Entrevista com um papagaio
Papagaio: Você vive preso numa gaiola?
Ricardo: Tá louco! Acho que não!
Papagaio: Você inventou as histórias desse livro?
Ricardo: Existem histórias que a gente inventa do começo ao
fim. Tenho vários livros assim. As histórias deste livro, entretanto, são
contos populares que eu recontei.
Papagaio; Contos populares?
Ricardo: Sim, são histórias muito antigas, criadas e
guardadas na memória do povo. Elas vem sendo contadas de boca em boca desde que
os portugueses chegaram ao Brasil e até de antes pois os índios também contavam
lindas histórias. Depois vieram as histórias das culturas africanas.
Pagagaio: Você quer dizer de bico em bico?
Ricardo: Mais ou menos isso. A mesma coisa acontece, por
exemplo, com as piadas. Ninguém sabe quem inventou nem de onde vêm. A gente
ouve, gosta, dá risada e conta de novo. Cada um, claro, do seu jeito.
Papagaio: Mas, e no caso dos contos? Como a coisa acontece?
Ricardo: Até hoje, nos lugares distantes, onde não há luz
elétrica nem televisão, as pessoas à noite, depois do trabalho, costumam sentar
em volta de uma fogueira para conversar, falar das novidades, trocar idéias,
comentar os acontecimentos do dia. Nessas horas, sempre aparece alguém que sabe
e gosta de contar histórias.
Papagaio: Mas como esses contadores aprendem suas histórias?
Ricardo: Antes de mais nada, todo o contador precisa gostar
da história que conta. Sem isso não faz nenhum sentido contar nada. Outra
coisa: muitas vezes, essas pessoas não sabem ler nem escrever. Aprendem ouvindo
outros contadores e guardam tudo no coração e na memória. Por isso as histórias
precisam ser muito boas. Ninguém vai guardar no coração e na memória uma
história ruim.
Papagaio: E você? Como aprendeu os contos deste livro?
Ricardo: Existem pesquisadores maravilhosos, folcloristas,
antropólogos, psicólogos, que viajam por aí, encontram esses contadores
populares e anotam suas histórias. Depois publicam livros. A partir desses
livros, escolho uma história, procuro as várias versões resgatadas pelos
diferentes pesquisadores e aí tento contá-la do meu jeito. Há porém no livro No meio da noite escura tem um pé de
maravilha histórias que aprendi ouvindo outros contadores. O importante é o
seguinte: gosto muito das histórias que selecionei. Elas me emocionam e mexem
comigo.
Papagaio: Mas pra quê essa trabalheira toda?
Ricardo: Uma história boa é um tesouro que merece ser
guardado! Estive há pouco tempo em São Luís do Maranhão. Lá escutei uma
história contada por uma pessoa analfabeta. Acontece que a tal história é
versão do conto “A Mulher do Viajante” só que meu texto foi baseado numa
recolha feita por Ana de Castro Osório em Portugal no fim de século XIX! Não é
incrível isso? Se essa história é contada até hoje em São Luís, por uma pessoa
que não sabe ler, portanto a aprendeu de outro contador, é porque ela é muito,
muito boa.
Papagaio: Carambola! É verdade!
Ricardo: Outra coisa: esses contos sempre falam de assuntos
que interessam a todas as pessoas de qualquer idade. Heróis lutando para se
conhecer melhor. Como todos nós. Desafios que o herói precisa enfrentar para
conquistar seu objetivo. Como todos nós. Heróis que às vezes precisam encarar o
acaso, o desconhecido, o inesperado e o incompreensível. Como todos nós. Fora
isso, são histórias cheias de sentimentos e temas conhecidos de todas as
pessoas como o amor, a luta pela sobrevivência, a ambigüidade, o medo, a
inveja, a curiosidade, o arrependimento, a injustiça, o desânimo, a
generosidade, a esperteza e muitos outros. Na verdade, ficamos emocionados e
identificados com a coragem, a perseverança e a inteligência do herói do conto
maravilhoso. Observando sua luta e os ardis que inventa para vencer seus
desafios, aprendemos truques que podem até nos ajudar a construir nossos
próprios sonhos. Um desses truques, com certeza, é a esperança.
Papagaio: A esperança? Como assim?
Ricardo: Vou dar um exemplo: conhece a história do papagaio
que vivia preso na gaiola?
Papagaio: Não!
Ricardo: Era uma vez um papagaio que vivia preso numa gaiola.
Um belo dia, seu dono passou e perguntou: - Tudo bem aí? O papagaio suspirou
sem responder nada. - Você reclama de boca cheia, disse o homem, - Sua vida não
é tão ruim assim. Tem casa e comida de graça! - Mas eu queria ser livre para
poder voar como os outros pássaros! respondeu o papagaio. Seu dono puxou outro
assunto: - Amanhã vou sair de viagem. Devo visitar a floresta onde, anos atrás,
consegui caçar você. Quer mandar um recado para seus amigos e parentes? O
papagaio levantou a cabeça, olhou bem para o homem e respondeu: - Diga a eles
que passo meus dias e minhas noites preso numa maldita gaiola! O dono da casa
arranjou as malas e partiu. Voltou de viagem uma semana depois. - E aí?
perguntou o papagaio.- Conseguiu falar com meus amigos e parentes? - Sim -
respondeu o homem. - mas trago más notícias. Assim que dei a eles seu recado,
eles arregalaram os olhos, colocaram as asas na garganta, botaram a língua de
fora, gritaram, cambalearam e caíram mortos! Ao ouvir isso, o papagaio
arregalou os olhos, colocou as asas na garganta, botou a língua de fora,
gritou, cambaleou e também caiu morto. Chocado e sem saber o que pensar, o
homem retirou o corpo do papagaio e, com cuidado, colocou o pobre bichinho
deitado em cima da mesa da cozinha. Assim que se viu livre, o papagaio deu uma
cambalhota no ar e saiu voando. Antes de cair no mundo, gritou para o homem: -
Quando estiver de novo/ Nos lugares de onde eu vim/Por favor diga ao meu
povo/Que o truque deu certo sim! Terminou a história. Gostou?
Papagaio: (com lágrimas nos olhos) Curupaco papaco! Se gostei?
Caramba! Foi a história mais linda, comovente, triste, dramática, alegre,
emocionante e extraordinária que já escutei em toda a minha vida! Aliás,
mudando de assunto: quando você está pensando em viajar?
(extraída do livro No
meio da noite escura tem um pé de maravilha! Ática, 2002)