Entrevista a Priscilla
Ramos Nannini para pesquisa de mestrado no Instituto de Artes da UNESP,
“O papel da ilustração em obras de
Literatura Infantil para a formação de fruidores da linguagem visual”
1. Vamos falar um pouco sobre a sua trajetória. Qual foi o primeiro livro que
ilustrou? Como começou a ilustrar?
Sou
bacharel
2. Quais são os conceitos e referências visuais? Quais ilustradores são
referências para você?
Creio
que a ilustração tem tudo a ver e é quase uma decorrência das linguagens e
experimentações da pintura. Olho muito mais pintura do que ilustração. Como ilustradores,
admiro caras como Milton Glaser, Paul Davis, James McMullan, Sue Coe e Heinz
Edelmann. Como pintores, vários e vários, mas, para dar alguns exemplos,
Albrecht Dürer, René Magritte e, no Brasil, Gilvan Samico. Tenho estudado
bastante a iconografia popular , particularmente nossa extraordinariamente rica
xilogravura.
3. Como trabalha os aspectos formais da imagem?
“Aspectos
formais da linguagem”? Bem, são tantos que não sei direito a que aspectos você
se refere. Tenho trabalhando com
aquarela sempre tentando compreender as possibilidades deste material. Num
outro plano, meu maior interesse são as imagens metafóricas. Num outro plano,
ainda, tenho estudado os recursos da iconografia popular e buscado incorporar
alguns deles ao meu trabalho. Neste caso, costumo utilizar tinta nanquim.
4. Como é o seu processo de criação para desenvolver as ilustrações de um
livro? Quais são as etapas, o que você pensa ou faz primeiro?
Após
a leitura do texto, faço a diagramação do livro e determino que espaços vou
ter. Só então começo a pensar nas imagens. Num primeiro momento, tento definir
que linguagem e que climas vou utilizar. Naturalmente, durante o processo de
criação das imagens, a diagramação inicial pode sofrer modificações. Faço isso,
sem problemas. Depois de ter o livro inteiramente rascunhado – mas com todas as
idéias para as imagens definitivas – (ou
seja, com o primeiro boneco nas mãos) – começo a executar, à lápis e alguma
cor, desenhos mais finalizados. Faço então um novo boneco com essas novas imagens
e vejo se funcionam no espaço do livro. Em caso positivo, parto para a execução
final dos desenhos. É preciso dizer que mesmo nessa última etapa, costumo criar novas imagens,
modificando, mais uma vez, o plano inicial.
5. Em que você pensa quando ilustra um livro? Qual seu foco?
Meu
foco é sempre evitar, na medida do possível, imagens óbvias que repitam o que o
texto já disse. Creio que o ilustrador deve desenhar o que não foi dito pelo
texto, as inferências, ilações e sugestões que
o texto evoca.
6. Quais foram os livros que você mais gostou de ilustrar?
É difícil comparar. Cada trabalho apresenta seus próprios desafios e isso os
torna únicos.
7. Como você acha que se dá o diálogo entre o texto e a ilustração no livro
infantil?
Vai
trechos de um artigo:
“Creio ser possível afirmar que,
independentemente de tendências literárias, informativas, didáticas,
científicas, religiosas ou de qualquer outro tipo, os livros produzidos e oferecidos pelas editoras podem ser
sub-divididos nos seguintes grupos:
1) livros
texto: livros sem imagens a não ser, eventualmente, uma ilustração de capa.
Sua característica preponderante, no ângulo em que estou querendo pensar, é que
neles o texto escrito funciona e atua como uma espécie de artista–solo que
brilha sozinho e ocupa todos os lugares do livro. (...);
2)
livros texto-imagem: livros em que o
texto vem acompanhado de imagens, mas essas são nitidamente secundárias. Neles
o protagonista principal é, sem dúvida, o texto escrito. (...)
3)
livros mistos: casos em que texto
escrito e imagens dividem em pé de igualdade essa espécie de palco que é o
livro. Aqui, ambos são protagonistas e atores principais. (...)
4)
livros imagem-texto: livros em que as
imagens vem acompanhadas de textos escritos mas estes são nitidamente
secundários. Nessas obras, o conjunto das imagens é, sem dúvida, o protagonista
principal. (...)
5)
livros
imagem: livros de imagem, sem texto escrito, cujo enredo é criado e
construído exclusivamente através de imagens. Sua característica, no ângulo em
que estou querendo pensar, é que neles o conjunto de imagens é o próprio texto
da obra, o artista–solo que brilha sozinho e ocupa todos os lugares do livro.
(...)”
Em
anexo, envio o artigo inteiro
8. A ilustração pode pontuar, dar respiração, ritmo à narrativa?
Sem dúvida! Você pode, por exemplo, antecipar um fato, ou um detalhe do fato,
que só vai ocorrer lá na frente etc. Faço muito isso. Pode também retardar o
aparecimento de uma situação. Só o fato de você colocar a imagem de algo não
dito pelo texto já gera uma grande alteração na leitura. Um texto datilografado
definitivamente não é o mesmo quando diagramado e ilustrado dentro de um livro.
