Entrevista
a Profa. Elita Maria Bianchi Tessari, Escola de Educação
Básica Francisco de Assis - EFA_ em Ijuí, RS. para ser publicada na revista Leitura em revista, uma publicação da
Associação Internacional de Leitura Conselho Brasil-Sul e Regional do Noroeste
do Estado do RS (ALBS-NE). 2005
Professora Elita: Para começar, você poderia abordar a sua trajetória
de leitor, de escritor.
Ricardo Azevedo: Meu pai, Aroldo
de Azevedo, era professor universitário e autor de livros de geografia. Tive a
sorte de nascer numa casa cheia de livros e, ainda, de ter contato com o
processo de publicação de livros desde criança. Foi uma sorte também ter pais
que nunca mandaram ler nada mas que simplesmente eram leitores. Entre os livros
que lembro da infância, sem dúvida, está a coleção Tesouro da Juventude. Na
adolescência fiquei muito impressionado com escritores como John Steinbeck,
Albert Camus, Franz Kafka, Hermann Hesse
e Samuel Beckett, autores de quem li muitos livros, em geral em edições
portuguesas (fora o Kafka que li nas traduções de Torrieri Guimarães). Eles estavam em voga nas décadas de 60 e 70 e
me marcaram muito. Também lia
semanalmente as crônicas de Fernando
Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto e outros. Lá pelos 17
anos tive acesso a três contos para crianças do autor suíço Peter Bischel. O
livro foi recentemente publicado pela Ática com o título “O homem que não queria saber de nada, de nada e outras
histórias”. Considero esse autor o responsável pelo meu interesse pela
literatura infantil. Minha aproximação com a poesia, por outro lado, deu-se
graças a meu pai. Durante nossa infância – minha e de meus irmãos –, ele tinha
o costume de selecionar poemas e fazer gravações caseiras com a gente, num
gravadorzinho de rolo. Foi assim que tive contato com as trovas populares
recolhidas por Afrânio Peixoto; com “I-Juca Pirama” e “Canção do exílio”, de
Gonçalves Dias; com a poesia de Vicente de Carvalho, Castro Alves, Artur
Azevedo, Luíz Peixoto e vários outros. Ainda na infância, esse contato se
ampliou com a audição de discos dos Jograis de São Paulo e de gravações
dos próprios poetas, elas estavam na moda naquela época, algo que meu pai
adorava ouvir. Meu primeiro encontro com a poesia dos extraordinários Manuel
Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes deu-se através desses
discos. Escutar “José” e “O caso do vestido” na voz do próprio Drummond; ou
“Jandira”, de Murilo Mendes, declamado pelos Jograis, foi uma
experiência inesquecível.
Professora Elita: Em relação à adjetivação ao
substantivo Literatura, por exemplo, infantil, infanto-juvenil, você concorda?
Há diferenças, semelhanças? Existe isso de fato? Pode-se caracterizar
diferentes literaturas? Teríamos então literatura "adulta"?
Literatura "senil"? Aborde um pouco sobre essas questões. Durante sua
fala para professores e alunos na noite de 09 de junho em Ijuí, você afirmou,
por exemplo, que não existe linguagem para crianças. Explique melhor essa
afirmação. Isso de linguagem para criança ou linguagem infantil é abordada como
uma caracterização de livro infantil...
