Jovens, sem mais desculpas, vamos aos livros!

Por Clarinha Glock

Publicado no jornal Extra Classe, edição especial Jornada Nacional de Literatura. (Passo Fundo)

 

Computadores e livros disputam hoje o espaço nos quartos das crianças e dos adolescentes e isso tem servido de desculpa, muitas vezes, para justificar a falta de leitura entre os jovens. Mas o escritor e desenhista Ricardo Azevedo[1] não aceita tão facilmente essa justificativa. Isso porque a mesma geração que convive com a Internet e usa e abusa dos DVDs continua tendo emoções: teme a morte, se apaixona, tem que lidar com o outro, vive em busca do seu auto-conhecimento, gosta de carinho, não gosta de ser rejeitada. Também tem sexualidade (mesmo que virtual), tem conflitos éticos, é incoerente, sonha, cria utopias, sente prazer e dor física, detesta o caos, aprecia escutar uma boa história e, enfim, é uma geração composta de seres humanos. “E a literatura, através da ficção e da linguagem poética, é uma forma de interpretar e dar sentido à condição humana, seus assuntos e perplexidades”, diz Azevedo. Ele não vê, portanto, incompatibilidade entre tecnologia e literatura.

Se, no Brasil, os jovens não têm o hábito da leitura, as razões são outras, acredita o escritor. Como querer que os jovens se dediquem à literatura como hábito quando os adultos, inclusive professores, recomendam a leitura, porém não são leitores? “Refiro-me a um modelo escolar do fim do século 19 que optou por formar técnicos acríticos para ocupar postos de trabalho na indústria – basta ver o que o exame vestibular pretende avaliar –; à falta de bibliotecas e coisas assim”, acrescenta.

Azevedo lembra que, no Brasil, onde cerca de 80% da população pode ser considerada semi-analfabeta, a valorização apenas de uma literatura elitista, universitária, experimental, de “vanguarda”, exclusivista, feita para leitores altamente especializados, tende a ter um efeito nefasto. O resultado pode ser a segregação da maioria quase absoluta da população, inclusive das pessoas de nível universitário sem uma cultura literária específica que, diante de textos especializados e intencionalmente complexos, por vezes autoproclamados “os melhores” ou “mais modernos”, chegam à conclusão que “não nasceram” para ler ou “não têm jeito” para a leitura.

Num país onde a cultura informal e a oralidade estão enraizados, a sugestão de Azevedo é incluir nos programas das escolas mais cultura popular, introduzindo o jovem leitor à leitura através dos contos populares, das quadras, das adivinhas, dos trava-línguas. “As escolas deveriam também recorrer à música popular”, observa. Comparar e identificar as características e as diferenças entre as poéticas de, por exemplo, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Nelson Cavaquinho e Caetano Veloso, os procedimentos com a linguagem e os temas abordados por esses grandes autores, poderia ser uma riquíssima e prazerosa introdução à literatura. Depois disso, entrar em contato com a obra de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Fernando Pessoa,  Ferreira Gullar ou Manoel de Barros seria muito mais fácil.

E como a maioria das crianças, quando entra na escola, já assistiu a muitos filmes e tem noção intuitiva da linguagem do cinema, ele propõe outras atividades criativas. Por que não comparar sistemática e programaticamente a linguagem cinematográfica com a literatura? “A meu ver, isso contribuiria muito para a formação não só de leitores e cinéfilos, mas também de cidadãos mais críticos e expressivos”, aposta Azevedo.

 

 

 



[1] Azevedo é autor de Pobre Corintiano Careca, Armazém do Folclore, Histórias folclóricas de medo e de quebranto, Um homem no sótão, Maria Gomes, Nossa rua tem problema, entre outros livros infanto-juvenis. É bacharel em Comunicação Visual pela Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Álvares Penteado (FAAP), mestre e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.