Entrevista para Pesquisa
"A ilustração na Literatura Infantil: Interfaces entre
imagem e texto".
Instituto de Artes da
UFRGS, coordenada pela professora e ilustradora Laura Castilhos e com a
participação da bolsista Andréa E. Montenegro Barbosa.
13/11/05
Nome completo
Ricardo José Duff Azevedo
Nome artístico
Ricardo Azevedo
Data de nascimento
3 de Outubro de 1949
Local
São Paulo
1. Qual sua Formação Profissional?
Bacharel
Doutor em Letras (Teoria Literária - USP)
2. Fez algum curso de Ilustração (favor citar)?
Não.
3. Quando iniciou a ilustrar e em que
circunstância (citar o primeiro livro)?
Comecei com um livro escrito e ilustrado por
mim, O peixe que podia cantar, publicado
em 1980 pela Melhoramentos. A partir daí, fui fazendo meu trabalho mas, ao
mesmo tempo, ilustrei também mais de cem livros de outros escritores. É preciso
dizer que antes de publicar meu primeiro livro trabalhei como publicitário.
Embora trabalhasse basicamente como redator, fiz muitas ilustrações, direção de
arte e projetos visuais. Quando saiu meu primeiro livro já tinha uma boa
experiência tanto de texto como de produtor de imagens.
4. Qual sua maior preocupação ao ilustrar?
Creio que o ilustrador deve criar climas e
trazer informações ou idéias complementares, não ditas pelo texto mas possíveis
e passíveis de inferência a partir do texto. Na medida do possível, é sempre
melhor e mais enriquecedor que o ilustrador trabalhe nas entrelinhas. Não acho
que a ilustração deva tentar repetir o que o texto já disse.
5. Como é seu processo criativo ao ilustrar?
Após ler o texto, e com formato, número de
páginas e projeto gráfico determinados, faço a diagramação e monto um boneco
com espaços
6. Ilustra que tipo de livros (com relação a
gênero)?
Não sei bem a que se refere esse “gênero”.
Trabalho com literatura portanto ilustro textos de ficção e poesia.
7. Ilustra livros somente com textos ou já
trabalhou com livro de imagem?Poderia comentar sobre os mesmos?
Basicamente com textos. Achava que seria
relativamente fácil fazer um livro de imagens. Quando fui fazer, vi que estava
redondamente enganado. Fazer um bom livro de imagens é muito difícil. Tenho
apenas um, Do outro lado da janela
(Moderna). Outro livro meu, Aviãozinho de
papel (Companhia das Letrinhas) inicialmente era um livro de imagens. Fiz
todos os desenhos em arte final mas a
coisa não funcionava e era quase incompreensível. Acabei escrevendo um texto e
refazendo todos os desenhos.
8. Quando recebe um texto quais itens são importantes na configuração do
trabalho?
A leitura detalhada do texto, a determinação de
um partido de trabalho, o projeto gráfico e o boneco já com as imagens.
9. Que parte do livro realiza?
(x ) imagens
(x) projeto gráfico
(x ) capa
(x) texto
(x) diagramação (vejo a diagramação como um detalhamento e uma aplicação do
projeto gráfico
10. Que destino tem os originais de seu trabalho?
Ficam comigo.
11. Antes, durante ou após a criação das ilustrações tem contato com o
escritor? Poderia comentar algo a respeito?
Nos casos em que ilustrei livros de outros
escritores, não tive contato algum com eles. No geral, tenho dúvidas sobre a
eficácia desses contatos. O ilustrador precisa ficar livre para criar sua
própria interpretação. Tenderá a ser um equívoco se ele se transformar numa
espécie de braço do escritor. Nos texto meus ilustrados por outros deixei o
trabalho inteiramente na mão dos ilustradores.
12. E com relação ao editor? Você tem liberdade de criação, ou o trabalho parte
de algumas sugestões?
Tenho liberdade total mas acho importante
mostrar o boneco e aceito sugestões e criticas dos editores. Eles são
profissionais e a idéia é fazer o melhor livro possível.