Ricardo Azevedo: Acho que a gente
perde muito tempo com rótulos. Evidentemente existem crianças e adultos,
existem diferentes graus de maturidade ou de instrução. Mas os limites não são
tão claros assim. Creio que a divisão de pessoas em abstratas faixas de idade
serve apenas para organiza-las em classes na escola e também para a indústria
de consumo que assim identifica “fatias de mercado”. Acreditar que pessoas da
mesma idade, cada uma com sua experiência de vida, componham um grupo homogêneo
é um grande equívoco. Há pessoas de doze anos que já trabalham e têm filhos. Há
pessoas de mais de vinte que nunca trabalharam e vivem alienados, no mundo da
lua e do mero consumismo imbecilizado. Em suma, não creio que estipular grupos
de idade sirva para compreender a literatura. Daqui a pouco teremos poesia para
mulheres separadas de 45 anos. Romances para engenheiros de 35 que apreciam o
futebol e coisas assim. Parece brincadeira mas não é: vivemos num mundo onde a
tendência é o individualismo e a especialização. A soma dos dois, creio eu, tem
sido uma coisa nefasta e os resultados estão aí: violência, descompromisso com
valores morais e éticos, irracionalidade, proliferação do narcisimo etc.
Falando de leitura, quando eu era moleque, lá pelos dez anos, descobri que
tinha um romance em casa com cenas de sexo e palavrões. Esperei um dia que meus
pais saíram e peguei o livro. Lembro até hoje. Ele tinha umas quinhentas
páginas e era composto em letra miúda. Com dificuldade, tentei ler a primeira
página. Não tinha nenhum palavrão nem ninguém transando. Fui para a segunda.
Nada. Na terceira, desisti e coloquei o livro de volta na estante. Se eu
tivesse conseguido ler, o livro era para mim. Não consegui. Ainda não era.
Diante de um livro, cada uma faz o que pode. O resto é
abstração, rotulinho e estatística. Se um leitor de doze aprecia a poesia de
Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa, você vai fazer o quê? Se um
leitor tem 40 e não consegue ler Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa,
que leia outra coisa. Agora, tratar pessoas como se elas necessariamente se
comportassem como uma média estatística e homogênea, não! Mesmo sendo
precárias, ainda prefiro as dicotomias do tipo erudito/popular, ou seja, no
caso, o reconhecimento de que existem discursos escolarizados e especializados
que buscam leitores especialistas e discursos
construídos a partir da cultura oral e informal que buscam sempre
atingir todas as pessoas. Considerando a literatura, os primeiros são
considerados “adultos”. Os segundos, a meu ver, são fundamentalmente populares.
Quero ser claro: como autor, tudo aquilo que for exclusivamente infantil é
coisa pontual que não me interessa. Tento trabalhar com os pontos comuns entre
seres humanos, tenham a idade que tiverem. Note que os contos maravilhosos e as
quadras populares, por exemplo, sempre se dirigiram e encantaram a todos,
independentemente de faixas etárias. Neles podemos encontrar jovens
transformados em monstros que lutam recuperar sua identidade ou mães que, ao
perceberam o crescimento das filhas, mandam matá-las. Além da linguagem pública
e dos temas amplos que permitem a identificação da maioria dos leitores,
independentemente de faixas etárias, talvez o que costume marcar a literatura
infanto-juvenil seja a recorrência de protagonistas crianças ou jovens. Mesmo
assim não é uma regra. Tenho livros em que os protagonistas são idosos. Que eu
me lembre, nenhum conto de Peter Bischel tem personagens crianças ou jovens.
Muitas livros da chamada literatura infantil como “Historia meio ao contrário”
de Ana Maria Machado ou “O que os olhos não vêem” de Ruth Rocha só têm
personagens adultas.
Professora Elita: Tem-se criticado os professores em
relação à leitura (ou não-leitura) nas escolas. Qual sua opinião, o que você
tem a dizer para esses profissionais quanto ao trabalho que fazem (ou deixam de
fazer) com os alunos relativamente à leitura? Quem sabe algumas sugestões a
esses profissionais...
Ricardo Azevedo: Repito palavras
de uma entrevista recente. O estudo de textos
literários, na escola e a meu ver, deveria partir da poesia popular, mais familiar
à maioria dos brasileiros. Temos um riquíssimo acervo de formas literárias
populares: quadras, trava-línguas, adivinhas, ditados, contos, a poesia de
cordel, escritores e poetas como Luis Peixoto e Patativa do Assaré entre
outros. Esse acervo poderia servir de iniciação à literatura e ao discurso
poético. Dou um exemplo: as adivinhas, a meu ver, representam um excelente e
divertida iniciação à linguagem metafórica e poética.
