Revista da Câmara Brasileira do Livro Agosto de 2007
Ilustrador e autor de
mais de uma centena de livros para crianças e jovens, vencedor de quatro
prêmios Jabuti –
o último deles por A Outra Enciclopédia Canina, em 1999 –, o paulista
Ricardo Azevedo lamenta que seu público se depare com cada vez mais obstáculos
frente ao interesse pela leitura. Ele acredita que, além da concorrência com as
novas mídias, o livro teve seu caráter lúdico e humanizador colocado na
berlinda por uma sociedade que tem dado valor apenas às atividades funcionais e
utilitárias. Para o escritor, pais e professores que não lêem também são um problema:
“Acho difícil um não-leitor formar leitores. Seria como um não-pescador se
meter a ensinar a pescar”
Panorama
Editorial – Hoje, a televisão e o computador colocam em segundo plano
ferramentas lúdicas típicas da infância, como a contação de histórias e as
brincadeiras com carrinhos e bonecas. Os livros perderam importância na
formação social e cultural das crianças? Por quê?
Ricardo Azevedo – É preciso separar livros técnicos de literatura e poesia. Creio que as
pessoas lêem, mas quase só livros didáticos, técnicos e utilitários, para assim
obter informações, aprender um novo programa de computador ou alguma técnica
ligada ao trabalho. O que não se lê é literatura e poesia. Não creio, porém,
que a obra literária tenha perdido sua força. Ela apenas precisa ser resgatada.
Por uma série de razões, como pais e professores que recomendam a leitura, mas
não lêem, as pessoas estão sendo afastadas da literatura e não sabem direito o
que ela é. Aí entra um pouco a questão da internet, das outras mídias, da televisão
e tal. Sozinho, como objeto, sem que se tenha uma cultura minimamente leitora,
o livro perde para a televisão; a pessoa nem o abre.
PE
– A falta do hábito da leitura, então, seria uma conseqüência do atual modelo
de vida social?
Azevedo – Uma
coisa está clara: nós vivemos num ambiente em que a técnica e o conhecimento
científico são extremamente valorizados. E esse ambiente não tem nada a ver com
literatura, que é feita de temas humanos, de experiências com a linguagem. O
modelo cultural que vivemos também não favorece a literatura, aliás, toda a
arte. Favorece a arte de mercado, só para vender. Tudo isso afastou as pessoas
dos interesses humanos. Muitas vezes já ouvi falar de pais que reclamam que a
escola adote a literatura e a poesia, alegando que não servem para nada. Além
disso, num ambiente técnico e utilitário como esse em que vivemos, é comum
perguntarem: qual a função da literatura? Eu sempre contra-ataco: qual a função
da saudade? Do sublime? Da amizade? Que função tem o homem? E a vida? Quem
disse que tudo tem uma função? Os livros técnicos e utilitários são muito
importantes, mas apresentam várias limitações: são impessoais, sempre tratam de
informações objetivas e, em geral, necessitam ser atualizados, pois as técnicas
se renovam. Uma síntese desse tipo de texto: “A água ferve a 100 graus”. Note
que ele não traz o sujeito que fala. Pois bem, o ser humano necessita de muito
mais que apenas informações. Aqui entram a literatura e a poesia. Elas trazem
discursos subjetivos, ou seja, vozes humanas; possibilitam experimentações que
podem ampliar os limites da linguagem. E mais, tratam de temas humanos
fundamentais e subjetivos como a busca do autoconhecimento, da identidade; a
dúvida entre realidade e fantasia; questões morais; as sempre complexas
relações com o outro; as utopias sociais e pessoais; a luta do velho contra o
novo; a luta pela construção da voz pessoal; a possibilidade da múltipla
existência da verdade; as relações entre o bem e o mal; as incoerências e
ambigüidades próprias do ser humano etc. São fundamentais e humanizadoras tanto
para a formação das pessoas como para, durante o resto da vida, elas terem
contato com textos que tratam desses assuntos.
PE
– O bibliógrafo José Mindlin disse, na cerimônia de lançamento do programa “Minha
Biblioteca”, parceria entre a Prefeitura de São Paulo e a CBL, que oferecer
mais livros às crianças é indispensável para que elas se interessem pela
leitura. O senhor concorda que o acesso ao livro seja o ponto de partida para
formar leitores?
