Entrevista para Folheto da Saraiva Melissa Stranieri
MStranieri@editorasaraiva.com.br
29/1/2010

 

Como iniciou a sua carreira na literatura infantil?

 

Comecei a escrever na adolescência. Percebi que gostava de escrever fazendo as redações escolares. Fui fazendo pequenos textos e poemas sem maiores compromissos. Em 1979, já com quase trinta anos,  soube que a Melhoramentos estava procurando novos autores. O editor era o Paulo Condini. Enviei a ele um texto e no ano seguinte saiu meu primeiro livro: O peixe que podia cantar.

 

Qual a diferença entre ser escritor e ser ilustrador?

 

São linguagens e discursos com características diferentes.  O texto escrito, por exemplo, é interiorizado e abstrato por princípio. O leitor precisa conhecer o código (no caso, a Língua Portuguesa), lê e o significado do texto vai pouco a pouco se revelando durante a leitura. Já o discurso visual é composto de imagens que se apresentam diretamente aos nossos olhos, como as paisagens, pessoas e coisas concretas. Essa é a força da linguagem visual: atinge todo mundo por meio do contato direto feito sem intermediações.  Enfim, são muitas as diferenças. Quando estou escrevendo, surgem idéias para as futuras ilustrações mas quase nunca as uso pois costumam ser óbvias e muito influenciadas pelo texto que está sendo escrito. Só quando o texto fica pronto é que a cabeça fica livre e pronta para criar imagens capazes de enriquecer o texto e não chover no molhado. Outra coisa: todo o texto tem partes que não devem ser ilustradas  pois isso tiraria a autonomia imaginativa do leitor. Em compensação, todo texto tem significados nas entrelinhas. Creio que o trabalho do ilustrador é criar imagens principalmente a partir dos sub-entendidos, das ilações e inferências sugeridas pelo texto. Eu pelo menos tento trabalhar assim.

 

Como você avalia a sua carreira após 30 anos de trabalho?

 

Sei lá eu. Fui fazendo meus livros e hoje, passado tanto tempo, vejo que o conjunto dos livros parece uma plantação ou uma espécie de pomar. Vejo cada livro como uma árvore de um pomar plantado por mim. É muito gratificante.


Por que escrever um livro?


De certa forma, quem escreve é uma pessoa insatisfeita porque sente que os recursos expressivos da vida cotidiana, conversas, explanações e discussões, são insuficientes para algo que ela necessita dizer ou contar. Por outro lado, imagino que todo o escritor goste de inventar histórias ou de construir situações e imagens com as palavras. Eu gosto.

 

Como você obteve inspiração para escrever durante sua carreira?

 

Inspiração é o tipo da palavra que não ajuda muito. Claro que posso ter uma boa idéia de repente mas até ela virar um livro tem muito chão. Um livro demora meses ou anos para ser escrito. Se o escritor for depender da “inspiração” está lascado. O que existe, antes de mais nada, é o trabalho persistente e diário.


Como surgiu o livro Como tudo começou?

 

Senti vontade de fazer um livro do bebê com pequenos poemas sobre a vida e a situação desse recém chegado ao mundo. Os poemas agora foram musicados pelo Gustavo Finkler. Ficou um trabalho interessante e acho que leitor vai gostar. A partir desse ano, o livro deverá vir acompanhado de um CD.


Como se manter durante tanto tempo no mercado?

 

“Mercado” é um termo técnico ótimo para economistas, administradores de empresas e estatísticos. Creio que um bom livro não tem que considerar mercado algum mas, sim, trazer ao leitor algo que ele nunca tinha pensado, que jamais esperou e, ainda, que o faça olhar a vida e o mundo com outros olhos. Se meus livros, mesmo tendo sido publicados faz tempo, continuam vivos é porque, de alguma forma, mantêm a capacidade de surpreender o leitor. Tomara que seja isso.


Como procura estimular o mundo lúdico de uma criança?

 

Crianças sempre foram e serão lúdicas, faz parte da natureza humana que seja assim. O que acaba com o espírito brincante de qualquer um, seja de crianças, jovens ou adultos,  é o tédio, a vida repetitiva, a burocracia, o fazer coisas sem saber para quê, as relações impessoais, a falta de diálogo, a vida preocupada apenas com as aparências. Tudo isso tira o sentido e o prazer de viver e não há “mundo lúdico” que agüente esse rojão.


Qual a importância de começar a ler livros na infância?

 

Enquanto os livros didáticos trazem informações técnicas e impessoais, os livros de ficção e poesia tratam de temas da vida humana concreta: a busca de um sentido para a vida, as paixões, a busca do auto-conhecimento, os acasos, os conflitos e contradições humanas e por aí afora.  São temas que permitem o estabelecimento de uma espécie de comunhão, uma identificação entre leitor e livro. Se nos livros didáticos a relação entre leitor e texto é objetiva e impessoal, com a literatura ela é totalmente subjetiva e reforçada pela possibilidade da interpretação pessoal e única. Por essa razão, além de prazerosa e lúdica, a literatura é humanizadora.


Quais serão os próximos passos de Ricardo Azevedo dentro da literatura infantil?

Pela Saraiva, estou finalizando, com o Gustavo, o CD do livro Como tudo começou, devo reformular meus livros antigos e, provavelmente, lançar novos títulos.


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