Revista Lngua Portuguesa. Entrevista a Simone
de Marco Minucci
30 maio 2008
Questes:
Que caractersticas narrativas possuem os contos orais tradicionais?
Para responder a essa pergunta preciso primeiro comentar
as inmeras e importantes diferenas entre a cultura escrita e a cultura oral.
Somos escolarizados e to condicionados pela escrita que esquecemos que ela
corresponde a um modelo de discurso e no o modelo. Por exemplo: o discurso
escrito fixo e tem autonomia, ou seja, pode ter sido escrito h sculos e
continua exatamente o mesmo. Isso significa que ele prescinde da presena
fsica do autor e tambm do receptor. O discurso escrito uma construo
autnoma e congelada. Alm disso, quem escreve pode utilizar linguagem
complexa, fazer citaes, recorrer a outros idiomas, fazer propositalmente uso
de linguagem obscura, inventar palavras, fazer abstraes, ser objetivo (ou
seja, ser impessoal), mexer com a sintaxe e fazer experimentaes com a
linguagem. Isso porque sabe que o leitor pode levar o texto para casa (o
discurso escrito transportvel) e ter tempo para ler, reler, examinar,
analisar, meditar sobre o que leu e consultar dicionrios para finalmente
construir sua interpretao. Em outras palavras, a escrita influencia a forma
como construmos nossos discursos. Ocorre que o discurso marcado pela oralidade
obedece a outro modelo construtivo. Alm de no ser fixo, o discurso oral
sempre situado, ou seja, feito face-a-face, com a presena de quem fala e de
quem ouve. Raras pessoas falam sozinhas ou para ningum. Por essa razo, tal
discurso exige linguagem clara, direta e compreensvel com imediatez. No d
para falar com outra pessoa usando metforas complicadas e fazendo citaes e
experimentaes com a linguagem. Pois bem, o que digo que, mesmo quando
escrito, um texto pode ser marcado pela cultura oral. Nesse caso, ele ser
criado e construdo como se fosse uma fala dirigida a algum, simulando num
contato face-a-face. Em suma, existem textos escritos para ser lidos como quem
l e textos escritos para ser lidos como quem ouve. O discurso fragmentado, a
metalinguagem, a experimentao sinttica, as metforas obscuras e a exigncia
de interpretao so marcas do texto literrio enraizado na cultura escrita. J
a narrativa, ou seja, a comunicao construda linearmente, acumulativa, com
seqncia lgica, rumo a um desfecho, com comeou, meio e fim, tipicamente um
recurso marcado pela oralidade. Outros recursos: o vocabulrio pblico e
compartilhavel, a busca da comunicao imediata, as frmulas e frases feitas,
as repeties, as imagens visualizveis e a conciso, entre vrios outros.
Na sua opinio, quais so os aspectos que lhes conferem
condio de permanncia?
Creio que o discurso oral e os textos escritos marcados pela oralidade permanecem vivos ou podem ter um grande
poder de circulao por tratarem de temas compartilhveis (capazes de gerar
identificao), por meio de linguagem pblica e visualizvel (ou seja, no
abstrata), o que os torna mais facilmente memorizveis. Veja a diferena entre esses dois
textos: Eu tenho uma casinha l na Marambaia/ fica na beira da praia/s vendo
que beleza/tem uma trepadeira que na primavera/ fica toda enflorescida de
brincos de princesa... (trecho de S vendo que beleza samba de Henrico)
e Noite de hotel / a antena
parablica s capta videoclipes / diluio em gua poluda / (e a poluio
qumica e no orgnica) / do sangue do poeta / cantilena diablica / mmica
pateta / noite de hotel... (trecho de Noite de hotel de Caetano Veloso ).
So duas timas canes mas, este o ponto, feitas a partir de modelos
construtivos bem diferentes. No vejo como formar leitores sem a compreenso
de que existem diferentes modelos
construtivos a partir dos quais os textos podem ser criados.
