Formação de leitores, cultura popular e contexto brasileiro
Ricardo Azevedo[1]

Formar leitores no Brasil é certamente um tremendo desafio. Há o preço dos livros; a falta de bibliotecas; as casas sem iluminação ou ambientes adequados para a leitura; o contato de crianças com adultos – pais, professores e outros – que recomendam a leitura, citam livros e autores “clássicos” mas, na verdade, não são leitores nem se interessam pela literatura e, pior, por não terem experiência, apesar de bem intencionados, costumam descrever a literatura de forma bastante idealizada – algo como uma “viagem mágica” – raramente lembrando de comentar que a leitura exige esforço e que o chamado prazer da leitura é uma construção que pressupõe treino, capacitação e acumulação. Pretendo, porém, levantar outro aspecto da multifacetada questão “formar leitores”.

Antes, alguns dados: de 10% a 20% da população brasileira é analfabeta[2]. Se somarmos os 30%, maiores de 15 anos, considerados “analfabetos funcionais”(pessoas que conseguem ler, mas não inferir ou captar outros significados nas entrelinhas e ambigüidades do texto), gente com menos de quatro anos de estudo [3], já chegamos a quase metade da população. Segundo o Ibope, em todo caso, 75% dos cidadãos brasileiros acima de 15 anos não têm domínio pleno da leitura e da escrita[4]. Dados do IBGE/2003 confirmam que apenas 25% dos brasileiros entre 15 e 62 anos dominam a leitura.

Não sou estatístico mas se esses dados estiverem mais ou menos corretos é possível supor que cerca de 120 milhões de brasileiros são incapazes de utilizar a leitura e a escrita em benefício próprio. Refiro-me a ler livros, jornais, revistas, bulas de remédio, manuais e contratos.

Outros dados sociais impressionam e ajudam a compreender melhor a paisagem que tento esboçar. Cerca de 55 milhões de pessoas no país, quase um terço da população, estão abaixo da linha de pobreza. Destes, 21,7 milhões acham-se em situação de miséria absoluta[5]. E mais: 5,5% das crianças brasileiras de 7 a 14 anos, segundo o IBGE, estão hoje fora da escola[6]. Na outra ponta, apenas 3,4% dos brasileiros conseguem hoje concluir o curso superior[7].

São informações chocantes tanto do ponto de vista de uma ética social quanto de uma vida em sociedade minimamente equilibrada. Por outro lado, demonstram que levar em conta a “cultura popular” ou a “mentalidade popular” pode ser muito importante para a compreensão do contexto brasileiro.

Mas, o que se entende por popular? Vamos chamar de povo as “populações rurais, as camadas empobrecidas das periferias urbanas e os grupos de indivíduos que, embora materialmente próximos das camadas privilegiadas, manifestam uma visão de mundo semelhante àquela da cultura popular”.[8] Ou “a classe operária de baixo poder aquisitivo; os pobres dos grandes centros e o homem do campo. Como inferência dessa falta de poder aquisitivo, a cultura do grupo se baseia na oralidade ou numa incipiente escolarização, o que impede a equiparação com o saber sistemático, erudito, da classe dominante”[9].

Ocorre que no Brasil, mesmo considerando os estratos sociais privilegiados, é fácil encontrar pessoas com educação formal estabelecida, nível universitário, poder econômico, estilo de vida inserido na modernidade, acesso às chamadas tecnologias de ponta, às informações e aos serviços e bens de consumo que, ao mesmo tempo, por razões familiares, de costume, de convívio e outras, tenham uma forma de pensar e viver enraizada em paradigmas relacionados a uma certa maneira popular de ver o mundo.

Tento dizer que nosso país é profundamente impregnado por uma fragmentada, assistemática, informal e heterodoxa, embora vivíssima e influente, cultura popular.

Paradoxalmente, quando crianças filhas de pais analfabetos – ou mesmo quando adultos analfabetos – matriculam-se na escola, vêem-se imediatamente obrigadas a enfrentar o discurso da cultura oficial, o referido “saber sistemático, erudito, da classe dominante”, marcado, como sabemos, pelo individualismo, pela secularização, pelo pensamento abstrato, crítico e analítico, pela informação e pela objetividade (note-se que o conhecimento objetivo é aquele que pretende ser sem sujeito ou impessoal). A escola vai logo avisando: “Agora sim! Finalmente você vai aprender a ler e escrever e, portanto, entrar em contato com o certo, com a racionalidade e com o conhecimento.” Segundo tal discurso, só assim a “realidade” e a própria “verdade” seriam acessíveis. Fora disso, é o que se infere, tudo seria atraso, ignorância, incompetência, subdesenvolvimento e ingenuidade, que precisariam ser debelados o quanto antes.

