Entrevista
para o site da Editora Ática
Jorge
Vasconcellos
Fev.
2002
1. Relate um
pouco da sua história profissional como escritor. Sabemos que você já se
aproxima da primeira centena de livros publicados, portanto já é uma história
longa. Porém, certamente algumas observações são as mais marcantes. Conte-nos
uma "historinha" dessa grande história.
Escrevo desde a adolescência e tive, no tempo da
escola, um incentivo grande por partes de professores que gostavam dos meus
textos e até, de vez em quando, liam minhas redações em outras classes. Isso,
claro, foi importante para mim. Escrevi meu primeiro texto para crianças com
uns 17 anos. Chamava-se “Um autor de contos para crianças” que mais tarde,
treze anos depois de escrito, foi publicado com o título de “Um homem no
sótão”. Por outro lado, meu pai, Aroldo de Azevedo, era professor de Geografia
na Universidade de São Paulo e autor de muitos livros didáticos. Dessa forma, o
assunto livros, criação de livros, textos, publicações e editoras faz parte da
minha vida desde que me lembro por gente. Para se ter uma idéia, somos em cinco
irmãos e tres têm livros publicados. No meu caso, como sempre gostei de
inventar histórias, fui escrevendo meu textos e guardando numa gaveta. Em 1979,
estava com trinta anos, soube que a Melhoramentos procurava novos autores para
lançar. Eu tinha vários textos mais ou menos prontos. Levei um deles e, no ano
seguinte, saiu meu primeiro livro “O
peixe que podia cantar”. Preciso dizer que durante anos trabalhei como
publicitário, o que acabou sendo uma escola, tanto para desenvolver meu texto
como no sentido de compreender a linguagem visual. A partir de 1983, consegui
largar meu emprego e passei a trabalhar exclusivamente com livros. Isso foi
muito bom.
2. Há alguma
fase do seu trabalho que seja a preferida? Ou alguns títulos que sejam
"aqueles mais queridos"?
Não é nada fácil ser escritor e viver de livros no
Brasil. Trabalho muito, luto tanto que nem tenho tempo de pensar nisso. Acho
que cada livro é como uma viagem que eu fiz, um aprendizado, uma experiência de
vida. Em cada um deles, dei o melhor de mim. Talvez meu primeiro livro seja o
mais importante porque com ele consegui abrir um caminho novo na minha vida.
Posso dizer também que há anos venho estudando certas questões da cultura
popular e isso, com certeza, tem tido influência sobre o meu trabalho, tanto em
termos de texto como de imagens.
3. Você sempre
pensou em ilustrar suas obras, ou começou a fazê-lo a partir de certo momento?
Como o escritor Ricardo Azevedo avalia o ilustrador Ricardo Azevedo?
Sim, desenho desde pequeno, aliás, como quase todo o
mundo. Quando escrevi meu primeiro texto para crianças, ainda moleque, sonhei
que um dia, talvez pudesse fazer um livro com texto e imagens minhas. Posso
dizer que texto e desenho são formas minhas de expressão, ambas riquíssimas,
cada qual com suas peculiaridades. Às vezes, quando estou escrevendo, penso:
isso não vou detalhar pois o desenho vai dar conta melhor. Outras vezes penso:
é preciso trabalhar bem tal cena pois ela é essencialmente literária e não pode
nem deve ser desenhada. Faço sempre o texto primeiro; os desenhos vêm depois.
Quando estou escrevendo surgem idéias visuais e imagens. Nuncas as aproveito
pois são fracas e óbvias. Só depois, quando o texto está pronto e, num certo
sentido, estou livre dele, é que consigo trabalhar com as imagens. Dizem que
texto e imagem correspondem a diferentes partes do cérebro. Acho que são mesmo.
4. O que pensa
sobre a produção editorial infanto-juvenil brasileira?
Tenho certeza de que ela é forte e de que há muita
coisa boa e original, ótimos escritores e ótimos ilustradores. Poderia citar,
entre o pessoal novo, Leo Cunha, Roger Mello, Ricardo Cunha Lima, Christiane
Grübel, Marcelo Carneiro da Cunha, Raquel Coelho, Marilda Castanha, Celso Sisto
e Rita Espechit, entre vários outros, gente talentosa com um trabalho criativo
e consistente. Há, claro, muito porcaria também, mas isso nunca foi privilégio
da literatura infantil. Tem de monte na literatura chamada “adulta”, em
trabalhos universitários, no jornalismo, na televisão, no teatro, no cinema, na
música, na internet, enfim, em todas as
áreas. Faz parte.
