Diferentes
graus de relação entre texto e imagem dentro de livros[1]
Ricardo Azevedo[2]
Falar da relação entre textos escritos e imagens
dentro de livros é sempre um desafio. Existem muitos e diferentes tipos de
texto e muitos e diferentes tipos de imagem e essa multiplicidade torna as
coisas bastante complexas.
Diferenciar textos literários criados a partir de
preocupações estéticas de, por exemplo, textos jornalísticos, informativos ou
publicitários nunca foi tarefa fácil.
O mesmo ocorre com o discurso visual. Quando uma
pintura é imagem publicitária, ilustração ficcional, ilustração informativa ou
pintura convencional?
As perguntas são inúmeras: existe algum fator que
realmente caracterize a literatura – algo como uma “literariedade” ? Ou seria o
leitor quem de fato determina se o que está lendo é literatura, informação,
filosofia, religião, ciência ou qualquer outra coisa? Há algum elemento que nos
assegure que tal desenho seja arte? O que é exatamente arte? O que é exatamente
literatura? Por que razão o homem faz arte e literatura?
Para manter a discussão no âmbito da relação do texto
com a imagem, se partirmos do princípio de que determinado texto é literário –
por ser construído a partir da ficção e da linguagem poética – como lidar com o
fato de que esse mesmo texto pode ser ilustrado, de forma coerente e
satisfatória, por diferentes artistas através de diferentes concepções
estéticas por vezes até antagônicas?
Como lidar com o fato de que, em níveis diferentes,
toda a ilustração é sempre uma interferência que pode alterar, por vezes
dramaticamente, o universo significativo do texto?
Considerando isso, como determinar a “autoria” de um
texto escrito e ilustrado? Se há casos em que aparentemente não há motivo para
dúvidas, o que fazer com as outras inúmeras situações em que texto e imagem
dialogam de forma inseparável, situações que, diga-se de passagem, nem de longe
podem ser consideradas casos excepcionais?
O que afinal significa “ ilustrar” um texto?
Seria reproduzir o que o texto já diz? Seria encontrar
e representar uma chave pronta e óbvia apresentada de antemão pelo texto?
Embora tais perspectivas sejam arraigadas e
disseminadas, não creio que façam muito sentido. Primeiro porque o texto
escrito e as imagens constituem códigos diferentes dotados de recursos
peculiares e por vezes incompatíveis. Um exemplo simples: é possível escrever
“era uma casa muito engraçada/não tinha teto não tinha nada/ ninguém podia
entrar nela não/porque na casa não tinha chão etc.” mas como ilustrar tal
texto?. Além disso, textos literários tendem a ser plurissignificativos e
possibilitar diferentes leituras o que, em princípio, desqualifica premissas
como “mensagem” e “chave única de leitura”, ou seja, não combinam com a idéia
de univocidade. Tais noções podem ser apropriadas para obras informativas e
didáticas mas não funcionam diante de textos que privilegiam a ficção e a
linguagem poética.
Mesmo diante de assunto tão amplo e multifacetado,
envolvendo questões que vão desde uma determinação do que seja arte e literatura
até problemas específicos de linguagem, gostaria de propor algumas idéias
bastante gerais que talvez possam contribuir para uma reflexão e, espero, para
uma melhor compreensão do assunto em pauta.
Creio ser possível afirmar que, independentemente de
tendências literárias, informativas, didáticas, científicas, religiosas ou de
qualquer outro tipo, os livros produzidos e oferecidos pelas editoras podem ser
sub-divididos nos seguintes grupos:
1) livros texto:
livros sem imagens a não ser, eventualmente, uma ilustração de capa. Sua
característica preponderante, no ângulo em que estou querendo pensar, é que
neles o texto escrito funciona e atua como uma espécie de artista–solo que
brilha sozinho e ocupa todos os lugares do livro. Muitas e muitas obras se enquadram
nessa categoria e são, em geral, dirigidas ao público adulto;
2) livros
texto-imagem: livros em que o texto vem acompanhado de imagens, mas essas
são nitidamente secundárias. Neles o protagonista principal é, sem dúvida, o
texto escrito. Aqui, as imagens, em geral, pequenas ilustrações e vinhetas,
atuam como atores coadjuvantes. Em tese, se fossem publicados sem as
ilustrações, não haveria grande perda no que diz respeito ao universo
significativo do livro pois, no caso, tal universo está predominantemente
concentrado no texto escrito.