Mas o que caracteriza essa cultura popular, fragmentada e tradicional? Em resumo, estamos diante de determinados paradigmas: a valorização da experiência concreta de vida, das hierarquias (tipo família e comunidade) e do contexto onde se vive (o “torrão natal”); a explicação da vida e do mundo via religiosidade; o conhecimento prático do senso comum representado, por exemplo, pelos ditados populares (noções como“em tempo de tempestade, qualquer buraco é abrigo”etc.); uma moral, chamada por alguns de “ingênua”, que tende a não lidar com princípios universais e abstratos mas, sim, faz conviver e dialogar valores contraditórios: interesses coletivos, interesses individuais, solidariedade, malandragem e justiça feita com as próprias mãos; a tendência a colocar os assuntos “nós” acima dos assuntos “eu” e, ainda, a oralidade, ou seja, uma cultura plástica sempre mutante afinal não está fixada por texto.

É preciso ressaltar: toda uma mentalidade, uma cultura e uma tradição popular e oral são desprezadas, embora estejam altamente disseminadas em todos os segmentos da sociedade. Afinal, como vimos, se somarmos analfabetos, semi-analfabetos, analfabetos funcionais e alfabetizados identificados com as tradições populares, teremos a maioria quase absoluta dos brasileiros.

Se para os alunos das classes médias e altas, filhos e netos de pessoas alfabetizadas, o discurso da escola parece fazer sentido, para os alunos oriundos da tradição oral – repito, a grande maioria da população brasileira – ele apresenta um caráter autoritário, preconceituoso, discriminatório e excludente. Diante dele as pessoas vêem-se colocadas numa espécie de limbo: de um lado, são levadas a desprezar tudo que são, seus pais, seus avós, suas tradições, crenças, costumes e estilo de vida afinal seus parentes não sabem ler nem escrever e desconhecem a gramática, as ciências, a matemática, a História etc.; de outro, sentem dificuldade em se familiarizar ou se identificar com a "verdade" escolar construída a partir de outros paradigmas.

Por incrível que pareça, apesar de tão desprezada, a cultura popular talvez sempre tenha sido a fonte mais consistente e original das artes brasileiras. Basta citar Mário de Andrade, Raul Bopp, João Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Ariano Suassuna, José Cândido de Carvalho Heitor Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Heckel Tavares, Ary Barroso, Antonio Carlos Jobim, Baden Powell, Egberto Gismonti, Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Antônio Nóbrega, Tarsila do Amaral, Volpi, Portinari, Aldemir Martins, Helio Oiticica, Siron Franco, Farnese de Andrade, Gilvan Samico e tantos e tantos outros artistas cultos que construíram e têm construído parte considerável de suas obras a partir de concepções e procedimentos populares.

Além disso, faz parte do modelo popular um precioso conjunto de formas literárias: contos de encantamento, quadras, ditados, lendas, casos, adivinhas, anedotas, frases feitas, parlendas, trava-línguas, entre outras. Essa produção cultural tem sido recolhida por antropólogos, sociólogos, psicólogos e folcloristas e pode ser encontrada em inúmeras versões e coletas (eu mesmo venho pesquisando e trabalhando com esse material há mais de 20 anos) e, enfim, constitui um acervo bastante extenso e relativamente acessível. Ele representa uma relevante coleção de enredos, procedimentos com as palavras e concepções que precisaria ser melhor compreendido e valorizado. Um conto em que o herói, transformado em monstro, luta para resgatar sua verdadeira identidade, refere-se a um tema de grande importância e atualidade. Uma narrativa em que a mãe, ou madrastra, tenta destruir a filha, ou enteada, ao constatar que esta virou uma mulher, aborda um assunto humano complexo e contemporâneo. Uma imagem como “dar nó em pingo dágua” seria assinada, tenho certeza, por qualquer poeta “culto”. Ditados como “quem senta na garupa, não pega na rédea” ou “quem quer pegar passarinho, não faz xô” ou “quando o rico mata o pobre, o defunto é que vai preso” ou “quem anda na linha, o trem esbagaça” ou “mais vale um hoje do que dois amanhãs” ou “quem não sabe nadar, bota a culpa no rio” ou “quem está de fora joga melhor” constituem uma inegável amostra da mais pragmática sabedoria humana criada, não através de pesquisas em laboratórios e academias, mas, sim, a partir da experiência de vida concreta acumulada e mantida através da oralidade e das formas literárias populares.

Creio que se o que se deseja é realmente formar leitores no Brasil – e não em outro lugar – seria o caso de conhecer melhor e explorar sistematicamente esse imenso acervo no processo educacional, principalmente no caso de pessoas originárias ou vinculadas de alguma forma à tradição oral.

Ao entrar em contato com um conto de encantamento, uma quadra, um trava-língua ou um dito da sabedoria popular, o estudante talvez abra a boca espantado e pense: "Peraí! Mas meus pais conhecem isso! Isso eu já ouvi! Isso faz sentido pra mim!"

