Agora é moleza, mas ir ao dentista já foi uma desgraça. Hoje tudo é feito com anestesia e nem isso dói: antes de aplicá-la, os dentistas passam uma espécie de pomadinha milagrosa que deixa a gengiva dormente e meio zonza. É a anestesia da anestesia. No meu tempo de criança, as agulhas eram muito mais imensas e os dentistas prendiam a gente numa cadeira e machucavam sem dó nem piedade. Suas armas mais cruéis eram as brocas. Barulhentas feito motor de caminhão velho, pareciam britadeiras esburacando nossos dentes, nossa boca e nossa alegria. Lembro da sensação de estar ali, desesperado, com a boca escancarada, os pensamentos chacoalhando dentro do cérebro e o dentista suando, enquanto a enfermeira espiava de longe com cara assustada. Lembro de me perguntar: por que os velhos podem usar dentaduras e as crianças não? Atualmente as brocas foram substituídas por equipamentos silenciosos, discretos, que até soltam agüinha, mas mesmo com toda a tecnologia moderna — antes também diziam que ela era “moderna” — creio que uma das melhores coisas do mundo em que vivemos talvez seja podermos cuidar dos dentes antes que o mal cresça e apareça. É prudente escovar dente, já dizia eu mesmo. Assim evitamos calamidades, pesadelos e catástrofes desnecessárias.