5. E a
produção internacional dessa área, você acompanha?
Conheço alguma coisa do que se faz lá fora e posso
garantir que nossa produção é boa. Antigamente os livros estrangeiros tinham
uma produção gráfica superior mas hoje isso está mais ou menos nivelado. Em
matéria de textos, não devemos nada à ninguém. Uma coisa é certa: trabalhos de
qualidade, livros com bons textos, imagens que saibam dialogar e ampliar o
universo significativo do texto, e projetos gráficos coerentes e enriquecedores
são raros tanto lá como aqui. Em qualquer área é assim.
6. Sem querer ser pretensioso, acredito que seu livro
recentemente lançado "Um homem no sótão" é deliberadamente
sofisticado por apresentar, por exemplo, uma narrativa metalingüística. Até
mesmo a
numeração das páginas oferece um bom pano para mangas.
Se o conteúdo desta questão for verdadeiro, trata-se de uma "obra
experimental", talvez de uma nova fase do seu trabalho?
Engraçado você dizer isso pois, como contei, “Um homem
no sótão” foi o primeiro texto para crianças que escrevi. Estou relançando
agora pela Ática mas o livro foi publicado antes, em 1982, pela Melhoramentos.
O que posso dizer é que o processo desse livro foi um pouco diferente do dos
outros. Escrevi o texto ainda moleque mas só fui desenhá-lo muito depois,
quando já era adulto. Como havia um distanciamento, pude, como desenhista,
examinar o texto com outros olhos e isso acabou sendo uma experiência extremamente
rica. Aprendi com ela que o ilustrador pode e deve desenhar coisas que o texto
não disse, enriquecendo e ampliando assim o sentido geral do trabalho final.
Não creio, em todo o caso, que o livro seja “experimental”. Os recursos usados
no livro foram necessidades pedidas pelo próprio texto. Para mim, “Um homem no
sótão” é uma espécie de especulação sobre o ato de escrever e algumas de suas
implicações éticas.
7. Como se vê
hoje no panorama literário e editorial brasileiro?
O único panorama que vejo é que preciso trabalhar
muito para viver e desenvolver meu trabalho. Francamente, não tenho
distanciamento para “me ver” dentro da produção editorial. Também nem é função
minha.
8. Soube que
você tem um projeto com livros que não são comercializados.
Sim, trata-se do projeto Fura-bolo. Sou autor de 8
livros de literatura infantil, muito bem produzidos pela Cargill, ilustrados
pela Mariana Massarani, Eva Furnari, Alcy Linares e por mim. Esses livros são
distribuídos gratuitamente e utilizados em escolas de comunidades pobres, com
crianças sem acesso a livros de ficção e de poesia. Para que a coisa funcione,
a Cargill ainda dá uma capacitação, feita pelas educadoras Candu Marques e Lú
Mendes, aos professores que vão trabalhar
com os livros. Hoje já são mais de setenta mil crianças envolvidas, em
municípios espalhados por todo o Brasil. É um projeto maravilhoso, social e
cultural, que realmente ajuda a formar
leitores e do qual eu, e todos que dele participam, se orgulham muito.
8. Alguma obra nova está sendo preparada?
Bem, gostaria de falar de um livro que acaba de sair
do forno. Trata-se de “O sábio ao contrário” publicado pela Editora Senac. É um
texto diferente das coisas que venho fazendo e acho que ficou interessante e
divertido. Fora isso, devo lançar agora pela Ática o “No meio da noite escura
tem um pé de maravilha!” uma reunião de dez contos populares recontados por
mim. Há quase vinte anos venho fazendo uma pesquisa com narrativas populares e
este livro traz algumas das mais belas que encontrei. Vou lançar ainda
“Trezentos parafusos a menos” um texto juvenil que vai sair pela Cia das Letras
com ilustrações da Mariana Massarani. Estou também preparando uma antologia de
textos meus que deverá ser publicada pela Ática no segundo semestre. Queria dizer
que é um privilégio e uma sorte poder trabalhar com livros.