Revista "Vitrine" (circulação
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Rosana Mauro - MetaDesign
1- Você tem
grande experiência no setor público na área de educação, o que pode nos contar
sobre a didática atual e o aprendizado infantil nas escolas públicas?
Antigamente, as escolas públicas possuiam um nível de excelência maior que as
escolas privadas, hoje, o setor público está sucateado. Há esperança? Como
reverter o quadro?
Nos
últimos 26 anos, fui a muitas escolas, particulares e públicas, conversar com
estudantes, de
2- Como despertar o interesse pela leitura na criança?
É
um problema multifacetado mas vou ressaltar
dois pontos: 1) para tornar-se leitora, a criança precisa ter contato
com adultos leitores, de preferência os pais, parentes e professores. Digo
leitores e não pessoas que recomendam a leitura mas não lêem e 2) a criança
precisa saber que existem diferentes tipos de textos, didáticos, de ficção,
poesia, religião, manuais técnicos, filosofia, ciência etc. Cada tipo de texto
tem determinadas características. Caberia à escola ensinar o aluno a
diferencia-los. Infelizmente ela não o faz.
No geral, os estudantes saem da escola achando que todos os livros são
didáticos. Enquanto o problema persistir, vai ser difícil formar leitores.
3- E você? Lembra qual foi o livro (ou autor) que te
despertou para a leitura?
Tive
a sorte de ser filho de pais leitores. Durante a infância li e gostava muito,
por exemplo, de uma coleção chamada Tesouro da Juventude. Mas não só isso. Quando criança, tinha acesso
semanal às revistas Cruzeiro e Manchete. Sem dúvida, elas também me ajudaram a
me aproximar do mundo e a me tornar leitor.
4- Qual a importância do exemplo dos pais e
professores?
Creio
que uma das coisas que mais impressiona uma criança é ver um adulto apaixonado.
Tanto faz se for pai, professor ou qualquer outro. A paixão pode ser por uma
mulher, pelo trabalho, por uma ideologia mas também por um livro. Uma criança
que tenha a sorte de ter contato com adultos apaixonados pelo que estão lendo
tem boas chances de também querer experimentar a leitura (e essa paixão).
5- Na sua visão, a escola incentiva a formação de
leitores? De que forma?
Infelizmente,
no geral, não. Muitos professores, por falta de boa capacitação, confundem
livros didáticos com livros de literatura. Ou seja, utilizam livros de ficção
ou de poesia para ensinar problemas gramaticais, ensinar ecologia, história
etc. Compare esse textos: “Chamam-se preposições os vocábulos gramaticais
invariáveis que relacionam dois termos de uma oração...” e “Minha mão está
suja/ Preciso cortá-la/ Não adianta lavar/ A água está podre/ Nem ensaboar/O
sabão é ruim/ A mão está suja/ suja há muitos anos etc.” (“A mão suja” de
Carlos Drummond de Andrade). O primeiro é informativo, lógico, unívoco e impessoal. O segundo pode ter
vários significados, é subjetivo, analógico e trata de um assunto que nada tem
a ver com “informação”. Imagine pegar o texto de Drummond e trata-lo do ponto
de vista de uma análise sintática. É o que muitas vezes ocorre na escola.
6- O hábito da leitura está relacionado ao nível
educacional e ao poder aquisitivo?
Em
tese, todas as pessoas que freqüentaram escolas deveriam saber utilizar livros
em benefício próprio. Isso nada tem a ver com poder aquisitivo. Que eu saiba,
os ricos brasileiros nunca foram grandes leitores. Ocorre que muitos
brasileiros são pobres e não têm dinheiro para comprar livros. Daí a
importância crucial das bibliotecas públicas. Infelizmente, elas são muito
poucas no Brasil. Caberia à elas, não às escolas, ocupar o espaço mediador
entre o leitor e os livros.
7- Cada idade deve ler um tipo de linguagem diferente?
Fale-nos a respeito.
Não
acredito que exista uma linguagem “infantil” e outra ‘adulta”. Creio,
simplificando, que existem discursos
“populares”, públicos e acessíveis à maioria das pessoas, e discursos
“eruditos”, especializados, exclusivistas, acessíveis apenas a iniciados. A
chamada literatura infantil em geral recorre ao discurso popular.
