Editorial
Entrevista Jornal Tribuna Impressa de
Araraquara - SP
Caderno To! Ligado
Aula de Carnaval para
crianças publicado em 06/02/2007
Fernanda Miranda
Ele leva criança a sério
O escritor e ilustrador
Ricardo Azevedo
Fernanda Miranda
“As pessoas mais
sérias que conheço são as crianças.” A frase de Ricardo Azevedo, usada para
descrever sua relação com seus leitores, é uma amostra da seriedade com que o
escritor e ilustrador conduz sua obra, voltada para o público infanto-juvenil.
Na entrevista a
seguir, ele fala mais detalhadamente ao To!Ligado sobre seu trabalho, suas
fontes de inspiração, a busca pelos temas de sua obra e como é escrever para
seu público-alvo.
Tô!Ligado – Por que você escolheu temas
como o Carnaval e o folclore brasileiro para tratar em livros infantis? Você
acha que falta este tipo de livro, é um tema a ser explorado?
Ricardo Azevedo - Nunca me preocupei com temas que faltam
ou não faltam. Acho perfeitamente possível abordar um tema banal de forma
inovadora. Trabalhei a partir do Carnaval porque me interesso e sempre me
interessei por cultura popular.
Quais as dificuldades de fazer poesia para
o público infantil?
Azevedo – Não é o caso de se dirigir a um “público infantil” até
porque não saberia fazer isso: trata-se de um grupo muito diversificado e
heterogêneo. Há crianças de 10 anos que trabalham e ajudam a sustentar a
família, há crianças morando em castelos e crianças morando em barracos, há
meninas mães de família, diferenças culturais relevantes, etc. O desafio é, a
meu ver, abordar temas humanos de forma “compartilhável” por meio de uma linguagem
que seja pública, clara e direta. Pode parecer fácil, mas não é.
Qual a diferença de fazer a ilustração dos
próprios livros e ter um outro ilustrador fazendo imagens para a sua história?
Azevedo – É sem dúvida um privilégio poder ilustrar os próprios
livros. Entretanto pode ser muito rico ter um trabalho ilustrado por outra
pessoa. O ilustrador também é um autor e naturalmente traz para o texto sua
criatividade, sua visão de mundo, seu espírito e sua cultura. Isso só pode
enriquecer o trabalho final. Agora mesmo deve sair um livro meu, “O livro das
palavras”, Editora do Brasil, ilustrado pela Mariana Massarani. Estou
superfeliz porque ela é uma baita artista.
Qual a sua relação com os leitores?
Azevedo – Ela só acontece quando sou convidado para ir a escolas
conversar com estudantes que leram meus livros. Em geral, acaba sendo uma
conversa muito rica e interessante. As pessoas mais sérias que eu conheço são
as crianças.
Há algum livro mais especial para você?
Por quê?
Azevedo – Meu primeiro livro, “O peixe que podia cantar”, hoje
publicado pela SM, porque abriu a porta para que eu pudesse fazer os outros e
construir meu trabalho.
Como a família e as situações do cotidiano
te inspiram a escrever?
Azevedo – Creio que a vida real seja sempre mil vezes mais rica do
que qualquer ficção. Basta você pegar os jornais e olhar as pequenas
noticiazinhas que saem nos cadernos sobre a cidade ou o cotidiano. Quase todo
dia tem uma notícia extraordinária e inesperada como o alemão contrabandista
que foi preso com 112 aranhas cabeludas presas na mala, buracos que abrem no
chão de repente feito bocas engolindo gente, velórios usados como sala de aula
(aconteceu em Goianápolis), gente que vivia feito bicho no meio do mato,
desaprendeu a falar e reapareceu de repente, um cachorro na Alemanha que foi
treinado a levantar a pata toda vez que o dono falava “Hitler” (o dono foi
preso) e coisas assim.