Formação de leitores e razões para a
literatura[1]
Ricardo Azevedo[2]
Fala-se muito em “formação de leitores”. É
“politicamente correto” elogiar a literatura e a leitura. Infelizmente, não
poucas crianças têm contato com adultos – pais, professores e outros – que
recomendam a leitura, falam em livros e autores “clássicos” mas, na verdade,
não são leitores nem se interessam pela literatura. Apesar de bem
intencionadas, essas pessoas, adeptas da filosofia do “faça o que eu digo, não
faça o que eu faço”, costumam descrever a literatura de forma bastante
idealizada. Falam em algo “mágico”, num prazer “indescritível”, referem-se a
“viagens” e coisas assim. Raramente, porém, talvez por não terem experiência,
lembram-se de comentar, por exemplo, que a leitura, como muitas coisas boas da
vida, exige esforço e que o chamado prazer da leitura é uma construção que
pressupõe treino, capacitação e acumulação. O contato com adultos
pseudo-leitores e com idealizações infelizes a respeito da literatura e da
leitura, de qualquer forma, tenho certeza, não tem contribuído para a formação
de novos leitores.
Mas o que é exatamente um leitor? De um certo ponto de
vista, é possível dizer que leitores são simplesmente pessoas que sabem
usufruir dos diferentes tipos de livros, das diferentes “literaturas” –
científicas, artísticas, didático-informativas, religiosas, técnicas, entre
outras – existentes por aí. Conseguem, portanto, diferenciar uma obra literária
e artística de um texto científico; ou uma obra filosófica de uma informativa.
Leitores podem ser descritos como pessoas aptas a utilizar textos em benefício
próprio, seja por motivação estética, seja para receber informações, seja como
instrumento para ampliar sua visão de mundo, seja por motivos religiosos, seja
por puro e simples entretenimento.[3]
Todas as “literaturas”, é preciso dizer logo, são importantes
e têm sua razão de ser. A indiferenciação entre elas, entretanto, pode afastar
as pessoas da leitura.
Para ficar num exemplo: imagine que uma criança
pressuponha que todos os livros, no
fundo, sejam didáticos. Ela vai ler um livro de poesia partindo da premissa de
que está estudando e, assim, ver-se-á obrigada a captar, entender e aprender
uma lição, e mais: imaginará que todos os leitores desse livro deverão
necessariamente chegar a uma mesma e única interpretação.
Se para um livro didático-informativo tal expectativa
é perfeitamente válida, diante de uma obra poética ela passa a ser esdrúxula,
além de revelar um lamentável equívoco que, possivelmente, afastará qualquer
futuro leitor da literatura. Logo baixo, pretendo esclarecer a que literatura,
principalmente, estou me referindo.
É importante deixar claro: para formar um leitor é
imprescindível que entre a pessoa que lê e o texto se estabeleça uma espécie de
comunhão baseada no prazer, na identificação, no interesse e na liberdade de
interpretação. É necessário também que haja esforço e este se justifica e se
legitima justamente através da comunhão estabelecida.
Dentre as várias “literaturas” existentes, a que aqui
nos interessa é a que pressupõe a motivação estética. Refiro-me a essa forma de
arte feita com palavras convencionalmente chamada de Literatura. Vale a pena
apontar algumas de suas principais características.
Em primeiro lugar, falar em Literatura significa
remeter obrigatoriamente à ficção e ao discurso poético.
Por meio do discurso poético, abrimos mão da linguagem
objetiva, lógica, sistemática, impessoal, coerente e unívoca dos livros
didático-informativos. Não por acaso, as obras didáticas costumam apresentar um
discurso muito semelhante entre si, pois nelas a voz pessoal do autor
praticamente desaparece. A razão é simples: esse tipo de livro pretende que
todos os seus leitores cheguem à mesma e única interpretação. Para atingir tal
objetivo não é possível, evidentemente, recorrer a discursos que possam
resultar em múltiplas leituras.
Ao contrário, o discurso poético, o texto literário
por definição, pode e deve ser subjetivo; pode inventar palavras; pode
transgredir as normas oficiais da Língua; pode criar ritmos inesperados e
explorar sonoridades entre palavras; pode brincar com trocadilhos e duplos
sentidos; pode recorrer a metáforas, metonímias, sinédoques e ironias; pode ser
simbólico; pode ser propositalmente ambíguo e até mesmo obscuro. Tal tipo de
discurso tende à plurissignificação, à conotação, almeja que diferentes leitores
possam chegar a diferentes interpretações. É possível dizer que quanto mais
leituras um texto literário suscitar, maior será sua qualidade.[4]
Para além do discurso poético, falar em Literatura
pressupõe recorrer à ficção. Sempre que entramos no plano da ficcionalidade,
abdicamos da tentativa (válida) de ver o mundo do ponto de vista da
objetividade (vê-lo pelo viés do “não-sujeito”), da lógica sistemática e do
pensamento analítico – em resumo, o modelo “científico” característico dos
livros didático-informativos. Através da ficção, penetramos no patamar da
subjetividade (a visão de mundo pessoal e singular), da analogia, da intuição,
do imaginário e da fantasia.
