Entrevista sobre
a tese Abençoado e danado do samba
Ricardo José Duff Azevedo, autor de Abençoado e danado do samba, apresentou
sua obra ao programa de pós-graduação
O que
o fez escolher a linguagem do samba como discurso popular como tema do trabalho
de pesquisa?
Meu
interesse foi, na medida do possível, tentar caracterizar ou, pelo menos,
apontar tendências e preponderâncias daqueles discursos que escutamos ou lemos
e, de imediato, identificamos como populares. Dou um exemplo: “quem quiser
vatapá, ô/que procure fazer/primeiro o fubá/depois o dendê/procure uma nega
baiana,ô/que saiba mexer/que saiba mexer/que saiba mexer” (“Vatapá”, samba de
Dorival Caymmi). Até uma criança vai dizer que esse texto tem a ver com o
“popular”. Meu estudo tenta compreender e aprofundar os porquês e, para isso,
aponta um certo modelo de consciência,
certos padrões cognitivos, éticos e estéticos de onde surgem esses
discursos.
Como
vê as mutações, fusões, adesões e experimentos sofridos pelo samba através do
século?
Tento
mostrar na tese que as letras de samba, como é próprio das cultura populares e
das culturas orais, são criadas a partir de
padrões de longa duração. Enquanto as culturas modernas e eruditas, assim como as de massa, marcadas
pela escrita e outras técnicas de fixação, buscam e valorizam quase que
mecanicamente a “inovação”, a
“originalidade”, as culturas populares também se renovam mas de forma muito
mais lenta. Culturas transmitidas oralmente são baseadas na memória, no costume
e na recriação. Sem documentos por escrito, nelas a preservação é um ponto
crucial, uma questão de sobrevivência. Neste âmbito, naturalmente, as
renovações ocorrem muito lentamente. Como disse, defendo na tese a idéia de que
existem diferentes modelos de consciência e que as letras de samba são criadas
a partir de padrões diferentes daqueles utilizados pelas pessoas com cultura
escrita, escolar, científica e universitária. Paulinho da Viola fala
claramente do padrão de longa duração no
samba “Argumento”: “Tá legal, eu acento o argumento/ mas não me altere o samba
tanto assim/ olha que a rapaziada está sentindo a falta/ de um cavaco, de um
pandeiro e de um tamborim...”
Quais
os representantes mais importantes, mortos e vivos, do verdadeiro samba?
Não
ousaria falar em “verdadeiro samba” mas sim em certas tendências e
preponderâncias, determinados temas recorrentes
e certos procedimentos com a linguagem muito comuns nas letras de
samba. Posso citar alguns sambistas que
vejo como muito importantes e representativos: Noel Rosa, Ary Barroso, Wilson
Batista, Geraldo Pereira, Nelson
Cavaquinho, Cartola, Ataulfo Alves, Zé
Kéti, Moreira da Silva e Monsueto, entre outros. Em atividade, Paulinho da Viola, Nei Lopes, Wilson Moreira,
Noca da Portela, Matinho da Vila, Monarco, Nelson Sargento, Zeca Pagodinho e
são muitos. Mas são listas arbitrárias.
Alguém poderia perguntar: e Heitor dos Prazeres? E Roberto Martins, Candeia,
Manacéa, João Nogueira, Bezerra da Silva, Luis Carlos da Vila, Walter Alfaiate,
Ivone Lara e tantos outros? O samba é um tesouro, uma espécie de território
vivo, representa uma cultura em si: a cultura do samba. Um dia ela ainda vai
ser estudada por nossas crianças nas escolas.
Por essa época, nosso país vai ser muito melhor.
Quais
são os temas da vida do brasileiro, frequentemente encontrados nas letras de
samba?
Há
assuntos que reaparecem constantemente nas letras de samba: família, a
valorização do contexto (o torrão natal), a religiosidade, a solidariedade, a
malandragem, a comida, a festa, o
envelhecimento, a justiça feita com as
próprias mãos, o trabalho, a morte e o próprio samba entre vários outros.
Tentei
demonstrar que quase todos eles desaparecem de um discurso “moderno” ou
“culto”. Para isso fiz uma comparação com letras do tropicalismo. No geral,
tento dizer que, na moderna música popular brasileira dificilmente você vai
encontrar letras abordando ou mencionando o trabalho, o envelhecimento, a
festa, a morte, a comida etc. Apesar disso, tanto as pessoas modernas como
tradicionais trabalham, envelhecem, festejam, comem e morrem.
Quais
as visões mais corriqueiras da família e do trabalho no samba?
(positivo/negativo, otimista/pessimista)
A
família e o trabalho são premissas no samba e estão por trás de tudo o tempo
todo. Frases como “tenho uma família pra
sustentar”, “minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”, “meu pai me chamou e me aconselhou” ou
“ganhei quinhentos contos, não vou mais trabalhar”, “meu patrão é vascaíno e de
mim vai zombar”, “o galo canta e a nega me beija/marmita tá pronta e eu vou
trabalhar” são corriqueiras no samba.
