| |
José
Pedro saltou da cama feito um guerreiro. Naquele domingo, estava pronto
para o que desse e viesse. O jogo Corinthians e Boca Juniors ia ser
às quatro da tarde.
De manhã, jogou bola num terreno baldio perto da rua Rocha, mas
só para matar o tempo. Sua cabeça não conseguia
imaginar outra coisa que não fosse o jogo.
Depois do banho, almoçou e, vestido com o uniforme completo do
Corinthians, foi para a sala e ficou esperando. Bem que tentou descansar
um pouco no sofá, mas não conseguiu. Enquanto a mãe
costurava, José Pedro coçava o umbigo preocupado. Tinha
escutado notícias alarmantes no rádio. Que o Corinthians
ia jogar desfalcado de vários jogadores importantes. Que Wilson
Mano, o jogador que sustentava a defesa inteira, estava contundido,
com uma lesão no calcanhar e jogaria no sacrifício. E
o pior dos piores: Marcelinho Carioca não ia jogar por causa
de uma distensão na virilha sofrida no último treino.
Nem tinha embarcado para a Argentina com o resto da delegação.
Enquanto isso, infelizmente, o Boca Juniors ia jogar com o time completo
e ainda teria as estréias confirmadas de Maradona e Caniggia.
Não vai ser mole, pensava José Pedro, verificando a careca
com a unha.
O papagaio do vizinho perguntou se o doutor queria café e soltou
uma gargalhada espalhafatosa. Em seguida, latiu e começou a cantar.
A máquina de costura continuava com seu zumbido, anda pára,
pára anda, como um incansável trenzinho elétrico.
José Pedro pensou em Camila.
Um dia ele aprenderia a escrever direito, só para fazer um verso
bem bonito para ela. Imaginou a cena. Camila, distraída, andando
na rua Augusta. Ele chegando perto e dizendo: “Fiz uma coisa pra você”.
Puxava do bolso um papel e entregava. Parecia um filme de cinema mudo.
Ela botava as duas mãos no peito e dizia: “Pra mim?” Abria o
papel, lia e sorria encantada. E então os dois, na imaginação
do menino, iam embora andando de mãos dadas pela calçada.
É pau, é pedra, é o fim do caminho...
O difícil era fazer verso para uma pessoa chamada Camila. José
Pedro futucou a orelha preocupado. Camila rimava com o quê? O
menino começou a pensar em palavras terminadas em ila. Lembrou
só de uma: gorila. Os olhos de José Pedro ficaram maiores.
Era impossível fazer um verso de amor com um gorila no meio.
Tanta menina bonita por aí e ele tinha que gostar logo da Camila,
com aquele nome complicado de rimar!
Um frio cruzou a espinha de José Pedro. O tempo tinha voado.
Estava na hora do jogo. O menino ligou a televisão.
— Chega mãe! — gritou, tentando ajustar a imagem colocando uma
palha de aço na antena. — Você prometeu! Com a máquina
de costura ligada não vai dar para assistir o jogo!
Dona Sueli consultou o relógio. Bocejou. Estava mesmo cansada.
Foi para a cozinha preparar pipoca e limonada para o filho.
Os times entram em campo. Foguetório. Escalações.
Entrevistas. Fotografias. Ouvem-se os hinos nacionais dos dois times.
A câmera mostra jogador por jogador. Diego Maradona está
risonho e magro. Aparenta ótima forma física. José
Pedro franze o nariz. Maradona e Caniggia cantam o hino argentino emocionados.
José Pedro faz o sinal da cruz. É dada a partida.
O Corinthians, infelizmente, parece assustado dentro do campo. Dois
minutos de jogo. Falta perto da área a favor do Boca. Maradona
ajeita. Toma distância. Finge que vai cruzar e manda um petardo.
Ronaldo, o goleiro corintiano, salta mas não acha nada. Bola
na trave. A torcida argentina vibra.
José Pedro apanhou um monte de pipocas e enfiou de qualquer jeito
na boca.
O jogo continua. O Corinthians está irreconhecível. Não
consegue armar as jogadas. Ninguém acerta um passe. Os minutos
giram devagar. Parecem grudados no relógio. Viola faz outra falta,
reclama e é expulso. Na seqüência, Maradona passa
por dois, vai até a linha de fundo e cruza para Caniggia fazer
de cabeça: 1 X 0 para o Boca Juniors.
