foi feito. A obra conta a história de Gregório Samsa, que certa manhã,
vê-se na cama transformado num inseto. A partir disso, o ilustrador criou um
desenho mostrando uma espécie de homem-inseto. Segundo a narrativa, ao ver a
sugestão de capa, Kafka teria ficado furioso.
Fico imaginando o ilustrador chegando em casa com ar
desanimado e sua mulher perguntando: “Tudo bem?” e ele: “Que nada! Apareceu o
autor, um tal de Kafka. O cara deve ser meio doido. Escreveu sobre um homem
transformado num inseto mas disse que o livro não podia ter o desenho de
um homem transformado num inseto!”.
É dura a vida de um ilustrador. [3]
Antes do grande invento de Gutemberg, os livros eram
produzidos artesanalmente, manuscritos e desenhados um por um. Imagine o leitor
um livro de Botânica, repleto de árvores, flores, folhas, raízes e sementes de
diferentes tipos. Para cada nova edição,
era necessário copiar o texto à mão e desenhar literalmente tudo de
novo. Principalmente considerando as imagens – embora isso também pudesse ocorrer
com o textos – as cópias de cópias de cópias, feitas por diversos desenhistas,
acabavam, com o passar do tempo, ficando muito diferentes das ilustrações da
obra original. É que, além de eventuais falhas e lapsos, a personalidade, o
estilo e os critérios de cada desenhista interferiam no trabalho. Carvalhos
desenhados por fulano não pareciam com os desenhados por beltrano. Carvalhos
copiados dos de beltrano ficavam mais diferentes ainda.
Em suma, um tratado de Botânica ou Zoologia, por
exemplo, escrito na Grécia Antiga chegava, de cópia em cópia, na Idade Média
irremediavelmente alterado[4].
Fico imaginando o ilustrador medieval chegando em casa
com ar desanimado e sua mulher perguntando: “Tudo bem?” e ele: “Que nada!
Disseram que meus desenhos estavam errados, que as papoulas não são assim. Não entendo. Copiei igualzinho ao original
que me deram!”.
Ocorre que, como vimos, de cópia em cópia, a papoula
da última edição nada mais tinha a ver com a papoula do livro original.
Tento ressaltar que a transformação de um texto
escrito em imagens pode ser algo complexo que nem sempre obedece a regras
lógicas.
Uma frase cotidiana: “As ilustrações ficaram ótimas.
Fulano foi fiel ao texto.”
O que significa exatamente ser “fiel ao texto” ?
Um editor tem certo texto na mão. Convida um
ilustrador para criar as imagens. O ilustrador, por qualquer razão, não pode
pegar o trabalho. O editor procura outro profissional. Este utilizará a mesma
linguagem ou terá as mesmas soluções visuais que o primeiro teria? Obviamente,
não!
Um editor afirma: “Tal texto nasceu para ser ilustrado
por fulano.”
Outro editor diria o mesmo?
Miguel de Cervantes publicou a primeira parte de seu
maravilhoso Dom Quixote em 1605. Em termos de ilustração, o livro só apresentava a capa e uma ou outra
vinheta. Desde então, foram lançadas inúmeras publicações dessa grande obra.
Uma delas, foi produzida no século XIX e ilustrada pelo notável Gustave Doré.
Hoje, é difícil dissociar as imagens do Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel
escudeiro, criadas por Cervantes, dos desenhos e climas criados por Doré.
Pergunto: Cervantes aprovaria tais desenhos feitos trezentos anos depois da
criação de sua obra? Doré foi fiel ao texto?
O que significa ser “fiel ao texto” ?
Essa idéia aparece muitas vezes misturada com a noção de que todo e
qualquer texto possui uma única e determinada interpretação, um clima certo e
exato e uma verdade objetiva. Caberia ao ilustrador simplesmente descobri-la e
transmiti-la através de imagens.
Será verdade isso? Creio que não. O ilustrador é um
artista que, no máximo, dá a sua interpretação
visual a determinado texto, o que não é pouco!
