“A poesia é crucial para a boa formação do estudante”

Atica Net

www.atica.com.br - 30 Julho de 2005

 

Ricardo Azevedo, autor de Ninguém sabe o que é um poema, defende a valorização da cultura popular e explica que, por meio da poesia, é possível compreender melhor as contradições da vida.

 

Faz tempo que o escritor e ilustrador Ricardo Azevedo ganhou, merecidamente, um espaço privilegiado na literatura infanto-juvenil brasileira. Com muitos livros publicados e vários prêmios obtidos, Azevedo nunca escondeu sua paixão pelas expressões populares da cultura brasileira. Em Ninguém sabe o que é um poema, obra recém-lançada pelo autor, estão reunidos poemas com temáticas diversas, repletos de humor, lirismo e reflexão. Nesta entrevista ao Boletim Ática, Ricardo Azevedo fala de seu novo livro, de poesia e da aplicação didática da composição poética em sala de aula.

 

Boletim Ática: Como começou sua relação com a poesia?

Ricardo Azevedo: Minha aproximação com a poesia se deu graças a meu pai. Durante nossa infância – minha e de meus irmãos –, ele tinha o costume de selecionar poemas e fazer gravações caseiras com a gente, num gravadorzinho de rolo. Era muito divertido. Foi assim que tive contato com as trovas populares recolhidas por Afrânio Peixoto; com “I-Juca Pirama” e “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias; com a poesia de Vicente de Carvalho, Castro Alves, Artur Azevedo e vários outros.

Ainda na infância, esse contato se ampliou com a audição de discos dos Jograis de São Paulo e de gravações dos próprios poetas, elas estavam na moda naquela época, algo que meu pai adorava ouvir. Meu primeiro encontro com a poesia dos extraordinários Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes deu-se através desses discos. Escutar “José” e “O caso do vestido” na voz do próprio Drummond; ou “Jandira”, de Murilo Mendes, declamado pelos Jograis, foi uma experiência inesquecível.

 

 

Boletim Ática: Como você observa a aproximação dos leitores brasileiros com esse gênero? A poesia é desprestigiada por aqui?

Azevedo: Se a leitura em nosso país é desprestigiada, não poderia ser diferente com a poesia. As razões são muitas. Vou abordar algumas delas: em primeiro lugar, muitos adultos, inclusive professores, recomendam sua leitura, mas em geral não lêem nem gostam de ler.

Outro ponto: creio que se criou uma cultura de aparências no seio de uma certa elite que adora sentir-se “intelectual”, “culta”, “moderna” e “de vanguarda”. Num país enraizado na cultura oral e popular – desprezada e desconhecida – é comum que essa elite se sinta “superior”, só porque estudou um pouco. Neste contexto, por vezes surge uma literatura elitista, hermética e especializada, escrita para raros iniciados, literatura que afasta o leitor, mesmo aquele de nível universitário mas sem formação em literatura. Impotentes, muitas pessoas chegam à conclusão de que “não têm jeito para a leitura”. Naturalmente, isso tem reflexo negativo se pensarmos no leitor jovem que está se formando.

Um terceiro ponto: somos formados pelo discurso escolarizado, predominante no livro didático. Tal discurso  costuma ser utilitário, assertivo e impessoal. Um exemplo: “A água ferve a 100 graus”.

 Não ferve  nem a 80, nem a 120 mas exclusivamente a 100 graus. Ou seja, por trás desse tipo de discurso, existe a premissa de que as coisas são unívocas. Ou de que cada coisa só pode ser uma única coisa. Pois bem, vamos pegar o caso de Fernandinho Beira-mar. Pelo pensamento lógico-escolarizado, as pessoas ou são uma coisa, ou são outra coisa, ou são mocinhos ou são bandidos, pois a possibilidade de ambigüidade costuma ser descartada. Nesse caso, Fernandinho Beira-mar é naturalmente um bandido. Surgem daí as idéias de pena de morte e outras teses maniqueístas. Acontece que, olhando bem, Fernandinho Beira-mar é sem dúvida um bandido mas, ao mesmo tempo, é uma vítima ou o resultado de uma sociedade de origem escravocrata, socialmente injusta e desigual. Em outras palavras, ele é não uma, mas duas coisas ao mesmo tempo: bandido e vítima. Isso, naturalmente, torna as coisas bem mais complexas. É importante estar preparado para conviver com a ambigüidade e com a contradição. A vida concreta é cheia delas. 

Nesse sentido, vejo a poesia como algo crucial para a boa formação do estudante. Por meio dela entramos em contato com o discurso subjetivo e podemos refletir sobre a contradição, o dissenso e a ambigüidade dentro de nós mesmos e no mundo. A poesia é uma forma de interpretar a vida e o mundo a partir da subjetividade e da voz particular e não a partir da objetividade ou da informação.