13. Utiliza os meios tradicionais (pintura, desenho, etc), e/ou outras tecnologias?
Como você se posiciona com relação ao uso crescente do computador na
ilustração?
Desenho basicamente com lápis, aquarela, gouache
e, em certos casos, com tinta nanquim. Não tenho nada contra o computador mas
só o utilizo para fazer texto, projeto gráfico e diagramação. Na hora de criar
as imagens prefiro os procedimentos tradicionais. Gosto de desenhar, da textura
dos papeis, do cheirinho das tintas e do trabalho manual. Trabalhar é uma
viagem interior e não uma mera questão de atingir resultados. Imagino que um
jovem que se inicie na profissão a partir do computador consiga tirar seu
prazer também, mas de outra forma.
14. Você costuma acompanhar o processo de impressão na Gráfica? Favor
especificar.
Não. Apenas vejo as provas de scanner. Trabalho
com editoras profissionais que cuidam bem dessa parte.
15. Qual a função ou as funções que a ilustração tem em um livro infantil?
A meu ver, em princípio, ampliar ao máximo o
universo significativo do texto.
16. Poderia comentar como é tratada a questão dos direitos autorais na
ilustração?
A
meu ver existem diversos tipos de ilustração. É preciso diferenciar, por
exemplo, a ilustração publicitária, ou a de livros didáticos e técnicos, da
ilustração de livros de ficção. Peças publicitárias e desenhos de livros
didáticos, são trabalhos essencialmente impessoais e técnicos. Basicamente, o
cliente, diretores de criação e professores determinam o que querem e o
ilustrador executa. Nesse caso, falar em autoria e direitos autorais, pode até
ser válido, mas, por aí, a discussão acaba ficando ampla e filosófica demais.
Num certo sentido, todo mundo pode ser considerado autor de seu trabalho. Sendo
prático, é preciso ressaltar que a situação das ilustrações técnicas e
utilitárias é muito diferente da enfrentada pelo ilustrador de textos de ficção
e poesia, ou seja, de literatura. Nesse caso, o artista interpreta livremente a
obra e cria o seu ponto de vista sobre ela. Há uma óbvia interferência das
imagens sobre o texto escrito. Além disso, essas imagens carregam fortes traços
subjetivos, são marcadas pela linguagem pessoal e pelas preocupações estéticas
de cada ilustrador. Tudo isso faz com que no livro ilustrado costume haver,
graças ao poder das imagens, uma relevante ampliação do universo de
significação do texto escrito. Neste caso, é possível indiscutivelmente falar
em autoria.
Mas
reconheço que a questão é complexa. Há por exemplo diferentes graus de relação
entre texto e imagem e isso significa que podem haver ilustrações mais
“autorais” do que outras.
O
tema, a meu ver, só pode ser discutido se a gente levar em conta a diversidade
das situações.
Nos
casos em que as ilustrações são parte estrutural do livro – ou seja, sem elas
ele não seria essencialmente o mesmo – creio que os ilustradores deveriam
receber direitos autorais. De que forma? Por exemplo, o pagamento pelos
desenhos seria encarado como um adiantamento e, após as vendas correspondentes,
o ilustrador passaria a receber determinada porcentagem, 2%, 3%, 5% ou até
mais, estipulada conforme o grau de relação texto-imagem do trabalho final.
Se
alguém perguntar: dentro ou fora dos 10% do autor? O ideal é que seja fora. Se
não for possível e conforme o caso, creio que o escritor deve ceder uma parte
de sua remuneração.
Sei
de casos em que escritores e ilustradores dividiram meio a meio os direitos
autorais sobre a obra. Pode também haver
casos em que o ilustrador ganhe, sei lá, 8% e o escritor 2%. Por que não?
O
que não dá para engolir é a existência de livros nos quais as ilustrações
ocupam papéis estruturais – sem elas o livro perde seu caráter essencial – e
seus ilustradores não recebam um tostão, por exemplo, numa dessas compras
governamentais. Trata-se de um equívoco, de uma injustiça e de um atentado à
ética e ao bom senso.
(trecho de entrevista ainda não publicada para o
jornal da AEILIJ)