Cultura cantada

Pesquisador analisa letras de samba e aponta valores da tradição oral brasileira

Lia Brum

Ciência Hoje On-line 13/04/05

 

Não há quem não saiba cantar um bom samba, ou pelo menos o seu refrão. Para explicar como essas canções que vivem na boca do povo se estruturam e são essenciais à compreensão e valorização da cultura brasileira, o pesquisador Ricardo José Duff Azevedo decidiu estudar o tema no doutorado em teoria literária e literatura comparada. Batizada “Abençoado e danado do samba”, sua tese foi defendida em 2004 na Universidade de São Paulo (USP).

Azevedo tomou como base de sua pesquisa um acervo de 7 mil letras de samba e traçou um paralelo delas com letras de canções do tropicalismo. O estudo supõe a convivência, no Brasil, de diferentes modelos de consciência construídos socialmente – ou padrões culturais, éticos, estéticos etc. que interagem em um mesmo contexto – e enfatiza a análise do discurso oral que caracteriza as formas literárias populares, das quais o samba é um dos principais representantes. "Infelizmente, poucos estudos abordam as implicações da oralidade nos discursos”, lamenta o pesquisador. ”Isso é paradoxal num país marcado pelo analfabetismo e, portanto, pela cultura oral."

Segundo o autor, a escolha do tropicalismo como contraponto foi feita porque, embora esse movimento influencie muitos gêneros modernos da música brasileira, ele não tem impacto sobre o samba. Ricardo Azevedo chegou à conclusão de que a elaboração das letras das canções tropicalistas segue um modelo baseado na cultura escrita, no individualismo, na secularização, no discurso científico e na escolarização. Já as letras de samba são concebidas a partir de um modelo enraizado na cultura oral, na vida coletiva, na religiosidade, no apego às hierarquias e ao senso comum. Por recorrer a recursos como vocabulário público, refrões, frases feitas e temas capazes de gerar grande identificação, os sambas seriam compreendidos de imediato, memorizados com facilidade e cantados por todos. Já as músicas modernas buscam o estranhamento, exigem leitura, reflexão e interpretação textual – talvez por isso sejam menos acessíveis às camadas populares.

Outro fator indispensável para que o samba seja tão compartilhado é a presença de temas recorrentes em suas letras, desde o começo do século 20. "Existem grandes semelhanças temáticas e de procedimentos com a palavra entre uma letra de samba de 1930 e as de Zeca Pagodinho ou Monarco criadas hoje", avalia Azevedo. "Trata-se de um processo construtivo diferente daquele valorizado pela modernidade, não existe aquela necessidade quase mecânica de novidade."

A comparação de letras de samba da primeira metade do século 20 e atuais permite identificar temáticas recorrentes:

 

Fui louco

Resolvi tomar juízo

A idade vem chegando e é preciso

Se eu choro

Meu sentimento é profundo

Ter perdido a mocidade na orgia

Maior desgosto do mundo

“Fui louco” (Noel Rosa e Bide, 1933)

 

Eu tive minha mocidade

Hoje sou um senhor de idade

Conheci sofrimento e dor

Amigos também já tive bastante

Não me largavam um instante

Quando tudo corria bem

“Deslize da vida” (Argemiro do Patrocínio e Francisco Santana, 2002)

 

Eu tiro o domingo para descansar

Mas não descansei

Que tolo fui eu

Regressei do futebol

Todo queimado de sol

O Flamengo perdeu

Pro Botafogo

Amanhã vou trabalhar

Meu patrão é vascaíno

E de mim vai zombar

“E o juiz apitou” (Antonio Almeida e Wilson Batista, 1942)

 

Benza Deus

A comadre Mary Lu

Que já fez muita faxina

Pra gente grã-fina

Lá da Zona Sul

Lá da Zona Sul

Ganhou cacareco pra chuchu

Hoje ela é empresária

Tem brechó na área de Nova Iguaçu

“Mary Lu” (Barbeirinho do Jacarezinho, Luiz Grande e Marcos Diniz, 1998)

 

Não apenas o envelhecimento e o trabalho, dos quais tratam os trechos de sambas reproduzidos acima, mas também a família, a religiosidade, a camaradagem, a comida e a morte, entre outros, são temas bem comuns aos sambas de diferentes épocas. O autor esclarece que esses assuntos estão presentes no cotidiano de todos. Assim, geram identificação imediata, continuam fazendo sentido na atualidade e tornam-se "populares". O estudo indica que esses temas tendem a desaparecer do discurso moderno.

Além de pesquisador, Ricardo Azevedo é escritor e ilustrador de literatura infanto-juvenil há 25 anos, e sempre se empenhou em elaborar linguagens compreensíveis para um grande número de pessoas. Há mais de uma década passou a se dedicar ao estudo do discurso popular. O autor pretende submeter a uma editora uma versão reduzida de sua tese para publicá-la na forma de livro.