Uma coisa é certa: todo ilustrador, em princípio,
interfere no significado do texto. A razão é simples: palavras tendem a ser
imprecisas. Palavras são entidades abstratas e virtuais que se realizam ou se
atualizam dentro de consciências. O texto diz: “a moça bonita”. O autor pensou
numa moça. O leitor, noutra moça. O ilustrador, noutra. Outro ilustrador,
noutra ainda.
Em tese, palavras possibilitam várias leituras. A
rigor, tantas leituras quanto o número de leitores. Um mesmo texto pode ser
lido racionalmente por um e emocionalmente por outro. Despertará em diferentes
leitores, diferentes sensações e interpretações. Isso sem falar na influência de diferentes modelos
culturais.
Pode ocorrer, por exemplo, que um ilustrador seja tão
subjetivo que sua leitura se afaste demasiadamente de uma certa visão
consensual (portanto superficial e vaga) do texto. Isso pode ser ruim. Isso pode
ser ótimo. Vai depender da premissa, da expectativa que havia sido estabelecida
para aquele trabalho.
Dizer qual o melhor caminho visual a ser adotado
diante de um texto significa dizer qual é o melhor a partir de uma determinada
premissa. Mude-se essa expectativa e novos caminhos surgirão.
Textos didáticos pretendem ensinar e transmitir informações de forma objetiva.
Por essa razão, sua linguagem costuma
ser neutra, precisa e impessoal, de modo a dar a menor margem possível a
interpretações. Livros didáticos pretendem que todos os leitores cheguem à uma
mesma e única conclusão.
Trata-se de uma premissa e de uma expectativa. Caso o
livro seja ilustrado, o ilustrador deve tentar seguí-las.
Na obra literária as premissas e expectativas são
outras. O comprometimento é com a ficção e com a poesia. O texto pode se dar ao
luxo de ser ambíguo, emocional, introspectivo, subjetivo e arbitrário. Pode ser
simbólico ou mágico. Se quiser, cria palavras. Se quiser, inventa um mundo
inexistente ou aborda o impossível.
Diante de um texto assim, o ilustrador erra sempre.
Erra, pois precisa transformar em imagens, cenas
abstratas, feitas no ar através de palavras e cheias, portanto, de
possibilidades significativas. Cabe ao ilustrador definir, tomar um partido,
descer do muro das possibilidades e optar.
Essa é a desgraça do ilustador de ficção e poeisa.
Essa é sua maravilha.
Quando constrói sua visão sobre determinado texto, o
ilustrador revela toda sua criatividade, sua cultura, sua técnica, seu corpo de
idéias e sua visão de mundo, oferecendo ao leitor a riqueza de seu imaginário.
Kafka tinha razão ao considerar que a imagem de um
homem-inseto era inadequada para ilustrar seu texto. Na tentativa de ser “fiel ao texto”, o
hipotético ilustrador confundiu textos didáticos com textos de ficção e fez uma
leitura literal e objetiva de um texto
plurissignificativo e subjetivo. Em outras palavras, tomou ao pé da letra um
texto simbólico que poderia ser lido, concomitantemente, do ponto de vista
existencial, psicológico, filosófico, sociológico, metafísico e político. Tudo
isso, repito, ao mesmo tempo! Tal capacidade de síntese e aglutinação, como
sabemos, costuma caracterizar e distinguir as grandes obras da literatura. Eis
porque são consideradas polissêmicas.
Caso aprovasse a referida capa, Kafka estaria
endossando uma leitura unilateral,
redutiva e mediocre de seu próprio texto.
Em princípio, no caso da ficção e da poesia, quanto
menos literal e objetiva for a leitura do ilustrador, mais próxima ela estará
de uma visão coerente e adequada da obra.
Tomar um texto ao pé da letra!
Isso pode nos
remeter ao universo da literatura infantil.
Muitos acreditam que ilustrações de livros para
crianças devem ser literais, seguir o texto o máximo possível ou, como nos
livros didáticos, procurar ser objetivas e tomar as coisas ao pé da letra.
