Jornal Dirio de Natal Educao Caderno Especial  14 de setembro de 2008

Seminrio Prazer em Ler patrocinado pelo Instituto C&A em parceria com o IDE Instituto de Desenvolvimento da Educao e a Secretaria da Educao e da Cultura do Rio Grande do Norte

 

Entrevista a Valria Credidio (Editora)

 

 

1 – O tema de sua palestra para professores no seminrio do IDE ser A

influncia da tradio oral na formao do leitor da literatura. De forma

breve, como o senhor a analisa esta influncia?

 

As culturas populares, mesmo sendo multifacetadas e heterogneas, costumam apresentar em seu discurso alguns pontos recorrentes e preponderantes. Vocabulrio pblico, a busca da comunicao clara e direta, imagens visualizveis, temas compartilhveis, entre outras caractersticas relevantes. Trata-se da mesma linguagem utilizada por exemplo na literatura infantil e em qualquer literatura que se pretenda popular. Creio que seria muito bom se a escola conhecesse melhor o discurso popular. Isso permitiria a ela, junto com os alunos, verificar como so construdos esses discursos e depois compara-los com os discursos considerados cultos.  Normalmente, estes so considerados mais evoludos do que aqueles. No meu modo de ver, isso uma tremenda bobagem simplesmente porque trata-se de formas discursivas construdas a partir de  premissas, modelos, paradigmas e objetivos diferentes. As culturas populares tm seus prprios padres sociais, ticos e estticos. Pretendo falar sobre isso em minha palestra.

 

 

 

2 – As escolas, atualmente, procuram fazer um trabalho diferenciado no

incentivo leitura. Como o senhor analisa essas iniciativas?

 

muito difcil formar leitores num ambiente em que adultos, pais, professores e outros, recomendam a leitura mas no lem. Por outro lado, creio que, sim, as escolas esto cada vez mais atentas ao problema e, a partir da, tm surgido novas estratgias que tentam aproximar o estudante da literatura. Nunca se falou tanto em formar leitores e em valorizar a carreira dos professores. Isso timo.

 

3 – O mercado editorial incentiva o gosto pela leitura entre crianas e

adultos?

 

Creio que h vrias respostas para sua pergunta. A resposta pode ser sim se pensarmos no alto nvel profissional que nossas editoras atingiram na parte editorial e de produo grfica. sim tambm porque, obviamente, h um esforo no sentido de aumentar o interesse pela leitura, afinal, isso resultar em mais leitores e mais livros produzidos e vendidos. Neste sentido, preciso dizer, vivemos s voltas com um crculo vicioso. Livros so caros porque as tiragens so baixas. Tiragens so baixas porque pouca gente l e assim por diante. Mas a resposta sua pergunta tambm pode ser no. Isso porque, a meu ver, muitas vezes a vontade comercial tem sido sobreposta vontade de construir cultura. Em geral, as feiras e bienais do livro costumam ser espaos que se aproveitam de um discurso pseudo-cultural com o intuito de meramente vender livros. Isso lamentvel e deveria ser o contrrio! Feiras e bienais deviam vender livros tendo em vista algo maior: criar um espao de reflexo e produo cultural. Infelizmente isso raramente acontece.

 

4 – Na sua opinio, as leis brasileiras auxiliam no desenvolvimento da

leitura no pas?

 

No entendo nada de leis mas, at onde sei, nosso problema no legal e sim cultural. A maioria dos brasileiros, refiro-me, claro, aos que sabem ler, ignoram como utilizar livros em benefcio prprio. Quando isso ocorrer, viveremos num outro pais, melhor, muito mais equilibrado e com maior conscincia crtica. Tomara que esse novo tempo venha logo.