Revista
“Ciência e Tecnologia no Brasil - Pesquisa Fapesp” -
Maio de 2005- Nº 111 ISSN 1519-8774
Entrevista
Gonçalo Junior
Para
a matéria “Esse danado do samba” p.90
1. Fale um pouco de você, seu interesse por música
etc. Você é músico? Colecionador? Como chegou ao tema de sua tese?
Minha tese está inserida no âmbito dos estudos da
literatura e da sociedade e, particularmente, interessa-se pelo estudo das
formas literárias populares. Parti do princípio de que as letras de samba
representam um extraordinário acervo de algo que poderia ser chamado “discurso
popular”.
2. Que compositores você estudou e o que levou você a
escolhe-los?
Fiz uma pesquisa relativamente extensa e não me prendi
a este ou aquele compositor. Trabalhei com letras de samba criadas do início do
século até os dias de hoje. Um dos pontos da tese é justamente este: lembrar
que as culturas populares e, portanto, suas manifestações, tendem a se
processar através de “padrões de longa duração”, ao contrário da cultura
moderna, de massa, erudita etc que tendem aos “padrões de curta duração” sempre
e, a meu ver, quase que mecanicamente, em busca do “novo”, da “nova forma”, da
“última palavra” etc. Nas letras de samba, os procedimentos com a linguagem e
muitos temas, por estarem vinculados as processos de longa duração, são recorrentes até os dias de hoje. Ressalto
que é comum avaliar-se as manifestações populares a partir de critérios e
procedimentos típicos dos padrões de curta duração. Trata-se naturalmente de um
equívoco.
3. Quantas letras foram analisadas?
Analisei com mais detalhe talvez cerca de 20 sambas
apenas para exemplificar ou clarificar certos pontos. O que fiz foi propor um
conjunto de mais de 20 temas (a família, o trabalho, a festa, o envelhecimento,
a morte, a religiosidade, o “nós”, entre outros) – todos ligados à vida concreta
e cotidiana – , apontar certos
procedimentos com a linguagem (o vocabulário público e compartilhável, a
narratividade, o diálogo, o improviso, entre outros) e mostrar letras de sambas
– da década de vinte até hoje – onde os mesmos estão presentes. A tese traz
cerca de 500 letras de samba. Trabalhei com um universo de mais de 7.000 letras
das quais pincei 4.800.
4. Você fez delimitação de um período ou pegou músicas
de diferentes épocas?
Não me interessei por recortar períodos históricos mas
sim demonstrar recorrências num espectro amplo. Dou um exemplo: muitos estudos
localizam o “malandro” nas décadas de 30 e 40. Fala-se inclusive no “desaparecimento” do malandro. Trata-se, a
meu ver, de um equívoco. O que pode ter desaparecido é um certa versão do malandro.
O samba fala de malandragem e adota um “tom malandro” desde o primeiro samba
gravado até hoje. O malandro nunca existiu, isso sim, num discurso mais culto,
também presente nas letras da música popular brasileira. A malandragem
freqüenta pouco ou inexiste na bossa nova e no tropicalismo, por exemplo.
5. O samba ainda é um gênero tratado com preconceito?
Se sim, por quê?
Suponho que sim. Na verdade, as culturas populares
costumam ser solenemente desprezadas pelas elites culturais. A idéia de que a arte
popular é uma matéria bruta, “simples” e “primitiva” – “sem auto-consciência” –
que só ganha real valor ao ser retrabalhada por artistas cultos (leia-se
escolarizados e enraizados na cultura escrita), “complexos” e cheios de
“auto-consciência”, ainda faz parte de um certo imaginário elitista e bastante
disseminado. Trata-se a meu ver de uma presunção e de misturar alhos com
bugalhos. Comparar obras criadas a partir de pressupostos completamente
diferentes e até antagônicos a partir de uma única chave só tem levado ao
desconhecimento e ao desprezo pela cultura do povo. Paradoxalmente, a cultura
popular tem marcado e sido fonte de parte significativa da cultura erudita
brasileira através de todo tipo de apropriação. De que exatamente está-se
apropriando? Meu estudo tenta contribuir para a construção da resposta a essa
indagação.
6. Resumidamente, a que conclusões você chegou?
Poderia apontar as três mais importantes?
Proponho que não é possível compreender as letras de
samba sem antes aceitar a existência de diferentes modelos de consciência –
diferentes padrões culturais, éticos e estéticos etc. – convivendo e atuando
sinergicamente numa mesma sociedade. Em suma, temos um modelo enraizado na
cultura escrita (que tende a descontextualizar), na valorização do
individualismo (a idéia que o homem é um “indivíduo livre e autônomo”), no
chamado pensamento crítico, na secularização, na metodologia científica e na
escolarização. Pode-se dizer que esse modelo é o oficial. Ocorre que temos no Brasil um outro modelo de
consciência que implica outros padrões culturais, éticos e estéticos. Ele é
enraizado na cultura oral (que tende a contextualizar), na valorização das
hierarquias (a idéia de que a pessoa inexiste fora de uma rede de relações
sociais), no pensamento criado a partir da experiência prática e da sabedoria
acumulada do senso comum (os ditados populares são um bom exemplo: “quem senta
na garupa, não pega na rédea”, “quando o rico mata o pobre, o defunto é que vai
preso”), na religiosidade, na valorização da tradição e na transmissão de
conhecimento através do contato face-a-face.
No Brasil, mesmo uma pessoa de nível universitário
pode ser filha de analfabetos e estar profundamente enraizada neste segundo
modelo.
