Trecho do livro O leão da noite estrelada – Saraiva, 1995. Cap. 10
 
 
A lua iluminava a floresta feito um holofote. Um vaga-lume , flanando pelo ar, pousou delicado na ponta do focinho do leão. Deu coceira. Veio a vontade de espirrar. Fazendo careta, o felino fungou e, ao fungar, sentiu cheiros. Abriu os olhos de orelha em pé dando salto. Percebeu que estava cercado. Arreganhou os dentes pronto para tudo.
Parados em círculo, os animais olhavam silenciosos para o leão. Pareciam admirados, examinando seus movimentos.
Sentindo-se acuado e sem entender o que estava se passando, o felino soltou um rugido ameaçador.
Um galho rangeu. Um sombra mexeu-se no alto da árvore. Era uma onça pintada. Veio descendo mansamente.
O leão perdeu o fôlego diante daqueles movimentos elegantes.
A onça era belíssima. Saltou da árvore e, caminhando vagarosa, parou em sua frente.
O leão rosnou.
A onça rosnou.
Os dois ficaram se olhando, olho no olho.
A onça pintada balançou a cabeça quase sorrindo. Disse que estava honrada. Falava baixo. Explicou que há muito tempo os animais aguardavam aquele dia.
O leão admirou a beleza da onça pintada. Não lembrava de ter visto antes animal tão bonito. Franziu a testa, olhando em volta. Não podia esquecer que estava cercado. Sentiu uma mistura de medo e de fascínio.
Dentro da noite escura, iluminados pela luz parada no céu, milhares de animais haviam pousado no ramos, agarravam-se nos galhos, enrolavam-se nos troncos, trepavam nas pedras, escondiam-se nas moitas, sentavam-se, deitavam-se, penduravam-se encolhidos e em pé.
Tensa, a fera selvagem preparou-se para um combate de morte. Sua cabeça rodava. Olhou em volta de novo. Os animais não pareciam nem um pouco ameaçadores.
O felino, então, resolveu falar. Disse que não estava entendendo nada. Fez perguntas. A quem, afinal, os animais estavam esperando?
Uma anta emergiu das sombras. Afirmou que estavam aguardando por ele mesmo. E há muito tempo. Disse que ele era o esperado. Aquele sobre quem os velhos, à noite, contavam histórias para seus filhotes. Ele era o herói. O rei. O paladino. O campeão. O que tinha vindo de longe para salvar.
No alto de uma árvore, um macaco de cara vermelha começou a gritar e a dançar. Os pássaros piavam e batiam as asas em plena noite. Os animais diziam coisas desencontradas. Falavam em última esperança. Falavam em milagre. Falavam na salvação que tinha chegado.
O leão estava pronto para morder o primeiro que se aproximasse.
Uma ema adiantou-se com lágrimas nos olhos. Confessou sua emoção. Disse que não conseguia deixar de lembrar a voz de sua mãe recomendando a ela que tivesse fé, que tivesse paciência, afirmando que um dia ele vinha, que um dia ele haveria de chegar. E agora, exclamava ela, "êle" estava ali!
Um esquilo perdeu o controle, correu e lambeu a pata do felino.
Os animais faziam um ruído ensurdecedor. Pios, grunhidos, trinados, miados, roncos, zumbidos, coaxados, chiados, bramidos, uivos, assobios, mugidos, latidos tudo junto. Pareciam alegres. Olhavam o leão cheios de admiração e confiança.
O felino rugiu meio de lado procurando, ao mesmo tempo, um jeito de escapar.
Disse que devia haver algum engano. Não sabia do que estavam falando. Contou que estava ali por acaso e que tudo não passava de um grande mal entendido.
- Mal entendido? Olhe a estrela!
Os animais uivavam. Dedos, garras, patas e asas apontaram para o céu onde uma luz intensa brilhava parada.
A fera selvagem ficou na mesma.
Um sapo velho, enrugado e escuro, subiu numa pedra e pediu a atenção de todos. Olhou respeitoso para o leão. Recordou as velhas histórias contadas pelos antepassados. Elas eram claras. Um dia, diziam as histórias, o céu escureceria. Um dia, apareceria uma luz no céu. E a luz andaria e pararia iluminando um ponto. Era o sinal. No ponto iluminado, surgiria aquele a quem todos esperavam desde sempre. Era, continuou o sapo, exatamente o que havia acontecido. Porisso, todos estavam ali.
O felino examinou o céu. Apertou os olhos. Fez uma careta. Disse que aquela luz não era nada. Que aquilo era bobagem. Ele não era o esperado. Não era salvador de coisa nenhuma. Falou que tudo tinha começado por causa de uns malditos caçadores.
Os olhos dos animais brilhavam.
O leão contou que tinha ido parar num circo e depois num jardim zoológico. De lá, explicou, tinha fugido e agora andava por aí à toa...
Os bichos começaram a gritar: - Viva nosso rei!
- Viva nosso herói! - Viva nosso salvador!
Assustado, o felino urrou e gritou. Insistiu que não era nada disso!
E riu. Nunca, em toda a vida, tinha visto uma floresta tão rica. Nunca tinha visto tanta beleza nem tanta fartura. Nem ouvira falar numa selva como aquela onde os animais andavam juntos em paz e harmonia. Ali, concluiu rosnando, era um paraíso e ninguém precisava ser salvo de nada.
Aquelas palavras parece que feriram os animais.
Guinchos, protestos, uivos e chiados vieram de todo o lado. Alguns bichos choraram, balançando a cabeça e dizendo não e não!
Um galho quebrou derrubando no chão vários animais enfurecidos.
A onça interrompeu a barulheira.
O leão examinou, de novo, aquela figura iluminada pela lua. A elegância com que se mexia. Os lábios bem desenhados. A pinta perto da boca. O pelo liso e macio. As manchas. O perfume discreto. A musculatura poderosa e delicada.
A onça disse que o leão estava redondamente enganado. Falou que por ali todos eram selvagens. Nunca tinham feito uma reunião como aquela antes. Confessou, olhando para os lados com o rabo do olho, que sentia vontade de devorar vários dos animais ali presentes. Arreganhou os dentes, molhando os lábios com a língua. Uma capivara estremeceu, encolhendo-se atrás de uma moita.
O leão sorriu para a onça. Compreendia - oh, se compreendia! - os desejos secretos daquela gata.
Mais uma vez, examinou o céu. Viu a luz, uma estrela brilhante e intensa brilhando sobre sua cabeça.
Espiou aqueles animais em sua frente.
Sentia-se confuso. Rugiu e esmurrou o chão com as duas patas, sacudindo violentamente a juba. Sentou-se encolhendo os ombros. Perguntou para que, afinal de contas, eles tanto queriam e precisavam de um salvador.
Um silêncio cortou o espaço feito um chicote.
A noite, em volta, parece que ficou mais escura.
Os animais começaram a falar, baixo, um de cada vez.
Tremiam olhando para os lados.
Naquela noite. o leão escutou coisas terríveis.
Cada animal fez um relato, contou detalhes, apresentou provas e descreveu uma situação.
Em certos momentos, a fera selvagem chorou.
 
 
 
 

Trecho do livro Historias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões - Projeto Editora – 2001

 
 
Quanta besteira o mundo tem!
 
