Estudos Acadêmicos

 

Dissertação de mestrado:

Como o ar não tem cor, se o céu é azul ? Vestígios dos Contos Populares na Literatura Infantil Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de  Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Área: Estudos Comparados das Literaturas de Língua Portuguesa, Orientadora: Profª. Drª. Maria Lúcia Pimentel de Sampaio Góes São Paulo Dezembro de 1997

1.Apresentação

 

Uma coisa vocês devem saber:

Barba grande não significa saber;

Se os barbados fossem sábios

Bodes e cabras também o seriam.

              Anônimo/ Le fabliau de Cocagne [1]

 

Escritores, ilustradores, críticos, pesquisadores, professores e editores, vêm desenvolvendo, no Brasil, principalmente a partir da década de 60, um trabalho crescente de criação literária, a chamada Literatura Infantil *, ao lado de um trabalho de reflexão sôbre essa mesma produção. Naturalmente, como em todas as áreas, considerando-se uma sociedade industrial e de consumo, boa parte do material produzido é de  qualidade discutível, produto programado para atingir tal e tal fatia de mercado, ser consumido e descartado. Ou então para ensinar isso e aquilo e ocupar o espaço chamado de “paradidático” livros que podem ser úteis mas que em d elonge podem ser considerados litertaura. 

Há, entretanto, no meio disso, trabalhos originais e consistentes que, a meu ver, ocupam um espaço significativo dentro do painel cultural que vem sendo tecido em nosso país.

O simples exame dos estudos referentes ao assunto ou mesmo das obras destinadas ao público infantil, sugere, de imediato, algumas oposições e bifurcações, verdadeiras dicotomias, que precisam ser apontadas.

Seria possível, por exemplo, falar realmente em uma “literatura infantil”, no sentido da existência de uma expressão artística, não utilitária, com motivação estética, construída através de texto escrito a partir de recursos como a ficção, a visão subjetiva e afetiva, a linguagem poética, a ludicidade e o imaginário, ou falar em literatura infantil pressupõe, necessariamente, remeter a textos didáticos, ou “paradidáticos”, ambos de caráter utilitário, cuja função essencial é sempre transmitir informações, conceitos, ensinamentos e lições?

A primeira bifurcação aponta, portanto, para caminhos distintos: um, utilitário, leva à lição, à informação, à doutrinação e ao conhecimento científico; outro, motivado estéticamente, leva à ficção e à arte.

Falar, por outro lado, em uma literatura “infantil” é antever um grupo determinado de leitores, com contorno próprio e, pelo menos em tese, uma série de características bastante específicas: as “crianças”. É, portanto, considerar a existência de um universo palpável e nítido, o “universo infantil”, território peculiar e exclusivo da criança. Para ser percebido com clareza, este mundo precisaria estar em oposição a um outro: o “universo adulto”.

A segunda bifurcação encontra-se justamente aí: aceitar, a priori, a existência de um “universo infantil” e seu correspondente ou, ao contrário, partir do princípio de que adultos e crianças compartilham, basicamente, o mesmo contexto com diferenças de grau e de caráter conjuntural.

Há ainda uma terceira bifurcação, central no desenvolvimento desta pesquisa.

Numerosos estudiosos da literatura infantil têm partido do princípio de que só se poderia realmente falar em literatura infantil a partir do século XVII, época da reorganização do ensino e da fundação das escolas burguesas. Antes disso, segundo essa linha de pensamento, não haveria propriamente uma infância, no sentido que conhecemos. Antes disso, as crianças, vistas como meros “adultos em miniatura” e participavam, desde a mais tenra idade, da vida dos adultos. Não havendo nem livros nem histórias dirigidas especificamente a elas, não existiria nada que pudesse ser chamado de literatura infantil. Por este viés, as origens da literatura infantil estariam nos livros preparados especialmente para crianças, publicados a partir dessa época, com intuito pedagógico, utilizados como instrumento de apoio ao ensino, em sua, no livro didático. O didatismo seria, portanto, componente estrutural, por assim dizer, da chamada literatura para crianças.

Essa hipótese merece ser discutida.

Falar em contos de fadas tem significado, para muitos, quase que automaticamente, falar em crianças. Sem colocar agora em discussão suas diversas denominações, contos de encantamento, contos maravilhosos, fábulas ou simplesmente contos populares, como queria André Jolles, denominação adotada por nós neste trabalho, nem discutir  as implicações do termo “popular”,  importa lembrar a indiscutível influência desses contos em inúmeras obras da literatura infantil. Não poucos autores, de livros para crianças e outros, utilizaram e continuam utilizando como referência vários aspectos temáticos e formais dos contos populares, tanto através da estilização como da paródia [2] para desenvolver seu próprio trabalho.

Se é verdade que o universo dos contos populares pode, de alguma forma, ser vinculado a um certo “universo infantil”, visto com as devidas ressalvas, a literatura para crianças possivelmente teria outras raízes, desvinculadas da fundação da escola burguesa, e, assim, novas indagações entram no jogo.

Como pretendo mostrar, esses contos tradicionais e populares dirigidos a todas as pessoas, independentemente de faixas etárias, representam verdadeiro depósito do conhecimento, do imaginário, dos valores e da visão de mundo oriundos de um certo “espírito popular”, e, ao que tudo indica, estão enraizados em antiquíssimas narrativas míticas.

Além disso, sobreviveram ao longo dos séculos através da transmissão oral feita por contadores de histórias, jograis e menestréis, num tempo em que a vida comunitária era intensa (em oposição à vida privada).

 Ora, se o conto, neste modelo, é típica expressão da cultura popular e se, com o passar do tempo, houve uma aproximação entre conto popular e a literatura infantil, ou entre o popular e o infantil, vale indagar: que características, afinal, têm esses contos e quais delas, eventualmente, permanecem vivas na chamada literatura para crianças?

Um dos principais objetivos desta pesquisa será tentar consrtuir uma resposta a essa indagação.

Vou concluir. Falaremos e discutiremos 1) a existência de uma arte (= literatura) acessível, embora não de forma exclusiva, à crianças; 2) o procedimento abstrato e redutivo, aamplamanete naturalizado pela escola e pela sociedade de consumo,  que consiste em dividir seres humanos em faixas etárias e fatis de mercado; 3) o problema das origens da literatura infantil; 4) os possíveis elos entre o popular e o infantil e, ainda, o seguinte: 5) afinal, quando falamos de literatura infantil, estamos falando exatamente de quê?

Seria muita veleidade e pretensão querer responder de forma conclusiva as indagações resultantes de assuntos tão amplos e multifacetados. Mesmo assim,  preciso dizer, o desenvolvimento, os caminhos e, mesmo, a razão de ser do estudo que o leitor tem agora em mãos estão impregnados por estes temas, essas dúvidas e essas inquietações. 

Marcela Munhoz  



[1] FRANCO JR., Hilário Cocanha. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

*Por uma questão de simplificação, optamos por adotar o termo genérico “Literatura Infantil” para designar o conjunto de obras literárias destinadas, em princípio, ao público infantil e juvenil. As mesmas também costumam ser identificadas como “Literatura Infantil e Juvenil”, “Literatura Infanto-Juvenil”, ‘Literatura para a Juventude” entre outros termos bastante imprecisos e discutíveis. .

 

[2] C.f, SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, paráfrase & cia. 4ª ed. São Paulo, Ática, 1991.