Dona Sueli suspirou. Estava com sono. Disse que ia para o quarto descansar.
O Corinthians luta mas, infelizmente, nada dá certo. Passes errados,
chutes tortos e até reversões na hora de cobrar a lateral.
Uma desgraça. “Assim não vai dar!”, pensou José
Pedro com os olhos grudados no aparelho. Fim do primeiro tempo. José
Pedro foi ao banheiro, com a porta aberta. Enquanto observava, de cima,
seus dois pés afastados sobre o ladrilho, a privada no meio e
aquele jato caindo espalhafatoso, perguntou-se por que às vezes
o xixi vinha com espuma e outras vezes, sem. Na sala, a voz do locutor
anunciava que, para o segundo tempo, entrava um tal de Chinfrim no comando
do ataque corinthiano.
“Chinfrim?”, quis saber o menino apertando a descarga.
José Pedro nunca tinha ouvido falar nesse jogador. O locutor
também não. De acordo com o repórter de campo,
Chinfrim, um moleque de dezesseis anos, um simples juvenil, reserva
do reserva do reserva, tinha acabado de chegar de Lorena para treinar
no Corinthians e, na falta de outro, ia entrar na fogueira. Era o único
atacante disponível no banco de reservas e, como o ataque não
estava funcionando, o técnico resolveu arriscar. Perdido por
um, perdido por dez, afirmou o técnico durante a entrevista.
“Chinfrim?”, pensou José Pedro esfregando a careca com as dez
unhas.
Começa o segundo tempo. O sufoco continua. Maradona mata a bola
na testa e sai pelo campo com ela equilibrada na cabeça. Chinfrim,
um mulatinho franzino, menino ainda, tenta tirar a bola do craque argentino
e toma um chapéu inacreditável. “Olé!”, grita a
torcida.
José Pedro engole um punhado de pipocas sem mastigar.
O Corinthians simplesmente não consegue tocar na bola. O Boca
Juniors dá um show. Maradona, então! Dribla, dá
carrinho, dá lençol, toca por baixo das pernas, ajeita
de calcanhar, passa de letra, chuta de trivela, dá meia lua,
um arraso. A única coisa que o Boca não consegue fazer,
graças a Deus, é outro gol. A bola bate na trave, toca
no joelho de Ronaldo, na canela do zagueiro e não entra. Um sem-pulo
de Caniggia chega a bater na nuca do arqueiro corinthiano antes de espirrar
pela linha de fundo. Do lado do Corinthians, ninguém se entende.
O estreante Chinfrim, coitado, parece um vira-lata fugindo dos automóveis
no meio da avenida 23 de Maio na hora do rush.
O comentarista lamenta o erro do técnico corinthiano. Se sem
Chinfrim já estava difícil...
Enquanto José Pedro roia as unhas das duas mãos ao mesmo
tempo, a câmera dá um close. Caniggia aparece conversando
com Maradona. Os dois riem. A televisão mostra tudo. É
lateral do Boca. Maradona manda a bola para Caniggia que devolve para
Maradona. Os dois argentinos começam uma tabelinha, só
que ao contrário. Em vez de buscarem o gol corinthiano, correm
na direção contrária, rumo ao gol do próprio
Boca Juniors! A torcida aplaude e ri. Até os jogadores do Boca
parecem confusos com a manobra. Os corinthianos não sabem se
param, se fogem ou se choram. O juiz põe a mão na cintura
e olha para o bandeirinha. É uma tremenda humilhação.
José Pedro ficou em pé esmigalhando as pipocas na mão.
Os dois craques argentinos, tabelando e rindo, entram alegres dentro
de sua propria área. Neste momento, explode o inesperado Chinfrim,
rouba a bola de Maradona e, rápido, toca com classe para o fundo
da rede.
— Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool!
José Pedro saltou pelo apartamento feito um macaco elétrico.
Deu cambalhotas, plantou bananeira, derrubou o abajur e, de joelhos,
fez o sinal da cruz três vezes e ainda beijou o carpete.
Lá fora, a cidade inteira explodiu entre fogos, buzinadas e gritos
de gol. A torcida do timão é mesmo imensa. Até
o papagaio do vizinho comemorou.
O jogo muda de figura. O Corinthians, claro, tranca-se na defesa e o
Boca Juniors parte com tudo para cima, no desespero. Maradona agora
xinga e reclama. Tarde demais. O juiz apita o fim do jogo. Empate sofrido
de 1 X 1.
|
|