1. Cultura popular ou folclore? Por que "folclorizar"
virou um verbo pejorativo?
Folclore é um termo abstrato e acadêmico. O povo
nunca soube o que é isso. As culturas populares tendem a não tratar de conceitos
abstratos pois não têm escrita, são marcadas pela transmissão oral. É a escrita
que favorece o pensamento teórico e abstrato. No ambiente oral, princípios
abstratos, com exceção dos religiosos, são incomuns. A crítica que se faz
à noção de “folclore” é essa: ao fixar em textos, partituras, gravações e
filmes as manifestações populares, orais por definição, o folclore acaba congelando
expressões espontâneas e mutantes. O gozado é que muita gente acredita que
o povo é conservador por repetir sempre as mesmas manifestações. Trata-se
de um engano: essas expressões são sempre diferentes pois não são fixadas
por textos e sim pela memória, que
é plástica e imprecisa. Fixas, na verdade, são as expressões da cultura marcada
pela escrita. Um texto publicado em 1500 é até hoje exatamente o mesmo. Algo
assim simplesmente não existe na cultura popular. Em resumo: o folclore, ao
fixar manifestações, afasta-se da mutação constante, característica fundamental
das culturas populares.
2. Considerando que os alunos vêm de uma realidade
urbana, de classe média alta, e convivem mais com o resto do mundo - via internet
e TV a cabo - do que com o próprio país, é possível ensinar cultura popular
em colégio particular? Como?
No Brasil, mesmo os alunos ricos podem ter pais
ou avós que são ou foram pobres e analfabetos, ou seja, podem ter profundas
raízes populares. Creio que a utilização de material popular na escola pode
representar uma extraordinária ponte entre o modelo escolar, ligado à técnica
e a escrita, e o modelo popular, ligado à experiência prática e à oralidade.
Um não exclui o outro. Sinto que hoje a escola está demasiadamente voltada
para informações técnicas e impessoais ou para premissas teóricas. Isso tem
afastado as pessoas da vida concreta e cotidiana. Dou um exemplo: um estudante
do segundo grau conhece gramática e matemática mas não sabe nada a respeito
de primeiros socorros. Acho isso desumanizador. Você acredita que um cara
que saiba primeiros socorros vai sair por aí à noite tirando rachas de automóveis
em pleno espaço público ou batendo em pessoas nos pontos de ônibus?
3. Pela sua experiência como autor de livros sobre
cultura popular, qual é a reação dessas crianças ao assunto?
De total identificação e a razão é simples. Todo
mundo, independente de classes sociais, graus de instrução e faixas de idade
se identifica com o material popular, contos de encantamento, anedotas, adivinhas,
trava-línguas, quadras etc. Veja uma delas:
“Jurei, juraste, juramos/ juramos, jurei, juraste/ quebrei, quebraste,
quebramos/ quebramos, quebrei, quebraste”. Para que idade ou grau de instrução
foi feita essa quadra? Para qualquer um! O popular no fundo é isso: a capacidade
de se comunicar e gerar identificação em um grande número de pessoas de qualquer
idade ou nível cultural. Dividir pessoas em faixas de idade é coisa típica
da cultura escrita. As festas populares, veja o carnaval por exemplo, sempre
foram feitas por todo mundo de todas as idades. Acho isso ótimo.
4. Qual a importância desse ensino? Existe algo
no conhecimento "esquecido" da cultura popular que acrescente algo
de valor para a educação dessas crianças? Que estabeleça conexões com a realidade
delas?
Vejo dois modelos de conhecimento: um deles é o
escolarizado, sistematizado e normativo, ligado à ciência, à técnica e ao
pensamento crítico e analítico, necessariamente laico e marcado pela cultura
escrita. O outro é espontâneo e assistemático, construído como se fosse uma
bricolagem, ligado à experiência prática de vida e também ao conhecimento
transmitido pelos mais velhos, em geral tendo como pano de fundo alguma explicação
religiosa de mundo e sempre marcado pela transmissão oral. Ambos são válidos
e importantes, embora o primeiro seja o hegemônico e o segundo, hoje em dia,
totalmente desprezado. A cultura popular é representada pelo segundo modelo.
Daí sua grande desvalorização nos dias de hoje. Num país como o Brasil, onde
uma parcela significativa da população, mesmo que seja rica, está muito mais
familiarizada com a cultura popular do que com a cultura escolarizada isso
obviamente pode representar um grande erro. É preciso juntar os dois modelos,
abrir canais de diálogo entre eles, caso contrário, a meu ver, seremos sempre
um país meio esquizofrênico.
5. Mesmo no Nordeste, onde as festas juninas têm
enorme importância, já se ouvem críticas sobre quadrilhas estilizadas, caricaturas
da verdadeira tradição dessas festas de São João. Como você avalia as festas
juninas paulistanas?
É o que estava dizendo antes. Uma coisa são as
festas criadas espontaneamente pelo povo. Outra são as festas programadas
e pré-fixadas que têm que ser repetidas todos os anos de uma mesma e única
forma, muitas vezes com interesses comerciais ou políticos como pano de fundo.
Essas podem ser tudo, mas populares não são. Culturas populares são coisas
vivas e espontâneas que se modificam e se adaptam permanentemente. Essa característica,
seu caráter de improviso, é uma de suas extraordinárias riquezas.