Outra fonte poética extraordinária é a
nossa música popular. Nenhum aluno brasileiro deveria se formar sem conhecer
profundamente as obras de compositores como Chico Buarque, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Noel Rosa,
Paulinho da Viola e outros. Depois de conhecê-las, será muito mais fácil
para o aluno ler Drummond, Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes,
Ferreira Gullar, Manoel de Barros, etc.
Com o cinema ocorre o mesmo. Uma
comparação entre os recursos narrativos do cinema e da literatura só ajudaria
na compreensão da arte, da literatura, do cinema e da poesia. Note que quando
entra na escola, a maioria das crianças já assistiu muitos filmes e conhece
recursos da linguagem cinematográfica. Ocorre que dentro da atual formação da
maioria dos professores, associar programaticamente literatura, música popular
e cinema é algo impensável. Não quero aqui, de forma alguma, desvalorizar os
professores. Já fui professor regular e até hoje dou cursos de especialização;
sou filho de professor e respeito muito essa profissão generosa, civilizadora e
importantíssima. É preciso, porém, dar ao professor melhores condições de
trabalho e reconhecer a necessidade de sua capacitação e reciclagem constantes.
Na verdade, professores, alunos e todos
nós somos vítimas de um modelo escolar baseado na escola do fim do século XIX,
que fugiu das ciências humanas e optou por formar técnicos acríticos, aptos a
ocupar postos de trabalho na indústria, em grande desenvolvimento naquela
época. O problema é que o tempo passou, estamos no século XXI e as demandas são
outras.
Professora Elita: Você, em Ijuí, falou a profissionais
da área da educação e também com alunos de 4º ano do Ensino Fundamental ao 3º
ano do Ensino Médio, como é essa experiência de falar com os alunos? Qual sua
posição a respeito dessas atividades? São frutíferas? Por quê?
Ricardo Azevedo: Podem ou não ser
frutíferas. Vai depender da sintonia estabelecida entre o escritor e os alunos
e esta pode ocorrer ou não. A meu ver, esses encontros, quando dão certo, podem
representar uma humanização da literatura. O aluno vê o autor de carne e osso,
enxerga suas qualidades e suas limitações, e passa a encarar a literatura como
algo humano feito por um ser parecido com ele.
Professora Elita: Percebe-se uma grande preocupação,
por parte da família e dos professores, em relação a "queda do gosto pela
leitura" quando as crianças chegam à quarta/quinta série do Ensino
Fundamental. A família questiona muito a professora/ o professor. O que você
pensa a respeito disso?
Ricardo Azevedo: Acho que existe
muita retórica vazia em tudo isso. Muito poucos adultos, professores, e pais
lêem ou se interessam de fato pela leitura, a não ser a utilitária
técnico-informativa, quando muito. As pessoas sabem que é “politicamente
correto” defender a leitura e a literatura mas não sabem porquê. Acho que a
grande luta é tentar mostrar aos adultos, pais e professores que a literatura
não é um símbolo de status ou algo assim mas uma tentativa de através da
ficção, da linguagem poética e do discurso subjetivo tratar de temas complexos
da existência e dar sentido à vida concreta. Como todos nós estamos diariamente
construindo e reconstruindo este sentido, a literatura pode ter um grande
interesse. Manuais utilitários, didáticos, técnico-informativos costumam trazer
informações e nos ajudar a aprender um ofício e arranjar emprego mas
estão longe de contemplar nossas questões subjetivas, nossas dúvidas éticas,
nossas dificuldades na relação com o Outro, nossos paradoxos e ambigüidades.