 
Era uma moça muito bonita, mas burra como ela só. Um dia, apareceu um jovem pedindo sua mão em casamento. Os pais da moça ficaram felizes apesar de nunca terem visto aquele moço na vida.
Para comemorar o noivado, o pai da moça convidou o rapaz para passar uma tarde em sua casa. Conversa vai, conversa vem, mandou a filha buscar dois copos de pinga no porão.
– É uma cachaça de primeira, explicou ele lambendo os beiços.
No porão da casa, havia um barril enorme, cheio de pinga. Quando a moça abriu a torneira para pegar a bebida, olhou para cima e viu um machado preso no teto.
Ficou preocupada:
– E se um dia eu me casar; e se um dia eu ficar grávida; e se um dia meu filho nascer; e se um dia meu filho crescer; e se um dia eu vier visitar meus pais; e se um dia meu filho resolver brincar no porão; e se um dia o machado despencar do teto e cortar a cabeça dele fora?
Diante de tão triste pensamento, a moça desandou a chorar e a soluçar.
Enquanto isso, a cachaça escorria à vontade pela torneira aberta.
Como a filha estivesse demorando muito, seu pai mandou a mulher verificar o que estava acontecendo. A mãe encontrou a pinga caindo e a filha chorando, olhando o machado preso no teto do porão, e chorando mais ainda.
– Que foi isso, filha?
A moça explicou:
– Mãe! E se um dia eu me casar; e se um dia eu ficar grávida; e se um dia meu filho nascer; e se um dia meu filho crescer; e se um dia eu vier visitar vocês; e se um dia meu filho resolver brincar no porão; e se um dia o machado despencar do teto e cortar a cabeça dele fora?
Diante de tão triste pensamento, a mãe abraçou a filha e também desandou a chorar e a soluçar.
Enquanto isso, a pinga espirrava do barril empapando o chão.
Como a mulher estivesse demorando muito, o futuro sogro achou melhor ir ele mesmo, junto com o moço, ver o que estava acontecendo. Encontrou a pinga jorrando do barril feito cachoeira e a -mulher e a filha chorando, olhando o machado preso no teto do porão e chorando mais ainda.
– Que foi isso, gente?
A moça explicou.
– Pai! E se um dia eu me casar; e se um dia eu ficar grávida; e se um dia meu filho nascer; e se um dia meu filho crescer; e se um dia eu vier visitar vocês; e se um dia meu filho resolver brincar no porão; e se um dia o machado despencar do teto e cortar a cabeça dele fora?
Diante de tão triste pensamento, o pai da moça gritou: – Meu pobre netinho!, abraçou a mulher, abraçou a filha e também desandou a chorar e a soluçar.
Enquanto isso, um riacho de cachaça formava um lago no chão.
Foi quando o noivo disse:
– Vamos fazer o seguinte: enquanto vocês ficam aí esperando o machado cair, vou correr mundo pra ver se encontro um remédio que salve meu futuro filho.
Mas pensou baixinho:
– Só volto se conseguir encontrar gente mais burra do que essa!
E assim, montado em seu cavalo alazão, o moço despediu-se e partiu pelo mundo afora.
Andou, andou, andou.
Já era noitinha quando encontrou dois -homens debruçados numa ponte. No chão, encostado num canto, um rolo de corda grossa. Os dois pareciam estar tentando tirar alguma coisa do rio.
– Enquanto eu penduro você de cabeça pra baixo pelas pernas – explicava um deles – você estica bem os braços e pega o ouro.
E o outro:
– Já disse mil vezes que não é ouro. Aquilo é um pedaço de queijo.
– É ouro! afirmava o primeiro.
– É queijo! discordava o outro.
O noivo viajante resolveu descer do cava-lo e espiar. Havia um brilho nas águas. Olhou para o céu. O brilho não era nem ouro, nem queijo. Era a lua cheia refletindo sua luz sobre o rio.
– Com licença, pessoal, disse o rapaz. – Vocês estão enganados. Aquele brilho na água não é ouro, não. Nem queijo. É só o reflexo da lua!
Os dois -homens examinaram o moço de alto a baixo. Depois, olharam um para o outro e caíram na gargalhada.
– Mas é uma besta quadrada! disse um deles.
– É uma anta!, disse o outro.
– Que é isso, rapaz, continuou o primeiro. – Ou você é cego ou está precisando usar óculos. Que lua coisa nenhuma!
E o outro:
– A lua está lá no céu, disse apontando para cima. – E aquilo, explicou apontando para baixo, – está dentro da água. Onde já se viu uma coisa estar em dois lugares ao mesmo tempo? E completou:– Aquilo é um queijo.
– É ouro! disse o primeiro.
– É queijo! disse o outro..
Sem ligar para o moço, os dois arregaçaram as mangas e voltaram ao trabalho.
Debruçando-se na mure-ta da ponte, seguro pelos pés, o primeiro soltou o corpo perigosamente para frente e ficou pendurado no ar. O que segurava, com o rosto vermelho por causa do esforço, foi também, pouco a pouco, inclinando-se para frente. Esticando os braços, foi deixando o primeiro chegar perto da água.
De repente, o que segurava avisou:
– Péra um pouquinho que meus dedos estão ardendo!
Largou as pernas do que estava pendurado e assoprou as mãos. O outro, claro, foi parar dentro -d’água. Sumiu lá no fundo e voltou engasgado.
– Socorro! Não sei nadar! Jogue a corda!
Em vez de pegar o rolo de corda no chão, o outro subiu na mureta da ponte e respondeu ofendido : – Acorda coisa nenhuma! Quem disse que estou dormindo? Espera aí que eu ajudo você! Disse isso e mergulhou de cabeça no rio. Sumiu lá no fundo e voltou engasgado.
– Socorro! gritou ele. – Também não sei nadar!
O viajante ainda tentou atirar a corda, mas não houve tempo para nada. Agarrados um no outro, os dois infelizes acabaram desaparecendo na correnteza escura e incontrolável do rio.
A lua, lá no alto, continuou brilhando cheia sobre as águas.
O noivo que saiu pelo mundo afora ficou parado na ponte, olhando. Depois, montou no cava-lo alazão e partiu balançando a cabeça.
Na manhã do dia seguinte, passando perto de uma igreja, percebeu que por ali haveria um casamento. Vestidas para a festa, usando ter-nos, chapéus, jóias e vestidos compridos, as pessoas discutiam acaloradamente. No meio da roda, gesticulando, estavam o padre, o noivo e a noiva.
Chegando mais perto, o viajante notou que as pessoas do lugar eram muito baixas, do tamanho de anões, menos a noiva, uma moça comprida, de olhos azuis. Era ela quem falava naquele momento. Sua voz parecia triste e conformada:
– Tá bom, gente. Se for pra cortar alguma coisa, entre a cabeça e as pernas, eu prefiro a cabeça. Cabeça não serve pra quase nada, a não ser carregar penteados e chapéus. Já as pernas – completou a noiva – isso nunca! Sem elas, como é que a gente vai andar pra lá e pra cá?
O padre apareceu com um machado na mão.
Descendo do cava-lo, o viajante pediu desculpas pela curiosidade. Quis saber o que estava acontecendo.
O padre explicou:
– Acontece que aqui todo mundo é baixinho e essa noiva é alta demais. Tão alta que não consegue passar pela porta da igreja. Por isso, para que o casamento aconteça, vai ser necessário cortá-la. A dúvida era cortar a cabeça ou as pernas, mas o problema já está resolvido. Vai ser a cabeça mesmo.
Disse isso e já foi erguendo o machado.
O jovem viajante ficou chocado. Garantiu que não era necessário arrancar um pedaço da noiva para resolver um problema tão simples.
– Basta que ela, por exemplo, abaixe a cabeça, explicou o moço. – Ou, se preferir, que dobre os joelhos e entre na igreja agachada!
As pessoas ficaram confusas.
– Isso não vai dar certo nunca, declarou o pai da noiva, um homem velho, com ar experiente.
– Também estou achando impossível, disse o noivo.
– Não custa tentar, sugeriu o viajante.
Foram todos para frente da igreja. Primeiro, a noiva dobrou os joelhos e entrou agachada na igreja.
– Deu certo! exclamaram todos espantados.
Depois, a noiva saiu da igreja e entrou de novo, agora com a cabeça abaixada.
A alegria foi geral.
– Você é muito inteligente, disse o padre, guardando o machado e cumprimentando o moço.
– É um gênio! disse -alguém para não sei quem.
– Fica sendo nosso convidado de honra! declarou o pai da noiva.
Após a cerimônia, os convidados saíram da igreja e, felizes da vida, começaram a comer, a beber e a dançar. O viajante estava cansado. Não conseguia tirar da cabeça o caso dos dois trapalhões afogados. Por causa deles nem tinha conseguido dormir direito à noite. Depois de comer um pouco, deitou-se debaixo de uma árvore para descansar. Acordou com uma gritaria daquelas.
– Socorro!
Eram vozes finas e grossas gemendo ao mesmo tempo
O jovem viajante tomou um susto. Na sua frente, caídos no chão, estavam todos os convidados enroscados uns nos outros, formando um inesperado bolo de gente. Parecia uma maçaroca estranha cheia de pernas, coxas, mãos, braços, pés, narizes, olhos, ore-lhas, pescoços, cotove-los, unhas, joelhos, cabelos, cabeças, troncos e membros.
– Me ajudem! Berravam as pessoas enroscadas, lutando, sem sucesso, para escapar da barafunda.
O viajante tentava mas não conseguia acreditar nos próprios olhos.
– Mas que bagunça é essa? perguntou ele.
Falando do meio de um emaranhado de braços e coxas, com uma perna que quase tapava sua boca, o noivo tentou resumir a situação:
– Ninguém sabe direito como tudo começou! A gente estava dançando, alguém deve ter tropeçado e caído, uma pessoa foi empurrando a outra e, de repente, todo mundo acabou indo parar no chão!
– Agora a gente está embrulhado! gritou o padre.
– A coisa aqui está preta! disse a noiva.
– A gente não consegue desatar o nó, explicou o noivo, porque, nessa tremenda enrascada, ninguém sabe mais de quem é a perna, o braço e o corpo de quem!
– Ajude a gente a sair dessa trapalhada! implorou a mãe da noiva quase chorando.
O viajante estava mau humorado, tanto pelo sono interrompi-o, como por causa do caso dos pescadores da lua tragados pelo rio.
– Deixa comigo!
Agarrando um pedaço de pau, dos grandes, saltou no meio do labirinto de braços, corpos e pernas e começou a dar paulada para todos os lados.
O efeito foi fulminante. Debaixo da chuvarada de pancadas, as pessoas gritavam, uivavam e, rapidamente, se desataram, se desentrelaçaram e se desembaralharam. Em poucos instantes, estavam todos de pé, gemendo e capengando, felizes da vida.
– Munfo ofrigado, disse o noivo com o olho roxo e vários dentes quebrados. Abraçou o viajante com lágrimas nos olhos. – Fe não fofe focê, finfuém fabe onde a fente ia farar!
Agradecidos, os convidados, mais de duzentas pessoas, decidiram juntar dinheiro e dar de presente ao viajante que partiu levando a bolsa recheada.
Continuando seu caminho, depois de andar um bocado, chegou a uma cidade pequena, esquecida entre as montanhas. (...)
 
