Entrevista Livraria Ubaldo

Ricardo Azevedo

 

Ricardo, analisando seus livros publicados, pode-se dizer que você é um dos poucos autores que compôs uma obra: tem coerência no estilo literário, nos temas e também na forma; tem independência e integridade pois não vai atrás de facilidades do mercado,mas é muito bem aceito por ele. Gostaria que você comentasse o que você procura mostrar em seus livros.

 

 

Bem, obrigado pelo comentário. No meu caso, não se trata de “procurar mostrar” mas sim de ser determinada pessoa e ter determinados anseios, angústias e preocupações. A literatura é uma forma de expressá-los e, ao fazer isso, eu, de um lado, me organizo internamente como pessoa e, de outro, me sinto participando da sociedade em que vivo. Nunca parei para pensar direito nesse assunto mas de fato há alguns temas que são recorrentes no meu trabalho: a existência de diferentes pontos de vista a respeito das coisas (Nossa rua tem um problema, Um homem no sótão, Chega de saudade, Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas, A hora do cachorro louco, Três lados da mesa moeda, O peixe que podia cantar, O livro dos pontos de vista, O livro das palavras entre outros); a questão da construção da voz pessoal ( Pobre corinthiano careca, Três lados da mesma moeda, Um homem no sótão, O leão da noite estrelada, Lúcio vira bicho, O leão Adamastor, O sábio ao contrário entre outros); o desequilíbrio social e cultural brasileiro (Coração maltrapilho, A hora do cachorro louco, O sábio ao contrário, O peixe que podia cantar, O livro das palavras, Lúcio vira bicho entre outros); a semelhança e sintonia entre as diferentes faixas de idade (Chega de saudade, Araújo ama Ophélia, Três lados da mesma moeda, O sábio ao contrário, Trezentos parafusos  a menos entre outros) e ainda, o resgate da nossa cultura popular com livros como Armazém do folclore, Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, Contos de enganar a morte e vários outros.

É preciso dizer que esses assuntos não são programados por mim mas, sim, brotam  no trabalho espontaneamente.

 

 

 

Seus livros podem ser divididos em duas vertentes: a recontagem de contos populares e, digamos assim, histórias de lavra própria. No caso de sua ficção calcada no folclore, o fato de você ser um pesquisador, um estudioso do assunto, logicamente você tem um acervo enorme de material, o que faz com que você trate o assunto de uma maneira diferente de outros autores, não apenas recontando uma história recolhida por algum folclorista, mas também criando, mesclando histórias e personagens, etc. Você poderia explicar esse processo?  

 

Sou filho de um geógrafo, um cara que adorava o Brasil e sua cultura. Aprendi a amar  e a valorizar nossa cultura popular com ele. Quando meu pai morreu, em 1974, fiquei com todos os livros dele sobre cultura popular e folclore, um grande privilégio pois eram muitos e ótimos. Continuei a comprar livros sobre esses assuntos em livrarias e sebos de modo que tenho uma biblioteca bastante razoável. Quando virei escritor, percebi que as pessoas conheciam muito pouco essa cultura e comecei a recontar histórias que achava bonitas ou a lembrar das quadras, adivinhas e outras forma literárias populares. Mais tarde, decidi voltar a estudar e tanto meu mestrado como meu doutorado abordam questões relacionadas à cultura popular.

Como escritor, venho trabalhando com material popular desde 1982. No caso dos contos, a coisa funciona mais ou menos assim: escolhido o conto, tento encontrar o máximo possível de versões para, a partir delas, fazer a minha, sempre buscando, claro, recuperar o que na minha leitura pareceu ser a essência de cada história. Nessa hora, os estudos que venho fazendo tem sido meu principal parâmetro.

 

 

 

Em vários de seus livros autorais (só para fazer uma distinção com os livros “folclóricos” que, claro, também são autorais) a cultura popular também tem muita força. Alguns até tem o embate entre ciência versus cultura popular (O Peixe que podia cantar e O sábio ao contrário), em outros a sabedoria popular aparece em ambientes urbanos e cultos ( A hora do cachorro louco e Lúcio vira bicho).Qual a importância da cultura popular em um mundo tecnocrata e individualista como o nosso?

 

É um assunto que me interessa bastante e creio que vivemos mesmo num tempo sufocantemente individualista, tecnocrata e impessoal. Nesse sentido, temos muito o que aprender com a cultura popular, suas formas de sociabilidade, seu pensamento sempre voltado para experiência prática das coisas, sua tendência ao espírito comunitário, sua moral complexa e flexível, sua valorização do encontro e da festa etc. O discurso popular tende a ser sempre menos individualista e a tratar de temas capazes de gerar identificação na maioria das pessoas, independentemente de classes sociais, graus de instrução e faixas etárias, e sempre numa linguagem pública, acessível e compartilhável. Acho isso de uma riqueza extraordinária. Ao contrário, o discurso “culto”, “moderno” e “escolarizado” tende cada vez mais aos assuntos singulares e solipsistas, ao conhecimento técnico e especializado e à exclusão de quem não tem tais e tais informações. É um discurso literário cada vez mais técnico e excludente feito por especialistas para especialistas. Tenho escrito artigos sobre esse assunto e estão no meu site (www.ricardoazevedo.com.br) e em outros ou publicados em revistas e livros como Literatura e Letramento – Espaços, suportes e interfaces – O jogo do livro - Org. por  Aparecida Paiva, Aracy Martins, Graça Paulino e Zélia Versiani – Belo Horizonte – Editora Autêntica – 2003, SOUZA, Renata Junqueira de. (org.) Caminhos para a formação do leitor. São Paulo, DCL, 2004 e OLIVEIRA, Ieda de (Org) O que é qualidade em literatura infantil e juvenil - Com a palavra o escritor, São Paulo, DCL, 2005.

 

 

 

Muitos autores, depois que entregam um original para a editora, não gostam nem de olhar mais para ele. Dizem que não mais pertence a eles etc. Você não, tem até reescrito e re-ilustrado vários de seus livros mais antigos, até acrescentando personagens em alguns. Por que?

 

Também não  sou de reler meus livros não. Acontece que trabalho há quase trinta anos e olhando para trás percebi que alguns livros traziam pequenos problemas, partes mal resolvidas por inexperiência minha, que poderiam facilmente ser melhorados. Como não implicava fazer tudo de novo mas sim apenas explicar e ressaltar melhor certos pontos ou ampliar aqui e ali, achei que o esforço valia a pena e mandei bala. Dou um exemplo: meu primeiro O peixe que podia cantar, foi tratado em algumas criticas de jornal como surrealista. Na verdade, é um texto alegórico  que discute as diferenças culturais e a exclusão cultural.  Tratei, na versão atual publicada pela Edições SM, de deixar isso um pouco mais claro.  Em outros, casos, como Chega de saudade, Moderna, A hora do cachorro louco, Ática, e O livro das palavras, Editora do Brasil, gostava das histórias mas sentia que podiam ser melhoradas em certos pontos. Tentei fazer isso.