Marcela Munhoz, jornalista do Diarinho
(suplemento do Diário do Grande ABC)
- O samba surgiu quando e como?
Existem vários sambas e eles
são recorrentes no Brasil inteiro. Seu formato mais difundido, o carioca,
surgiu no começo do século XX. Como se sabe, o samba é profundamente marcado
pelas culturas africanas. Em resumo, ocorreu o seguinte: existiam dois tipos de
escravos, os que serviam nas casas dos senhores e os trabalhadores braçais. Os
primeiros, tiveram acesso às cultura européia, às canções cantadas nas casas,
às festas religiosas, à musica tocada nas igrejas, a instrumentos como piano,
violão etc. Os segundos, mantidos afastados da cultura branca, conservaram os
costumes africanos, a religiosidade, os batuques rituais etc. Com a abolição da
escravatura, os negros, sem trabalho e saber para onde ir, rumaram para a
capital, o Rio de Janeiro. Lá tiveram contato maior com os negros, muitos já
mestiços, marcados pela cultura branca e que trabalhavam nas casas de família,
eram pequenos funcionários etc. Da mistura das músicas que faziam, uma marcada
pela cultura européia, outra pura cultura africana, nasceu o samba carioca. É
preciso dizer que o mesmo fenômeno ocorreu
-
Veio para o Brasil em que época e trazido por quem?
O samba não veio para o Brasil. Ele foi criado aqui. Não
existe samba africano. O que há é uma grande influência africana no samba
- Era uma dança só dos escravos?
Sim, os escravos tinham
rituais e costumes marcados pelos batuques e por versos ditos de improviso e
isso é uma das raízes do samba.
- E como foi essa transição dos escravos da Bahia para os negros do morro do
Rio de Janeiro?
Não foram só da Bahia. Muitos
deles vieram do Vale do Paraíba, de Minas Gerais e de todos os lugares onde
havia escravos. Até hoje, no Vale do Paraíba, você encontra comunidades de
negros que tocam batuques como jongo e caxambu, ritmos ligados visceralmente ao
samba.
– Que tipo de influência tem
o candomblé e outras religiões?
Foi nas casas das famosas
tias Ciata, tia Amélia e tia Dadá, entre
outras, todas elas mães de santo e lideres comunitárias, que, no começo
do século XX, houve o encontro musical de onde nasceu o samba como o
conhecemos.
- Como e quando o samba se tornou popular?
O samba é uma rica expressão
da cultura popular. Foi inventado pelo povo.
- O que Getúlio Vargas fez para popularizar o samba?
O samba já era muito popular
bem antes de Getúlio Vargas. Getúlio porém tentou dar um cunho político ao
samba incentivando o uso de temas nacionalistas, incentivando a critica ao
malandro etc.
- E as escolas de samba? surgiram na mesma época?
Não estudei as escolas de
samba. Elas surgem lá pelo fim dos anos 20 embora suas raízes sejam bem
anteriores.
- Fale um pouquinho dos outros subgêneros do samba e sobre os grandes sambistas
de todos os tempos.
A bossa nova pode ser
considerada um gênero descendente do samba, incorporando a ele elementos
harmônicos e melodias mais complexos, alem de influencias que vão da chamada
música clássica ao jazz. Sambistas maravilhosos existem muitos como, dos
antigos, Noel Rosa, Wilson Batista, Geraldo Pereira e Ary Barroso, entre muitos
outros bambas. Dos mais recentes, Zé Kéti, Monsueto, Cartola, Nelson
Cavaquinho, Candeia, já falecidos e, dos atuais, Martinho da Vila, Paulinho da
Viola, Nei Lopes, Monarco, Dona Ivone Lara e Zeca Pagodinho entre vários e
vários outros. É difícil fazer uma lista pois são muitos os grande sambistas e,
de certo modo, incomparáveis pois tinham e têm propostas de trabalho muito
diferentes umas das outras.
- Como o samba é conhecido lá fora?
Não sei.
- Qual o futuro do samba na sua opinião?
Nossa cultura popular é
riquíssima e diversificada mas, infelizmente, tende a ser desprezada e
desconhecida pelas elites brasileiras. Na minha visão, o samba, por exemplo,
deveria ser abordado nas escolas. Nenhum aluno deveria se formar sem conhecer
não só o samba e os sambistas importantes mas os outros grandes nomes da música
popular como Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque e outros. No mínimo, isso
representaria uma bela e prazerosa introdução à arte e à poesia. Mas nada disso
acontece e esse estado de coisas acaba sendo uma grande ameaça à cultura
popular, em todos os seus matizes, e o samba faz parte dela.