Entrevistadora Penha Lucilda Silvestre (está na dissertação “Entre traços e letras: um estudo introdutório sobre a produção literária de Ricardo Azevedo” de Penha Lucilda de Souza Silvestre, Área Estudos Literários, Universidade Estadual de Maringá, 2005)

Entrevista com o escritor Ricardo Azevedo:

 

Entrevistadora: Como você se tornou escritor?

Ricardo Azevedo: Percebi que gostava de escrever, e podia escrever, fazendo as redações escolares, isso ainda no tempo do antigo ginásio. A partir dessa época, passei a escrever regularmente. Sou músico amador e lá pelos 16, 17 anos comecei a compor. Fiz muitas canções e criar letras de música foi sempre um grande aprendizado em termos do uso da palavra. Fui sempre escrevendo meus textos e guardando. Mais tarde, trabalhei como redator publicitário e isso também me fez aprender muita coisa, principalmente nunca perder de vista a idéia principal do texto e sempre fugir do discurso complicado. Publiquei meu primeiro livro em 1980. No fundo, acho que virei escritor principalmente porque não só gosto como preciso inventar histórias.

 

Entrevistadora: Como é o processo de criação de suas obras literárias? Ao iniciar um trabalho, o senhor já tem em mente um público definido?

Ricardo Azevedo: Aos escrever meus primeiros textos e letras de música imaginava estar escrevendo para um público vagamente adulto. Ao mesmo tempo, ainda adolescente, tive contato com os contos infantis do suíço Peter Bischel que me impressionaram muito. Pensei comigo: “Quero escrever que nem esse cara!” ou pelo menos no patamar em que ele escrevia. Publiquei meu primeiro livro com trinta anos, “O peixe que podia cantar”, um texto para crianças. Quanto mais fui escrevendo, porém, mais fui percebendo que  a chamada “literatura infantil”, pelo menos aquela que me interessa, é muito mais uma literatura “popular” do que “infantil”, ou seja, recorre a uma linguagem pública e aborda temas amplos capazes de gerar identificação em crianças e adultos independentemente de graus de instrução e classes sociais. Os contos populares de encantamento são exemplo e paradigma desse tipo de discurso. Os textos de Peter Bischel de certo modo também operam nesse patamar, embora sem o conteúdo mágico. Ressalto a importância da noção de “tema amplo”. O oposto são temas singulares, idiossincráticos e solipsistas, que desvendam almas singulares e únicas através de uma linguagem que também busca ser singular e única. Esse tipo de texto normalmente é considerado “culto” e “adulto”. Confunde-se, a meu ver,  maturidade com um certo modelo de pensamento que privilegia a erudição, a especialização e o individualismo. O resultado é que esses trabalhos por vezes são elaborações textuais complicadas sobre temas obscuros de difícil compartilhamento. Ao contrário, admiro trabalhos que abordem temas complexos utilizando linguagem simples. Na minha visão, os temas da vida cotidiana – paixão, morte, trabalho, envelhecimento, família, conflito de gerações, o amor etc. – são extremamente complexos embora sejam por vezes considerados “banais” (!). Por outro lado, no âmbito da chamada literatura infantil, acho que os autores que se dirigem exclusivamente a crianças escrevem sempre livros didáticos e utilitários.  Na verdade, dirigir-se a públicos específicos pressupõe a idéia de que existem grupos homogêneos de pessoas e que estes diferem de outros grupos. Minha sensação é a de que tal procedimento tem razão de ser mas é estatístico e não pode ser generalizado. Na verdade, em geral, serve para distribuir as pessoas nas diferentes séries escolares, atender fatias de mercado e facilitar a comercialização do texto. Se esse modelo prosperar, vislumbro o dia em que você vai entrar na livraria e encontrar poesia para advogados recém formados. Contos para engenheiros de mais de 30 anos. Romances para mulheres divorciadas, ficção para juízes e assim por diante. O assunto é imenso mas acho importante ressaltar dois pontos: 1) primeiro, a existência de uma oposição entre o discurso solipsista e especializado e o discurso popular que privilegia o “nós” e aborda temas compartilháveis. Segundo Collingwood, para o artista popular oral “toda afirmação da emoção que ele” [o artista] “profere é precedida da rubrica implícita não do ‘eu sinto’, mas ‘nós sentimos’. É um trabalho para o qual convida a comunidade a participar; isto porque sua função como espectadores não é aceitar passivamente sua obra, mas repeti-la novamente para si mesmo”. E repeti-la, acrescento, tanto por fazer parte do repertório coletivo como por trazer o pathos não de um “eu”, mas de um “nós”; 2) no caso da chamada literatura infantil, a confusão entre textos didáticos, sempre dirigidos a públicos específicos (o que, nesse caso, faz sentido), e literatura, onde, creio, isso não faz muito sentido.