Abro parênteses: enquanto os livros
didático-informativos necessitam de atualização periódica, afinal as
informações e as metodologias mudam constantemente, não faz sentido atualizar
uma obra literária ou poética, a não ser que tal procedimento se restrinja às
normas de ortografia.
De qualquer forma, é preciso afirmar, e veementemente,
que a literatura de ficção, tal como as obras didático-informativas e outras,
pode ser também uma forma de pensar sobre a vida e o mundo.
Por meio de uma história inventada e de personagens
que nunca existiram, é possível levantar e discutir, de modo prazeroso e lúdico,
assuntos humanos relevantes, muitos deles, aliás, geralmente evitados pelo
discurso didático-informativo – e mesmo pela ciência – justamente por serem
considerados subjetivos, ambíguos e imensuráveis.
Quais são eles? Entre outros: as paixões e as emoções
humanas; a busca do auto-conhecimento; a tentativa de compreender nossa
identidade (quem somos); a construção da voz pessoal; as inúmeras dificuldades
em interpretar o Outro; as utopias individuais; as utopias coletivas; a
mortalidade; a sexualidade (não me refiro à educação sexual, mas à relação
sexo-afetiva essencialmente subjetiva, corporal e emocional); a sempre
complicada distinção entre a “realidade” e a “fantasia”; a temporalidade e a
efemeridade (por exemplo, o envelhecimento e suas implicações); as inúmeras e
intrincadas questões éticas; a existência de diferentes pontos de vista válidos
sobre um mesmo assunto etc.
Ora, tais temas e assuntos, em que pese não aparecerem
em livros didático-informativos, nem nas matérias do currículo oficial, são da
maior importância e complexidade e não podem deixar de ser abordados. Afinal de
contas, na vida concreta, todos os seres humanos, queiram ou não, estão, por
exemplo, permanentemente mergulhados num processo de aprendizado e busca do
auto-conhecimento. Um homem de 90 anos nunca teve 90 anos antes e por isso vai
ter que aprender a lidar com sua nova situação. Um menino de 10anos vive
processo semelhante e assim por diante.
Por outro lado, se estamos mudando o tempo todo, pois
adquirimos novas informações, passamos por experiências e envelhecemos, como
falar em “identidade”, algo geralmente descrito, abstratamente, como fixo e
imutável?
Vale ainda perguntar: como lidar com nossas emoções e
sentimentos? Quantas vezes nossa razão pede uma coisa e nossas emoções outra
bem diferente?
Como construir um discurso pessoal autêntico, sermos
realmente expressivos, num mundo repleto de “informação” (oposta aqui à
“experiência”), idéias pré-concebidas, fórmulas de comportamento e atitudes
“politicamente corretas”?
Como lidar “objetivamente” (ou seja, impessoalmente)
com a mortalidade? Como enfrentar o inexorável e o desconhecido? Para que fazer
projetos e construir utopias, se inevitavelmente iremos morrer? Para alguns
teóricos[5], um dos problemas
cruciais da existência é que o homem não tem acesso cognitivo ao seu nascimento
(quando se dá conta, já nasceu faz tempo), nem à sua morte (quando vai ver, já
morreu) e, para complicar as coisas, no espaço entre seu nascimento e sua
morte, muda o tempo todo, pois adquire experiência e envelhece. Que fazer?
Continuando, como determinar a realidade e a fantasia
se sabemos que uma experiência do passado pode influenciar, inconscientemente,
na leitura do presente? Um exemplo banal: certa pessoa nos agrediu quando
éramos criança. Na vida adulta, encontramos outra pessoa, parecida com aquela.
Nossa tendência será, injustamente, tratá-la mal, temê-la ou até agredi-la. A
discussão sobre o que é de fato a “realidade” é bastante complicada. Para
alguns estudiosos, o que chamamos “realidade” não passa, na verdade, de uma
construção social e, por este viés, só conseguimos ver o que estamos
socialmente condicionados a ver.[6] Para exemplificar:
o que para nós é descrito como “branco” para um esquimó corresponde a um
conjunto complexo de mais de cem cores.
E quanto às questões éticas? Devemos falar a verdade
se, num certo caso, mentir salvaria a vida de uma pessoa? É possível pensar num
ato de violência eticamente justificável? E como fica o livre-arbítrio diante
de um conjunto de costumes e leis abstratas que, em tese, deveríamos respeitar?
