
Programa
de Pós-Graduação em
Teoria Literária e Literatura Comparada
Abençoado e danado do samba
Um estudo sobre as formas literárias populares: o discurso da pessoa, das
hierarquias, do contexto, da oralidade, da religiosidade, do senso comum e da
folia
Ricardo José Duff Azevedo
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Teoria Literária
e Literatura Comparada do Departamento de Teoria Literária e Literatura
Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Letras.
Prefácio
Este livro tem por base
estudos relacionados à cultura popular iniciados há cerca de 20 anos, que
resultaram na dissertação de mestrado “Como o ar não tem cor, se o céu é azul?
Vestígios dos Contos Populares na Literatura Infantil”, apresentada em 1997 e ainda não publicada. Sua sequência foi uma tese de doutorado defendida em setembro de 2004, dentro do Programa de
Pós-Graduação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da
Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. Em linhas gerais, o texto do
livro corresponde ao texto da tese.
Com relação ao trabalho
original, embora as idéias principais tenham permanecido as mesmas, fiz várias
alterações. Modifiquei a ordem de entrada de alguns capítulos; subdividi e
detalhei melhor a discussão sobre cultura popular; ampliei o capítulo relativo
à questão oralidade, central no estudo e, ainda, reduzi o capítulo a respeito
da história do samba. Além disso, acrescentei ou realoquei diversos comentários
e informações. No geral, cortei o que pude. Foi necessário, por exemplo,
reduzir significativamente o número de letras dos sambas estudados e, ainda,
abrir mão de apresenta-las na integra, tanto para evitar que o livro ficasse
com um número excessivo de páginas, como para fugir das complicações inerentes
às cessões de direitos autorais.
O leitor na certa notará,
aqui e ali, um certo tom de desconforto e indignação. Ele se deve ao contraste flagrante
entre a vitalidade e a riqueza estética das letras de samba e a pobreza
miserável do contexto social onde, em geral, elas costumam ser criadas.
De um modo
geral, sabemos de cor e salteado o que julgamos poder ensinar ao povo. Costumamos,
porém, ignorar o que temos a
aprender com ele.
Faço um agradecimento
especial à Prof.ª Aurora Bernardini, orientadora da tese que, desde nossa
primeira conversa, acreditou no estudo e incentivou sua feitura. Devo a seus
esforços e generosidade a bolsa que recebi da CAPES e a própria a publicação deste
livro.
Orientadora: Profª Drª Aurora Fornoni Bernardini
São Paulo
Junho de 2004
Universidade de São Paulo Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada
Este trabalho estuda as formas literárias populares a partir da premissa de que
a literatura, portanto a arte, pode ser vista como expressão de um certo nível
de consciência construído socialmente. Seu princípio é o de que qualquer estudo
sobre manifestações artísticas, modernas ou tradicionais, deve levar em
consideração a existência de diferentes padrões cognitivos, éticos e estéticos.
Naturalmente, padrões não coincidentes implicam discursos não coincidentes.
Tomando por base um extenso acervo de letras de samba, efetuou-se o
levantamento de um conjunto de elementos, tendências e predominâncias que,
reunidos, podem auxiliar na caracterização de algo mais amplo, bastante
impreciso, plástico e diversificado, mas de interesse relevante: os discursos
populares brasileiros. As letras de samba e, num espectro mais amplo, as formas
literárias populares, esta é a hipótese do estudo, não podem ser devidamente
estudadas e compreendidas se não for levado em consideração o fato de que tendem
a ser concebidas a partir de um determinado modelo de consciência, hierárquico
e tradicional, enraizado na cultura oral, na vida coletiva, na religiosidade e
no senso comum. Tal padrão não coincide com o modelo de consciência moderno,
individualista, reflexivo e secularizado, largamente difundido e naturalizado,
produto da cultura escrita, do discurso científico e da escolarização. O
trabalho teve como objetivo demonstrar que o samba representa um acervo
importante, influente e acessível de recursos formais, procedimentos estéticos
e temas humanos imprescindíveis e contemporâneos que, paradoxalmente, têm sido
ignorados ou parecem escassear e mesmo desaparecer do discurso de parte
significativa da moderna música popular brasileira.
Palavras-chave
Formas literárias populares – Teoria literária – Música popular
brasileira – Cultura popular – Literatura comparada
Sumário
Introdução
………………………………………………………………………………............................................
1. A cultura popular: uma aproximação
………………………………………………..
..........................................
2. Aspectos gerais do samba: sua história e seu contexto
……………………………..............................................
3. Um modelo de consciência: família, hierarquias e contexto
………………………….........................................
3.1 Sobre o modelo familiar
………………………………………………………………...………………...........
3.2 Sobre o modelo hierárquico
………………………………………………………………………….…..
........
3.3 Sobre a valorização do contexto
………………………………………………………………………….........
3.4 Cosmovisão carnavalesca e escolas de samba
…………………………………………………………..
.........
4. Moral ingênua, religiosidade popular e
senso-comum
……………………………...............................................
4.1 A
solidariedade e a camaradagem ………………………………………………………………………...........
4.2 A primazia dos interesses do grupo
…………………………………………………………………….............
4.3 A primazia dos interesses pessoais
……………………………………………………………………..............
4.4 A malandragem
…………………………………………………………………………………………............
4.5 A religiosidade popular
…………………………………………………………………………………...........
4.5.1 A crença em forças transcedentais e superiores interferindo e
determinando a vida dos homens …............
4.5.2 A noção de sociedade da vida
…………………………………………………………………………..........
4.5.3 O pensamento mágico-religioso (encantado)
…………………………………………………………..........
4.5.4 A inseparabilidade entre o bem e o mal
………………………………………………………………...........
4.5.5 O pressuposto da renovação periódica do mundo
……………………………………………………..........
4.5.6 A crença utópica de que um dia, no futuro, a justiça será finalmente
reestabelecida ………………...........
4.6 O senso comum
……………………………………………………………….…………………………...........
5. Os índices de oralidade e suas inúmeras
implicações
……………………………….............................................
5.1 Mecanismos perceptivos de diferenciação e não-diferenciação
………………………………………...........
5.2 Questões relativas à oralidade
……………………………………………………………………………........
5.2.1 Sobre os estudos de Eric Havelock
…………………………………………………………………….........
5.2.2 Sobre os estudos de Walter Ong
……………………………………………………………………….
........
5.2.3 Sobre os estudos de Jack Goody
……………………………………………………………………….........
5.2.4 Sobre os estudos de Paul Zumthor
……………………………………………………………………...........
5.2.5 Sobre os estudos de David Olson
……………………………………………………………………….........
5.3 Comentários sobre a oralidade e suas implicações
……………………………………………………….........
5.3.1 Tendências do pensamento e da mentalidade marcados pela oralidade
……………………………............
5.3.2 Índices e procedimentos do discurso marcado pela oralidade
………………………………………............
5.4 Comentários
……………………………………………………………………………………….......................
6. Aspectos formais do discurso marcado pela
oralidade
………………………………............................................
6.1 Sobre a oposição oralidade e escrita
……………………………………………………………….……...........
6.2 Sobre a questão da autoria
………………………………………………………………………….……..........
6.3 Sobre a questão do improviso
…………………………………………………………………………….........
6.4 Sobre a questão da subjetividade – o problema da “pessoa”
e do “indivíduo”
………………………...........
6.5 Alguns recursos formais baseados na oralidade
……………………………………………………….............
6.5.1 Quanto ao vocabulário popular
………………………………………………………………………...........
6.5.2 Expressões que remetem para a demonstração real
………………………………………………….............
6.5.3 O recurso interjeccional
………………………………………………………………………………............
6.5.4 O recurso do diálogo
…………………………………………………………………………………….........
6.5.5 A narratividade
…………………………………………………………………………………………..........
6.5.6 A interrupção da palavra cantada
…………………………………………………………………….............
6.6 Comentários
……………………………………………………………………………………………..............
7. Os inúmeros temas e motivos populares
recorrentes nas letras de samba …………..............................................
7.1 O tema lírico-amoroso
…………………………………………………………………………………..............
7.2 O tema da comida
……………………………………………………………………………………….............
7.3 O tema da consciência social
…………………………………………………………………………...............
7.4 O tema da corporalidade
…………………………………………………………………………………..........
7.5 O tema “nós”
…………………………………………………………………………………………….............
7.6 O tema enciclopédico
…………………………………………………………………………………................
7.7 O tema do envelhecimento
………………………………………………………………………………...........
7.8 O tema da esperança
……………………………………………………………………………………..............
7.9 O tema da festa
…………………………………………………………………………………………...............
7.10 O tema filosófico
……………………………………………………………………………………….............
7.11 O tema da louvação
……………………………………………………………………………………............
7.12 O tema da mortalidade
…………………………………………………………………………………...........
7.13 O tema da pobreza
………………………………………………………………………………………..........
7.14 O tema do fazer poético
………………………………………………………………………………….........
7.15 O tema do riso
…………………………………………………………………………………………............
7.16 O tema do samba
………………………………………………………………………………………............
7.17 O tema do trabalho
…………………………………………………………………………………….............
7.17 O tema da tradição
……………………………………………………………………………………….........
8. Conclusão
……………………………………………………………………………..............................................
8.1 Sobre os dois modelos de consciência propostos
……………………………………………………...............
8.2 Comentários sobre as questões da cultura oral e da cultura escrita ……………………………………...........
8.3 Comentários sobre o discurso-eu e o discurso-nós
…………………………………………………….............
8.3.1 Características do discurso-eu
…………………………………………………………………………..........
8.3.2 Características do discurso-nós
…………………………………………………………………………........
8.3.3 Sobre o tom universalizante e apodíctico
……………………………………………………………….......
8.4 Comentários e comparações entre as letras de samba e as letras da moderna
música popular ……….............
8.5 Comentários sobre as relações entre o discurso-eu, o discurso-nós e os
mecanismos de
diferenciação e não-diferenciação
……………………………………………………………………….................
8.6 Comentários relacionando as linhas evolutivas e o samba
……………………………………………...........
8.6.1 Sobre informação e redundância
………………………………………………………………………..........
8.7 Comentário final
…………………………………………………………………………………………..........
9. Bibliografia citada e consultada
……………………………………………………..............................................
10. Discografia
…………………………………………………………………………...............................................
Anexo
………………………………………………………………………………….................................................
1. Breve comentário sobre a pesquisa
…………………………………………………...............................................
1.1 Conjunto completo dos sambas selecionados, transcritos e classificados
…………...........................................
1.2 Conjunto completo da canções da moderna música popular brasileira
utilizadas comparativamente
……………………………………………………….
.............................................. |
11
19
51
109
109
138
161
188
203
213
227
242
265
297
306
307
310
311
312
314
337
353
358
368
369
380
388
403
407
425
426
431
437
445
448
456
475
496
501
504
510
512
513
524
532
542
543
547
567
582
592
603
607
632
645
653
662
674
684
694
702
714
732
747
765
779
780
785
789
791
793
795
796
801
804
808
810
815
824
835
836
836
873 |