9. Como ilustrar um livro infantil da melhor forma para que as ilustrações só
enriqueçam o universo simbólico da história, sem limitá-lo? Qual o modo de se
expressar, criar, interpretar e traduzir o texto em narrativa visual?
Bem,
é uma pergunta muito ampla e vaga. No meu caso, de um livro para outro, posso
ter que utilizar procedimentos completamente diferentes. Não consigo enxergar
receitas e ainda bem que seja assim. Cada trabalho, no fundo, é um recomeço e
um aprendizado. O que posso dizer ainda é o seguinte: a meu ver, o ilustrador
deve fugir de certas imagens que são só do texto. Por exemplo, jamais desenhar
a mulher bonita da história mas sim um detalhe dela, seu pé, sua orelha, seu
quarto, sua sombra, sei lá. Desenha-la em carne e osso é sempre trair a
imaginação do leitor.
10. Qual é a função da ilustração?
Como
disse, ampliar e enriquecer o universo de significação do texto.
11.
O que você acha que é mais importante em um trabalho de ilustração para um
livro infantil?
Sua dependência e, ao mesmo tempo, sua necessária e obrigatória independência
do texto.
12.
Há uma preocupação em estimular a sensibilização do olhar da criança? Como isso
ocorre?
Não sou pedagogo e nunca me passou pela cabeça tal preocupação. Tento fazer o
melhor trabalho que consigo e isso, acredito, resultará sempre num enriquecimento
do leitor, tenha ele a idade que tiver!
13. Acredita que a boa ilustração possa colaborar com a sensibilização visual
das crianças, que ajuda a criança a desenvolver seu olhar crítico em relação a
outras imagens do seu cotidiano?
Não
divido o mundo em fixas de idade. Creio que o papel de qualquer arte que se
preze é, sempre, ampliar ou enriquecer a visão , o senso critico e a
sensibilidade do fruidor.
14. O contato com ilustrações de boa qualidade pode estimular a criança a se
aproximar das artes visuais? A ter vontade de conhecer novas formas de
representação artística?
Que criança? Veja o que digo nesse artigo: “O
“para crianças” nos leva de imediato à questão das divisão de pessoas em faixas
etárias. Venho discutindo o assunto em vários artigos, por essa razão não tenho
intenção de retomá-lo aqui[1].
Preciso apenas dizer que tal divisão é apresentada como natural, embora seja
cultural. Foi criada, como sabemos, para facilitar a organização escolar e,
mais tarde, reforçada por razões econômicas e comerciais, afinal permite
determinar fatias de mercado.
Na verdade, ela funciona “em tese”, de forma
genérica e abstrata. Na vida concreta e situada, imaginar que pessoas da mesma
idade sejam iguais não faz muito sentido. Nas camadas populares, por exemplo,
uma menina de 13 anos muitas vezes já trabalha e é mãe. Nas classes ricas, por outro lado, podemos encontrar mulheres de 20 anos
que nunca trabalharam, não têm consciência política (apesar de freqüentarem
escolas caras) e gastam seu tempo passeando no shopping. O que é ser adulto?
Essa divisão mecânica de pessoas em abstratas faixas de idade, entre outros problemas, pode gerar um fosso entre crianças e adultos. Esse fosso, a meu ver, só é superado quando os mesmos descobrem o quanto são parecidos nos aspectos fundamentais da vida. Ambos sentem dor física; são, em graus diferentes, dependentes de fatores, sociais, afetivos, políticos e outros; envelhecem; são passíveis de sentimentos como ciúme, vaidade, ódio, amor, tristeza ou alegria; apreciam o conforto; detestam ser rejeitados; são sexuados, costumam temer a morte etc.” (“Aspectos instigantes da literatura infantil e juvenil” In OLIVEIRA, Ieda de (Org) O que é qualidade em literatura infantil e juvenil - Com a palavra o escritor, São Paulo, DCL, 2005)
O
que digo é o seguinte: o contato com a arte – literatura, cinema, teatro, artes
plásticas, dança etc, – é fundamental para o ser humano pois através dela
costuma ocorrer um processo de ampliação da visão de mundo e, ao mesmo tempo,
uma identificação e um compartilhamento. Isso pode tornar as pessoas melhores,
mais expressivas e mais humanas.
15.
O que significou a ilustração em sua infância? Que contribuições trouxe a você
como leitora da linguagem visual?
Desde
que me lembro, sempre tive fascinação por imagens e, assim que aprendi a ler,
também por textos.
[1] C.f. “A didatização e a precária divisão de pessoas em faixas etárias: dois fatores no processo de (não) formação de leitores” publicado em Literatura e Letramento – Espaços, suportes e interfaces – O jogo do livro - Org. por Aparecida Paiva, Aracy Martins, Graça Paulino e Zélia Versiani – Belo Horizonte – Editora Autêntica – 2003 e “Formação de leitores e razões para a literatura” publicado em SOUZA, Renata Junqueira de. (org.) Caminhos para a formação do leitor. São Paulo, DCL, 2004.