 

Entrevistadora: No que se refere à linguagem de seus textos, que aspectos o senhor destacaria como positivos para a interação com seu leitor?

Ricardo Azevedo: Busco a linguagem clara, direta e pública, as brincadeiras com palavras e com os ritmos do texto, certas fórmulas e frases feitas e sempre a concisão. Quanto aos temas, procuro sempre abordá-los de uma forma ampla passível de identificação e compartilhamento por um grande número de pessoas. Um texto solipsista, fora algumas exceções, não me atrai nem como leitor nem como escritor. Dentro da linha de trabalho que me interessa, as questões abordadas ou as personagens podem perfeitamente ser idiossincráticas, complexas, prolixas e obscuras, mas o texto não.

 

Entrevistadora: Como ocorre o processo  da escolha de temas, da linguagem, enfim, todas as preocupações e técnicas pertinentes à criação e produção de uma obra literária?

Ricardo Azevedo: Não existe isso, pelo menos para mim. Há assuntos que me fascinam e aos quais volto sempre sei lá por que razão. Percebi isso olhando retrospectivamente os trabalhos que fiz. Tais temas sempre surgiram de forma espontânea e intuitiva, não programática. Acho que com muitos autores ocorre a mesma coisa. No meu caso, são temas da vida cotidiana como a construção da voz pessoal, a busca do auto-conhecimento, a existência de diferentes pontos de vista ( a dupla existência da verdade), as questões éticas, a questão da responsabilidade social, o encontro e a descoberta do Outro, a incompreensibilidade do Outro, a valorização da cultura popular etc.

 

Entrevistadora: Quanto à pintura e às artes em geral, quais são os artistas que lhe servem de inspiração? Qual a influência em seu trabalho?

Ricardo Azevedo: Como quase toda criança, quando pequeno adorava livros ilustrados e alguns marcaram muito. Poderia citar A cidade dos anõezinhos de William Dohaney, Edições Melhoramentos, sem data, os três primeiros volumes da coleção O mundo da criança, os álbuns das Aventuras de Tintin entre outros. Como profissional, tive inicialmente influência de artistas gráficos americanos como Milton Glaser, Paul Davis, Richard Hess, James McMullan ligados ao Studo PushPin. Ainda no tempo da faculdade, tive acesso a revistas estrangeiras de artes, principalmente, Idea e Graphis. Aprendi muito com elas, tanto pelo contato com a obra de diversos ilustradores como com as noções de design e projeto gráfico, lay outs, tipologia etc. Para mim, essas revistas representaram uma verdadeira escola. Fora isso, artistas como Matisse, Paul Delvaux e principalmente René Magritte sempre foram uma referência importante no meu trabalho.  Gilvan Samico é outra grande influência. Além disso, os artistas da xilogravura popular como J.Borges e outros e muitos os artistas plásticos enraizados no popular como Heitor dos Prazeres e Raimundo de Oliveira. Cito alguns nomes mas na verdade as influências visuais são múltiplas. As vezes uma única obra pode transformar-se num paradigma fundamental.

 

Entrevistadora: Quanto aos textos com ênfase na pesquisa folclórica, podemos dizer que são verdadeiras antologias por reunirem textos pertencentes a diversos gêneros da literatura oral: contos, trava-línguas, parlendas, trovas, frases feitas e ditos populares, além de bestiários. Como surgiu o interesse pela cultura popular?