Defendo a idéia de que as letras de samba só podem ser
compreendidas e avaliadas quando vistas
como expressão deste determinado modelo de consciência.
7. Como o tropicalismo entrou em seu estudo?
No âmbito da música popular brasileira, vejo o
tropicalismo como a representação mais acabada e nítida do primeiro modelo
citado, o que chamei de “oficial”. Utilizei várias letras tropicalistas de
forma comparativa, visando ressaltar as características das letras de samba.
Em suma, enquanto as letras tropicalistas tendem a
pressupor leitura, releitura e interpretação, as letras de samba tendem a ser
criadas para o compartilhamento, a comunicação imediata e a memorização, sempre
através de temas amplos, capazes de gerar grande identificação entre as
pessoas. Como dizia Colligwood sobre artista popular do mundo oral grego: “toda
afirmação da emoção que ele” [o artista] “profere é precedida da rubrica
implícita não do ‘eu sinto’, mas ‘nós sentimos’. É um trabalho para o qual
convida a comunidade a participar; isto porque sua função como espectadores não
é aceitar passivamente sua obra, mas repeti-la novamente para si mesmo”. E
repeti-la, acrescento, tanto por fazer parte do repertório coletivo como por
trazer o pathos não de um “eu”, mas
de um “nós”.
A tese mostra que temas cotidianos da vida concreta
como o trabalho, a comida, a festa, a morte, a solidariedade, o envelhecimento
e muitos outros, tratados a partir da voz e da experiência pessoal, tendem a
desaparecer do discurso escolarizado e
oficial que opta por temas mais específicos de uma forma muitas vezes distanciada,
analítica e impessoal, como se propussesse uma ‘teoria”. Veja esse trecho de
“Geléia geral” Gilberto Gil e Torquato Neto
Um poeta desfolha a bandeira
E a manhã tropical se inicia
Resplandece cadente fagueira
Num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira
Que o Jornal do Brasil anuncia etc.
Preciso ser claro: não pretendo criticar o
tropicalismo, dizer que o samba é melhor ou pior mas, sim, ressaltar que as
letras do tropicalismo foram criadas a partir de um modelo construtivo e de
padrões éticos e estéticos diferentes daqueles utilizados pela maioria dos
sambistas, sejam eles alfabetizados ou não.
8. Você concorda que o tropicalismo matou o samba?
Justifique, por favor...
Discordo completamente disso. O samba, pelo contrário,
continua muito vivo.
9. Sua tese explica porque o samba é tão popular?
Creio que contribui para isso. Veja essas letras:
Eu tenho uma casinha lá na Marambaia
Fica na beira da praia
Só vendo que beleza
Tem uma trepadeira que na primavera
Fica toda enflorescida de brincos de princesa
Quando chega o verão
Eu sento na varanda
Pego o violão começo a cantar
Minha morena que
está sempre bem disposta
Senta-se a meu lado
também a cantar etc.
(“Só vendo que beleza” de Henricão e Rubens Campos)
Ô Antonico
Vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade
É necessário uma viração por Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
Ele está mesmo dançando na corda bamba
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuica, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim etc.
(“Antonico” de Ismael Silva)
Em primeiro lugar, são passíveis de compreensão por
todas as pessoas, independentemente de graus de instrução, classes sociais e
faixas de idade e sejam da zona urbana ou rural.
Em segundo lugar, podem gerar identificação em todas
as pessoas independentemente de graus de instrução, classes sociais e faixas de
idade e sejam da zona urbana ou rural.
É isso o que, a meu ver, torna essas letras
“populares”. Um discurso tão poderoso assim, capaz de gerar tamanha
identificação e familiaridade entre as pessoas merece ser melhor estudado e
compreendido.
10. Existem teses e biografias de sambistas que tratam
do conteúdo das letras de sambas. Que diferenças você destaca em seu trabalho?
Não há tantos estudos assim, infelizmente. Li as
biografias de sambistas como Noel Rosa, Cartola, Wilson Batista, Paulinho da
Viola, Zé Kéti e Geraldo Pereira, além de procurar dados biográficos de outros
na Enciclopédia da Música Popular Brasileira (ArtEditora e PubliFolha). A
preciosa coleção de mais de cem CDs e nove livros “A música brasileira deste
século por seus autores e intérpretes” organizada por J.C. Botezelli e Arley
Pereira também foi muito útil. Utilizei esses trabalhos principalmente para tentar
confirmar e reafirmar minha idéia de que estamos diante de modelos de
consciência e padrões culturais, éticos e estéticos diferentes.
Minhas principais referências bibliográficas foram
Norbert Elias, Mikhail Bakhtin, Louis Dumont e Roberto Da Matta, os estudiosos
da oralidade Eric Havelock, Walter Ong, David Olson, Jack Goody e Paul Zumthor
e vários estudiosos da cultura popular brasileira como Antonio Cândido, Carlos
Rodrigues Brandão, Núbia Gomes e Edimilson Pereira entre outros. Para
compreender a história do samba, recorri a José Ramos Tinhorão e Ricardo Cravo
Albin entre outros.
11. Que contribuição você acha que seu estudo traz
para se compreender o samba como “expressão de um certo nível de consciência
construído socialmente”, segundo suas palavras?
Espero que meu estudo contribua para o estudo e a
compreensão de um certo “discurso popular”, algo heterogêneo e não
sistematizado mas existente. Embora desprezado, pouco estudado, ausente dos
cadernos de crítica, desvalorizado pelas escolas e academias, o discurso
popular é, a meu ver, muito importante e de influência imensa.
12. Sua tese será publicada em livro? Se sim, tem
previsão?
Ainda não.