Passando na frente de uma casa, um andarilho
sente um cheirinho delicioso vindo da cozinha. O sujeito é pobre e está
faminto. Bate na porta e pede comida. Vem a dona da casa e diz que naquele dia
não fez jantar. O homem não se aperta. Será que por acaso ela não poderia
emprestar uma panela para ele fazer um sopa de pedra? Surpresa, a dona de casa
empresta. O andarilho enche a panela de água, põe dentro algumas pedras,
prepara o fogo e coloca-a para ferver. A mulher fica só olhando. Então ele pede
uma colher e um tantinho de manteiga. Depois, um
tiquinho de sal. Um pouquinho de cheiro verde, ia bem. Uma coisinha à toa de
cebola. A dona da casa vai trazendo. Fatiazinhas de batata e chuchu, pode ser?
Que tal um pedacinho de lingüiça e ainda um punhadinho de arroz? No fim, o
sujeito joga as pedras fora, toma a ótima sopa e vai embora de pança cheia.
Dessa vez ele conseguiu enganar a fome.
Como julgar o herói dessa história?
Alguém poderia dizer: “Ele é mau porque mentiu! Enganou a mulher”. Outra pessoa
poderia argumentar: “Mas a mulher também mentiu e, além disso, o andarilho
estava morrendo de fome. Lançou mão de um ardil para poder sobreviver!”.
As duas respostas podem ser acertadas. A
segunda, porém, tem mais a ver com o sentido das narrativas de
Contos de bichos do mato.
O ardil é um dos recursos humanos de
sobrevivência mais antigos. Flechas, armadilhas e disfarces são ardis e graças
a eles o homem arcaico, em busca de alimento, pôde enfrentar e vencer animais
muito maiores ou inimigos mais poderosos. Foi assim que a espécie humana
conseguiu superar as adversidades e sobreviver até os nossos dias.
Mesmo os animais têm seus ardis. Adotam,
por exemplo, as cores do seu hábitat, e assim, camuflados, conseguem iludir
seus predadores. Na luta pela sobrevivência, até os vegetais usam recursos
engenhosos para preservar a vida.
Os
Contos
de bichos do mato são narrativas que falam sobre a luta pela sobrevivência
(e sobre o amor à vida) e foram criadas e recriadas principalmente por gente do
povo, gente humilde vivendo em condições precárias. Pessoas acostumadas a todo
dia acordar e ir à luta para garantir a sobrevivência naquele mesmo dia. Nesse
contexto, os homens lutam contra todo tipo de força: as forças da natureza,
representadas por secas, chuvas, frio, doenças e epidemias, acidentes, perigos
naturais e pela própria fome. E as forças de gente poderosa que os explora e
escraviza. Essas lutas talvez possam ser assim resumidas: uma sucessão de
ardis, truques, malandragens, gambiarras e espertezas utilizados para conservar
a vida.
Na verdade, a fome, a busca de proteção e
a luta desigual contra forças maiores são a semente de uma certa moral popular,
por vezes chamada de
moral ingênua.
As narrativas populares de bichos foram
criadas a partir da
moral ingênua.
Em tese, como sabemos, a moral
corresponde a um conjunto de normas de comportamento destinadas a regular as
relações entre os indivíduos 1. Mas nem sempre lembramos que essas
relações acontecem numa determinada comunidade social. Em outras palavras, o
significado e as características da moral podem variar muito de sociedade para
sociedade.
Aprendemos a pensar na moral como um
conjunto de princípios gerais e universais de comportamento que deve ser
respeitado por todos: não mentir, não roubar, não matar, valorizar a busca da
justiça, da imparcialidade, da impessoalidade, da isenção e da neutralidade.
Mas como exigir que a moral de uma sociedade socialmente justa e equilibrada,
onde todos os cidadãos pagam impostos e recebem em troca os benefícios do
Estado – segurança, educação, saúde e trabalho –, seja igual à
moral de uma sociedade desequilibrada onde cada um luta por si para poder
sobreviver?
Para entender essas narrativas sem
taxá-las de “politicamente incorretas” devemos considerá-las num contexto
histórico e social específicos. Num mundo de injustiça, de tirania, de
crueldade, onde impera a lei do mais forte, só pode vigorar a moral do “cada um
por si e Deus por todos”, ou “comida pouca, meu pirão primeiro” ou “come mais
quem come quieto” etc. Trata-se de uma questão de sobrevivência.
Sem levar em conta tudo isso não é
possível compreender os
Contos de bichos
do mato.
Mas não sejamos hipócritas. A
moral ingênua, não pertence apenas ao
povo pobre, humilde e socialmente desamparado. Ela é conhecida por todos os
seres humanos, independentemente de graus de instrução e classes sociais. Quem
nunca puxou a brasa para a sua sardinha que levante a mão!
Eis aí a dimensão riquíssima dessas
histórias: elas possibilitam uma reflexão ética e uma discussão sobre a
justiça, a liberdade de agir e os limites do comportamento humano.
Ricardo Azevedo
1
Diferentemente, a ética é a teoria ou a ciência do comportamento moral dos
homens em sociedade. Ou seja, representa um “conjunto sistemático de
conhecimentos racionais e objetivos a respeito do comportamento humano moral” (Vazquez). Enquanto a moral é inseparável da atividade
prática, a ética constitui-se na avaliação e reflexão sobre esta atividade.
Sobre o assunto, vale consultar VAZQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. Civilização
Brasileira, 1999 e ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos.
Universidade de Brasília, 1992.