Os
temas envelhecimento, morte e religiosidade estão frequentemente interligados
nas letras de samba ou não?
Todos
os temas são de alguma forma interligados. As letras de samba cantam as coisas
da vida concreta e situada, quase sempre do ponto de vista de quem as
vivenciou. Nelas você não encontra uma análise distanciada ou uma teoria. Se
você olhar bem “o poeta desfralda a bandeira/ e a manhã tropical se inicia”
(“Geléia geral” Gilberto Gil e Torquato Neto)
implica numa teoria a ser analisada e interpretada pelo ouvinte. As
letras de samba costumam ser compreendidas com imediatez, tentem a ser
facilmente memorizáveis e falam da vida
vivida aqui e agora. Nesta a religiosidade, o trabalho, a comida, o
envelhecimento, a morte etc costumam ser
partes estruturais.
Quais
as marcas nas letras de samba que evidenciam a presença do coletivo ao invés do
individual?
Repare
a letra de “Argumento”: “olha que a rapaziada está sentindo a falta”. Este
“rapaziada” ou a “turma”, as “coisas da gente”, o “povo” etc. são recorrentes
no samba. Mesmo quando a letra fala de um “eu” você nota que é um “eu” sempre
muito parecido e sintonizado com todos nós.
Quais
as diferenças dos temas utilizados no samba carioca e o paulista?
Do
ponto de vista do meu estudo não há qualquer diferença.
O
carioca é visto pelo restante do Brasil como malandro, esperto, no sentido
negativo da imagem. O samba seria um dos responsáveis por essa projeção?
Trata-se
apenas de um estereótipo. Pedro Malasartes também é malandro assim como João
Grilo. O herói esperto, cheio de truques e ardis sempre fez parte das culturas
populares. Naturalmente, adquire
diferentes aspectos em cada contexto, mas vejo isso como um detalhe. Mostro na
tese, que se sairmos um pouco do clichê, veremos que a malandragem impregna
todo discurso popular e a razão é simples: ser esperto, levar vantagem, puxar a
brasa para sua sardinha, fazer truques, contravenções e gambiarras, para o
povo, é uma óbvia questão de sobrevivência.
Como
disse em outro lugar, “Aprendemos a
pensar na moral como um conjunto de princípios gerais e universais de
comportamento que deve ser respeitado por todos: não mentir, não roubar, não
matar, valorizar a busca da justiça, da imparcialidade, da impessoalidade, da
isenção e da neutralidade. Mas como exigir que a moral de uma sociedade
socialmente justa e equilibrada, onde todos os cidadãos pagam impostos e
recebem em troca os benefícios do Estado – segurança, educação, saúde e trabalho
–, seja igual à moral de uma sociedade desequilibrada onde cada um luta por si
para poder sobreviver? (posfácio do livro Contos
de bichos do mato , Ática) ”
Quais
os pontos convergentes e divergentes entre o samba de morro e o samba de
asfalto?
Não
creio que essas noções ajudem a compreender o samba. No morro ou no asfalto,
tanto faz, as pessoas estão mais, ou menos, impregnadas por determinados
modelos e padrões. Para mim, o discurso popular, portanto por exemplo o samba,
vincula-se à valorização das hierarquias (familiares e outras), ao amor ao
contexto onde se vive, a uma forte noção de vida em comunidade, à
religiosidade, à importância dos mais
velhos e do conhecimento tradicional, tudo isso fortemente marcado pela
oralidade, ou seja, pela cultura espontânea desenvolvida longe da escola e da
escrita.
Há
uma diferença nas letras do samba negro
e do samba branco ou essa divisão não existe?
O
samba é geneticamente ligado às culturas negras mas depois tudo se misturou. É
importantíssimo estudar e levar em conta essas raízes mas, francamente, não
vejo como falar de um samba exclusivamente
negro. Uma das características das cultura populares é a não fixação,
sua grande porosidade e capacidade de receber, absorver, digerir e recriar
influências.
Para
que haja a perpetuação do samba em nossa cultura, quais valores devem ser
considerados e sempre incorporados às letras pelos compositores atuais?
Não
consigo pensar em “perpetuação” do samba pois este representa um processo vivo
e mutante. Vejo sim um discurso popular que representa uma certa maneira de
viver e de ver a vida e o mundo e que pode ser associado às cultura populares.
Vejo também que fenômenos como “produtos de consumo”, “produtos de mercado”,
“cultura de massa” e “globalização”, todos eles, no fundo, visando a
homogeneização cultural, são graves ameaças às culturas populares e,
naturalmente, ao samba.