Entrevista a Alexandre Bandeira Agência Sociedade da Comunicação Julho de 2007.

 

 

1. Cultura popular ou folclore? Por que "folclorizar" virou um verbo pejorativo?

 

Folclore é um termo abstrato e acadêmico. O povo nunca soube o que é isso. As culturas populares tendem a não tratar de conceitos abstratos pois não têm escrita, são marcadas pela transmissão oral. É a escrita que favorece o pensamento teórico e abstrato. No ambiente oral, princípios abstratos, com exceção dos religiosos, são incomuns. A crítica que se faz à noção de “folclore” é essa: ao fixar em textos, partituras, gravações e filmes as manifestações populares, orais por definição, o folclore acaba congelando expressões espontâneas e mutantes. O gozado é que muita gente acredita que o povo é conservador por repetir sempre as mesmas manifestações. Trata-se de um engano: essas expressões são sempre diferentes pois não são fixadas por textos e sim pela  memória, que é plástica e imprecisa. Fixas, na verdade, são as expressões da cultura marcada pela escrita. Um texto publicado em 1500 é até hoje exatamente o mesmo. Algo assim simplesmente não existe na cultura popular. Em resumo: o folclore, ao fixar manifestações, afasta-se da mutação constante, característica fundamental das culturas populares.

 

2. Considerando que os alunos vêm de uma realidade urbana, de classe média alta, e convivem mais com o resto do mundo - via internet e TV a cabo - do que com o próprio país, é possível ensinar cultura popular em colégio particular? Como?

 

No Brasil, mesmo os alunos ricos podem ter pais ou avós que são ou foram pobres e analfabetos, ou seja, podem ter profundas raízes populares. Creio que a utilização de material popular na escola pode representar uma extraordinária ponte entre o modelo escolar, ligado à técnica e a escrita, e o modelo popular, ligado à experiência prática e à oralidade. Um não exclui o outro. Sinto que hoje a escola está demasiadamente voltada para informações técnicas e impessoais ou para premissas teóricas. Isso tem afastado as pessoas da vida concreta e cotidiana. Dou um exemplo: um estudante do segundo grau conhece gramática e matemática mas não sabe nada a respeito de primeiros socorros. Acho isso desumanizador. Você acredita que um cara que saiba primeiros socorros vai sair por aí à noite tirando rachas de automóveis em pleno espaço público ou batendo em pessoas nos pontos de ônibus?

 

3. Pela sua experiência como autor de livros sobre cultura popular, qual é a reação dessas crianças ao assunto?

 

De total identificação e a razão é simples. Todo mundo, independente de classes sociais, graus de instrução e faixas de idade se identifica com o material popular, contos de encantamento, anedotas, adivinhas, trava-línguas, quadras etc. Veja uma delas:  “Jurei, juraste, juramos/ juramos, jurei, juraste/ quebrei, quebraste, quebramos/ quebramos, quebrei, quebraste”. Para que idade ou grau de instrução foi feita essa quadra? Para qualquer um! O popular no fundo é isso: a capacidade de se comunicar e gerar identificação em um grande número de pessoas de qualquer idade ou nível cultural. Dividir pessoas em faixas de idade é coisa típica da cultura escrita. As festas populares, veja o carnaval por exemplo, sempre foram feitas por todo mundo de todas as idades. Acho isso ótimo.

 

4. Qual a importância desse ensino? Existe algo no conhecimento "esquecido" da cultura popular que acrescente algo de valor para a educação dessas crianças? Que estabeleça conexões com a realidade delas?

 

Vejo dois modelos de conhecimento: um deles é o escolarizado, sistematizado e normativo, ligado à ciência, à técnica e ao pensamento crítico e analítico, necessariamente laico e marcado pela cultura escrita. O outro é espontâneo e assistemático, construído como se fosse uma bricolagem, ligado à experiência prática de vida e também ao conhecimento transmitido pelos mais velhos, em geral tendo como pano de fundo alguma explicação religiosa de mundo e sempre marcado pela transmissão oral. Ambos são válidos e importantes, embora o primeiro seja o hegemônico e o segundo, hoje em dia, totalmente desprezado. A cultura popular é representada pelo segundo modelo. Daí sua grande desvalorização nos dias de hoje. Num país como o Brasil, onde uma parcela significativa da população, mesmo que seja rica, está muito mais familiarizada com a cultura popular do que com a cultura escolarizada isso obviamente pode representar um grande erro. É preciso juntar os dois modelos, abrir canais de diálogo entre eles, caso contrário, a meu ver, seremos sempre um país meio esquizofrênico.

 

5. Mesmo no Nordeste, onde as festas juninas têm enorme importância, já se ouvem críticas sobre quadrilhas estilizadas, caricaturas da verdadeira tradição dessas festas de São João. Como você avalia as festas juninas paulistanas?

É o que estava dizendo antes. Uma coisa são as festas criadas espontaneamente pelo povo. Outra são as festas programadas e pré-fixadas que têm que ser repetidas todos os anos de uma mesma e única forma, muitas vezes com interesses comerciais ou políticos como pano de fundo. Essas podem ser tudo, mas populares não são. Culturas populares são coisas vivas e espontâneas que se modificam e se adaptam permanentemente. Essa característica, seu caráter de improviso, é uma de suas extraordinárias riquezas.