Assuntos e temas como esses – sempre tratados através
da ficção e da poesia – são recorrentes em boa parte das obras literárias e,
repito, inexistem na maioria dos livros didático-informativos.
Argumentar que não pertencem ao “universo infantil” é
referir-se a um acomodado e redutivo – além de improvável – modelo
teórico-abstrato do que seja a infância. Crianças, na vida concreta,
inconscientemente ou não, buscam seu auto-conhecimento e sua identidade; têm
sentimentos e razão; sonham e se apaixonam; têm dúvidas, medos e prazeres;
ficam perplexas diante da existência de múltiplos pontos de vista; têm
dificuldades em separar realidade e fantasia; são sexuadas e mortais. Em suma,
são essencialmente seres humanos.
Fora isso, como sugerem vários estudos[7] feitos por
antropólogos e psicólogos, certas
características cognitivas consideradas “infantis”, permanecem em
adultos – inteligentes e capazes – que simplesmente não tiveram acesso à
cultura escrita.
Outra coisa: como sabemos, em nosso país, muitas
pessoas de doze, dez anos ou menos, já trabalham e, com dignidade, contribuem
para o sustento de suas famílias. Enquanto isso, numa outra ponta social, é
possível encontrar adultos de mais de vinte anos que nunca trabalharam e,
apesar de estudar em escolas consideradas boas, vivem alienados das questões
sociais, da cidadania e da política, e, pior, alguns – poucos felizmente – de
vez em quando, talvez pelo tédio causado por sua própria alienação, saem por aí
cometendo crimes hediondos. Refiro-me ao inaceitável assassinato, em Brasília,
do índio pataxó Galdino de Jesus, entre outros crimes, divulgados pela
imprensa, cometidos por jovens da elite.
Não pretendo dizer, é importante deixar bem claro, que
crianças são iguais a adultos, mas, sim, que a divisão de pessoas em higiênicas
e abstratas faixas etárias, quando utilizada indiscriminadamente, parece ser um
procedimento equivocado e redutivo que precisa ser urgentemente repensado.
Tenho certeza de que, por exemplo, indicar idades em capas de livros de
Literatura – o que pressupõe a existência de textos literários “especiais” para
pessoas de 7, 9 ou 11 anos e, portanto, a crença de que crianças de, digamos, 9
anos sejam todas iguais(!) – não
contribui nem um pouco, muito pelo contrário, para a formação de novos
leitores. Note-se que o mesmo procedimento em livros didático-informativos pode
ser absolutamente correto.
Tento também
dizer o seguinte: o modelo didático-informativo, cultivado pelo sistema
escolar, tende a apresentar um mundo simétrico, lógico, equilibrado, coerente e
unívoco. Isso parece ser necessário para que o leitor-aluno possa organizar e
sistematizar um certo conjunto de informações importantes para a compreensão da
sociedade, para sua vida social, seus estudos futuros e seu desenvolvimento.
O mesmo leitor, porém, é fundamental que não se
esqueça, para além do plano educacional, vive no plano da existência concreta e
particular (não teórico) e, assim, está sujeito a inúmeras situações
contraditórias e inesperadas, ou seja, situações que não constam do cardápio
das regras e modelos ideais. Mencionei algumas acima.
Note-se que, justamente por abordar o contraditório, a
Literatura, em vez de trabalhar com personagens idealizadas, previsíveis e
abstratas – além de “politicamente corretas” – típicas dos livros pedagógicos,
pode apresentar ao leitor seres humanos fictícios, mas complexos e paradoxais,
mergulhados num constante processo de modificação e empenhados na construção de
um significado para suas vidas.[8] É da maior
importância, acredito, que leitores, sejam eles crianças ou não, tenham acesso
a personagens assim. São elas que permitem a verdadeira identificação entre a
pessoa que lê e o texto. No âmbito da chamada literatura infantil, para ficar
com exemplos conhecidos de todos, cito Raquel (de A bolsa amarela de Lygia Bojunga) ou o menino maluquinho (do livro
homônimo de Ziraldo) como personagens deste tipo.
A meu ver, em todo o caso, é imprescindível que na
formação da criança, e do leitor, haja sempre espaço para que o contraditório e
a ambigüidade apareçam. Não, naturalmente, como lições – se houvesse
explicações para o contraditório, ele simplesmente não existiria – mas sim por
meio do diálogo, da meditação, de discussões, especulações e troca de opiniões.
É riquíssimo imaginar um cenário onde, juntos, adultos
e crianças – em casa, numa sala de aula, seja onde for – possam trocar idéias e
impressões sobre assuntos diante dos quais ninguém, seja qual for a faixa
etária, pode “ensinar”. Neste cenário, só é possível compartilhar experiências.