Ricardo Azevedo: Aprendi a valorizar e admirar a cultura popular em casa, através de meu pai. Tínhamos um sítio perto de São Paulo e posso dizer que passei parte da minha infância na roça. Convivi e freqüentei a casa de muitos caipiras, participei de festas populares etc. Tive sorte pois nas escolas a cultura popular sempre foi solenemente desprezada e desconhecida, o que é um absurdo num país como o Brasil. Ainda na infância, li muitos contos populares, principalmente através do Tesouro da Juventude, uma coleção maravilhosa de cerca de 18 volumes que tínhamos em casa. Mais tarde conheci da obra de Sílvio Romero, Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Lindolfo Gomes, Teófilo Braga, Adolfo Coelho e tantos outros, e comecei a pesquisar de maneira organizada, tanto as formas literárias populares – conto maravilhoso, quadras, adivinhas, ditados, trava-línguas etc – como a iconografia popular, particularmente a xilogravura. Acabei estudando o assunto da cultura popular com profundidade, no mestrado –os vestígios da cultura populares na literatura infantil – e no doutorado – basicamente um estudo sobre o discursos popular através das letras de samba. O título da tese é ilustrativo: “Abençoado e danado do samba – Um estudo sobre as formas literárias populares: o discurso da pessoa, das hierarquias, do contexto, da oralidade, do senso comum e da folia”. É preciso dizer o óbvio: somos um país marcado pela cultura do povo. A maioria absoluta da população tem muito mais vínculos com a cultura oral, e suas implicações,  do que com a cultura escrita, o discurso científico, escolarizado etc. A meu ver, existem dois modelos de consciência (padrões culturais, éticos e estéticos) interagindo no Brasil: o escolarizado e o popular. Vivemos, creio, uma contradição: um discurso da elite – acessível a pouquíssimas pessoas – que se apresenta como oficial e único (escolas, universidades, jornais, publicidade, bulas de remédio, contratos, discursos políticos etc) e um discurso popular fragmentado e heterodoxo, pouco estudado, profundamente marcado pela cultura oral que impregna a todos nós de forma profunda e invisível.

 

Entrevistadora: Como vê a atual produção de textos literários para crianças e jovens? O senhor tem algum escritor preferido?

Ricardo Azevedo: Confesso que trabalho tanto e tenho estado tão envolvido com meus textos e minhas pesquisas que não consigo acompanhar direito o que se produz. Pelo pouco que vejo, acho que tem muita coisa interessante sendo feita, tanto em matéria de texto como de imagem.

 

Entrevistadora: Por que ilustrar livro de literatura?

Ricardo Azevedo: Vou fazer uma provocação: por que não ilustrar um livro para adultos? Cito um exemplo: Minha mãe morrendo e o menino mentindo de Valêncio Xavier (Companhia das Letras) um livro ilustrado e não infantil. Trata-se de um caminho riquíssimo e pouco explorado. Creio que uma das razões nada tem a ver com faixas de idade: é que simplesmente o livro ilustrado custa mais caro. Falando especificamente de literatura infantil, acho que existem algumas pré-idéias que precisariam ser melhor discutidas. Muitas pessoas ainda acreditam que as ilustrações ou são utilitárias ou meramente decorativas. Creio que a coisa é um pouco mais complexa. Por exemplo, para crianças que estão se alfabetizando, de fato, as ilustrações podem ter a função de auxiliar na leitura e na compreensão do texto. Podem ser, portanto, utilitárias. O problema é que a criança aprende a ler com 7 anos. Para uma criança de nove anos, que já está segura na leitura, o que fazer com a ilustração? Continuar a tratar o leitor como se ele fosse um semi-analfabeto? Creio que não! O domínio da leitura por parte do leitor, ao contrário, liberta o ilustrador e abre as portas para um sem número de possibilidades para as imagens. O ilustrador não precisa mais tentar desenhar o que o texto diz. Pode criar, por exemplo, uma imagem que seja uma inferência, uma possibilidade sugerida pelo texto. Surge também o diálogo e a sinergia entre texto, imagem e projeto gráfico. Enfim, o livro ilustrado, seja para crianças ou adultos, é um suporte semiótico riquíssimo e ainda pouco compreendido e explorado.

 

Entrevistadora: Em alguns artigos que li, o senhor comenta sobre a dupla existência da verdade. Em que contexto? Poderia explicar essa questão? Até que ponto isso influencia na produção de seus textos literários?

Ricardo Azevedo: Um dos aspectos fascinantes da literatura e da poesia é, a meu ver, sua capacidade de trabalhar com a ambigüidade. Uma metáfora é pura ambigüidade. Um texto plurissignativo também. Por que entrar em contato com um texto assim é importante? Porque o ser humano é essencialmente múltiplo, contraditório e ambíguo. Discursos unívocos são ótimos para livros técnicos mas insuficientes para representar o ser humano na sua relação consigo mesmo, com o Outro e com o mundo. Um dia, li um texto maravilhoso de Fernando Pessoa em que ele falava no espanto diante da “dupla existência da verdade”. Adotei a expressão e passei a usá-la. Aí vai o texto na íntegra:

“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.”