Hoje, essa mesma criança costuma ser levada a envergonhar-se de si mesma e de seus próprios pais, que desconhecem tudo o que a escola ensina.

Com a incorporação e valorização programática da cultura popular na escola é possível imaginar – pelo menos sonhar – que certo aluno volte para casa, conte o que aprendeu na escola e, no dia seguinte, traga novo material contado pelo pai ou algum parente. Através da criação de uma espécie de ponte entre o modelo culto e o popular, a chamada escolarização pode ganhar novo significado, propiciando aos alunos maior sintonia, identificação e grande sentimento de inclusão. Seu pressuposto é o reconhecimento de que estão em jogo diferentes padrões de leitura do mundo e não apenas um. Qualquer modelo hegemônico, por maior que seja seu poder e melhor que seja sua auto-imagem, sempre representará uma redução e um processo que se dirige à unilateralidade, à uniformização, à homogenização, ao consenso e, portanto, à redução cultural. Acredito que quando não existirem mais analfabetos no Brasil também terá deixado de existir toda uma complexa, rica, fragmentada e heterodoxa cultura oral, representativa de outras maneiras de proceder diante da vida e do mundo.

É preciso abrir parênteses. Acho possível que minhas palavras possam ser interpretadas como uma idealização ou uma romantização da cultura do povo.

É indiscutível que as concepções populares estão repletas de pré-conceitos rígidos e noções gerais equivocadas, que podem ser consideradas sem o menor fundamento. Tento apenas ressaltar 1) que a cultura popular brasileira representa um processo vivo, contemporâneo, de grande influência, e precisa ser melhor compreendida; 2) que visões pré-concebidas ou preconceituosas não ocorrem exclusivamente no âmbito da cultura tradicional e 3) que certos aspectos do modelo de consciência popular – por se desenvolverem no plano da vida concreta, afetiva, relacional e situada – podem enriquecer, e muito, o pensamento oficial e escolarizado, ou seja, o “saber sistemático, erudito, da classe dominante”. Trata-se portanto de enxergar o viés positivo dos conceitos de tradição e de cultura popular.

Dizia Montaigne (1533-1592) em seus famosos Ensaios, que “[n]a verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”.[10]

Em outras palavras, tudo o que não esteja previsto ou que entre em contradição com nosso modelo de visão de mundo corre o risco de ser ignorado, rechaçado e desqualificado. É que reconhecer a existência de diferentes modelos de consciência – diferentes modos de ver a vida e o mundo ou diferentes padrões cognitivos, éticos e estéticos construídos socialmente–, tende a ser, quase sempre, uma postura ameaçadora e penosa, pois coloca sob suspeição e discussão nossas noções e crenças sobre a “realidade” e a “verdade”. Daí a tendência a simplesmente desprezar padrões culturais estranhos aos oficiais e hegemônicos.

Fala-se muito em “inclusão” mas o que se vê no Brasil parece ser um processo excludente e unilateral que impõe certos valores e destrói ou desqualifica outros. Fenômeno semelhante ocorre com a chamada “globalização” composta, na verdade, de poucos englobadores e muitos englobados.

Se é correta a premissa de que as manifestações populares são oriundas de um modelo de consciência construído socialmente e baseado na cultura oral, na valorização das hierarquias, da religiosidade, da vida coletiva e do senso comum, diferente, portanto, do padrão hegemônico criado a partir da escrita, da valorização do individualismo, do pensamento abstrato e teórico, da secularização, da informação e da objetividade, fica mais fácil compreender porque o modelo popular, em que pese sua grande importância, complexidade e influência, continua sendo tão desprezado.

Tal desprezo certamente tem sido um extraordinário obstáculo tanto para a formação de leitores como para a construção de uma sociedade brasileira mais justa, coerente e humana.

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[1] Escritor e ilustrador, doutor em Letras (USP), pesquisador na área da cultura popular.

[2] 13,3% da população. Fonte: Síntese de indicadores sociais 2000, Rio de Janeiro, IBGE, 2001 (Estudos e pesquisas. Informação demográfica e socioeconômica, nº 5).

[3] Idem, ibidem.

[4] Folha de S.Paulo, 10 de setembro de 2003.

[5] Censo IBGE 2000, O Estado de S.Paulo, 19 de setembro de 2003.

[6] Folha de S.Paulo, 3 de dezembro de 2003, Caderno Cotidiano, p. C3.

[7] INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), MEC. O Estado de S.Paulo, Caderno Geral, p. A11, 3 de dezembro de 2003.

[8] GOMES, Núbia P.M. e PEREIRA, Edimilson P. Mundo encaixado – Significação da cultura popular. Belo Horizonte, Mazza Edições, 1992, p.25.

[9] Idem, ibidem , p. 196.

[10] Apud LARAIA, Roque de Barros. Cultura, um conceito antropológico.13ª ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000, p.12