Em decorrência disso tudo, é comum surgir a seguinte pergunta: “Qual a ‘função’ da poesia?”. Costumo responder contra-atacando: “Qual a ‘função’ da vida? Qual a ‘função’ do ser humano? Qual a ‘função’ da saudade, da empatia ou da amizade?”. Somos levados a inferir, através da lógica mecanicista escolar, que tudo tem uma função – o que me parece um grande equívoco.

Em resumo, num ambiente que valoriza a informação objetiva, o utilitarismo e a impessoalidade, fica difícil falar em arte, ficção e poesia, cujos pontos essenciais são a convivência paradoxal da subjetividade, da objetividade e da ambigüidade. Nesse aspecto aliás, é importante dizer, creio que a arte e a literatura imitam os seres humanos.

 

Boletim Ática: Que idéias nortearam a edição de Ninguém sabe o que é um poema?

Azevedo: Não houve nenhum plano geral para fazer esse livro. Pretendia escrever textos que dialogassem com o jovem leitor. Para isso, tentei evitar temas egocêntricos ou abstratos demais, ou erudições fora de lugar. Procurei também fugir de uma linguagem experimental ou fragmentada. A grande maioria dos leitores brasileiros, em especial o jovem leitor, não tem intimidade com a leitura, não sabe usar os livros em benefício próprio e até costuma desprezar a leitura, a literatura e a poesia. Entretanto, está apto e teria grande interesse em  tornar-se leitor de literatura, se esta fosse apresentada de uma  forma menos elitista e excludente.

 

Boletim Ática: Como se deu a seleção dos poemas?

Azevedo: De forma caótica. O livro tem de tudo: poemas escritos recentemente, textos antigos parcialmente reescritos, poemas criados há mais de 20 anos. Foram vários pontos complicados, e o editor Fabio Weintraub foi importante na discussão dessa seleção. Como determinar se o texto tinha chance de dialogar com o leitor? Como saber se ele era simples ou complexo demais?

Procurei mesclar textos mais diretos e claros, muito próximos das formas literárias populares, com textos um pouco mais abstratos. A tônica geral foi a busca do compartilhamento e da identificação com o leitor.

 

Boletim Ática: É possível aplicar em sala de aula uma iniciação poética, destinada a crianças e jovens? Do ponto de vista da linguagem poética, essa iniciação seria relevante?

Azevedo: Uma iniciação poética é, a meu ver, claramente possível e deveria partir da poesia popular, mais familiar à maioria dos brasileiros. Temos um riquíssimo acervo de formas literárias populares: quadras, trava-línguas, adivinhas, ditados, contos e a poesia de cordel. Esse acervo poderia servir de iniciação à literatura e ao discurso poético.

Outra fonte poética extraordinária é a nossa música popular. Nenhum aluno brasileiro deveria se formar sem conhecer profundamente as obras de compositores como Chico Buarque, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Noel Rosa, Paulinho da Viola  e outros. Depois de conhecê-las, será muito mais fácil para o aluno ler Drummond, Bandeira, João Cabral [de Melo Neto], Murilo Mendes, Ferreira Gullar, Manoel de Barros etc.

Com o cinema ocorre o mesmo. Uma comparação entre os recursos narrativos do cinema e da literatura só ajudaria na compreensão da arte, da literatura, do cinema e da poesia. Só que dentro da atual formação da maioria dos professores, associar programaticamente  literatura, música popular e cinema é algo impensável. Não quero aqui, de forma alguma, desvalorizar os professores. Já fui professor regular e até hoje dou cursos de especialização; sou filho de professor e respeito muito essa profissão generosa, civilizadora e importantíssima. É preciso, porém, dar ao professor melhores condições de trabalho e reconhecer a necessidade de sua capacitação e reciclagem constantes.

Uma coisa eu garanto: os alunos, na maioria das vezes, são inteligentes e inventivos. Se costumam sair da escola malformados, a ponto de nem saberem utilizar livros em benefício próprio e serem incapazes de colocar suas idéias no papel com clareza, o problema muitas vezes está no sistema educacional.

Na verdade, professores, alunos e todos nós somos vítimas de um modelo escolar baseado na escola do fim do século XIX, que fugiu das ciências humanas e optou por formar técnicos acríticos, aptos a ocupar postos de trabalho na indústria, em grande desenvolvimento naquela época. O problema é que o tempo passou, estamos no século XXI e as demandas são outras.

 

Boletim Ática: E os novos projetos?

Azevedo: Tenho vários projetos em andamento e acabo de lançar o livro Contos de bichos do mato, pela Ática, com 24 contos populares de bichos recontados por mim. Também ando mexendo no texto da tese que defendi ano passado na USP, “Abençoado e danado do samba”, para tentar uma publicação. Trata-se de uma tentativa de compreender e caracterizar o discurso popular através das letras de samba. Assim que possível, vou à luta atrás de uma editora.