8–
Escrever para crianças e jovens te permite sonhar mais? Como é seu processo
criativo?
Toda
a literatura é, em certo sentido, uma forma de sonho, afinal trabalha com a
ficção. Nem por isso deixa de abordar a verdade e os assuntos da existência
humana. Há autores que acreditam até que a ficção é uma forma de verificar a
verdade.
Sobre
“processo criativo” o que posso dizer é que gosto e preciso inventar histórias
e, também, que sou metódico e trabalho muito.
9- A cultura popular brasileira é muito rica em
personagens, lendas e histórias. Qual a importância desse legado cultural?
De
um lado, uma das marcas principais da cultura popular é seu caráter oral, ou
seja, trata-se de uma cultura espontânea transmitida boca a boca. De outro
lado, cerca de 75% da população brasileira é ou analfabeta e semi–analfabeta,
em diferentes graus. Isso significa que a cultura popular, entre nós, é
vivíssima e muito influente afinal representa a maioria das pessoas. Além
disso, justamente por seu caráter oral (não é fixada por texto), é muito
diversificada e rica. Infelizmente nossas escolas ignoram a cultura da maioria
dos brasileiros com uma exceção: agosto, o “mês do folclore”. É lamentável.
Comparar a obra poética de, por exemplo, Dorival Caymmi ou
Nelson Cavaquinho, artistas populares marcados pela oralidade, com a de
Chico Buarque ou Caetano Veloso, artistas populares marcados pela cultura
escrita, seria uma extraordinária e estimulante forma de entrar contato com o
discurso poético e uma ótima preparação para ler Drummond ou João Cabral.
10-Uma criança que não lê, pode se tornar um adulto que também não possui o
hábito da leitura. Como os adultos também podem ser estimulados a ler mais?
Sou
um pouco pessimista nesse ponto. Acho que adultos que não se formaram leitores na infância e
adolescência estão, em sua maioria, condenados a ser leitores de manuais
técnicos e utilitários. Em outras palavras, não terão o pensamento critico e a
sensibilidade desenvolvidos e serão sempre massa de manobra.
11- Quais livros você indicaria para aquele adulto que não gosta de ler?
Creio que ser leitor é uma disposição de
tentar compreender – de ler – a gente
mesmo, a vida e o mundo. Para isso, precisamos aprender a sair de nosso próprio
umbigo, colocar nossas crenças em discussão e examinar o que está acontecendo à
nossa volta. Esse é o ponto. No caso da literatura, ler um poeta, Manuel
Bandeira por exemplo, simplesmente porque é um “clássico”, porque cai no
vestibular, para obter alguma informação, ganhar um nota escolar ou porque
alguém mandou, é uma coisa. Ler Bandeira para entrar em contato com uma
subjetividade, para saber o que esse poeta e essa pessoa tinha a dizer sobre a vida e a morte, sobre a
fé, sobre o amor e sobre o sentido da existência é outra muito diferente. Note
que esses assuntos interessam a todos nós, independentemente de formação,
profissão ou fixa etária. Quando a pessoa descobre que pode encontra-los num
livro, muito possivelmente vai tornar-se leitora.
12-
Para aqueles que adoram ler, quais são as suas dicas?
Tenho
lido muita poesia e recomendo a releitura de Murilo Mendes. Trata-se de um
grande poeta mas infelizmente anda difícil encontrar seus livros. O jeito é
recorrer aos sebos.
Para
quem se interessa por problemas da juventude e do mundo atual recomendo “Culturas jovens - novos mapas do afeto”
organizado por Maria Isabel Mendes de Almeida e Fernanda Eugenio, publicado
pela Jorge Zahar. Muito bom livro.
13-
Qual sua expectativa sobre o futuro da leitura e da literatura no país?
Estamos progredindo,
devagar mas estamos. O diabo é que o tempo das mudanças sociais não corresponde
ao tempo de nossas vidas. Temos que lutar por um mundo que não vamos ver. Da
minha parte, é assim mesmo.