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Sobre adivinhas e adivinhões
Longe
de ser apenas brincadeiras com palavras, todas as adivinhas costumam também ser
metáforas. Ou seja, dizem uma coisa mas, ao mesmo tempo, querem dizer outra.
Por exemplo, quando ouvimos: “A moça é uma flor” sabemos que o tal moça não tem
folhas nem pétalas nem raízes mas sim que é bela, cheirosa e delicada. É uma moça
e, também, é uma flor. Isso é uma metáfora.
Em
geral, as adivinhas funcionam da mesma maneira. Se alguém pergunta: “o que é
que cai de pé e corre deitada?” já sabemos que o sujeito está falando da chuva.
Se pergunta: “o que é que quanto mais se perde, mais se tem” sabemos que está
falando do sono.
A
adivinha, portanto, pode ser considerada uma espécie de introdução à linguagem
poética, mas mais que isso.
Nas
sociedades antigas, druidas e sacerdotes eram admirados justamente porque
sabiam decifrar enigmas.
E, para esses povos, os enigmas traziam sempre um conhecimento sagrado sobre a
existência e o mundo.
Vejam
as perguntas feitas pelo imperador Frederico II (1194-1250) a Miguel Escoto, o astrólogo da corte: “Sobre que se assenta a
terra? Quantos céus existem? Como é que Deus se senta em seu trono? Por que a
água do mar é salgada? Quais são as causas das exalações e erupções vulcânicas?
Como se explica que as almas dos mortos não desejem regressar à terra?”
Eram
perguntas cabeludas e muito perigosas.
Perigosas
porque se o adivinho conseguisse responder era louvado e considerado
um grande sábio. Em
compensação, se falhasse, era condenado à morte e ia para o beleléu.
Segundo
os pesquisadores do assunto, com o desenvolvimento da civilização, o enigma
ganhou dois sentidos diferentes: de um lado virou questão de filosofia. De
outro virou simples divertimento.
Tudo
isso, leitor, para dizer que as adivinhas, herdeiras de antigos enigmas, também
costumam ter esse duplo caráter: são filosofia sobre a existência e o mundo e
são brincadeiras. Ao mesmo tempo!
Basta
a gente examinar as adivinhas populares para encontrar, muitas vezes, pequenas
especulações que nos fazem meditar, compreender ou atentar melhor, sempre
afetiva e intuitivamente, para inúmeros assuntos da vida e da natureza:
Campo grande
Gado miúdo
Moça formosa
Pai Carrancudo
Quanto mais cresce
menos se vê?
Quanto mais se tira
menor fica?
Sempre se quebra quando
se fala?
Quem faz nunca vai
querer
Quem compra não quer
usar
Quem usa não pode ver
Quem vê não vai
desejar?
Pois bem, os contos de
adivinhação fazem parte disso tudo. Com seus heróis espertos, criativos e
inteligentes, muitos deles herdeiros dos antigos druidas; seus reis que não
sabem ser felizes; princesas que só casam com quem souber se esconder direito;
soldados poetas jogadores de baralho; amigos ricos e amigos pobres; arvores
adivinhonas; mães mais malvadas que bruxas e
malandros cheios de truques e ardis, esses contos populares, além de
brincadeiras, também trazem pensamentos e dúvidas sobre os assuntos da vida da
gente.
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