Azevedo –
Creio que não só o acesso ao livro, mas o contato com leitores adultos, ou
seja, com gente que conhece diferentes tipos de texto e sabe utilizá-los em
benefício próprio. Uma pessoa apaixonada pela leitura, pela literatura, é capaz
de transmitir isso. Mas isso só vai ocorrer se houver professores mais
capacitados, que primeiramente sejam leitores. Hoje, eles falam da leitura por
obrigação, mas não são leitores, infelizmente. Por isso, na maioria das
escolas, cujos professores não sabem como lidar com a literatura, apenas
distribuir o livro não é suficiente, pois ele sozinho não tem esse apelo.
PE
– O fato de o acesso ao livro ainda ser proibitivo para muitos brasileiros faz
com que as escolas sejam a primeira oportunidade de contato da garotada com o
mundo das letras. Nesse sentido, o livro didático serve como porta de entrada
para a literatura ou acaba desestimulando o interesse pela leitura?
Azevedo –
Como disse, o livro didático é um instrumento fundamental para transmitir
informações objetivas e técnicas. Sua leitura, entretanto, é utilitária e
funcional. As pessoas necessitam também especular sobre a vida e suas
inquietações, se emocionar, se divertir etc. Eis porque ler literatura e
poesia. Afirmo, pois é uma coisa que tenho vivido, que as pessoas são levadas a
acreditar, principalmente na escola, que todos os livros são didáticos. Porque
mesmo os livros de ficção e de poesia são instrumentalizados. Como os
professores são despreparados para usá-los como literatura, se transformam em
ilustração para ensinar gramática, para discussões teóricas, informativas. Apesar disso, considerando-se que muita
gente vai à escola e tem acesso aos didáticos durante mais de dez anos, acho
temerário imaginar que os livros didáticos não têm formado leitores. (eliminar
isso)
PE
– E quanto ao livro paradidático? Ele não teria um papel fundamental nisso?
Azevedo –
Veja o termo “paradidático”. O livro paradidático deveria ser aquele que,
quando falasse sobre a mata atlântica, o professor de Biologia usasse como uma
referência paralela ao didático já adotado. Os outros não são paradidáticos,
são de ficção e de poesia, apenas
isso. É um equívoco, de cara, porque didático significa ensinar alguma coisa. E
as obras literárias ensinam o quê? Nós vivemos num mundo tão utilitário que as
pessoas não entendem que nem tudo é passível de ser ensinado. A vida humana, as
relações entre os homens, isso não se ensina. São questões existenciais. Você
não vai ensinar um cara a se apaixonar.
PE – De que maneira a
ficção serve para que as crianças dêem conta da realidade? Como fazer com que
elas entendam os diferentes tipos de textos e gêneros literários?
Azevedo – A
ficção e a poesia são formas subjetivas de compreender e interpretar a vida e o
mundo. Através da ficção, penetramos no patamar da subjetividade (a visão de
mundo pessoal e singular), da analogia, da intuição, do imaginário e da
fantasia.
PE
– O que o senhor pensa sobre a produção editorial infanto-juvenil brasileira?
Existe algum segredo para conquistar jovens e crianças com os livros? Existem
temas ou linguagens mais adequados ao público infanto-juvenil?
Azevedo – No
caso da literatura para crianças e jovens, é preciso tratar os temas da
existência humana de forma ampla, sem abstrações, casos particulares demais ou
demonstrações de erudição. Tudo isso por meio de uma linguagem clara, pública e
popular.
PE
– Muitas manifestações da cultura brasileira, como a literatura de cordel,
sobreviveram graças à tradição oral e só depois chegaram ao suporte do papel.
Como a oralidade pode ser usada para incentivar e estimular a leitura?
Azevedo – Num
país como o nosso, muitos pais são analfabetos ou semiletrados. Isso significa,
de um lado, que são pouco familiarizados com as matérias escolares e, de outro,
que estão mergulhados na linguagem oral e na cultura popular. É muito bom
quando a escola se apercebe disso e leva material popular para a sala de aula.
Num certo sentido, ela cria, assim, um diálogo, um espaço de mediação, entre a
cultura escolar, oficial, e a cultura popular, representativa da maioria dos
brasileiros.
