Certa segunda-feira, eu estava na quarta série do primeiro
grau, a professora entrou na classe com uma péssima notícia:
o pai de um nosso colega tinha morrido afogado em Bertioga, no litoral
paulista. Lembro do sentimento de medo: e se meu pai também morresse?
Lembro de estremecer de pena e tristeza por causa do meu amigo. Lembro
de me perguntar: o que é a morte?
Trata-se de um grave erro considerar a morte um assunto proibido ou
inadequado para crianças. Heróis nacionais como Ayrton
Senna, presidentes da república e políticos importantes,
ídolos populares, parentes, amigos, vizinhos e até animais
domésticos infelizmente podem morrer e morrem mesmo. A morte
é indisfarçável.
Alguns adultos, porém, ainda insistem em acreditar que alienar
crianças pode contribuir, de alguma forma, para sua formação
(!).
Falar sobre a morte com crianças, é preciso deixar claro,
não significa entrar em altas especulações ideológicas,
abstratas e metafísicas. Nem em detalhes assustadores e macabros.
Refiro-me a simplesmente colocar o assunto em pauta. Que ele esteja
presente, através de textos e imagens, simbolicamente, na vida
da criança. Que não seja jamais ignorado. Isso, note-se,
nada tem a ver com depressão, morbidez, falta de esperança
ou niilismo. Ao contrário, a morte pode ser vista, e é
isso o que ela é, uma referência concreta e fundamental
para a construção do sentido da vida. Existem assuntos
sobre os quais adultos sabem mais e podem ensinar crianças. Entre
eles não se encontram, por exemplo, a paixão, o sublime,
a determinação da realidade e da fantasia, o sonho, a
temporalidade e a busca do auto-conhecimento. Nem, muito menos, a morte
e a mortalidade. Diante de assuntos assim, é preciso reconhecer,
adultos e crianças sentem-se igualmente despreparados.
É muito bom quando a criança consegue se identificar com
um adulto e descobrir, surpresa: “Puxa, ele é igual a mim!
Ele também fica confuso, tem medo e não sabe direito!.
Ele também se emociona e chora!”. Para a formação
das crianças é essencial que surjam espaços de
compartilhamento entre elas e os adultos. Crianças da vida rural,
em geral muito pobres, costumam ter um contato bem mais sadio e natural
com a morte. Dizia Walter Benjamim, sobre a época medieval, que
naquele tempo “não havia uma só casa e quase nenhum
quarto em que não tivesse morrido alguém”.O mesmo
pode-se afirmar da vida rural e de muitos bolsões de pobreza
urbana hoje no Brasil.
Lamentavelmente, a vida na sociedade tecnológica e de consumo,
entre outros fatores, acabou por higienizar e explusar a morte do universo
dos vivos. Isso tem tido um grande reflexo na vida das pessoas, nas
famílias e nas escolas. Para ficar num exemplo, os jovens que
assassinaram o pataxó Galdino de Jesus, alunos de escolas consideradas
ótimas, talvez não fizessem o que fizeram se tivessem
tido a chance de meditar um pouco mais sobre a mortalidade e a condição
humana. Tento dizer que a violência de nosso dias pode ter a ver,
entre muitos outros fatores, com o processo de alienação
e ocultação da morte. Crianças e jovens precisam
aprender a lidar com a vida, da qual a morte é parte inseparável.
Pretender camuflá-la ou esconde-la é um desrespeito à
inteligência e à capacidade de observação
de qualquer ser humano. Além do que é completamente inútil.
Daí, a meu ver, a importância desses antiqüíssimos
Contos de enganar a morte, narrativas populares que têm como ponto
comum o herói que tenta vencer a morte. Com sua poesia, graça
e magia, além de levantarem o assunto possibilitando, portanto,
uma interessante reflexão, são, com certeza, uma verdadeira,
divertida e apaixonada declaração de amor à vida.
Para terminar, gostaria de contar que venho mexendo com temas e assuntos
da cultura popular desde agosto de 1981 quando publiquei , na Folhinha
de S.Paulo, o texto Monstrengos de nossa terra, na verdade um pequeno
inventário de seres fantásticos criados pelo povo.
Desde então, tenho pesquisado formas literárias populares,
principalmente os contos de encantamento, adivinhas, quadras, frases
feitas, anedotas e ditados.
O resultado desse trabalho está publicado nos livros Histórias
folclóricas de medo e de quebranto, O moço, o gigante
e a moça, João Forçudo, Pedro João e José,
Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões,
Meu livro de folclore, Armazém do Folclore, No meio da noite
escura tem um pé de maravilha!, Bazar do folclore, Histórias
que o povo conta e Se eu fosse aquilo.
Les Trompe-La-Mort
(Contos de enganar a morte. Tradução francesa)
Lorsque la Mort frappe à la porte, les trompe-la-mort se montrent peu empressés à La suivre. Toutes les astuces sont bonnes pour faire lanterner La Camarde: tromperie, imploration, musique envoûtante, arbre ensorcelé, château mystérieux... D’entourloupes em traquenards, La Mort ne sait plus où Donner de La Tetê. Mais, ferronnier ou médecin, jeune ou vieux, actif ou oisif, combien de temps peut-on berner La Mort? À travers quatre contes puisés dans um vieux fonds tant européen que brésiliens, Ricardo Azevedo traite avec drôlerie at poésie de cette question que chaque individu se pose dês as plus tendre enfance. Des ilustrations aux couleurs chaleureuses entraînent le lecteur dans le sillage d’une Mort souvent bonne fille qui a bien du mal à faire son travail…