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Meu amigo tinha um pastor
alemão. Lembro que a gente ficava conversando no jardim enquanto o bicho dormia
perto. De vez em quando, o pai desse amigo chegava e sussurava,
de brincadeira, no ouvido do
cachorro: “Vai pegar o gato!” Era fulminante. O animal explodia no ar com os
olhos acesos, pêlos arrepiados e dentes arreganhados. Saía pelo jardim feito um dragão, latindo em
busca de um gato imaginário...
Quase todo o mundo tem uma
história de cachorro para contar. Há casos heróicos de cães, verdadeiros rin-tin-tins, que salvaram vidas humanas. Há os que
conhecem a arte de trepar em árvores. Há cachorros acostumados a fumar charuto
e beber uísque.
Na minha rua, por
exemplo,quando eu era pequeno, tinha o Bismarck, um cachorro grandalhão que
morava numa casa mais acima. O Bismarck passava o dia fingindo que dormia na
frente do portão. Quando vinha gente pela calçada, esperava a pessoa chegar bem
perto e dava um bote de supetão, rosnando com a dentuça ameaçadora. A maioria
das pessoas passava por ali todos os dias, já estava acostumada e continuava
seu caminho como se nada houvesse acontecido. Quem, em compensação, não sabia
das coisas, levava o maior susto. Vi uma senhora idosa saltando um portão de
ferro de mais de 1,20 metro de altura feito uma atleta de chapéu e
guarda-chuva. Vi um sujeito pular da cadeira de rodas e sumir ao longe mancando
em disparada. Acho que foi um tipo de milagre. Nessas ocasiões, o Bismarck
voltava radiante, exibindo um sorriso nos lábios. Sim. Tenho certeza. O
Bismarck sabia rir. Vi com meus próprios olhos o sacripanta,
com os dentes de fora, rindo e balançando cabeça, enquanto o povo fugia
desesperado.
Conheço casos dramáticos. A
tragédia do cachorro, grande e pulguento, que, despachado para uma fazenda, fugiu,
enfrentou mil e tantos quilômetros de estrada, voltou, entrou em casa,
deitou-se debaixo da mesa da sala de jantar, fechou os olhos e morreu, deixando
a família com sentimento de culpa pelo resto da vida. Outra coisa. Conheci um
sujeito que um dia pegou e olhou para seu cachorro nos olhos. Não sei se é
verdade. O cachorro olhou nos olhos dele. O sujeito olhou mais. O cachorro
também. Ficaram assim por algum tempo, em silêncio profundo, olho no olho. O
cara contava isso com lágrimas nos olhos. Dizia que, de repente, o cachorro
estremeceu, colocou as patas no peito, abriu a boca e, num esforço
impressionante disse: “Os-car!” Acontece que Oscar
era o nome do tal sujeito… São histórias e mais histórias.
Posso dizer que sempre gostei
de ficar observando cachorros. O jeito dos cachorros. Seus focinhos. Seus
maxilares. Os lábios. As pintas do rosto. As manchas pelo corpo. Os pêlos. O
formato da cabeça. O movimento das orelhas. O modo de andar. O temperamento. O
brilho no olhar. Tudo. Quem já não admirou uma família de vira-latas, o pai na
frente chefiando, depois a mãe atrás e os filhotes, atravessando com perícia as
ruas perigosas da cidade? Confesso que muitas vezes a fisionomia ou os modos de
um cachorro me fizeram lembrar uma determinada pessoa. Talvez a espécie canina
tenha muito mais coisas em comum com a espécie humana do que se imagina.
Afinal, as duas são gulosas, gostam de carinho, sentem dor, sonham, sabem
carregar pulgas e, claro, vivem sempre tentando encontrar o melhor jeito para
ser feliz.
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