 

Entrevistadora: No mundo ficcional de suas obras, conhecemos personagens de todas as idades, como o adolescente, o adulto e o velho. Por que essa diversidade nas fases da vida? Como foram a sua infância e adolescência?

Ricardo Azevedo: Acho que minhas infância e adolescência foram bastante triviais.

Agora, essa questão da divisão abstrata de pessoas em faixas de idade, vejo como uma coisa prática, funcional e útil apenas em certos casos. O problema é que acabou sendo naturalizada e quando isso acontece ela se torna uma bobagem. A divisão de pessoas em faixas de idade pode ajudar a distribuir pessoas em classes na escola ou definir fatias de mercado, mas nem de longe representam a vida das pessoas. Na vida mesmo, concreta e situada, tem gente imatura de 40 anos, gente com vida sexual aos doze, gente de oitenta se casando, gente de cinqüenta que já morreu, gente de treze que trabalha, gente de vinte cinco que nunca trabalhou, e por aí afora. Acreditar que essas faixas etárias correspondam à vida concreta é, evidentemente, um equívoco. Uma coisa é certa: a literatura se desenvolve no plano da vida particular, subjetiva e situada portanto ela tem que ser vista dentro desta perspectiva e não a partir de médias estatísticas e de modelos abstratos e impessoais. Vamos deixar esses critérios para os fenômenos químicos, físicos e biológicos que se desenvolvem mecanicamente.

 

Entrevistadora: Como o senhor considera a literatura infanto-juvenil em relação à literatura adulta?

Ricardo Azevedo: Acho que a gente perde muito tempo com rótulos. Evidentemente existem crianças e adultos, existem diferentes graus de maturidade ou de instrução. Mas os limites não são tão claros assim. Quando eu era moleque, lá pelos dez anos, descobri que tinha um romance em casa com cenas de sexo e palavrões. Esperei um dia que meus pais saíram e peguei o livro. Lembro até hoje. Ele tinha umas quinhentas páginas e era composto em letra miúda. Tentei ler a primeira página. Não tinha nenhum palavrão nem ninguém transando. Fui para a segunda. Nada. Na terceira, desisti e coloquei o livro de volta na estante. Se eu tivesse conseguido ler, o livro era para mim. Não consegui. Ainda não era.

Diante de um livro, cada uma faz o que pode. O resto é rotulinho e estatística. Se um cara de doze aprecia a poesia de Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa, você vai fazer o quê? Se um cara tem 40 e não consegue ler Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa, que leia outra coisa. Agora, tratar pessoas como se elas necessariamente se comportassem como uma média estatística, não! Prefiro a dicotomia erudito/popular, ou seja, a oposição ou o diálogo entre uma literatura erudita para leitores especialistas, e uma literatura popular (bastante heterogênea e que, a meu ver, abrange a literatura infantil). Quero ser claro: como autor, tudo aquilo que for exclusivamente infantil é coisa pontual que não me interessa. Tento trabalhar com os pontos comuns entre seres humanos, tenham a idade que tiverem. Note que os contos maravilhosos e as quadras populares, por exemplo, sempre se dirigiram e encantaram a todos, independentemente de faixas etárias.

 

Entrevistadora: Como o senhor vê a questão da obra literária servir de objeto para atividades meramente pedagógicas? Em que medida isso deve ou não acontecer?

Ricardo Azevedo: Acho que didatizar a literatura e a poesia, tornando-as utilitariamente suportes de lições, é uma das desgraças do mundo em que vivemos. Confundir textos técnicos e seus discursos objetivos com textos poéticos e sua subjetividade é o que acaba acontecendo e é por isso que cada vez mais é difícil formar leitores. O fenômeno não é exclusivamente brasileiro não. No chamado primeiro mundo acontece também e muito.

As pessoas parecem ignorar que os textos de ficção e poesia se caracterizam por tratarem de assuntos não passíveis de lições objetivas (a paixão ou a busca do auto-conhecimento, por exemplo) e pelo discurso subjetivo, ou seja, nele encontramos a voz de pessoas, reais ou imaginárias, que assumem sua particularidade e seu ponto de vista pessoal sobre a vida e o mundo. Entrar em contato com textos assim é muito importante além de extremamente prazeroso.

 

Entrevistadora: Poderia comentar sobre suas experiências de leitura? Que obras o marcaram?