 
 
 

Trecho do livro O livro das palavras – ilustrado por Mariana Massarani – Editora do Brasil, 2007. Cap. 5

 
 
O livro das palavras seguiu caminhando por um chão cada vez mais inesperado, cheio de tipos de terra misturados, areias, pedras, folhas e buracos, que alguns chamam “estrada de terra”. Foi tentando entender o tamanho e a forma que um amor pode ter.
Um fogo que arde sem se ver? Uma ferida que dói e não se sente? Um contentamento descontente? Não conseguia, nem de longe, encontrar nada parecido dentro das páginas de si mesmo.
– Justo eu, que tenho milhares de verbetes! estranhou ele, pensativo.
Apesar disso, sentia-se bem.
Tinha sido delicioso descobrir a força bruta do mar, as ondas incontroláveis indo e vindo batendo na praia e aquele casal apaixonado.
“A paixão é parecida com o mar”, pensava o dicionário sem saber direito explicar como nem por quê.
A estrada da terra era cheia de subidas, descidas e curvas. Depois de uma longa descida, o livro viajante encontrou um casal de velhos.
Ele usava chapéu de abas largas e um paletó muito puído. Ela vestia uma saia comprida e tinha uma flor presa nos cabelos brancos amarrados num rabo de cavalo. Fumava cachimbo. Os dois conversavam sentados num barranco. Ele estava descalço. Ela usava sandália de plástico e meia.
O livro se aproximou. O velho perguntou se ele sabia as horas. O livro disse que sim.
– Horas são “segmentos de tempo equivalentes a sessenta minutos, e vigésima quarta parte de um dia solar ou do tempo em que o planeta Terra leva para girar em torno de si mesmo”.
O casal arregalou os olhos.
– Ô loco sô! A gente só queria saber as horas, moço.
O dicionário explicou que sabia muito bem o que eram as horas, os minutos e os segundos mas não usava relógio.
A mulher mudou de assunto. Contou que eles pararam ali para descansar. Pretendiam ir à missa mas a igreja ficava longe.
O dicionário revelou que era um livro e que estava viajando para conhecer a vida e o mundo. .
– Livro? perguntou o homem. – Livro de histórias?
– Muito mais que isso! Sou um dicionário, respondeu o dicionário estufando o peito e exibindo suas duas mil e tantas páginas.
O casal não sabia o que era um dicionário.
– Um dicionário, explicou o livro com voz orgulhosa e um tanto surpresa é “o conjunto de vocábulos de uma língua, ou de termos próprios de uma ciência ou arte dispostos em ordem alfabética e que fornece além de definições , informações sobre sinônimos, antônimos, ortografia, pronúncia, classe gramatical, etimologia etc.”
O casal não entendeu nada.
– A gente é analfabeto, explicou a mulher.
O livro das palavras foi pego de surpresa.
– Mas analfabeto, deixe-me ver aqui, é “ aquele que desconhece o alfabeto; ou aquele que não sabe ler nem escrever”.
– A gente queria muito saber ler e escrever, confessou o homem.
O livro não podia acreditar:
– Vocês não sabem ler?
– Nem escrever, disse o velho de chapelão.
– Mas então vocês não sabem nada!, exclamou o dicionário.
– Como assim? perguntou a mulher.
– Ué, disse o dicionário. – Se vocês não sabem ler nem escrever vocês não sabem gramática, matemática, ciências, história, geografia… ou seja…vocês não sabem nada.
O casal trocou olhares.
– Ler, escrever, gramática e matemática a gente não sabe não, reconheceu o velho.
– Mas sabe outras coisas, garantiu a velha.
– O quê por exemplo? quis saber o dicionário.
O velho sorriu.
– Eu sei trabalhar na roça, sei preparar a terra e sei plantar e colher, disse ele. – Também sei construir casa, fazer telhado e levantar cerca. Sei tratar de animais, ordenhar vaca, sei domar cavalo bravo, caçar, pescar, tanta coisa…
– E eu, disse a velha – sou cozinheira de mão cheia.
– A mais melhor das redondezas, completou o velho.
– E sei costurar e lavar roupa, sei cuidar da horta, do galinheiro e da filharada. E completou: – A gente tem nove filhos, dois morreram. O resto vingou, graças a Deus!
– Hoje tá tudo graúdo, completou o velho, com orgulhoso. – Cada homão e mulherão que dá gosto. A gente tem até neto!
O dicionário percebeu que sabia conversar mais sobre definições e lições e menos sobre assuntos banais do dia-a-dia como amor, trabalho e vida familiar.
– Se a gente for falar tudo que a gente sabe, moço, disse o homem, – a gente fica aqui o mês inteiro e não dá conta do recado. Por exemplo: eu canto e toco viola e até sei fazer viola. E brincou:
– E jogo baralho com os amigos.
A velha riu dando uma cotovelada no braço do marido.
– E eu sei ajudar as moças na hora de parir, disse a mulher. – Já botei mais de duzentas crianças nesse mundo de Deus. E sei fazer muito remédio com as plantas do mato.
O livro lembrou-se do homem apressado em busca de alguém que pudesse ajudar sua mulher a dar a luz.
– Fora isso, lembrou o velho, – a gente gosta de arrasta-pé.
– Arrasta pé?
– É moço, a gente gosta de dançar samba.
Uma vaca mugiu ali perto.
 
 
 
 

Trecho do livro Pobre corinthiano careca – Ática, 1998. Cap. 13

 
 

José Pedro saltou da cama feito um guerreiro. Naquele domingo, estava pronto para o que desse e viesse. O jogo Corinthians e Boca Juniors ia ser às quatro da tarde.
De manhã, jogou bola num terreno baldio perto da rua Rocha, mas só para matar o tempo. Sua cabeça não conseguia imaginar outra coisa que não fosse o jogo.
Depois do banho, almoçou e, vestido com o uniforme completo do Corinthians, foi para a sala e ficou esperando. Bem que tentou descansar um pouco no sofá, mas não conseguiu. Enquanto a mãe costurava, José Pedro coçava o umbigo preocupado. Tinha escutado notícias alarmantes no rádio. Que o Corinthians ia jogar desfalcado de vários jogadores importantes. Que Wilson Mano, o jogador que sustentava a defesa inteira, estava contundido, com uma lesão no calcanhar e jogaria no sacrifício. E o pior dos piores: Marcelinho Carioca não ia jogar por causa de uma distensão na virilha sofrida no último treino. Nem tinha embarcado para a Argentina com o resto da delegação.
Enquanto isso, infelizmente, o Boca Juniors ia jogar com o time completo e ainda teria as estréias confirmadas de Maradona e Caniggia.
Não vai ser mole, pensava José Pedro, verificando a careca com a unha.
O papagaio do vizinho perguntou se o doutor queria café e soltou uma gargalhada espalhafatosa. Em seguida, latiu e começou a cantar.
A máquina de costura continuava com seu zumbido, anda pára, pára anda, como um incansável trenzinho elétrico.
José Pedro pensou em Camila.
Um dia ele aprenderia a escrever direito, só para fazer um verso bem bonito para ela. Imaginou a cena. Camila, distraída, andando na rua Augusta. Ele chegando perto e dizendo: “Fiz uma coisa pra você”. Puxava do bolso um papel e entregava. Parecia um filme de cinema mudo. Ela botava as duas mãos no peito e dizia: “Pra mim?” Abria o papel, lia e sorria encantada. E então os dois, na imaginação do menino, iam embora andando de mãos dadas pela calçada.
É pau, é pedra, é o fim do caminho...
O difícil era fazer verso para uma pessoa chamada Camila. José Pedro futucou a orelha preocupado. Camila rimava com o quê? O menino começou a pensar em palavras terminadas em ila. Lembrou só de uma: gorila. Os olhos de José Pedro ficaram maiores. Era impossível fazer um verso de amor com um gorila no meio. Tanta menina bonita por aí e ele tinha que gostar logo da Camila, com aquele nome complicado de rimar!
Um frio cruzou a espinha de José Pedro. O tempo tinha voado. Estava na hora do jogo. O menino ligou a televisão.
— Chega mãe! — gritou, tentando ajustar a imagem colocando uma palha de aço na antena. — Você prometeu! Com a máquina de costura ligada não vai dar para assistir o jogo!
Dona Sueli consultou o relógio. Bocejou. Estava mesmo cansada. Foi para a cozinha preparar pipoca e limonada para o filho.
Os times entram em campo. Foguetório. Escalações. Entrevistas. Fotografias. Ouvem-se os hinos nacionais dos dois times. A câmera mostra jogador por jogador. Diego Maradona está risonho e magro. Aparenta ótima forma física. José Pedro franze o nariz. Maradona e Caniggia cantam o hino argentino emocionados. José Pedro faz o sinal da cruz. É dada a partida.
O Corinthians, infelizmente, parece assustado dentro do campo. Dois minutos de jogo. Falta perto da área a favor do Boca. Maradona ajeita. Toma distância. Finge que vai cruzar e manda um petardo. Ronaldo, o goleiro corintiano, salta mas não acha nada. Bola na trave. A torcida argentina vibra.
José Pedro apanhou um monte de pipocas e enfiou de qualquer jeito na boca.
O jogo continua. O Corinthians está irreconhecível. Não consegue armar as jogadas. Ninguém acerta um passe. Os minutos giram devagar. Parecem grudados no relógio. Viola faz outra falta, reclama e é expulso. Na seqüência, Maradona passa por dois, vai até a linha de fundo e cruza para Caniggia fazer de cabeça: 1 X 0 para o Boca Juniors.
Dona Sueli suspirou. Estava com sono. Disse que ia para o quarto descansar.
O Corinthians luta mas, infelizmente, nada dá certo. Passes errados, chutes tortos e até reversões na hora de cobrar a lateral. Uma desgraça. “Assim não vai dar!”, pensou José Pedro com os olhos grudados no aparelho. Fim do primeiro tempo. José Pedro foi ao banheiro, com a porta aberta. Enquanto observava, de cima, seus dois pés afastados sobre o ladrilho, a privada no meio e aquele jato caindo espalhafatoso, perguntou-se por que às vezes o xixi vinha com espuma e outras vezes, sem. Na sala, a voz do locutor anunciava que, para o segundo tempo, entrava um tal de Chinfrim no comando do ataque corinthiano.
“Chinfrim?”, quis saber o menino apertando a descarga.
José Pedro nunca tinha ouvido falar nesse jogador. O locutor também não. De acordo com o repórter de campo, Chinfrim, um moleque de dezesseis anos, um simples juvenil, reserva do reserva do reserva, tinha acabado de chegar de Lorena para treinar no Corinthians e, na falta de outro, ia entrar na fogueira. Era o único atacante disponível no banco de reservas e, como o ataque não estava funcionando, o técnico resolveu arriscar. Perdido por um, perdido por dez, afirmou o técnico durante a entrevista.
“Chinfrim?”, pensou José Pedro esfregando a careca com as dez unhas.
Começa o segundo tempo. O sufoco continua. Maradona mata a bola na testa e sai pelo campo com ela equilibrada na cabeça. Chinfrim, um mulatinho franzino, menino ainda, tenta tirar a bola do craque argentino e toma um chapéu inacreditável. “Olé!”, grita a torcida.
José Pedro engole um punhado de pipocas sem mastigar.
O Corinthians simplesmente não consegue tocar na bola. O Boca Juniors dá um show. Maradona, então! Dribla, dá carrinho, dá lençol, toca por baixo das pernas, ajeita de calcanhar, passa de letra, chuta de trivela, dá meia lua, um arraso. A única coisa que o Boca não consegue fazer, graças a Deus, é outro gol. A bola bate na trave, toca no joelho de Ronaldo, na canela do zagueiro e não entra. Um sem-pulo de Caniggia chega a bater na nuca do arqueiro corinthiano antes de espirrar pela linha de fundo. Do lado do Corinthians, ninguém se entende. O estreante Chinfrim, coitado, parece um vira-lata fugindo dos automóveis no meio da avenida 23 de Maio na hora do rush.
O comentarista lamenta o erro do técnico corinthiano. Se sem Chinfrim já estava difícil...
Enquanto José Pedro roia as unhas das duas mãos ao mesmo tempo, a câmera dá um close. Caniggia aparece conversando com Maradona. Os dois riem. A televisão mostra tudo. É lateral do Boca. Maradona manda a bola para Caniggia que devolve para Maradona. Os dois argentinos começam uma tabelinha, só que ao contrário. Em vez de buscarem o gol corinthiano, correm na direção contrária, rumo ao gol do próprio Boca Juniors! A torcida aplaude e ri. Até os jogadores do Boca parecem confusos com a manobra. Os corinthianos não sabem se param, se fogem ou se choram. O juiz põe a mão na cintura e olha para o bandeirinha. É uma tremenda humilhação. José Pedro ficou em pé esmigalhando as pipocas na mão. Os dois craques argentinos, tabelando e rindo, entram alegres dentro de sua propria área. Neste momento, explode o inesperado Chinfrim, rouba a bola de Maradona e, rápido, toca com classe para o fundo da rede.
— Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool!
José Pedro saltou pelo apartamento feito um macaco elétrico. Deu cambalhotas, plantou bananeira, derrubou o abajur e, de joelhos, fez o sinal da cruz três vezes e ainda beijou o carpete.
Lá fora, a cidade inteira explodiu entre fogos, buzinadas e gritos de gol. A torcida do timão é mesmo imensa. Até o papagaio do vizinho comemorou.
O jogo muda de figura. O Corinthians, claro, tranca-se na defesa e o Boca Juniors parte com tudo para cima, no desespero. Maradona agora xinga e reclama. Tarde demais. O juiz apita o fim do jogo. Empate sofrido de 1 X 1.

