Jornal Letra A Ceale,
da Faculdade de Educao da UFMG
Setembro de 2008
Entrevista dada a Vicente Cardoso
Jr
De que maneira a literatura
infantil se aproxima e se apropria dos textos da cultura popular?
Acho que principalmente por meio da linguagem. Boa parte do discurso popular marcado pela oralidade. O que significa isso? Em suma, o discurso escrito e o discurso oral obedecem a modelos construtivos diferentes, exigem estratgias diferentes e tm objetivos diferentes. No contato direto, face-a-face, o que eu quero dizer e o que eu digo devem sempre estar sobrepostos. Se isso no ocorrer provavelmente no vou ser compreendido, e algum logo vai gritar: Espera a, no entendi o que voc disse! Se h uma caracterstica fundamental do discurso popular o fato de ele ser criado e construdo, tanto faz se oralmente, por exemplo por um poeta analfabeto, ou atravs da escrita, no caso de um poeta alfabetizado, tendo como pressuposto a comunicao oral, ou seja, a situao da comunicao feita face-a-face e suas implicaes. Em outras palavras, h textos que so como mensagens escritas: o escritor escreve para ser lido e o leitor l como quem l um texto escrito o que pressupe poder reler, consultar dicionrios, analisar e interpretar. Porm h textos que so como mensagens ditas de viva voz: o escritor escreve como, ou quase como, quem fala e o leitor l como quem escuta algum falando em voz alta num contato face-a-face. Neste caso, o escritor tende a escrever buscando sempre a compreenso imediata do leitor. Os primeiros so textos tpicos da cultura escrita, marcados pela escolarizao. Por vezes so complexos, abstratos e eruditos. Os segundos so textos que pretendem ser populares: usam linguagem clara e pblica para falar de assuntos compreensveis e capazes de gerar identificao em todas as pessoas. Boa parte da literatura e da poesia produzida tendo como pressuposto a cultura escrita, ou seja, a possibilidade de releitura, anlise e interpretao Creio que a literatura popular e a literatura para crianas e jovens adotam o modelo marcado pela oralidade, ou seja, o escritor escreve quase como se estivesse falando de viva voz com outra pessoa num contato face-a-face. Um outro ponto: a diviso de pessoas em faixas etrias marca de um determinado modelo social e muitas vezes nada mais significa do que fatias de mercado. Nas manifestaes das culturas populares, narrativas, festas, trabalhos etc., todos podem participar, adultos e crianas atuam juntos. Tento dizer que no mbito popular no faz muito sentido falar em uma literatura para crianas. Por exemplo, a literatura de cordel acessvel a todas as pessoas. Basta saber ler.
Que importncia tem para a
formao da criana o contato com livros que falem do folclore regional?
Cerca de 80% da populao
brasileira, mesmo que em graus diferentes, profundamente marcada pelas
culturas populares. No difcil voc encontrar um universitrio que seja
filho de analfabetos. Neto ento, muito fcil. Isto significa que boa parte
dos brasileiros constri sua vida a partir de padres sociais, ticos e
estticos vinculados cultura do povo. Quando uma criana, filha de
analfabetos, entra na escola, pode ser levada a acreditar que seus pais no
sabem nada, pois no sabem escrever e ler, no conhecem gramtica, matemtica,
cincias etc. Ora, essas pessoas
no tm uma cultura escolar e oficial, mas tm outra: a cultura popular, menos
individualista, que valoriza a experincia prtica das coisas, tende a ser mais
comunitria e, fora isso, cheia de narrativas, contos de encantamento,
ditados, travalnguas, adivinhas, crenas, festas,
receitas culinrias, em suma, uma cultura que obedece a padres diferentes do
tcnico-informativo, utilitrio, terico e impessoal veiculado pela escola.
Acho que os livros que tratam de cultura popular podem fazer uma ponte importante entre esses
dois modelos. A criana filha de analfabetos l um conto ou um ditado e diz:
U, meu pai conhece isso!. A
criana que vem de uma outra situao social entra em contato com um material
muito rico.
Voc acredita que a escola
brasileira tem dado a esses textos a importncia merecida?
Creio que no. A escola, em boa
parte, ignora a cultura popular e, uma vez por ano, no ms do folclore, faz
algumas atividades, em geral, bastante superficiais e burocrticas, para
cumprir o calendrio. Ora, no Brasil, a cultura popular onipresente. Acontece
todos os dias em todos os lugares. Acabamos de perder um artista popular
extraordinrio: Dorival Caymmi. Quantos estudantes conhecem e sabem valorizar
sua obra? Na verdade, a escola tende a ignorar mesmo artistas populares mais
vinculados aos paradigmas da cultura escrita como Chico Buarque ou Caetano
Veloso. O estudo comparativo das obras de Caymmi, Chico e Caetano alm de trazer para o estudante uma
srie de questes sociais e culturais relevantes, seria um gostosa introduo
linguagem potica.
A expanso da mdia pode ser
nociva continuidade da tradio oral de histrias e brincadeiras da cultura
popular?
Mdia uma assunto complicado. A
cultura, independentemente de definies e falando de arte, construda por
meio de aes espontneas, independentes, desarticuladas e multidirecionais
feitas por escritores, msicos, artistas plsticos, dramaturgos etc. tanto faz
se eruditos ou populares. Essa diversidade sua extraordinria e
imprescindvel riqueza. O que a mdia faz o contrrio disso: aes
programadas, articuladas e unidirecionais visando mercados e dependentes de
interesses econmicos e patrocinadores. Veja o caso da televiso. A grande
diversidade da cultura brasileira passa longe dela. Cada vez mais, a televiso
parece uma mera vitrine de propaganda e marketing de produtos, incluindo aqui
os prprios programas. Neste modelo, infelizmente, no s a cultura popular
est ameaada mas toda a cultura produzida no pais.