Para Catlogo exposio Traando Histrias 6 Feira do livro Porto Alegre 2008

  1. Como e quando iniciou sua carreira?

L por volta de 1970, fiz estgio de uma ano, perodo integral, na Benson Publicidade, em So Paulo. De manh ficava no departamento de arte e tarde na redao.  Depois trabalhei dois anos mais ou menos no departamento de comunicao visual da Hidroservice, uma empresa de engenharia de projetos e, em seguida, na Editora Nacional onde, alm de diagramao, fiz vrias capas de livro.  Mais tarde, trabalhei durante sete anos na Pirelli, numa espcie de agncia interna de propaganda. Na Pirelli eu era o responsvel pelo setor, fazia os textos, fazia os projetos visuais e muitas vezes as prprias ilustraes. Nessa mesma poca, durante cerca de 10 anos, dei aulas de projeto de comunicao visual na Faculdade de Artes Plsticas da FAAP. Tudo isso junto foi fundamental na minha formao como ilustrador. O primeiro livro que ilustrei foi O peixe que podia cantar, em 1980, publicado pela Melhoramento (hoje pela SM) cujo texto meu mesmo.

  1. Fale um pouco da sua formao profissional.

Sou bacharel em Comunicao Visual pela Faculdade de Artes Plsticas da Fundao Armando lvares Penteado. Foi um timo curso principalmente pelas informaes mais amplas sobre esttica, histria da arte, sociologia da arte, filosofia da comunicao etc. Tive o privilgio de ter aulas com caras como Vilm Flusser, Walter Zanini e Herbert Duschenes entre outros. A parte prtica, de botar a mo na massa, existia mas era basicamente experimental. Tudo isso ajudou muito na minha formao mas na faculdade no se falava em ilustrao, algo considerado menor ou irrelevante. A meu ver, um baita equvoco da escola. Por essa razo, minha formao como ilustrador, mesmo, se deu na prtica, desenhando, observando e estudando outros trabalhos, vendo revistas especializadas em design grfico como  Graphis e Idea. Para mim, preciso dizer, essas revistas foram quase uma faculdade paralela, uma tremenda fonte de informao e aprendizado.

  1. Que livros gostaria de destacar como significativos em sua  carreira (seus e/ou de outros artistas)? Por qu?

Vejo meu trabalho como ilustrador dividido em duas vertentes: os desenhos feitos com aquarela e os desenhos a nanquim, tendo como referencia a xilogravura popular. So duas linguagens que eu uso e tento aprender.

  1. Conte um episdio em sua carreira que lhe tenha sido  marcante.

Vou falar de um livro que me marcou e, acho, influiu em minha deciso de mais tarde me tornar ilustrador. Era um livro velho de capa dura, grande, grosso e cheio de desenhos coloridos, impresso em Portugal l pelo comeo do sculo XX. No trazia ttulo, nome do autor, editora, data de impresso, nada. Nenhuma referncia bibliogrfica. Suas pginas eram impressas s na frente com os versos permanecendo em branco. Imagino que fossem gravuras soltas usadas como material escolar, coisa do tempo dos meus avs, que ficaram guardadas e, mais tarde, meu pai juntou e mandou encadernar com um ttulo genrico na lombada: Livro de Gravuras. Eu ainda no sabia ler quando descobri esse livro. Lembro-me de ficar folheando suas pginas, da primeira ltima sem pular uma, encantado pelos desenhos. Cada prancha tratava de um assunto e o conjunto das imagens formava uma espcie de inventrio: nossa moblia, nossas louas, instrumentos agrcolas, instrumentos musicais, ferramentas, coisas diversas, pessoas da famlia, animais domsticos e selvagens,rvores, plantas, flores, frutas, povoados, habitaes, as estaes do ano, as invenes modernas, fenmenos atmosfricos, o mar, armas antigas e modernas, os meios de comunicao, jogos infantis, tipos de raas humanas e por a afora. Este livro velho foi um verdadeiro tesouro para mim. Durante anos, quando no tinha nada para fazer, sentava na sala, abria o calhamao e ficava olhando e olhando. Conforme crescia e aprendia coisas, suas imagens iam ganhando novos e outros significados. No cansava de examinar aquelas frutas, aquelas flores, animais e objetos. Pensava: Como possvel algum desenhar to bem? Minha vidinha de criana pequena ganhava sentido atravs de tantas imagens. Era como se o livro me revelasse que todas as coisas – eu inclusive – faziam parte de uma imensa e riqussima estrutura. Tudo no mundo parece que se interligava e essa sensao me apaziguava e ao mesmo tempo me fascinava. Com o Livro de Gravuras, hoje eu vejo, tomei conscincia do tamanho do mundo e de quanta coisa existe e merece ser vista. Recebi tambm atravs dele – afinal suas imagens mostravam detalhadamente um cotidiano de outra poca – uma primeira viso do Tempo e da Histria. Havia, preciso dizer, no p de cada pgina, uns textinhos compostos em corpo pequeno. Nunca os li. O verdadeiro e maravilhoso texto do Livro de Gravuras eram, sem dvida, suas imagens.

 

(adaptei do meu artigo Imagens iluminando livros)

 

  1. Fale sobre o seu fazer artstico (como trabalha, onde, que  referncias de outros artistas, movimento artsticos possui etc.).

Trabalho num estdio em casa, moda antiga, com prancheta, luminria, tintas, pincis, pote de gua, fita crepe, lpis, borracha, estilete, colas e papis variados. Admiro muitos artistas. Alguns deles: Ren Magritte, Francis Bacon, Jim Dine, Escher, Lucian Freud, Albrecht Drer, Matisse, Rembrandt, entre vrios outros, sem falar em Tarsila do Amaral e nos nossos grandes xilogravuristas Gilvan Samico e J. Borges. Alguns artistas grficos que me marcaram: o grande Belmonte, de quem tenho muitos trabalhos graas ao meu pai e, ainda, o polons Starowievski, os americanos Milton Glaser, Paul Davis, John Alcorn e James McMullan, o suo Tomi Ungerer e o alemo Heinz Endelman. Conheci o trabalho extraordinrio desses caras graas s revistas Idea, Graphis e Communication Arts.