 
 
 
  Trecho do livro Chega de saudade – Moderna, 2006. Cap. 10  
 

Araújo e Ophélia marcaram um encontro na terça à noite. Ficou combinado que ia ser na casa de Araújo.
Ophélia pegou o ônibus que sobre a Cardoso de Almeida, vai pela Dr. Arnaldo e desce a Cardeal Arcoverde em direção ao bairro de Pinheiros. Araújo morava na Teodoro Sampaio, 17. O ponto do ônibus fica quase na esquina da Oscar Freire.
Ophélia desceu e foi a pé olhando o céu estrelado. Pensava em dez coisas ao mesmo tempo. A noite estava quente e àquela a rua ainda estava movimentada, automóveis e ônibus levando gente de volta para casa.
Uma gataria nojenta fazia barulho em cima do muro, miando e, para variar, dando unhadas uns nos outros. Um homem de pijama abriu a janela e jogou um rádio a pilha ligado em cima dos nojentos, que sumiram arrepiados. Parecia uma pedra falante. Lá dentro veio uma voz de mulher:
–Que mania, Saraiva! Precisava jogar logo o radinho que mamãe deu? Outro dia, foi o toca-fitas que veio de Manaus; depois o relógio de cabeceira; ontem, nossa máquina de calcular novinha em folha. Assim aonde a gente vai parar? Estou vendo a hora que você vai atirar pela janela nossa tevê em cores 29 polegadas!
Ophélia foi pela Oscar Freire, subiu a Teodoro, passou por um bar onde um grupo de motoristas de táxi conversavam e jogavam palitinho. Do outro lado, o Cine Esmeralda anunciava com todas as luzes a estréia do filme Amor em Chamas.
Antes de chegar na Escola de Medicina, deu com um muro alto coberto de trepadeira e um portãozinho azul-claro. Era o 17. Numa placa de madeira desbotada estava pintado:

Afaste-se! Cuidado! Perigo! Proibida a entrada!
Toque a campainha!