PE
– Qual o papel de pais e professores na formação de leitores? É possível
ensinar alguém a gostar de ler?
Azevedo – Acho
difícil um não-leitor formar leitores. Seria como um não-pescador se meter a
ensinar a pescar. Nesse sentido, é preciso capacitar os professores,
principalmente os que vão ensinar Português e Literatura. Além disso, as
crianças são levadas a achar, de certa maneira, que todos os adultos são
professores, perceba que loucura! Cria-se uma relação perversa, na verdade.
Apesar de bem intencionadas, essas pessoas, adeptas da filosofia do “faça o que
eu digo, não faça o que eu faço”, costumam descrever a literatura de forma
bastante idealizada. Falam em algo “mágico”, num prazer “indescritível”,
referem-se a “viagens” e coisas assim. Raramente, porém, talvez por não terem
experiência, lembram-se de comentar, por exemplo, que a leitura, como muitas
coisas boas da vida, exige esforço e que o chamado prazer da leitura é uma
construção que pressupõe treino, capacitação e acumulação. Por isso, a
literatura deveria servir para que pais e professores possam dizer, caso este
seja o caso: “eu não sei, vamos juntos conversar e aprender, sou igual a vocês,
também tenho dúvidas”. Até porque o não-leitor bem intencionado apresenta a
literatura de uma maneira muito falsa. A leitura em si dá trabalho, exige
capacitação. É uma questão de forma física. A criança sabe que um jogador de
futebol, para jogar tanto quanto o Robinho, precisa de treino. Mas com os
livros parece que é diferente. As crianças dizem: “não tenho jeito para a leitura”. É um sinal de que a criança, até
para ler, está mal informada. Você tem de treinar para ser leitor. Não se pode
começar com um livro de mil páginas ou com uma linguagem muito complicada, pois
não vai entender nada. Se você pegar um menino despreparado, de 13 anos, e der
um livro com uma linguagem que ele não consegue entender, acima do nível dele,
com 300 páginas, você mata o cara. Ele não tem condições de ler, fica
destruído. É por isso que surgem essas apostilas em que um sujeito faz resumo
dos livros. Gente, resumo de livro? É o caos!
PE
– Qual o papel do poder público e das entidades ligadas ao universo editorial,
entre elas a CBL, na formação de uma sociedade leitora? Em que pontos eles
podem ajudar?
Azevedo –
Creio que coisas como criar bibliotecas, formar bibliotecários, baratear o
preço dos livros, distribuir livros e, além disso, melhorar a carreira dos
professores, seus salários e sua capacitação ajudariam bastante. Se o poder
público, por exemplo, não direciona sua energia para fazer uma biblioteca, acho
que ele falha. Sei que existem poucas bibliotecas no Brasil, que muitas estão
fechadas. Mas também não adianta ter biblioteca sem um bibliotecário
competente, da mesma maneira que não adianta ter a escola ou distribuir livros
se não houver um professor que saiba apresentá-los ao seu leitor.
PE
– Somente o livro pode dar conta de difundir a cultura e os valores sociais
entre jovens e crianças?
Azevedo –
Livro, televisão, internet, cinema, teatro, dança, música, tudo isso pode
contribuir, e muito, para a difusão da cultura e de valores sociais. Os livros
de ficção e de poesia, como disse, surgem para discutir questões do ser humano,
conflitos, por exemplo, de um personagem cujos interesses pessoais não batem
com os da sociedade. Tratar desse conflito é importante porque todos nós, de
certa maneira, temos um descompasso entre nossos interesses particulares e as
regras que estão em volta, que nem sempre são aquelas das quais se gostaria. O
bom livro vai trazer questões desse tipo, especulações, contradições,
inquietações humanas, mas sem a obrigação de ensinar; para isso há outros tipos
de livros. Falando de valores, o problema é que, além do óbvio desequilíbrio
social, vivemos um tempo técnico e individualista demais. Acredito na
construção de uma sociedade brasileira melhor e mais justa, mas isso só será
possível quando nossos cidadãos, independentemente de idade, grau de instrução
ou classe social, se derem conta de que são responsáveis pela sociedade em que
vivem.