Há, claro, muitas exceções. É possível, por exemplo,
encontrar livros com muito texto e poucas imagens e, mesmo assim, essas
ocuparem um papel relevante. Vale lembrar o caso do Dom Quixote de Miguel de Cervantes. A obra foi publicada no começo
do século XVII sem ilustrações. Em meados do século XVIII, foi ilustrada por
Gustave Doré. Hoje quando se fala em Dom Quixote a primeira imagem que nos vêm
à cabeça são aquelas magistralmente criadas por Doré. Qualquer um que resolva,
por exemplo, filmar o Dom Quixote sem utilizar como referência as imagens do
grande artista frances, criadas cerca de duzentos anos após a publicação da
obra de Cervantes, pode correr o risco de ser acusado de apresentar o cavaleiro
da triste figura de forma inadequada, pouco “fiel” ao texto.
Não estou querendo insinuar que o livro de Miguel de
Cervantes, uma obra fundamental da literatura, não possa ser lida sem
ilustrações, o que seria absurdo. Quero apenas sugerir que, se lida com as
ilustrações de Doré, estas, por sua extrema qualidade, passam a fazer parte
significativa da obra;
3) livros mistos:
casos em que texto escrito e imagens dividem em pé de igualdade essa espécie de
palco que é o livro. Aqui, ambos são protagonistas e atores principais. Nesse
tipo de livro, texto e imagem estão nivelados, são absolutamente complementares
e atuam sinérgica e dialógicamente. Pode-se dizer que o “texto” do livro é
constituído pela soma do texto escrito e das imagens. Num caso assim, não faz
sentido pensar no livro publicado sem o texto ou sem as imagens. Cito dois
ótimos exemplos: O menino maluquinho
de Ziraldo e Where the wild things are?
de Maurice Sendak. Muitos livros da literatura infantil se enquadram nessa
categoria.
4) livros
imagem-texto: livros em que as imagens vem acompanhadas de textos escritos
mas estes são nitidamente secundários. Nessas obras, o conjunto das imagens é,
sem dúvida, o protagonista principal. Em livros assim, os textos atuam como
atores coadjuvantes. Em tese, se fossem publicados sem os textos, não haveria
grande perda no que diz respeito ao universo significativo em questão pois o
mesmo está predominantemente concentrado nas imagens.
Naturalmente, é possível encontrar livros com muitas
imagens e pouco texto escrito em que este, mesmo assim, ocupe um papel
essencial e seja mesmo a razão de ser da obra. Vamos imaginar um livro
fartamente ilustrado trazendo frases curtas de João Guimarães Rosa, extraídas
do Grande sertão: veredas. Por
melhores que sejam as imagens, a marca fundamental do texto escrito estará
sempre presente
5) livros imagem:
livros de imagem, sem texto escrito, cujo enredo é criado e construído
exclusivamente através de imagens. Sua característica, no ângulo em que estou
querendo pensar, é que neles o conjunto de imagens é o próprio texto da obra, o
artista–solo que brilha sozinho e ocupa todos os lugares do livro. Refiro-me
portanto a um texto visual. Como comentário, é preciso dizer que tais livros
são muitas vezes considerados exclusivamente infantis, destinados a crianças
que não sabem ler. Trata-se de um equívoco: os livros de imagem trabalham com
uma linguagem riquíssima e podem, inclusive, ser dirigidos especificamente ao
público adulto.
O esquema proposto, reconheço, é bastante esquemático
e redutor. Serve apenas como um modelo para pensar. As fronteiras entres os
grupos de livros apontados acima nem sempre são claras e, por vezes, são até
inexistentes.
Levar em conta a existência, dentro de livros, de
diferentes graus de relação entre o texto escrito e as imagens pode, apesar
disso, contribuir para uma melhor compreensão desse território rico e complexo
que é o livro ilustrado.