Ophélia tocou. Araújo apareceu sem camisa, risonho, de calção e sandália havaiana:
– Omberlaus! Combermomber vausinis vombercenter?
– Tufterdomber auszufterl, senterufter bomberbomber auslentergrenter!
Os dois caíram na gargalhada. A lua ficou mais bonita.
– Entre madame, a casa é sua...
Ophélia atravessou o portão alto de madeira. Do outro lado havia um matagal escuro e cheio de árvores, árvores e mais árvores, jacarandás, paineiras, buritis, quaresmeiras, unhas de vacas, laranjeiras, jabuticabeiras, bananeiras, pintangueiras e romanzeiros misturadas com trepadeiras, palmeiras, coqueiros, samambaias, xaxins, bromélias e cipós. Apesar do terreno não ter mais de que uns 20 por 30 metros, a professora teve a impressão de que estava penetrando na floresta amazônica.
Entre as folhagens quase invisível havia uma trilha.
Araújo fez um gesto para que Ophélia o seguisse. Era preciso proteger o rosto contra os galhos e cipós. O matagal dava medo mas exalava um perfume gostoso. Depois de um tempo, chegaram numa clareira onde havia uma casinha pequenina. Na frente, varanda com rede pendurada. Na parede, um violão de doze cordas. Um papagaio espiava do poleiro.
– Chegamos... disse ele, oferecendo uma cadeira de palhinha.
– Mas... que lugar simpático! Você... mora... assim?
– Assim como?
– Bem... assim...aqui?
– Já jantou?
– Já.
– Aceita um cafezinho?
Ophélia fez sim com a cabeça enquanto olhava admirada para todos os lados.
Araújo vivia numa espécie de casa de caboclo urbana. A casa térrea e pequena tinha varanda, sala boa, dois quartos, cozinha e banheiro. Paredes de barro batido, ripas de madeira trançada, toda caiada, telhado de sapé, janelões grandes que se fechavam apenas com uma chapa de madeira, sem vidro nem nada. Piso? De cimento rústico coberto por uns tapetinhos coloridos.
Passando a varanda, vinha uma sala gostosa com mesa, quatro cadeiras, uns almofadões pra sentar, um sofá velho, um armário para guardar louças, duas estantes altas com livros até o teto, discos e Cds. Pelas paredes, muitas e lindas xilogravuras nordestinas. Num canto, um piano de caixa e vários instrumentos de sopro pendurados num suporte de ferro. Tudo isso cercado por vasos de cerâmica, enfeites de madeira, um arco e flecha e um tacape presos na parede, um aparelho de som, partituras espalhadas por todo canto, dois baús de madeira e muitas flores. Atrás de uma das cadeiras, uma cobra grande empalhada deitada no chão.
– Abram alas!, disse ele. – Olha o cafezinho fresquinho com beiju!
– Hum! Seu fogão é a lenha? Que cheirinho! Nossa... faz séculos que não como beiju...
Os dois sentaram nos almofadões.
– Araújo... que delícia a sua casa! Que sossego! Parece até que a gente está fora da cidade. Me diga uma coisa. O que é aquela placa lá fora escrito “perigo”?
– Ah! Isso... Anos atrás – iniciou ele pigarreando um pouco – fiz uma viagem pelo interior, lá pelas bandas do norte de Mato Grosso, bem depois de Lucas do Rio Verde. Um matão virgem daqueles. Era noitinha. Dei com uma cabana e pedi pousada. Uma família de caboclos vivia ali, isolada do mundo, sem luz elétrica nem nada, vivendo de caça, pesca e das coisas do mato. Uma gente boa que só vendo, Ophélia. Deram um jeito e arranjaram um cantinho pra eu dormir. Estava exausto. Arriei a mochila, dividi uma comida que tinha pronta com eles, deitei na rede e dormi feito pedra. Acordei no outro dia com o sol já quente. Estiquei os braços, bocejei, olhei distraído pro teto. Na madeira que prendia o telhado de palha estava enrolada uma baita cobra. Imagine meu susto. Dei um pulo da rede, peguei a espingarda, armei e fiz pontaria. Nisso aparece um menino, filho do caboclo, gritando “Não, não, não, moço, num mata a Lindóia que ela é nossa filhinha!” Descobri que por lá é comum o pessoal domesticar cobras como a jibóia. Viram bicho de estimação das crianças. Mansinhas.
– Nossa...
– E com a vantagem de não sujarem a casa, afastarem ratos e comerem só uma vez por mês...
– Não diga! O que é que elas comem?
– Mixaria... Gatos, ratos, lagartos... bichos pequenos que não servem pra nada. Mais tarde, em outra viagem, arrumei um filhote de jibóia, trouxe pra cá e dei o nome de Lindóia. Uma homenagem.
– Você... tem cobra aqui?
– Olha ela lá, dormindo embaixo da cadeira.
Ophélia parou de tomar café. Colocou a xícara na bandeja. Virou a cabeça devagar.
Examinou a cobra empalhada, enrolada debaixo de uma cadeira, perto do piano, um minhocão enorme e imóvel.
– Você está brincando, Araújo. Esse bicho está vivo?
– Não precisa ter medo, Ophélia. A Lindóia é um doce de coco. Está comigo desde que nasceu. A placa lá fora foi brincadeira. Isso não morde ninguém. Cobra dorme o tempo todo. Com a pança cheia, então, nem se fala. Agora, não pense que é um bicho indiferente, que não liga pro dono. Se, por acaso, eu saio e demoro, ela fica aflita me procurando pela casa. Quando chego, sempre preparo pra ela um pouco de chá de camomila com açúcar. Por falar nisso, que dia é hoje?
– Terça, balbuciou a professora, olhos fixos na cobra imóvel.
– Eu sabia! Hoje é dia da Lindóia papar.
Ophélia olhou bem para o amigo e caiu na risada.
–É tudo brincadeira! Eu sabia! Você quase me pega Araújo. Imagine! Uma cobra jibóia dentro de casa!
– Espera um pouco, respondeu Araújo.
Entrou num dos quartos e voltou com uma gaiola, dessas que infelizmente usam para prender passarinhos, cheia de ratinhos brancos.
Ophélia ajeitou os cabelos.
Araújo aproximou-se da cobra. De joelhos, abriu a gaiola e soltou um rato.
O animalzinho ficou meio perdido, andando feito barata tonta, sem saber para onde ir. De repente a cobra empalhada levantou a cabeça e num ataque violento engoliu o rato. O rabinho cor de rosa ainda ficou se mexendo do lado de fora da boca antes dele desaparecer completamente no bucho da jibóia.
Ophélia gritou “Cruz credo, minha Nossa Senhora!” e fugiu para a varanda.
Araújo ainda soltou mais três ratinhos. Os três foram devorados do mesmo jeito.
–A gente come carne de vaca. Jibóia come carne de rato. Fazer o quê? perguntou o velho, levando a gaiola de volta para o quarto.
Com cuidado para passar longe da cadeira da cobra, Ophélia voltou e sentou-se de novo na cadeirinha de palha e resolveu puxar outro assunto.
– Como é que você mora logo aqui, Araújo, na Teodoro Sampaio, e eu nunca vi você? Passo por aqui de ônibus quase todo s dia...
– E olha que eu moro, deixa eu ver, vai fazer bem uns trinta anos. Herdei esse terreno do meu falecido pai. Quando ele morreu, eu tinha voltado de uma viagem pelo Norte, onde vivi durante alguns meses com os índios...
– Não diga!
– Sim, morei oito meses numa aldeia Kamaiurá, perto da lagoa de Ipavu, no Parque Xingu. Uma experiência, por sinal, fascinante. Está vendo este arco preto preso na parede? Ganhei de um índio, Ambrósio Kuluene, que depois virou um grande amigo. Aquela flauta também. Chama Jakui. É mágica. Só pode ser tocada por homens. Quando voltei, comecei a procurar um lugar para morar. Meu pai tinha morrido e me deixado esse terreno. Sou músico. Nunca tive muito dinheiro. Minha primeira idéia foi vender e com o dinheiro comprar um apartamento pequeno. Depois pensei. O terreno fica na rua Teodoro Sampaio. Achei que isso era um sinal. Esse Teodoro Sampaio foi um tremendo estudioso das coisas de nossa gente, um homem que andou por essa terra toda, um dos primeiros a estudar a língua tupi. Eu também sempre gostei de cultura popular, da arte do povo, das culturas indígenas. Voltei ao terreno. Tinha sido do meu avô e nunca tinham cortado as árvores nem o mato. Tem árvore aqui com muito mais de cem anos. Entrei no meio do matagal, senti aquele cheiro de mato. De repente veio uma voz dentro de mim: “Esse é o seu lugar!” E foi assim, Ophélia. Construí essa casinha, substituí as plantas que estavam fracas ou mortas, plantei muitas outras e, digo a você sinceramente, não me arrependi até hoje.
Quando falava, Araújo parecia mais jovem. Seus gestos eram largos, decididos, a voz firme. Ophélia olhava aquele amigo a quem não via há tanto tempo. Que figura! Quanta alegria de viver!
– Araújo... puxa... parabéns! Que vida! Quanta coisa! Músico, sertanista, conhece o interior do nosso país, a cultura do nosso povo...
É que Ophélia adorava esses assuntos. Na escola dava aula de folclore para a criançada mais velha. Lembrou até uma lenda sobre as jibóias:
– Dizem que, antes dela dar o bote, solta um suspiro misterioso que desmancha o sangue da vítima!
Olhou para a cadeira, preocupada. A serpente tinha sumido.
– Sabe, Ophélia, disse Araújo, – a gente aqui na cidade está tão obcecada em trabalhar, ganhar dinheiro, subir na vida, falar inglês, fazer leitura dinâmica, aprender informática e tudo só para ganhar dinheiro e poder comprar, comprar, comprar. As pessoas não querem saber se a vida dos outros está boa, se a sociedade é justa ou injusta, se a vida tem ou não tem sentido. Elas só pensam em assistir televisão para ver os anúncios e depois se empanturrar de tênis, carros, eletrodomésticos... sei lá! As pessoas nem sabem mais o que é ser um cidadão. As pessoas se contentam em ser apenas consumidoras. Só sentem prazer quando compram coisas e consumem. Cadê o prazer de existir, respirar, sentir o corpo, encontrar pessoas, amar, ter saudades, dançar, ficar de papo pro ar? Cadê o sonho de construir uma sociedade melhor e mais justa onde todos possam trabalhar, ter uma vida digna e ser felizes? A vida virou uma rotina automática, todo o dia a mesma coisa, a pessoa não consegue ver mais nada, sentir nada. Não tem tempo pra família, não conhece os vizinhos. Esquece a cidade e até o país em que está! Esquece não, ignora! Não sabe o que tem nem o que não tem. Como está, nem pra onde vai. Só pensa no seu próprio umbigo e ganhar mais dinheiro. De que adiantar ser rico numa sociedade tão injusta com pais de família sem estudo, sem saúde e sem emprego? Com crianças fora da escola?
Araújo cruzou as pernas no almofadão.
– Veja o caso dos índios. Estes então... É criminoso! Estão acabando, morrendo pelo mato, cheio de doenças. Alguém está ligando? Estão roubando as terras deles para cortar madeira, plantar soja ou extrair minérios. Querem que eles se acostumem ao nosso tipo de vida da noite pro dia. E a cultura deles? E as religiões deles? E os segredos que eles sabem? E os jeitos que eles inventaram para viver no mundo? Está vendo aquela madeira presa na parede? Dê uma olhada...
Ophélia levantou-se. Colocou os óculos. Era um pedaço velho de tronco de jatobá. Nele estava escrito:
Onça existe para ficar no mato, para comer bicho e também para enfeitar a mata; pássaros e passarinhos, para ficar na árvore, para se criar, dar penas e, alguns, para se comer; peixe, para ficar na lagoa à espera de quem os queira pescar. História existe para ser contada pelos velhos. História de índio é como a de civilizado. Serve para que se conheça como se fazem as coisas, para não esquecer o antigo, enfim, para não acabar. Gente serve para ficar em pé, trabalhar, namorar, casar e ter filho.

– Ouvi isso numa conversa com o chefe Kamaiurá., continuou Araújo. – Achei certo. Achei bonito. Anotei pra nunca mais esquecer. Não devia haver uma escola em todo território nacional, do Oiapoque ao Chuí, que não tivesse pelo menos um professor índio contratado, pintado, de tanga, borduna, arco e flecha e sabe ensinando o quê? Lições da natureza, coisas da vida e da morte, as relações do homem com os animais, as plantas e os astros, noções sobre o nosso corpo, nossas energias, nossa terra, para que servem os bichos, as plantas, histórias da lua e das estrelas. Ophélia, por que você não propõe isso na sua escola?
Ophélia imaginou um índio pintado e pelado dando aula pra criançada.
–Araújo! Que idéia maravilhosa! Para os alunos ia ser uma riqueza. Ver a diferença entre o namoro dos índios e o namoro de gente da cidade. Como são os casamentos lá e cá. Como são as famílias. Quais as histórias que eles contam à noite. Como é a religião deles. Como as crianças índias são educadas. Como são as leis. Como eles lidam na tribo com os interesses individuais e os coletivos.
Os olhos da professora sonhavam:
– Os alunos podiam inclusive, de vez em quando, fazer excursões onde o índio explicaria melhor as coisas do mato. Já pensou acampar na serra da Mantiqueira com um índio? Ia ser uma lição pro resto da vida!
Araújo sorriu.
– O dia em que isso acontecer vai ser tudo diferente. Ninguém vai querer acabar com praças nem com árvores. Garanto que as cidades vão ser menores, sempre perto do mato, as pessoas menos apressadas e mais preocupadas com o bem estar de todos, cobras andando soltas nas ruas, escolas para todo mundo, todo mundo vai ter horta em casa, bibliotecas e museus, muitas flores, leite de vaca no pé, conservatórios musicais, nada de viver feito máquina desumana, só pensando mecanicamente em comprar, comprar, comprar... Vamos fazer uma batida de maracujá? Tenho uma pinguinha, que comprei em Silveiras, que é um troço.
– Ajudo você a fazer mas não vou beber. Não posso. Bebida alcoólica me dá enxaqueca.
– A gente faz uma bem fraquinha.
– Então tomo um gole só pra fazer companhia.
Enquanto preparavam a bebida, voltaram ao assunto da praça.
Ophélia contou que tinha ido à prefeitura duas vezes para nada. Primeiro não lembravam que praça era. Depois disseram que aquilo era assunto encerrado. O decreto já tinha sido assinado pelo prefeito.
– Vamos ter que engolir esse sapo, meu caro, disse ela balançando a cabeça. – Se até o prefeito já autorizou. Chegamos tarde.
Araújo bebia calado, falando sozinho.
– Fazem quase sessenta anos... a gente namorou... agora...
– Como?
– Nada. Estava pensando aqui comigo. Sabe, Ophélia, acho que vai ter que ser no muque.
– No muque?
– No muque. Na marra. Não sei... Vamos fazer o seguinte. São vinte pra meia-noite. Vai pra casa e vê se tem alguma idéia. Eu também vou ficar aqui pensando. Na segunda feira eu ligo, aí a gente decide.
Levantou o copo.
– Posso contar com você nesta luta?
– Claro.
– Até o fim?
– Até o fim.
– E se a gente tiver que enfrentar coisa grossa? Você topa?
– Topo!
– Então... tintim...
– Tintim.