Como voc trabalha uma narrativa popular ao fazer uma
releitura dela?
Para recontar uma histria, venho fazendo uma pesquisa h quase trinta
anos. Tento sempre encontrar o mximo possvel de verses de determinado conto
e s ento crio a minha. Ajo como um contador de histrias e construo meu texto
a partir da oralidade, ou seja, escrevo quase como se estivesse falando num
contato face-a-face. Nesses casos, escrevo principalmente para ser ouvido.
Os contos orais ajudam a formar leitores?
Sem dvida, por tratarem de temas humanos complexos de forma compartilhavel, seja por crianas seja por adultos de diferentes graus de instruo e classes sociais, os contos populares podem servir como uma porta de entrada para outras formas literrias e poticas. Digo mais: num pas onde a grande maioria das pessoas, por razes sociais e familiares, est prxima da cultura popular e da oralidade, entrar em contato e valorizar as expresses de origem popular, sempre marcadas pela oralidade, pode ser extraordinariamente importante
Li numa entrevista sua que voc percebeu o gosto pela escrita fazendo
redaes escolares. Em que momento voc percebeu que gostava de escrever para
crianas? O que lhe atrai na literatura infantil?
Quando tinha uns 17 anos, tive contato com os contos de Peter Bischel, um poeta suo. Senti grande identificao por aqueles textos e um caminho para mim. Acho que porque justamente eles conseguiam tratar de temas complexos por meio de uma linguagem clara e compartilhavel. Mais tarde, lutei para que esses contos fossem publicados no Brasil e foram. Trata-se de O homem que no queria saber mais nada e outras histrias, da tica. Recomendo esse livro vivamente.
Quais as especificidades de escrever para crianas? O que significa
linguagem infantil para voc?
Para mim escrever para crianas significa adotar a mesma postura do
artista popular: tratar de temas complexos, que ao mesmo tempo me expressem e
sejam capazes de gerar identificao na maioria das pessoas, sempre por meio de
linguagem pblica e acessvel.
Voc tambm escreve para adultos?
(Se escreve) O que voc aplica de diferente no trabalho quando este
dirigido a um pblico adulto?
Tenho dois livros, Lcio vira
bicho, da Cia das Letras e Feito bala
perdida e outros poemas, recentemente lanado pela tica, que, em termos,
podem ser considerados livros para adultos ou para jovens adultos, o que d na
mesma. Na minha viso, um livro para adultos pode se permitir tocar em temas
menos compartilhveis, mais singulares ou abstratos, por meio de uma linguagem
menos usual. Em geral, so textos plurissignificativos, ou seja, textos que,
necessariamente, exigem interpretao.
Qual foi o seu primeiro contato com os contos tradicionais
orais?
Histrias contadas de viva voz por meu pai e os contos do Tesouro da Juventude, uma extraordinria
coleo de 18 volumes que li e reli mil vezes durante a infncia e que, alis,
guardo at hoje comigo.
Qual o panorama dessa prtica (de disseminao dos contos orais) hoje?
Uma porcentagem muito alta de brasileiros analfabeta ou semi-analfabeta (os famosos analfabetos funcionais) de forma que as marcas da oralidade fazem parte do cotidiano e do discurso de muita gente. O modelo de vida popular tende a valorizar o sistema familiar, a experincia prtica (no terica), a sabedoria tradicional (e no a informao. Por exemplo: quem senta na garupa no pega na rdea ou com a ona morta fcil tirar a foto ou quem joga de fora joga melhor ) e a vida comunitria. Ainda se conta muita histria de viva voz por a mas infelizmente a vida urbana com o individualismo (a crena de que os interesses individuais so sempre mais importantes que os coletivos) , a televiso, a viso tcnica de tudo, o consumismo e a lamentvel impessoalizao das relaes tem sido uma grande ameaa a essa tradio rica e humana, com a qual, creio, temos muito o que aprender.