Uma velhinha de óculos, chinelos e 
vestido azul de bolinhas brancas  
texto revisto, ampliado e redesenhado 
Companhia das Letrinhas  1998 
 
Certo dia, faz tempo, estava numa rua em Pinheiros quando, do portão de uma casa, sai uma mulher alta, cabeça branca, óculos de aro grosso e vestido azul de bolinhas brancas, bastante decotado. A mulher,  beirando os oitenta anos,  parecia sólida e muito expressiva. Foi um encontro relâmpago. Voltei para casa pensando: é o tipo da mulher que quando gosta de alguém pode ser muito generosa; em compensação, se não gostar... Continuei fantasiando. Por outro lado, tudo bem, aquele dia ela estava assim, cheia de energia. Mas, e se no mês anterior ela tivesse, por exemplo, perdido um amigo querido ou, sei lá, pegado uma tremenda gripe?  Se eu a visse nesse estado, pálida, trêmula, com o olhos vermelhos e o nariz pingando, teria tido, com certeza, uma opinião completamente diferente a seu respeito. Entretanto, seria a mesma pessoa. Isso na verdade, acontece com todos nós, independentemente de idades e de qualquer coisa. Temos momentos de força e alegria, quando parece que tudo vai bem e tudo vai dar certo. Em outras ocasiões, a pilha fica fraca e, momentaneamente, viramos trastes humanos, seres lamentáveis capengando desanimados por aí. Senti que tinha material para inventar alguma coisa. Já em casa, escrevi três opiniões sobre a tal mulher, três pontos de vista sobre a mesma pessoa. Dei o título de vendo uma velhota de óculos, chinelo e vestido azul de bolinha branca no portão daquela casa? O texto foi publicado primeiro na Revista Nova Escola e mais tarde pela editora FTD.  Agora, para esta nova edição, diminuí o título, dei uma revisada geral e escrevi mais três textos. Refiz também todos os desenhos. Sei de escolas que, a partir  do livro antigo, têm estimulado as crianças a criar uma nova possibilidade para a personagem. Outra idéia é pedir que cada aluno escolha uma pessoa, sua conhecida de vista, e, a partir daí, invente uma vida para ela. A ficção é sempre, pelo menos eu acho, uma forma de tentar entender as pessoas, a gente mesmo, a vida e o mundo.