 
 
 
 

Trecho de A hora do cachorro louco – Ática, 2006. Cap. 8

 
 

Na manhã seguinte, Marcelo faz uma experiência radical. Decide ficar o dia inteiro sem comer para ver o que é sentir fome.
Na hora do café da manhã, Raul está sempre com pressa pois leva os filhos à escola antes de ir para o trabalho. Leda ainda não acordou pois entra no trabalho mais tarde. Camila não está nem aí. Dona Maria, já colocou a mesa e partiu para a faxina dos banheiros. Em outras palavras, ninguém percebe que aquele dia Marcelo não colocou absolutamente nada na boca.
Na escola, o menino sente-se irritado por nada, inseguro, desconfortável, sem vontade de conversar com ninguém. É uma sensação de estranheza como se alguma coisa estivesse faltando. No recreio, às nove e quarenta e cinco, hora do lanche, a coisa piora. Não é fácil ficar em volta dos colegas comendo, rindo e conversando. Nunca tinha reparado no perfume delicioso dos lanches. Era gente feliz descascando frutas. Sanduíches imensos recheados com queijo e presunto. Apetitosos pedaços de pizza. Bolos embrulhados em papel alumínio. Biscoitinhos variados. Barras de chocolate. Barras de cereal. Garrafas térmicas com chocolate gelado, leite, coalhadas, refrigerantes, sucos e mais sucos.
Marcelo passa o recreio enfiado no banheiro. Prefere trancar-se no box, sentar-se na privada e ficar lá quieto, longe daquela comilança.
No segundo período, mal consegue prestar atenção nas aulas. Sente muita fraqueza. Enquanto as matemáticas, histórias, ciências e gramáticas passam de aula em aula, sua cabeça só consegue imaginar sanduíches de salame e queijo derretido, croquetes, bifes e pratos de macarrão com molho de tomate e queijo ralado por cima.
Um cansaço desanimado toma conta do menino.
Leda pega os filhos por volta do meio dia. Enquanto Camila fala pelos cotovelos contando o que houve e não houve durante as aulas, Marcelo encolhe-se num canto do carro sem dizer um isso.
Para o almoço, Dona Maria da Luz tinha feito arroz, feijão, salada, omelete e um bife com queijo derretido e molho de tomate. Sobremesa: pudim de tapioca com coco.
Marcelo fica tonto só de olhar para a mesa posta. Mesmo assim, agüenta firme. Disfarça. Explica que está sem apetite e com um pouco de dor de cabeça. Prefere comer mais tarde.
Enche um copo d’água no filtro, vai para o quarto, fecha a janela e deita-se na cama.
Sua dor de cabeça não é de mentira. Tinha começado na escola, depois do recreio e veio crescendo vagarosa tomando conta do cérebro.
Prostrado na escuridão do quarto, Marcelo percebe que as mãos e os pés estão frios. A boca fica seca e com um gosto ruim amarelado.
Resolve tomar um gole d’água. Derruba o copo no chão. Examina as mãos. Estão trêmulas.
Uma angústia fora de hora invade seu peito de menino. Parece uma espécie de vazio. Uma vontade de desistir de tudo, dormir, morrer e sumir para sempre.
Lá pelas cinco da tarde, vem uma vontade incontrolável de chorar. A sensação de que a vida não faz mais sentido. De que seus pais nunca tinham gostado dele. De que é um fracassado, tem um corpo ridículo, não tem nenhum amigo de verdade, vai repetir de ano e seu futuro será, sem dúvida, um completo desastre.
Marcelo tenta lutar. Esforça-se para levantar e vai cambaleando ao banheiro. Sua urina está mais escura do que o normal. Sente vontade de vomitar. Mas vomitar o quê? Examina aquela cara de morto-vivo desenhada no espelho.
Volta para o quarto e desaba na cama. De repente, nota que as paredes estão tortas e balançam. O teto começa a descer, descer e descer em cima dele feito um elevador desgovernado.
É quando desiste daquela experiência louca. Voa até a cozinha, agarra quatro pães de forma e prepara dois sanduíches. Enche de requeijão, coloca, em cada um, um bife frio do almoço, várias fatias de queijo e engole tudo sem mastigar. Depois, bate no liquidificador, leite, chocolate em pó e duas bolas de sorvete de creme, deita-se no sofá da sala e bebe aquilo como se fosse um recém nascido mamando pela primeira vez no peito da mãe. No fim, volta à cozinha e acaba com o resto de pudim de tapioca com coco que ainda restava na geladeira. De quebra, devora três sonhos de valsa que alguém esqueceu em cima da mesa da copa. “Bobeou, dançou” pensa, atirando o papel avermelhado das embalagens no lixo.
No resto do dia, Marcelo continua estranho mas o pior veio depois.
Seus olhos resolveram arregalar de repente, mais tarde, no meio da noite.
Não foi nada real. Não foi briga do vizinho de cima com a mulher. Moto nenhuma passou no Minhocão com o escapamento aberto. Não foi sirene de ambulância nem boyzinho tirando racha. Nem preocupação por causa de boletim. Seus olhos apenas abriram num estalo.
Marcelo espreguiça-se na cama. Espia o relógio na cabeceira. Três e meia.
Sente a testa molhada de suor. Foi um pesadelo daqueles.
Marcelo jogava bola no campinho do sitio do avô. Era um time formado por seus colegas de São Paulo contra a molecada que morava perto do sitio. Eraldo, naturalmente, jogava no time adversário. O jogo está equilibrado. No meio do sonho, Eraldo passa por dois adversário com um drible seco e chuta no gol. Sua perna vai junto com a bola e cai na estradinha de terra ao lado do campo. Um vira-lata vinha passando, agarra a perna e desaparece no matagal com ela na boca. Eraldo fica no meio do campo pulando numa perna só. “E agora?” pergunta ele. “Que é que eu faço?”. Alguém do time de Marcelo grita: “Não faz mal, vai na loja e compra uma nova!”. Eraldo fica aflito: “Mas eu não tenho dinheiro!”. O outro não se abala : “Então pega essa muleta emprestado e vamos continuar o jogo.”. A partida feita de sonho recomeça com Eraldo jogando de muleta. De repente, Marcelo nota que, na verdade, o time de São Roque inteiro é aleijado, tem uma perna só e também joga de muletas. A partir de então, o jogo fica muito fácil. O time de São Paulo deita e rola. Dá chapéu. Dá o drible da vaca. Dá toquinho de letra. Dá lençol. Passa a bola entre a perna e a muleta dos adversários. Estes, suam a camisa, dão tudo de si, esforçam-se ao máximo, mas não conseguem nem chegar perto da bola. A goleada é histórica. O time do pessoal de São Paulo dá gargalhadas e enfia um gol atrás do outro. Marcelo, no sonho, olha o amigo Eraldo mancando, tomando drible, humilhado, mas sem dizer nada. Aquilo revolta. Marcelo agarra a bola com a mão, interrompe o jogo e começa a chorar e a gritar mas sua voz fica presa na garganta. Enquanto isso, o pessoal do seu time ri e ri cada vez mais alto.
O menino estica o corpo em cima dos lençóis. O ruído do relógio tiquetaqueia alto por causa do silêncio. Sente sono e aflição. Jogo louco! Coça a cabeça. Lembra de outro sonho faz tempo, mas que até hoje consegue resgatar do começo ao fim.
Tinha pegado o carro do pai escondido. O trânsito da cidade estava difícil. Sentia-se contente, mas um pouco preocupado. Afinal, era menor de idade e não tinha carta. Seguia uma fila de automóveis que quase não saía do lugar. Andava. Parava. Andava. Parava. No sonho, Marcelo buzinou impaciente. Apertou o acelerador fazendo barulho. De repente, entendeu tudo. Sem querer, tinha entrado na fila de algum enterro. Na primeira oportunidade, deu sinal e dobrou à direita para escapar. Quando olhou pelo retrovisor , levou um susto. Uma fila de carros tinha vindo atrás dele. Com certeza os parentes e amigos do morto não perceberam a manobra e achavam que ele continuva seguindo o cortejo. Marcelo pisou no acelerador. A fila de automóveis aumentou a velocidade. Eram mais de cem carros. O menino começou a suar. Dobrou à direita. Entrou na contramão. Virou à esquerda. Deu um cavalo-de-pau. Tentava desesperadamente despistar a procissão de automóveis. Às vezes a fila sumia e ele respirava aliviado. Mas logo lá vinha ela de novo enfileirada no espelho retrovisor. Cada vez mais aflito, o menino examinava aqueles carros escuros com motoristas compenetrados e pessoas sérias de luto passando o lenço nos olhos. Então, teve uma idéia. Arrancou cantando pneu, saiu da cidade, pegou a Imigrantes, acelerou, voou, desceu a serra e acabou chegando no Guarujá, na praia da Enseada. Brecou e, enquanto a fila de carros ia chegando e estacionando, despiu a roupa e, de cuecas mesmo, correu, mergulhando de cabeça no mar.
Marcelo sorri dobrando as pernas na cama. Cada uma! Como e por que será que os sonhos surgem na cabeça da gente?
Resolve tomar um copo d’água na cozinha.
Levanta-se. Todos dormem no apartamento escuro.
Ao entrar na sala, percebe que a porta da cozinha está apenas encostada. Uma luzinha dançarina tremula lá dentro.
Escuta vozes. Parece gente falando. Mas quem estaria conversando na cozinha àquela hora?
Curioso, o menino aproxima-se e empurra a porta de leve.
A cozinha, com as luzes apagadas, está iluminada por quatro velas colocadas nos cantos da mesa. Ajoelhada de costas para a porta, com os braços levantados e a cabeça baixa, Maria da Luz reza:


Forças do mal saídas do inferno
Que atormentam as ruas da cidade
Vão-se embora pelo poder eterno
Pela força de Deus e a presença
De Santo Anastácio
Saiam de volta de onde vieram
Das escuras paragens, do lugar do
Inferno
Aqui vence a luz
Aqui vence a paz
Deixem a cidade, que está protegida
Pelo sinal sagrado e o sino salamão...