Professora Elita: Atividades referentes a um livro
lido são questionadas tendo em vista que o que importa é o ler por prazer, que
o aluno não deve ser "cobrado" na leitura literária. Na prática da
sala de aula, talvez pela cultura do "se não vale nota, por que é que
tenho que ler ou fazer algo?" a realidade não é bem assim, mesmo que o
professor seja um incentivador, que haja biblioteca com muitos títulos
adequados, com espaço adequado, com "hora do conto". O fato é que há
bastante resistência por grande parte dos jovens de 10/11 anos em diante.
Comente um pouco sobre isso.
Ricardo Azevedo: A escola
infelizmente transformou-se num espaço eminentemente utilitário onde recebemos
mecanicamente informações gerais e aprendemos teorias abstratas, fórmulas e
métodos. A vida apresentada pela escola acaba se resumindo às matérias
escolares. O que estiver fora da gramática, da matemática, da biologia etc.
simplesmente não é tratado. Com isso, ficam descartados da escolas os assuntos
da vida concreta, as relações humanas, as paixões, as utopias, as loucuras, os
conflitos éticos, as questões sexo-afetivas, a mortalidade, o prazer, o corpo
etc. Veja que curioso: o sujeito se forma na escola com 16 ou 17 anos de idade
cheio de teorias e informações abstratas mas não sabe nada de
primeiros-socorros, por exemplo. Não dá o que pensar? Repito o que disse em entrevista recente: em decorrência disso tudo, é comum surgir a seguinte
pergunta: “Qual a ‘função’ da poesia?”. Quem disse que tudo tem uma “função”?
Costumo responder contra-atacando: “Qual a ‘função’ da vida? Qual a ‘função’ do
ser humano? Qual a ‘função’ da saudade, da empatia, da amizade, do sublime ou
da honradez?”. Somos levados a inferir, através da lógica mecanicista escolar,
que tudo tem uma função – o que me parece um grande equívoco. Vou fazer uma
provocação: creio que em nossas vidas tudo o que tem função tende a ser
subalterno e substituível. Ao contrário, as coisas sem função, aquilo que
fazemos espontaneamente, os movimentos e ideais desinteressados, esses sim, nos
engajam e dão sentido à vida.
Outro ponto: na
sociedade atual, somos submetidos, desde a infância, a um impressionante volume
de textos utilitários de caráter assertivo, apodíctico (afirmam a “verdade”) e
impessoal. Estes estão nos livros didáticos, nos diversos tipos de manuais, nos
dicionários e enciclopédias, na publicidade, em boa parte das matérias
jornalísticas, nas bulas de remédio etc. Basicamente, pretendem exprimir
verdades estabelecidas ou têm como objetivo informar, ensinar, prescrever,
explicar, determinar, comandar, anunciar, recomendar ou orientar sobre
determinado assunto. Sublinho sua extrema objetividade e impessoalidade.
Tais textos prescrevem, ensinam e recomendam, mas não
costumam apresentar o “eu” que fala. Para ficar no âmbito escolar, os
estudantes passam mais de 10 anos de suas vidas tendo contato quase que
exclusivamente com discursos desse tipo. Um exemplo:“A água ferve a 100 graus”.
Além do caráter impessoal, como pretendem ser unívocos, ou seja, ter uma
exclusiva e única interpretação, esses textos costumam utilizar a Língua de
forma bastante ortodoxa, controlada e limitada, fugindo das metáforas, imagens,
ambigüidades, ironias, duplos sentidos e de recursos como repetições, rimas,
aliterações
etc. Eu pergunto: como pretender formar pessoas que
saibam se expressar utilizando textos impessoais que trazem uma “verdade” de
fora?
Em resumo, num ambiente que valoriza a
informação objetiva, o utilitarismo e a impessoalidade, fica difícil falar em
arte, ficção e poesia, cujos pontos essenciais são a convivência paradoxal da
subjetividade, da objetividade e da ambigüidade. Nesse aspecto, aliás, é
importante dizer, creio que a arte e a literatura imitam os seres humanos.