Ricardo Azevedo: Meu pai, Aroldo de Azevedo, era professor universitário e autor de livros de geografia. Tive a sorte de nascer numa casa cheia de livros e de ter contato com a publicação de livros desde criança. Na juventude fiquei muito impressionado com autores como John Steinbeck, Albert Camus, Franz Kafka, Hermann Hesse e Samuel Beckett, de quem li muitos livros, em geral em edições portuguesas (fora o Kafka).  Eles estavam em voga nas décadas de 60 e 70 e me marcaram muito. Também lia semanalmente as crônicas de  Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto e outros.  Lá pelos 17 anos tive acesso a tres contos para crianças do autor suiço Peter Bischel. Considero esse autor o responsável pelo meu interesse pela literatura infantil. Li também poesia, principalmente Drummond, Bandeira, Murilo Mendes e Ferreira Gullar.  Preciso citar autores como Mário de Andrade, José Cândido de Carvalho e Dalton Trevisan. Lá pelos 30 anos li o Dom Quixote e considero uma das obras mais extraordinárias que li na vida. Cito alguns autores que marcaram muito. Na verdade, acho difícil mencionar esse ou aquele livro pois vejo a literatura como algo muito diversificado e isso talvez seja uma de suas maiores riquezas.

 

Entrevistadora: Como o senhor vê a literatura? O que é literatura? Qual a função que ela deve exercer nos leitores?

Ricardo Azevedo: Peço licença para citar uma resposta que dei numa entrevista recente (está no “Ninguém sabe o que é um poema”): “O que posso dizer é que o ser humano é um animal que pergunta e a poesia talvez tenha a ver com isso. Para responder às suas constantes indagações, o homem inventou as religiões, as ciências, as filosofias e também as artes. Vejo a poesia, e a própria literatura, ou seja, as artes feitas com palavras, como formas de perguntar, interpretar, discutir e de compartilhar, por meio da ficção, assuntos que emocionam, encantam ou perturbam a todos nós.”

Preciso dizer que acho “função” uma palavra talvez prática mas redutiva e incapaz de representar certos aspectos fundamentais dos seres humanos. Qual a “função” da paixão? Qual a “função” da borboleta? E da amizade? E da árvore? Da festa? Da saudade? Do lúdico? Da solidariedade? Qual a função da vida? Da mesma forma, creio que a noção de “função” é incapaz de traduzir a literatura e a arte. Elas simplesmente não têm função. A meu ver, são recursos que o homem inventou para se relacionar com o Outro, consigo mesmo, para se divertir, para especular, para se emocionar e ainda sugerir interpretações para a vida e o mundo.

 

Entrevistadora: O conceito de leitura e de literatura muda de acordo com as tendências socioculturais. Hoje, o que é literatura e qual é o papel da leitura do texto literário?

Ricardo Azevedo: Acho que resposta anterior serve para essa pergunta. Gostaria porém de voltar a um ponto. No nosso país 1) talvez mais da metade da população pode ser considerada analfabeta ou semi analfabeta, 2) a maioria absoluta das pessoas tem contato diário com analfabetos ou semi analfabetos e 3) mesmo muitas pessoas escolarizadas e até de nível superior podem vir de famílias onde existem analfabetos. Neste contexto, a influência da  cultura oral e suas inúmeras implicações é extraordinária embora nem sempre reconhecida. Tenho sido um defensor do uso da cultura popular nas escolas. Para mim deveria inclusive ser uma matéria. Penso particularmente das formas literárias populares (contos de encantamento, quadras, ditados etc). Acho que eles podem funcionar como mediadores culturais entre o discurso e a cultura oficial (escrita e escolarizada) e o discurso e a cultura do povo aquele que, como tentei sintetizar  no subtítulo da minha tese, valoriza o discurso da pessoa (situada dentro de hierarquias e grupos), das hierarquias (família, grupos etc), do contexto (o torrão natal), da oralidade (cultura oral), do senso comum (sabedoria popular e tradição) e da folia (festas). Me explico melhor. Hoje quando uma criança, filha de analfabetos, vai para a escola é levada a pensar que seus pais não sabem nada, pois desconhecem a leitura, a escrita, a gramática, a matemática, a história etc. Imagine o que isso representa em termos de auto-estima por exemplo. Pois bem, diante de um conto de encantamento ou de uma quadra popular ela vai poder dizer: “Péraí! O meu pai conhece uma história desse tipo!” Pode até trazer uma história nova na próxima aula, contribuindo assim com o professor e com a classe. Acho esse um papel fundamental da escola brasileira: construir uma ponte entre a cultura popular e a cultura oficial e escolarizada. Ambas são muito ricas mas hoje só uma tem voz.