O vento bate tentando arrombar o vidro.
– Dona Maria!
A mulher levanta-se assustada, apoiando-se na beira da pia.
– Ué! diz ela ajeitando os cabelos soltos. – Ocê tá aí?
– O que a senhora está fazendo?
– Rezando, uai!
– A essa hora?
– Deu vontade.
– A senhora falou em... forças do mal?
Maria da Luz aperta a boca. Anda pela cozinha. Parece medir o menino com os olhos. Fala baixinho:
– O coisa-ruim anda solto por aí!
– Coisa-ruim?
– Eles acha que é vira-lata mordendo gente mas não é não, Marcelo. É o coisa-ruim! É o satanás! O chifrudo, o côxo malvado, o cabra lazarento da moléstia solto na cidade em forma de lobisomem!
– Lobisomem?
A mulher explica. Fala da existência de homens magros e amarelados, de orelhas compridas, possuídos e governados pelo diabo. Em geral são o filho homem nascido depois de sete filhas. Podem ser filhos de padre. Filhos de padrinho com afilhada. Ou mesmo de filha que dormiu como o próprio pai.
Marcelo arregala os olhos.
Segundo Maria da Luz, nas noites de terça ou quinta-feira, essa gente virava lobisomem e saía por aí, passava por sete cemitérios, voltava para o lugar de onde tinham partido e transformava-se de novo em gente. Sua corrida alucinada durava a noite inteira, até o primeiro galo cantar. Era o fadário.
– Fadário? Marcelo nunca tinha ouvido falar .
– O fado. A sina. O destino. A praga! A maldição dos quintos dos infernos!
Maria da Luz explica que o lobisomem não costumava atacar homens e mulheres adultos. Só crianças e mulheres grávidas. Rasgava a barriga das infelizes e comia o filho tão esperado. Costumava também, vez por outra, atacar velhos.
– Tá louco! exclama Marcelo.
A mulher fala mais baixo. Sua voz mete medo.
– Os Lobisomem vem dos inferno pra acabar com a esperança.
– Como assim?
– Ué! Eles mata os bebê que está dentro da barriga da mulher e mata as criança, quer dizer, eles mata a esperança no futuro e o futuro. Sem as criança, Marcelo, quem vai tomar conta do mundo depois da gente?
O menino escuta a mulher, sem saber o que pensar.
– Os Lobisomem também quer acabar com o passado. Eles detesta os antigo, os mais velho, porque esses sabe as história, o que já aconteceu faz tempo nos antigamente. Por isso o danado ataca e tenta matar eles tudinho.
Sem a gente de idade, explica a empregada, quem iria lembrar das coisas acontecidas no passado ou contar como as coisas eram antes?
– São os velho, diz ela, que chega prá gente e diz: não faça isso não, filho, que é perigoso, que isso não dá certo. Olha, não pega esse caminho que esse caminho eu já peguei e ele não presta. Maria da Luz completa: – Eles fala porque têm experiência, viveram antes da gente, estão no mundo faz tempo e viram coisas que a gente não viu. É ou não é?
O menino concorda.
– Sabia que os lobisomem aprecia bosta?
– Bosta?
– Eles come merda!
Marcelo faz uma careta.
– Por isso – a voz da mulher treme feito luz de vela – o bafo deles fede mais que bicho morto e privada cagada entupida. As dentaiada deles é tudo amarela anssim!
O menino vai até o filtro pegar água.
– Ô dona Maria, espera um pouco, a senhora acredita em…
– Credito que nem eu estar aqui olhando ocê! Tem lobisomem solto na cidade sim. Pode assuntar. Tá no jornal todo dia! Tá na cara! Eles só ataca nas noite de terça pra quarta e nas noite de quinta pra sexta. E só pega criança, mulher prenhe e gente velha de idade. Pode ver. Nem carrocinha nem polícia nem exército nenhum – sussurra a mulher com os olhos acesos – vai dar conta de pegar! Eles é da parte do beiçudo! É pau mandado do coisa-ruim!
Marcelo assusta-se com o rosto duro da mulher.
– Se ninguém num fizer nada, muita gente vai morrer!

 
 
 
  Trecho do livro Lúcio vira bicho - Cia das Letras, 1998. Cap. 12  
  Minha vontade de morrer foi curada, ou, pelo menos, adiada, por uma pancada que quase me quebra a espinha em três pedaços. Mal tive tempo de me virar e lá vieram outras, recheadas de pontapés e palavrões, provenientes de uma figura magra e sinistra. O sujeito me xingava, me ameaçava e, com uma vassoura, fui enxotado e trancado no lavabo.
Fiquei, debaixo da pia, dolorido e atordoado, ouvindo o homem praguejar enquanto arrumava e limpava a sala.
Parecia bastante irritado com a bagunça que eu havia feito. De vez em quando, abria a porta do lavabo só para me dar outra vassourada. Encolhido atrás da privada, eu tentava me proteger.
Mais tarde, fui levado até a rua e atirado sobre uma carroça, estacionada do lado de fora. O homem trancou a casa, saltou na carroça e berrou: “Vamo, Sereno!”.
Enquanto a carroça pererecava sobre os paralelepípedos, eu, amarrado e trêmulo, espiava a paisagem pela fresta de madeira.
Atravessando Guaratinguetá, pegamos uma estrada larga de terra e pedregulhos. Os ônibus passavam levantando poeira. De vez em quando, o homem xingava a mãe do cavalo. Uma varejeira ficou tentando morder minhas orelhas. Paramos em frente a uma venda na beira da estrada. Pude examinar melhor o sujeito. Era comprido, usava um chapéu preto de abas largas, sandália havaiana e um bigodinho fino desenhado em cima da boca. Andando devagar, ligeiramente inclinado para a frente, foi até a venda, comprou pão, leite e tomou pinga. Eu assistia a tudo pela fresta. Voltou depois, arrastando os pés, subiu na carroça e acendeu um cigarro. “Toca em frente, Sereno! Eia!” E lá fomos nós de novo, rangendo debaixo do sol.
Saindo da estrada de pedregulhos, enveredamos por uma estradinha de terra e começamos a subir uma serra. Eu espiava e acompanhava o esforço do cavalo. De vez em quando, surgia uma casinha de sapé. Passamos por plantações de milho e cana e por uma olaria abandonada. Ao dobrar uma curva, notei um cachorro deitado na estrada. Estava de barriga para cima, inchado, cheio de moscas e formigas. Mais adiante, passamos por outro na mesma situação e logo depois por mais outro. Lembro de ter achado estranho tanto cachorro morto. Deviam, pensei comigo, ter sido atropelados, se bem que aquela estradinha não parecia ter movimento algum. O caminho foi ficando mais e mais estreito. Alguém surgiu a cavalo, vindo em sentido contrário. A carroça parou e os dois homens conversaram rapidamente. Tive a confirmação de que o sujeito de chapéu preto era mesmo seu Miguel. O outro, a cavalo, um negro, descalço, perguntou a seu Miguel se estava sabendo da última feita por “ele”. Seu Miguel respondeu que não. O outro contou que “ele” quase tinha pegado o vermelho, o cachorro do Firmino.
“O paqueirinho?”, perguntou seu Miguel, espantado.
“O próprio!”, confirmou o negro. E disse mais. Que o Firmino tinha chegado na hora e que o Firmino ficou bravo e acertou um soco que quase vaza a vista “dele”.
“Ê, lasqueira!”, exclamou seu Miguel, dando um tapa na própria perna.
E ameaçou: se aquele filha da mãe aparecesse no sítio, ia ver uma coisa. Disse que “abria a cabeça dele com a enxada e depois pegava o corpo, picava, misturava no fubá e dava pra cachorrada comer”.
O negro caiu na gargalhada. Seu Miguel também. Senti medo, leitor. Os dois se despediram e — “Eia, Sereno!” — nossa viagem prosseguiu.
O mato agora roçava as laterais da carroça. Passamos por uma cruz enterrada na beira do caminho. O ar soprava um perfume abafado. Umas borboletinhas passaram, amarelas, saracoteando. Após mais subidas e descidas, atravessamos uma ponte de madeira e paramos diante de uma porteira vermelha. Sobre a cerca de arame telado erguia-se uma placa pintada à mão: “Sítio Santa Rita”.
Seu Miguel desceu da carroça, abriu a porteira e entrou a pé, puxando o cavalo pela rédea. Continuei espiando pela fresta. O lugar era bem agradável. No alto de uma elevação, cercada de árvores, havia uma casa térrea e grande, fechada, com um terraço coberto na frente. Ao lado, mais abaixo, outra, menor, com as janelas abertas, fumacinha branca escapando da chaminé e varal cheio de roupas coloridas.
Sempre arrastando os pés, seu Miguel fechou a porteira, voltou e, com um safanão, arrancou a corda do meu pescoço, atirando-me fora da carroça.
Logo me vi cercado por vários cachorros que latiam e arreganhavam os dentes. Não sabendo o que fazer, resolvi ficar onde estava, sem mover um músculo. Era um bando de vira-latas, cada um diferente do outro, todos magros e de pêlos espetados. Apesar de serem muitos, uns seis ou sete, não pareciam propriamente ferozes e, confesso, não senti medo. No fim, os latidos diminuíram e um deles, aproximando-se, desconfiado, cheirou meu focinho e minhas partes íntimas. Senti cócegas, mas resolvi agüentar firme. Os outros, tomando coragem diante da minha passividade, fizeram a mesma coisa. Dei minhas cheiradelas também. Notei, aqui e ali, um rabo abanando amistosamente. Um dos cachorros, então, afastou-se e urinou na roda da carroça. O bando inteiro urinou no mesmo lugar. Por via das dúvidas, fiz a mesma coisa.
O ambiente foi ficando mais ameno. Seu Miguel havia desatrelado o Sereno, levando-o para o estábulo. Depois, empurrou a carroça até a garagem. Voltou acompanhado de uma mulher gorda e desdentada, que parecia uma índia, enxugando as mãos no avental, e de um menino de uns dez anos, de pele escura e cabelos alourados.
Seu Miguel explicou aos dois que a ordem do patrão era que tomassem conta de mim. A mulher resmungou alguma coisa que não consegui entender. Seu Miguel respondeu que o jeito era ficar de olho. Em seguida, mandou o menino soltar o Capitão.
Um cachorro escuro, maior e mais forte que os outros, apareceu com as orelhas levantadas. Adotei novamente a tática de ficar parado. O grandalhão veio rosnando para cima de mim. Eu estava cansado. Resolvi mandar o vira-lata para o inferno. Foi meu erro. Minhas palavras de indignação se transformaram em latidos e dentes arreganhados. Como resposta, o cachorro simplesmente saltou em meu pescoço. Tentando me desvencilhar, tropecei, caindo de cara num monte de areia. Seu Miguel e a família davam risada. Os outros cachorros, assistindo à cena, latiam alegres e folgados. Fiquei com os olhos fechados, o focinho enfiado na areia. O grandalhão vira-lata então se aproximou, levantou a perna e, arrogante, urinou na minha cara!
O sangue, leitor, borbulhou em meu cérebro, trazendo um sentimento quase selvagem de despeito e indignação. Calma lá! Eu sou gente!, lembro de ter pensado, com o rosto ensopado. Eu não era um vira-latinha qualquer, não senhor. Meu nome era Lúcio. Tinha família. Era um animal racional pertencente à espécie humana. Sabia ler. Tinha feito o jardim-de-infância, o primeiro e o segundo graus e, no momento, era praticamente um universitário. Conhecia gramática, matemática, geografia, história, biologia, sabia tirar raiz quadrada, sabia de cor várias leis da física, sabia usar uma tabela periódica e até arranhava um pouco de inglês. Além disso, tinha rg, título de eleitor, cpf, certificado de reservista, carteira de motorista e conta no banco; pequena, mas tinha. Não! Eu não podia aceitar uma humilhação como aquela, principalmente vinda de um animal inferior, de um vira-lata qualquer, e ainda por cima diante de uma platéia!
Lembro de ter agido por instinto. Enchi a boca de areia, virei o corpo, fiquei em pé sobre as duas patas e cuspi com toda a força nos olhos arregalados do grandalhão, que recuou, perplexo. Aproveitando-me disso, mordi seu focinho com todos os meus dentes e a força ancestral dos meus antepassados mais primitivos. Deu até pena. O cachorrão fugiu ganindo e fungando, com o rabo entre as pernas. Ficou longe, amedrontado, com o focinho sangrando, tentando tirar a areia dos olhos com as patas.
Até estufei o peito ao notar o respeito saltando dos olhos e do silêncio dos outros cachorros.
Seu Miguel já tinha ido cuidar da vida. Voltou mais tarde, carregando um latão enferrujado com uma espécie de sopa grossa de fubá, arroz e uns poucos pedaços de carne misturados. Atirou a comida no chão e voltou para casa arrastando os pés.
Apesar de estar com fome, me recusei a comer. Preferia um milhão de vezes morrer de inanição a me rebaixar e engolir aquela gosma nojenta em companhia daqueles vira-latas. Fiquei longe, vendo os infelizes devorarem apressados o fubá espalhado no chão.
Jurei a mim mesmo fugir aquela noite, e foi exatamente o que fiz.
 