Suspeitar ou sugerir, por outro lado, que crianças não tenham experiência de
vida suficiente a ser compartilhada com adultos é ignorar a existência humana
concreta.
A literatura, o discurso poético e ficcional, quando
respeitadas suas características, entre as quais, ressalto mais um vez, incluo
a possibilidade de poder abordar o contraditório, permite a identificação
emocional entre a pessoa que lê e o texto e, assim, pode representar, dentro ou
fora da escola, um precioso espaço para que certas especulações vitais – feitas
pelo leitor, seja consigo mesmo, seja com outras pessoas – possam florescer.
Antes de concluir, creio que vale a pena retomar os
principais pontos levantados nesse artigo:
A necessidade de a criança, e também o adulto, seja em
casa, na escola ou na vida, aprenderem a diferenciar os vários tipos de textos
e assim, ao passar a utilizá-los em benefício próprio, formarem-se como
leitores.
A constatação de que livros didático-informativos têm
sido muito úteis, seja na divulgação de informações, seja como um instrumento
pedagógico importante, mas, certamente, não formam leitores.
Para que a formação do leitor ocorra, é necessário que
haja, entre a pessoa que lê e o texto, uma espécie de comunhão emocional que
pressuponha prazer, grande identificação e, sempre, a liberdade para
interpretar. É preciso ainda não esquecer que há um inevitável esforço
envolvido nesse processo.
A necessidade de a literatura, para além de chavões,
nada esclarecedores, do tipo “viagem da leitura”, “soltar a imaginação” ou “nas
asas da fantasia”, ser compreendida como um modelo de pensamento que recorre à
ficção e à poesia para interpretar e dar significado à vida e ao mundo.
A
conscientização de que, além dos discursos objetivos e unívocos, que seguem à
risca as normas do ensino oficial, existem outros, subjetivos, analógicos,
lúdicos, plurissignificativos e altamente inventivos, que, ao se permitirem
grande manipulação dos recursos da linguagem, tornam-se extremamente significativos.
A necessidade
de se assumir de uma vez por todas que, além dos assuntos convencionais que
podem ser ensinados por adultos a crianças, existem um sem número de outros
temas, complexos, ambíguos e contraditórios que só podem ser discutidos e compartilhados pelas pessoas,
independentemente de faixas etárias. Em outras palavras, não é possível que
adultos façam papel de professores diante de crianças o tempo todo. Ao
contrário, é preciso reconhecer a rica complexidade da existência concreta, seja
na vida adulta, seja na infância.
A importância de ter em mente que a Literatura – e a
arte em geral, pintura, teatro, cinema, dança, música etc, – pode ser um espaço
privilegiado para abordar o contraditório e a ambigüidade. Menciono exemplos
bastante simples, a título de esclarecimento, que são abordagens do
contraditório no âmbito da chamada literatura infantil: a postura de uma
personagem como Peter Pan, que se recusa a ser adulto, critica a vida “real” e
opta por viver num lugar utópico chamado “Terra do Nunca”; a viagem da menina
Alice ao País das Maravilhas, e suas
diversas e divertidas discussões sobre o sentido e o não-sentido das coisas; as
madrastas que pretendem destruir suas enteadas, como em Branca de Neve, ou os
príncipes e princesas, transformados em monstros ou animais, personagens
recorrentes em muitos contos maravilhosos etc.
Finalmente, gostaria de encerrar este artigo
argumentando que vai ser difícil formar leitores insistindo em idealizações a
respeito da leitura, aceitando passivamente a divisão indiscriminada de pessoas
em abstratas faixas etárias, ignorando a existência de diferentes tipos de
livros e textos e, ainda, sem levar em consideração certas características e
especificidades da Literatura, entre elas, seu compromisso profundo e essencial
com a existência humana concreta.
[1] Artigo publicado em SOUZA, Renata Junqueira de. (org.) Caminhos para a formação do leitor. São Paulo, DCL, 2004.
[2] Escritor e desenhista. Doutor em Letras–USP.
[3] Cf. nosso artigo “Aspectos da literatura infantil brasileira, hoje” in Revista Releitura, Belo Horizonte, 2001, nº 15. Disponível no site: www. ricardoazevedo.com.br
[4] Cf. nosso artigo “Diferentes tipos de imagens para diferentes tipos de texto” disponível no site www.ricardoazevedo.com.br
[5] Cf. ISER, Wolfgang. O
Fictício e o Imaginário – Perspectiva de uma Antropologia Literária. Trad.
Johannes Kretschmer. Rio de Janeiro, Ed. UERJ, 1996.
[7] Cf. ONG, W. Oralidade e cultura escrita, Campinas, Papirus Editora, 1998.