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Na manhã
seguinte, Marcelo faz uma experiência radical. Decide ficar o
dia inteiro sem comer para ver o que é sentir fome.
Na hora do café da manhã, Raul está sempre com
pressa pois leva os filhos à escola antes de ir para o trabalho.
Leda ainda não acordou pois entra no trabalho mais tarde. Camila
não está nem aí. Dona Maria, já colocou
a mesa e partiu para a faxina dos banheiros. Em outras palavras, ninguém
percebe que aquele dia Marcelo não colocou absolutamente nada
na boca.
Na escola, o menino sente-se irritado por nada, inseguro, desconfortável,
sem vontade de conversar com ninguém. É uma sensação
de estranheza como se alguma coisa estivesse faltando. No recreio, às
nove e quarenta e cinco, hora do lanche, a coisa piora. Não é
fácil ficar em volta dos colegas comendo, rindo e conversando.
Nunca tinha reparado no perfume delicioso dos lanches. Era gente feliz
descascando frutas. Sanduíches imensos recheados com queijo e
presunto. Apetitosos pedaços de pizza. Bolos embrulhados em papel
alumínio. Biscoitinhos variados. Barras de chocolate. Barras
de cereal. Garrafas térmicas com chocolate gelado, leite, coalhadas,
refrigerantes, sucos e mais sucos.
Marcelo passa o recreio enfiado no banheiro. Prefere trancar-se no box,
sentar-se na privada e ficar lá quieto, longe daquela comilança.
No segundo período, mal consegue prestar atenção
nas aulas. Sente muita fraqueza. Enquanto as matemáticas, histórias,
ciências e gramáticas passam de aula em aula, sua cabeça
só consegue imaginar sanduíches de salame e queijo derretido,
croquetes, bifes e pratos de macarrão com molho de tomate e queijo
ralado por cima.
Um cansaço desanimado toma conta do menino.
Leda pega os filhos por volta do meio dia. Enquanto Camila fala pelos
cotovelos contando o que houve e não houve durante as aulas,
Marcelo encolhe-se num canto do carro sem dizer um isso.
Para o almoço, Dona Maria da Luz tinha feito arroz, feijão,
salada, omelete e um bife com queijo derretido e molho de tomate. Sobremesa:
pudim de tapioca com coco.
Marcelo fica tonto só de olhar para a mesa posta. Mesmo assim,
agüenta firme. Disfarça. Explica que está sem apetite
e com um pouco de dor de cabeça. Prefere comer mais tarde.
Enche um copo dágua no filtro, vai para o quarto, fecha a janela
e deita-se na cama.
Sua dor de cabeça não é de mentira. Tinha começado
na escola, depois do recreio e veio crescendo vagarosa tomando conta
do cérebro.
Prostrado na escuridão do quarto, Marcelo percebe que as mãos
e os pés estão frios. A boca fica seca e com um gosto
ruim amarelado.
Resolve tomar um gole dágua. Derruba o copo no chão.
Examina as mãos. Estão trêmulas.
Uma angústia fora de hora invade seu peito de menino. Parece
uma espécie de vazio. Uma vontade de desistir de tudo, dormir,
morrer e sumir para sempre.
Lá pelas cinco da tarde, vem uma vontade incontrolável
de chorar. A sensação de que a vida não faz mais
sentido. De que seus pais nunca tinham gostado dele. De que é
um fracassado, tem um corpo ridículo, não tem nenhum amigo
de verdade, vai repetir de ano e seu futuro será, sem dúvida,
um completo desastre.
Marcelo tenta lutar. Esforça-se para levantar e vai cambaleando
ao banheiro. Sua urina está mais escura do que o normal. Sente
vontade de vomitar. Mas vomitar o quê? Examina aquela cara de
morto-vivo desenhada no espelho.
Volta para o quarto e desaba na cama. De repente, nota que as paredes
estão tortas e balançam. O teto começa a descer,
descer e descer em cima dele feito um elevador desgovernado.
É quando desiste daquela experiência louca. Voa até
a cozinha, agarra quatro pães de forma e prepara dois sanduíches.
Enche de requeijão, coloca, em cada um, um bife frio do almoço,
várias fatias de queijo e engole tudo sem mastigar. Depois, bate
no liquidificador, leite, chocolate em pó e duas bolas de sorvete
de creme, deita-se no sofá da sala e bebe aquilo como se fosse
um recém nascido mamando pela primeira vez no peito da mãe.
No fim, volta à cozinha e acaba com o resto de pudim de tapioca
com coco que ainda restava na geladeira. De quebra, devora três
sonhos de valsa que alguém esqueceu em cima da mesa da copa.
Bobeou, dançou pensa, atirando o papel avermelhado das embalagens
no lixo.
No resto do dia, Marcelo continua estranho mas o pior veio depois.
Seus olhos resolveram arregalar de repente, mais tarde, no meio da noite.
