Pesquisa mostra porque o samba é um dos gêneros mais representativos da sociedade brasileira

 

Eu canto samba

Porque só assim eu me sinto contente

Em vou ao samba

Porque longe dele eu não posso viver

Com ele eu tenho de fato

Uma velha intimidade

Se fico sozinho

Ele vem me socorrer

 

Há muito tempo eu escuto esse papo furado

Dizendo que o samba acabou

Só se foi quando o dia clareou

 

(Paulinho da Viola)

 

Herança da cultura africana, o samba vindo principalmente da Bahia e de São Paulo (Vale do Paraíba), teve grande desenvolvimento no Rio de Janeiro, antiga capital federal, e difundiu-se por todo o país durante o século XX. O ritmo contagiante fez dele um ícone da identidade brasileira, com reconhecimento internacional por sua riqueza. Mas não só a vivacidade das batucadas explica os porquês de suas raízes serem tão profundas na cultura nacional. Em “Abençoado e Danado do Samba”, o pesquisador Ricardo José Duff Azevedo vai muito além. Na tese de doutorado, apresentada ao departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da USP, ele analisa os fatores discursivos que permeiam as letras, para compreender o que há de tão forte entre o samba e o povo que o canta.

 

O samba é alegria

Falando de coisas da gente

Se você anda tristonho

No samba fica contente

Segura o choro criança

Vou te fazer um carinho

levando um samba de leve

Nas cordas do meu cavaquinho..

 

Como Paulinho da Viola registra em “Eu canto samba”, a popularidade do gênero está na identificação de seus dizeres com o cotidiano da gente que ocupou os morros cariocas e as áreas mais simples das grandes cidades. Ricardo Azevedo identifica o samba com o que chama de “modelo de consciência popular”, segundo ele, fortemente marcado pela oralidade e suas implicações, que valoriza os temas cotidianos, os modelos hierárquicos, a família, a religiosidade, o senso comum e o contexto onde se vive.

Traço fundamental do samba, segundo Azevedo, é a criação de canções cujas letras têm como premissa a apresentação face-a-face tendo em vista o compartilhamento, a familiaridade e a identificação entre artista e platéia. Sua linguagem busca sempre a compreensão imediata, a memorização e a participação da platéia. Além disso, tende a abordar os temas da vida cotidiana e concreta como trabalho, envelhecimento, religião, morte, festa e comida. Outro aspecto relevante das letras de samba é a incidência de uma moral afastada de princípios universais e abstratos. Trata-se da “moral ingênua” um conjunto de valores que faz conviver  elementos contraditórios como, por exemplo, a solidariedade, a malandragem, a religiosidade e a justiça feita com as próprias mãos.

A partir do pressuposto teórico em que se baseia o trabalho, Azevedo também rebate as críticas que o samba recebe por não inovar em suas formas. “Grande parte da sociedade brasileira está ligada à cultura oral. Esse tipo de cultura exige a memória e o rito (a festa) para poder se fixar e sua renovação dá-se de forma lenta través de padrões de longa duração.” diz o pesquisador. “Já as formas modernas e eruditas, enraizadas na cultura escrita, desenvolvem-se através de padrões de curta duração e tendem a buscar sempre a renoção, por vezes até de forma mecânica. Aplicar paradigmas relacionados à cultura escrita na análise das formas literárias populares é um equívoco.”

No embate entre consciência tradicional e moderna, Azevedo estabelece como contraponto ao samba o tropicalismo, gênero oposto à arte dos bambas quando o assunto é composição. As letras tropicalistas, segundo o pesquisador, foram em geral criadas para serem lidas, relidas, analisadas e interpretadas. Enquanto isso, as letras de samba são criadas para serem compreendidas e memorizadas com imediatez. Para isso recorrem à linguagem formular, vocabulário público, frases feitas, repetições e ditados quase sempre abordando temas da vida cotidiana. Tropicalismo e samba partem de princípios construtivos bastante diferentes.

Ele ressalta também o erro que existe na interpretação que parte da crítica costuma fazer da história da música brasileira. “Há uma insistência em enxergar uma linha evolutiva, como se, por exemplo, primeiro viesse o samba rural, depois o samba urbano, depois a bossa nova, depois o tropicalismo, um substituindo o outro, numa sequência lógica. Isso é próprio de uma visão escolarizada, trata-se de um pensamento baseado nas ciências biológicas, na química e na física e que supõe processos naturais e desenvolvimentos mecânicos. Ora, as ciências humanas e as artes não funcionam como as ciências as exatas e biológicas. Na arte, existem diferentes procedimentos e posturas e estes não costumam ser “evolutivos” e, ao contrário, podem coexistir e coexistem”.

 

O samba de hoje

 

Para Azevedo, o samba continua com grande representatividade nos dias de hoje. O que antes era composto apenas por um refrão fixo e partes livres para improvisação dos participantes (que podiam ficar horas cantando a mesma música e suas variações), pouco a pouco teve seu caráter construtivo alterado pois, com o rádio e o disco, surge a necessidade de uma segunda parte também fixa. Mas nem por isso perdeu sua força. “O samba representa a expressão de um modelo de consciência baseado na cultura oral extremamente influente e disseminado no Brasil embora pouco estudado e ausente do discurso oficial”, acredita Azevedo. “Basta ver que os programas das escolas de primeiro e segundo grau ignoram a cultura popular. No âmbito da academia dá-se o mesmo: são raros os estudos sobre as formas literárias populares.” constata.

Azevedo identifica porém marcas do discurso escolarizado, assertivo e utilitário em algumas letras de samba. Cita como exemplo “Anjos da Guarda”, de Leci Brandão que valoriza uma temática e um discurso estranhos ao contexto do samba.

 

Professores

Protetores das crianças do meu país

Eu queria, gostaria

De um discurso bem mais feliz

Porque tudo é educação

É matéria de todo o tempo

Ensinem a quem sabe tudo

A entregar o conhecimento

Na sala de aula

É que se forma um cidadão

Na sala de aula

Que se muda uma nação

Na sala de aula

Não há idade, nem cor

Por isso aceite e respeite

O meu professor

Batam palmas pra ele

Batam palmas pra ele

Batam palmas pra ele

Que ele merece

 

Na tese, Azevedo ressalta a importância de se discutir a noção de inovação: “É preciso lembrar que na sociedade moderna, as inovações e transformações se dão aparentemente num processo acelerado, dentro dos chamados ‘padrões de curta duração’. É possível que, em alguns casos, isso seja um fato, mas é imprescindível distinguir, mesmo que não seja fácil, a verdadeira inovação dos simulacros de inovação. (...) Mesmo na modernidade, as mudanças consistentes, renovadoras e relevantes, sobretudo no âmbito das ciências humanas e da arte, também tendem, como acontece com a cultura tradicional, a ocorrer de forma lenta, num processo que pressupõe sólidas e valiosas tradições anteriores”. E conclui: “Como ensina a tradição popular, não se consegue voar puxando pelos próprios cabelos”.

 

Ou, como já dizia Paulinho da Viola em “Argumento”:

legal, eu aceito o argumento

Mas não me altere o samba tanto assim

Olha que a rapaziada está sentindo a falta

De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim...