Revista Contato Fnac Nª 8
agosto/setembro 2001

1 Quando você começou a escrever e como percebeu que isso era importante para voc?

É preciso dizer que sou filho de escritor. Meu pai, Aroldo de Azevedo, era geógrafo e tinha vários livros publicados. Cresci, portanto, numa casa onde o assunto livros e fazer livros era muito familiar. Mas respondendo mais diretamente a sua pergunta, percebi que gostava de escrever fazendo as redações escolares. Costumava tirar boas notas e fazia aquilo com grande prazer. Desde cedo, achei que ia trabalhar com alguma coisa que tivesse textos no meio. Como gostava de desenhar, de repente sonhei em fazer um livro ilustrado e foi mais ou menos por aí que acabei me interessando pela literatura infantil. Escrevi meu primeiro texto para crianças com uns 17 anos. Mais tarde, ele se transformou num dos meus livros mais premiados, Um homem no sótão que, por sinal, devo relançar agora pela Ática.

2 Você tem uma disciplina para escrever ou produz mais sob a influência da inspiração?

Nunca gostei de palavras como "inspiração", "talento", "criatividade". São rotulinhos que não ajudam a compreender a vida. Vejo pessoas que dizem: não sou criativa, não tenho inspiração. Prá mim essa bobagem começa na escola e até nas famílias. As pessoas, em geral, são educadas para não serem expressivas. É que uma pessoa expressiva fica motivada e dá mais trabalho, é trangressora, irriquieta, inventa moda, questiona tudo e isso atrapalha pais e professores. Por tudo o que vi até hoje, qualquer pessoa que esteja motivada e trabalhe bastante, vai, cedo ou tarde, fazer coisas interessantes que depois serão rotuladas como "inspiradas", "talentosas" ou "criativas". É claro que existem idéias que surgem de repente e mobilizam a gente. Basta estar vivo para isso acontecer. Acredito muito mais em motivação e trabalho. Sou disciplinado, sim, e trabalho bastante. Quando estou escrevendo um texto e estou num dia ruim, trabalho normalmente mesmo percebendo que o que está saindo não presta. Com o tempo aprendi que esses momentos acabam sendo úteis. A gente pelo menos fica sabendo que tais caminhos ou soluções, experimentados aquele dia, são burradas que não interessam.

3 Há algo específico no ato de escrever para crianças e adolescentes? Quais os preconceitos e mito sobre o livro infanto-juvenil?

Infelizmente, até hoje ainda existe aquela idéia rançosa de que tudo o que se faz para crianças precisa necessariamente ser informativo ou educativo. É claro que crianças precisam receber informações e para isso existem os livros didáticos. Acontece que na vida mesmo há muita coisa além das informações que, aliás, são sempre passageiras e precisam de constante atualização. Existem mil assuntos que simplesmente não podem ser ensinados, apenas compartilhados entre adultos e crianças: a capacidade de se apaixonar, a busca do auto-conhecimento, a construção da voz pessoal, os sonhos e medos, as ambigüidades, as utopias pessoais, nossa relação com a passagem do tempo (estamos sempre mudando e envelhecendo! ) e com morte, entre muitos outros. Não seria bom se as crianças soubessem, por exemplo, que um homem de 80 anos ainda é um aprendiz e está em busca do seu auto-conhecimento, afinal, ele nunca teve 80 anos antes? Prá mim, enfim, os assuntos que a gente não pode ensinar, são os assuntos da literatura, seja ela infantil ou não. Parto sempre do princípio de que crianças e adolescentes são seres humanos como nós adultos, ou seja, têm emoções, têm um corpo, se apaixonam, sentem prazer e dor física, são sexuados, podem confundir a realidade com a fantasia, têm sonhos e projetos, sentem medo, têm defeitos, gostam de conforto e por aí vai. Quanto aos temas, os abstratos vão interessar menos. E a linguagem, no caso da literatura infantil, precisa, acho, ser sempre direta e concisa, usar vocabulário familiar e pretender ser compreendida. Ou seja: uma linguagem não "infantil" mas, sim, popular.

4 Você também é um excelente ilustrador. Conte um pouco sobre esse trabalho e sobre sua relação com o trabalho de escritor.

Minha experência com Um homem no sótão foi super importante para eu compreender o que queria fazer como ilustrador. Como disse, escrevi o texto quando moleque, em 1967 acho, mas só fui fazer os desenhos em 1981, época da publicação, ou seja, treze anos depois. Como o problema criativo do texto já estava totalmente resolvido e eu era praticamente outra pessoa pois muitos anos haviam se passado, isso acabou me dando muita liberdade para ilustrar. Agi realmente como um autor das imagens. Acrescentei informações através dos desenhos, coisas que o texto nem dizia. Brinquei com imagens que uma hora são ilustrações ocupando a página inteira e, de repente, mas prá frente, reaparecem, em tamanho reduzido, num quadro pendurado na parede, dentro de outra ilustração. Enfim, aprendi, com essa experiência, que os desenhos não precisam estar obrigatoriamente presos ao que o texto diz mas, pelo contrário, podem acrescentar coisas e possibilidades, enriquecendo o universo significativo do trabalho. É o que, na medida do possível, desde então, sempre tento fazer.

5 Numa época em que a mídia eletrônica, que é sobretudo baseada na imagem, se apresenta como o futuro, qual a importância da leitura e do livro para você?

A leitura é um patrimônio completamente insubstituível. O que há é que as pessoas fazem a maior confusão entre os vários tipos de livros. Existem, resumindo, livros técnicos, didáticos e informativos; livros para diversão; livros científicos; livros de filosofia e livros de poesia e prosa literária. Todos são importantes, mas cada uma tem seu lugar e seu momento. As pessoas precisariam aprender a usar essa gama de trabalhos em benefício próprio e ensinar isso seria, a meu ver, uma das funções da escola. Infelizmente, muitas delas ainda confundem, por exemplo, livros didáticos com literatura. A criança fica achando que todo o livro tem necessariamente uma lição objetiva que ela precisa aprender. Não sabe que existem livros diferentes, que, ao contrário dos didáticos, permitem diversas conclusões, livros com os quais ela pode se emocionar, se identificar, sonhar, se escangalhar de dar risada, chorar e até especular sobre sua própria existência. Na minha visão, enquanto essa confusão persistir, a gente não vai conseguir formar leitores nunca. Aliás, é o que se vê.