O carnaval
é uma das festas mais antigas da humanidade. Suas prováveis
origens podem ser associadas a ritos pagãos arcaicos que comemoravam
o tempo cíclico (a crença de que tudo nasce, cresce, amadurece,
envelhece, morre e renasce) e a fecundidade sagrada da terra, da vida
e do mundo. De certo modo, o carnaval é até hoje um rito
que festeja a existência e a esperança. Durante essas festas
e folias, acredita-se que costumava imperar um grande espírito
de coletividade e igualdade entre as pessoas, a comida era farta, ricos
e pobres se igualavam, escravos eram soltos, leis, símbolos e
valores sociais eram relativizados e dessacralizados. Muitos estudiosos
da cultura popular propõem, em suma, a existência uma “visão
de mundo carnavalesca”. Ela seria marcada pelo riso festivo, grotesco,
fecundo e sempre renovador.
Trazido pelos portugueses – o entrudo, festa popular colonial,
era um folguedo
carnavalesco – o carnaval ganhou, no Brasil, nova face, misturando-se,
por exemplo, às festas e procissões do Dia de Reis (dedicadas
aos três Reis Magos e sua visita ao Deus Menino) e aos ritos e
festejos das culturas africanas. Com tantas fusões culturais,
pode-se dizer que existem carnavais exclusivamente brasileiros. Falo
“carnavais” porque o carnaval carioca é diferente
do pernambucano que é diferente do maranhense ou do baiano; o
carnaval de rua é diferente dos desfiles das escolas de samba
e assim por diante. O que caracteriza as manifestações
da cultura popular é sempre e sempre sua extraordinária
diversidade.
Pois bem. Sonhei que um dia nossas escolas tinham incluído o
carnaval em seus
currículos. Alunos e professores reunidos, trocaram muitas idéias
e escolheram o tema do ano. Depois, foi formado um grupo para pesquisar
e escrever o enredo. Em seguida, o pessoal que gostava de música
e poesia - a ala de compositores da escola – criou com seus violões
e cavaquinhos, muitos sambas e marchinhas abordando o enredo escolhido.
Nova assembléia geral imaginária escolheu as músicas
preferidas (foram escolhidas várias).
Então, começou a trabalheira de bolar um cordão
carnavalesco. Não sonhei carros alegóricos nem efeitos
caros e complicados. Não se tratava de um espetáculo televisivo
nem de comércio e publicidade mas sim de uma festa popular. Um
grupo de alunos – a ala de harmonia da escola – partiu para
bolar e desenhar as fantasias além de um ou outro boneco ou imagem
alegórica (idéias e temas transformados em imagens, figuras
e disfarces). Cada participante, claro, fez sua própria fantasia.
E a turma ensaiou a cantoria, as danças e o desfile com um cuidado
especial na parte rítmica – a ala da bateria da escola
– batucando surdos, taróis, tamborins, timbas, ganzás,
caxixis, cuícas e pandeiros.
Na semana anterior ao carnaval, a escola saiu, enfim, pelas ruas do
bairro, apresentando sua festa, seu trabalho e sua alegria. No sonho,
o cordão de foliões era formado por alunos de todas as
classes, professores de todas as matérias, diretor, coordenadores
e demais pessoas que trabalham na escola, além de muitos pais.
Até alguns vizinhos resolveram entrar na dança. Foi um
momento de comemorar o carnaval, o trabalho criado coletivamente pela
escola durante o ano inteiro, a vida, a arte popular, a nossa cultura
e a esperança de construir um mundo melhor.