Não foi nada real. Não foi briga do vizinho de cima com
a mulher. Moto nenhuma passou no Minhocão com o escapamento aberto.
Não foi sirene de ambulância nem boyzinho tirando racha.
Nem preocupação por causa de boletim. Seus olhos apenas
abriram num estalo.
Marcelo espreguiça-se na cama. Espia o relógio na cabeceira.
Três e meia.
Sente a testa molhada de suor. Foi um pesadelo daqueles.
Marcelo jogava bola no campinho do sitio do avô. Era um time formado
por seus colegas de São Paulo contra a molecada que morava perto
do sitio. Eraldo, naturalmente, jogava no time adversário. O
jogo está equilibrado. No meio do sonho, Eraldo passa por dois
adversário com um drible seco e chuta no gol. Sua perna vai junto
com a bola e cai na estradinha de terra ao lado do campo. Um vira-lata
vinha passando, agarra a perna e desaparece no matagal com ela na boca.
Eraldo fica no meio do campo pulando numa perna só. E agora?
pergunta ele. Que é que eu faço?. Alguém do time
de Marcelo grita: Não faz mal, vai na loja e compra uma nova!.
Eraldo fica aflito: Mas eu não tenho dinheiro!. O outro não
se abala : Então pega essa muleta emprestado e vamos continuar
o jogo.. A partida feita de sonho recomeça com Eraldo jogando
de muleta. De repente, Marcelo nota que, na verdade, o time de São
Roque inteiro é aleijado, tem uma perna só e também
joga de muletas. A partir de então, o jogo fica muito fácil.
O time de São Paulo deita e rola. Dá chapéu. Dá
o drible da vaca. Dá toquinho de letra. Dá lençol.
Passa a bola entre a perna e a muleta dos adversários. Estes,
suam a camisa, dão tudo de si, esforçam-se ao máximo,
mas não conseguem nem chegar perto da bola. A goleada é
histórica. O time do pessoal de São Paulo dá gargalhadas
e enfia um gol atrás do outro. Marcelo, no sonho, olha o amigo
Eraldo mancando, tomando drible, humilhado, mas sem dizer nada. Aquilo
revolta. Marcelo agarra a bola com a mão, interrompe o jogo e
começa a chorar e a gritar mas sua voz fica presa na garganta.
Enquanto isso, o pessoal do seu time ri e ri cada vez mais alto.
O menino estica o corpo em cima dos lençóis. O ruído
do relógio tiquetaqueia alto por causa do silêncio. Sente
sono e aflição. Jogo louco! Coça a cabeça.
Lembra de outro sonho faz tempo, mas que até hoje consegue resgatar
do começo ao fim.
Tinha pegado o carro do pai escondido. O trânsito da cidade estava
difícil. Sentia-se contente, mas um pouco preocupado. Afinal,
era menor de idade e não tinha carta. Seguia uma fila de automóveis
que quase não saía do lugar. Andava. Parava. Andava. Parava.
No sonho, Marcelo buzinou impaciente. Apertou o acelerador fazendo barulho.
De repente, entendeu tudo. Sem querer, tinha entrado na fila de algum
enterro. Na primeira oportunidade, deu sinal e dobrou à direita
para escapar. Quando olhou pelo retrovisor , levou um susto. Uma fila
de carros tinha vindo atrás dele. Com certeza os parentes e amigos
do morto não perceberam a manobra e achavam que ele continuva
seguindo o cortejo. Marcelo pisou no acelerador. A fila de automóveis
aumentou a velocidade. Eram mais de cem carros. O menino começou
a suar. Dobrou à direita. Entrou na contramão. Virou à
esquerda. Deu um cavalo-de-pau. Tentava desesperadamente despistar a
procissão de automóveis. Às vezes a fila sumia
e ele respirava aliviado. Mas logo lá vinha ela de novo enfileirada
no espelho retrovisor. Cada vez mais aflito, o menino examinava aqueles
carros escuros com motoristas compenetrados e pessoas sérias
de luto passando o lenço nos olhos. Então, teve uma idéia.
Arrancou cantando pneu, saiu da cidade, pegou a Imigrantes, acelerou,
voou, desceu a serra e acabou chegando no Guarujá, na praia da
Enseada. Brecou e, enquanto a fila de carros ia chegando e estacionando,
despiu a roupa e, de cuecas mesmo, correu, mergulhando de cabeça
no mar.
Marcelo sorri dobrando as pernas na cama. Cada uma! Como e por que será
que os sonhos surgem na cabeça da gente?
Resolve tomar um copo dágua na cozinha.
Levanta-se. Todos dormem no apartamento escuro.
Ao entrar na sala, percebe que a porta da cozinha está apenas
encostada. Uma luzinha dançarina tremula lá dentro.
Escuta vozes. Parece gente falando. Mas quem estaria conversando na
cozinha àquela hora?