Acredita-se também que, num livro para crianças, deve
haver uma sincronia rígida, mecânica e lógica entre texto e imagem. Em outras
palavras, que a ilustração deve estar sempre junta do texto que pretende
ilustrar.
São visões equívocadas.
Suponhamos um texto cuja história se passa
predominantemente dentro de uma casa e que sua personagem esteja, por qualquer
razão, passando por momentos tristes ou difíceis. Uma ilustração simbólica
mostrando a personagem caminhando sozinha, à noite, numa rua deserta, segundo a
visão literal, não serviria (confunde as crianças) pois não corresponderia à
leitura objetiva sugerida pelo texto.
Outro exemplo: em certo texto, a personagem traja
determinada roupa. Após caracterizá-la conforme o texto, o ilustrador, numa
cena que se passa noutro dia, resolve mudar sua vestimenta. Seria inaceitável
(confunde as crianças), segundo a mesma visão.
O texto descreve a moça como muito bonita. O
ilustrador desenha o quarto da moça, sua orelha, sua boca, seus pés, seus olhos
e sua sombra na parede, mas nunca seu rosto inteiro ou mesmo uma visão mais
abrangente do seu corpo. “Mas, e a moça bonita da história?”, perguntaria um
adepto da visão literal. “Desse jeito, não vai confundir a criança?”
Um último exemplo: ocorreu uma cena dramática no
texto. O ilustrador opta por mostrá-la não na página em que está narrada, mas
nas duas seguintes, retardando assim, para o leitor, o surgimento da cena e,
portanto, interferindo diretamente no ritmo da leitura e da própria narrativa.
Para muitos, mais uma vez, isso seria um atentado (confunde as crianças) à
sincronia.
Mas como acreditar que tais procedimentos possam confundir
crianças – refiro-me às que já dominaram a leitura (oito anos) – se no tempo em
que a gente vive a mesmas têm acesso a sistemas narrativos complexos muito
antes de serem alfabetizadas?
Nem conhecem o beabá e já estão habituadas, através da
televisão e do cinema, a acompanhar histórias onde várias narrativas se
entrecruzam. Sabem que, como na vida, personagens podem trocar de roupa sem
correr o risco de perder a identidade. Entendem que, mesmo de forma imprevista
e não descrita no texto, uma mosca pode pousar numa personagem. Ou que, por
vezes, o discurso pode ser simbólico. Ou que, além da trajetória da personagem,
existem outras trajetórias, pessoas e vidas. Percebem quando a câmera está
narrando e quando a câmera é um personagem (refiro-me a focos narrativos).
Podem não saber seus nomes, mas reconhecem procedimentos como a metáfora e a
metonímia, a analepse (ou flash back:
relatar eventos anteriores ao narrado), a paralepse (dar mais informação do que
o texto deu), a paralipse (dar menos informação do que o texto deu), a
metalepse (trazer novos planos narrativos ou criar diálogo entre diferentes
planos narrativos) e a anacronia (alterar a ordem dos eventos), entre outros.
Para essas crianças – repito, as já com domínio da
leitura, o que ocorre lá pelos 8 anos de idade –, um livro de ficção e poesia não precisa
trazer ilustrações que, a pretexto de buscar uma inexistente “fidelidade ao
texto”, só consigam ser óbvias, redutoras e previsíveis.
Para tais leitores, a meu ver, o que se espera são
imagens enriquecedoras e inesperadas que, somadas ao texto, consigam ampliar ao
máximo o universo de significação do livro como um todo.
[1] Texto revisto e ampliado de artigo publicado em ALVES, Maria Leila (org.) Linguagem e linguagens. Série Idéias 17. São Paulo, Fundação Para o Desenvolvimento do Ensino – FDE, 1993, p.45-48.
[2] Escritor e ilustrador
[3] Não sei se a história é verídica mas, para o desenvolvimento deste artigo, isso não tem importância.
[4] Sobre o assunto c.f. IVINS JR., W.M. Análisis de la imagen prefotográfica Trad.Justo G. Beramendi. Barcelona, Editorial Gustavo Gilli, 1975