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Histórias
de bobos, bocós, burraldos e paspalhões foi publicado pela
primeira vez em 2001 e trazia versões de quatro contos populares. Nesta nova
edição, ampliei o livro com mais duas histórias, mantendo o mesmo princípio:
todas as narrativas giram em torno do herói tolo.
Na
edição anterior, fiz as ilustrações em branco e preto, com tinta nanquim,
usando uma técnica que venho desenvolvendo há tempos a partir dos recursos da
xilogravura popular. Para a edição atual, aproveitei os mesmos desenhos mas com
aplicação de cores. Isso deixou as imagens mais alegres e cheias de vida.
Desde
1986, venho recontando histórias populares. Após a pesquisa e escolhido o
conto, tento encontrar outras versões da mesma história e, a partir daí, fazer
uma nova, buscando sempre, claro, recuperar o que na minha leitura pareceu ser
a essência de cada enredo.
O
primeiro conto, “Pega-trouxa-de-papo-furado”, na
verdade, nunca existiu. Foi criado a partir de pequenas anedotas populares: as
desavenças dos irmãos bobos briguentos, o caso do mentiroso que afirma ter
acabado de chegar do céu e a anedota, recorrente em inúmeras histórias, do
chapéu que, no lugar de um pássaro raro, tem um monte de excrementos.
Em
“O casamento de Mané Bocó”, juntei um episódio típico
dos heróis tolos – o caso da venda da verdura ao santo de madeira –
com o pequeno conto do peixinho encantado que, grato por ter sido salvo, ensina
palavras mágicas e ajuda o herói, bobo que só ele, a se casar com a linda
princesa que nunca ria.
Construí
“Façanhas do Zé Burraldo” com base em vários
episódios populares avulsos – o caso do poço, o roubo do burro, o burro
que descomia dinheiro, a anedota do teatro e o caso
do “adivinho” que culmina com o enterro do herói que pensa ter morrido –,
que fui recolhendo aqui e ali mas que, por si só, não formavam um enredo com
começo, meio e fim.
Já “Chico
Zoeira” é uma narrativa popular completa. Encontrei várias versões dessa
história e a partir delas construí a minha. Seu herói, um homem fraco da idéia
mas honesto e de bom coração, é enganado e enrolado diversas vezes mas no fim
acaba se dando muito bem.
“João Bobão
e a princesa chifruda” também é a versão de um conto com começo, meio e fim.
Nele, certa viúva muito pobre tem dois filhos: o mais velho é inteligente, mas
o outro é burro feito uma porta. Graças a um ovo encantado, a mulher descobre
que o destino do filho mais velho é tornar-se sábio e que o do mais moço,
apesar de bobo, é virar rei e se casar com uma linda e caprichosa princesa.
O último
conto, “Quanta besteira o mundo tem!”, é uma narrativa relativamente conhecida.
Encontrei várias versões com diferentes episódios e procurei selecionar os que
me pareciam mais interessantes. Não resisti e acabei inventando dois deles. No
geral, trabalhei a partir de versões portuguesas do conto pois, até onde sei, a
história completa nunca foi recolhida no Brasil, a não ser em episódios soltos
que aparecem, por exemplo, em alguns casos do “Pedro Malasartes”,
entre outros.
Muitos
contos populares apresentam heróis valentes e invencíveis que, desafiando
forças mágicas e superiores, invadem castelos inexpugnáveis, enfrentam dragões,
bruxas e gigantes e acabam encontrando o tesouro, casando com a princesa e
subindo ao trono.
Alguns
poucos contos, porém, trazem heróis tolos, bobos, burraldos, bocoiós, distraídos, que se confundem, são ingênuos,
fracassam, fazem mil coisas erradas, mas no fim, meio sem querer, sempre ou
quase sempre acabam se dando bem.
No fundo,
esses heróis atrapalhados são mais humanos e, na sua fragilidade, muito mais
parecidos com todos nós.
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“Stories
of fools, twits, blockheads and nincompoops” contains four retellings
of folktales linked by one common thread: the foolish hero. Many traditional
stories feature courageous, invincible heroes who take on magical and supernatural
powers, battle their way into impregnable castles, fight dragons, witches
and giants, and end up finding the treasure, marrying the princess and sitting
on the throne. Other stories depict heroes who are foolish, witless, harebrained,
silly and absent-minded. These latter heroes get confused, behave naively,
suffer humiliation, do a thousand things wrong but, as often as not (and
usually without wanting to), they end up doing well for themselves. In the
end, these clumsy heroes can be more human than the invincible ones. In
their vulnerability they are more like us.
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