O Vale do Paraíba fica entre São Paulo e Rio de Janeiro, vizinho de Minas Gerais.
A região é cortada pelo tortuoso rio Paraíba do Sul, que passa entre a serra da
Mantiqueira e a serra do Quebra-Cangalha. O rio nasce em São Paulo e vai
desembocar nos mares do Rio de Janeiro. Entre as cidades da região estão
Guararema, Jacareí, São José dos Campos, Taubaté, Caçapava, Pindamonhangaba,
São Luís do Paraitinga, Redenção da Serra, Aparecida,
Guaratinguetá, Cunha, Piquete, Lorena, Cruzeiro, Queluz,
Areias, Silveiras, São José do Barreiro, Arapeí, Bananal, Parati, Vassouras, Valença... O mapa ao
lado, mostra tudo isso.
A região cheia de serras e paisagens
bonitas tem muitas histórias para contar. Isso porque é muito antiga. São
trezentos e tantos anos de gente vivendo no vale, trabalhando, construindo
vilas e cidades, plantando, comerciando, sonhando, rezando, lutando para viver,
contando histórias, inventando tradições, lendas e crendices, ou seja,
explicações para as coisas do mundo.
Antigamente, no tempo em que os
portugueses mandavam no Brasil, o vale do Paraíba serviu de passagem para os
famosos bandeirantes, que partiam de São Paulo em busca de tesouros e escravos
índios.
Teve também muitas plantações de cana
de açúcar.
Depois, descobriram muito ouro em Minas
Gerais. Esse ouro foi retirado das minas por escravos e levado até a cidade do
Rio de Janeiro no lombo de burros para, em seguida, ser enviado a Portugal. Para
chegar nos portos do Rio ou de Paraty, era preciso passar pelo vale do Paraíba.
Muitas cidades do vale nasceram e cresceram por causa do transporte do ouro
mineiro.
Mais tarde, vieram
as fazendas de café. Surgiram então as casas grandes e senzalas valeparaibanas, com suas fazendas, escravos, plantações,
festas e tradições.
Durante séculos e séculos, a região foi
cruzada por tropeiros que transportavam açúcar, café e todo tipo de mercadoria,
atravessando as serras da Mantiqueira e do Quebra-cangalha. Com seus burros e
bestas, esses viajantes naturalmente deixaram histórias, lendas, hábitos,
receitas culinárias, crenças, jogos e ditados.
É preciso dizer
que o vale do Paraíba recebeu gente de muitos lugares. Nele vieram morar e
trabalhar, em diferentes épocas, portugueses, africanos, italianos, alemães,
espanhóis, suíços, húngaros, austríacos, entre outras nacionalidades. Quando
falamos “portugueses” ou “africanos” é bom lembrar que estes vieram de
diferentes regiões de Portugal e de vários paises da África. Isso quer dizer
que cada uma dessas pessoas veio para o vale trazendo na bagagem suas
histórias, crenças e tradições.
No vale também viviam índios, como os Puris que naturalmente enriqueceram a região com sua
cultura, histórias e hábitos.
O próprio rio Paraíba do Sul, formado
pela junção dos rios Paraitinga e Paraibuna,
com muitos afluentes, é cheio de narrativas, casos e lendas de pescadores.
Segundo uma delas, a imagem de Nossa Senhora teria aparecido
e sido pescada nas águas do Paraíba em meados do século
XVIII. Daí o nome “Aparecida”, dado à cidade.
Com seus lugares sagrados, oratórios,
milagres, santos padroeiros, devotos, festas, folias, procissões, romarias e
ex-votos, a região, profundamente marcada pela religiosidade popular, é repleta
diabos, almas penadas e assombrações, personagens de vários contos e lendas.
O livro Contos, lendas e crendices do Vale Encantado pretende trazer ao leitor um pouco deste imenso e rico universo cultural por
meio das formas literárias de tradição oral que circulam na região: contos,
lendas, crendices, quadras, receitas, adivinhas e ditados.
Isso não quer
dizer que o material resgatado seja exclusivo da região mas sim que é conhecido
e faz parte da cultura de pessoas que habitam o vale do Paraíba.
Todas as ilustrações do livro foram
criadas a partir de imagens, paisagens e cores do vale do Paraíba, assim como
de sua iconografia popular.
Para escrever o livro, recorri aos
trabalhos de um sem número de pesquisadores da cultura da região. Faço questão
de citar três deles: Tom Maia, Tereza Maia e Ruth Guimarães. Seus
extraordinários estudos são fundamentais para o conhecimento e a compreensão da
cultura popular do vale do Paraíba.
Para terminar, esclareço que os textos
do livro não buscam apenas preservar algo do passado. Muitas dessas histórias,
lendas e crendices continuam vivas e fazem parte do imaginário dos habitantes
do vale do Paraíba até hoje e, este é o ponto, representam uma forma de ver a
vida e o mundo. Se tudo isso está se modificando, está em vias de desaparecimento
ou um dia vai, ou não, desaparecer, é assunto para acadêmicos, teóricos e futurologistas. Certamente, tudo pode desaparecer,
inclusive os que prevêem desaparecimentos. Para onde vamos é uma pergunta que
fica para outra ocasião. Para qualquer lugar que seja, levaremos conosco as
marcas e influências do nosso patrimônio cultural.