Curioso, o menino aproxima-se e empurra a porta de leve.
A cozinha, com as luzes apagadas, está iluminada por quatro velas
colocadas nos cantos da mesa. Ajoelhada de costas para a porta, com
os braços levantados e a cabeça baixa, Maria da Luz reza:
Forças do mal saídas do inferno
Que atormentam as ruas da cidade
Vão-se embora pelo poder eterno
Pela força de Deus e a presença
De Santo Anastácio
Saiam de volta de onde vieram
Das escuras paragens, do lugar do
Inferno
Aqui vence a luz
Aqui vence a paz
Deixem a cidade, que está protegida
Pelo sinal sagrado e o sino salamão...
O vento bate tentando
arrombar o vidro.
Dona Maria!
A mulher levanta-se assustada, apoiando-se na beira da pia.
Ué! diz ela ajeitando os cabelos soltos. Ocê tá
aí?
O que a senhora está fazendo?
Rezando, uai!
A essa hora?
Deu vontade.
A senhora falou em... forças do mal?
Maria da Luz aperta a boca. Anda pela cozinha. Parece medir o menino
com os olhos. Fala baixinho:
O coisa-ruim anda solto por aí!
Coisa-ruim?
Eles acha que é vira-lata mordendo gente mas não é
não, Marcelo. É o coisa-ruim! É o satanás!
O chifrudo, o côxo malvado, o cabra lazarento da moléstia
solto na cidade em forma de lobisomem!
Lobisomem?
A mulher explica. Fala da existência de homens magros e amarelados,
de orelhas compridas, possuídos e governados pelo diabo. Em geral
são o filho homem nascido depois de sete filhas. Podem ser filhos
de padre. Filhos de padrinho com afilhada. Ou mesmo de filha que dormiu
como o próprio pai.
Marcelo arregala os olhos.
Segundo Maria da Luz, nas noites de terça ou quinta-feira, essa
gente virava lobisomem e saía por aí, passava por sete
cemitérios, voltava para o lugar de onde tinham partido e transformava-se
de novo em gente. Sua corrida alucinada durava a noite inteira, até
o primeiro galo cantar. Era o fadário.
Fadário? Marcelo nunca tinha ouvido falar .
O fado. A sina. O destino. A praga! A maldição dos quintos
dos infernos!
Maria da Luz explica que o lobisomem não costumava atacar homens
e mulheres adultos. Só crianças e mulheres grávidas.
Rasgava a barriga das infelizes e comia o filho tão esperado.
Costumava também, vez por outra, atacar velhos.
Tá louco! exclama Marcelo.
A mulher fala mais baixo. Sua voz mete medo.
Os Lobisomem vem dos inferno pra acabar com a esperança.
Como assim?
Ué! Eles mata os bebê que está dentro da barriga
da mulher e mata as criança, quer dizer, eles mata a esperança
no futuro e o futuro. Sem as criança, Marcelo, quem vai tomar
conta do mundo depois da gente?
O menino escuta a mulher, sem saber o que pensar.
Os Lobisomem também quer acabar com o passado. Eles detesta
os antigo, os mais velho, porque esses sabe as história, o que
já aconteceu faz tempo nos antigamente. Por isso o danado ataca
e tenta matar eles tudinho.
Sem a gente de idade, explica a empregada, quem iria lembrar das coisas
acontecidas no passado ou contar como as coisas eram antes?
São os velho, diz ela, que chega prá gente e diz: não
faça isso não, filho, que é perigoso, que isso
não dá certo. Olha, não pega esse caminho que esse
caminho eu já peguei e ele não presta. Maria da Luz completa:
Eles fala porque têm experiência, viveram antes da gente,
estão no mundo faz tempo e viram coisas que a gente não
viu. É ou não é?
O menino concorda.
Sabia que os lobisomem aprecia bosta?
Bosta?
Eles come merda!
Marcelo faz uma careta.
Por isso a voz da mulher treme feito luz de vela o bafo deles
fede mais que bicho morto e privada cagada entupida. As dentaiada deles
é tudo amarela anssim!
O menino vai até o filtro pegar água.
Ô dona Maria, espera um pouco, a senhora acredita em
Credito que nem eu estar aqui olhando ocê! Tem lobisomem solto
na cidade sim. Pode assuntar. Tá no jornal todo dia! Tá
na cara! Eles só ataca nas noite de terça pra quarta e
nas noite de quinta pra sexta. E só pega criança, mulher
prenhe e gente velha de idade. Pode ver. Nem carrocinha nem polícia
nem exército nenhum sussurra a mulher com os olhos acesos
vai dar conta de pegar! Eles é da parte do beiçudo! É
pau mandado do coisa-ruim!
Marcelo assusta-se com o rosto duro da mulher.
Se ninguém num fizer nada, muita gente vai morrer! |
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