 
 
  Poema do livro Dezenove poemas desengonçados – Ática, 1998.  
 

Dentro do livro

tem partida
tem viagem
tem estrada
tem caminho
tem procura
tem destino
lá dentro do livro

tem princesa
tem herói
tem fada
tem feiticeira
tem gigante
tem bandido
lá dentro do livro

quanto mito
quanta lenda
quanta saga
quanto dito
quanto caso
quanto conto
lá dentro do livro

tem tragédia
tem comédia
tem teatro
tem poesia
tem romance
tem suspense
lá dentro do livro

tem passado
tem presente
tem futuro
tem moderno
tem o velho
tem o novo
lá dentro do livro


tem verdade
tem mentira
tem juízo
tem loucura
tem ciência
tem bobagem
lá dentro do livro

tem estudo
tem ensino
tem lição
tem exercício
tem pergunta
tem resposta
lá dentro do livro

quanta regra
quanta norma
quanta ordem
quanta lei
quanta moral
quanto exemplo
lá dentro do livro

tem imagem
tem pintura
tem desenho
tem gravura
tem estampa
tem figura
lá dentro do livro

tem desejo
tem vontade
tem projeto
tem trabalho
tem fracasso
tem sucesso
lá dentro do livro

quanta gente
quanto sonho
quanta história
quanto invento
quanta arte
quanta vida
há dentro de um livro!

 
 
 
 

Poema do livro O livro de papel - Editora do Brasil, 2001.

 
  Balão  
 

Podia ser de aço inoxidável como o avião a jato,
mas é de papel colorido, varetas de madeira, cola, barbante e arame.
Podia ser sério e exato como os foguetes teleguiados,
mas é à toa e nem sabe aonde quer chegar.

É frágil, mas o passarinho também é.
Mesmo assim, insiste em cumprir sua missão:

partir por partir,
ser um eterno aprendiz,
viver cheio de fogo,
enfeitar o espaço,
e, por último,
iluminar, mesmo que provisoriamente, a escuridão.

 
 
 
 

Poema do livro Aula de carnaval e outros poemas – Ática – 2006.

 
  Minha estrada  
 

Antes morava dentro de uma barriga
Vidinha mansa como aquela nunca vi
Eu lá boiando mais feliz do que lombriga
Jamais pensei que fossem me tirar dali

Mas de repente fui jogado nesse mundo
Meu nascimento aconteceu sem eu querer
Foi um desgosto, uma desgraça, eu lá imundo
Tomei um susto e até pensei que ia morrer

Então berrei feito bezerro desmamado
Ninguém ouviu o meu lamento genuíno
Botaram touca, fralda e blusa com babado
Vestido assim fui aprender a ser menino

Peguei na infância de sarampo a bronquite
Caxumba, gripe, tosse e um monte de coceira
Rubéola, verme, catapora e meningite
Dor de barriga por comer tanta besteira

Pintei, bordei e aprontei, isso eu confesso,
Desci telhado de carrinho rolimã
Fui bom de bola e no baralho fiz sucesso
Banquei o herói, fiquei pelado e fui tarzan

Mal eu cresci já me mandaram pro colégio
Decorei conta e aprendi o beabá
Lá me disseram que eu não tinha mais remédio
Mas foi na escola que aprendi a namorar

Nessa matéria eu tirei dez pela pesquisa
Namorei Júlia, Amanda, Carla, Lúcia e Bete
Depois foi Cláudia, Dora, Lurdes e Marisa
Rosana, Bruna, Conceição e Margarete

Faltou dinheiro e precisei largar a escola
Fui trabalhar e aproveitei pra ver o mundo
Saí vagando e de vagar gastei a sola
E foi assim que me tornei um vagabundo

Fui pra Manaus, passei Belém e São Luís
De Fortaleza pra Natal e João Pessoa
Cruzei Recife, Maceió e Aracaju
De Salvador para Brasília é um pulo à toa

De Palmas fui para Goiânia e Cuiabá
De Campo Grande fui para Belo Horizonte
Cruzei Vitória rumo ao Rio de Janeiro
Depois São Paulo onde comi pizza de monte

Desci também pra Curitiba e Florianópolis
Um chimarrão em Porto Alegre eu fui tomar
(De capital não deu pra visitar Rio Branco,
Nem Boa Vista, Teresina e Macapá)

Se eu não falei de Porto Velho, minha gente
Foi falha minha, pois também estive lá
Ando perdendo a memória ultimamente
Mas sai da frente que eu quero continuar

Quando era jovem e ainda não tinha experiência
Achei bonito ser metido a valentão
Armei encrenca e veja que coincidência
Tomei um chute bem ali e fui pro chão

Vi que essa vida de malandro não prestava
Fui trabalhar de engraxate e biscateiro
Fui sorveteiro e vendi bala, eu não parava,
Garçom, feirante, vigilante e jardineiro

Fui salva-vidas, camelô e motoqueiro
Pintor, pedreiro, balconista, e carpinteiro
Depois coveiro, cozinheiro e trambiqueiro
Mas nem assim eu consegui ganhar dinheiro

Meu maior sonho, eu digo aqui, foi ser sambista
Tocar pandeiro, cavaquinho e violão
E numa roda de pagode como artista
Ser bom de verso e fazer improvisação

Então casei e só de filhos tive uns dez
A que nasceu primeiro foi a Roselina
Veio Darlon, Deusdete, Clinton e Manassés
Daiane, Gelson, Gildivan e Jardilina


Ainda teve o Ediman que faleceu
Rayane e Salizete vieram também
Foi muito filho mas até que eu tive sorte
Tá tudo forte e sendo assim me sinto bem

Só sei dizer que nessa vida eu fiz de tudo
Sofrer sofri mas fui feliz para ser franco
Infelizmente o tempo é pássaro miúdo,
Quando fui ver estava de cabelo branco

Minha uns noventa anos nem lembro direito
Eu bem velhinho olhei no espelho e não vi nada
Acho que o coração brecou dentro do peito
E foi assim que eu terminei a minha estrada

(Agora chega de lembrança e biografia
Se a vida é um mar até que eu fui bom marinheiro
Fiz o que pude e lutei muito noite e dia
Luta comum de quase todo o brasileiro)

 
 
 
 

Dois poemas do livro Ninguém sabe o que é um poema – Ática, 2005.

 
  Clube dos corações solitários  
 

O clube dos corações solitários
Começa quando já deu meia-noite
No corpo de um passageiro da vida
Que busca um sonho no céu da viagem

O clube dos corações solitários
É longe e fica na próxima esquina
É doce como se fosse a esperança
Que vive com quem viaja sozinho

No clube dos corações solitários
É sócio quem possuir uma marca
Vermelha do lado esquerdo do peito
Na forma de um coração tatuado


Epidemia

Quero o alastramento da felicidade
A propagação do sonho
O surto da esperança

Quero o declínio do insucesso
O decréscimo da derrota
A demolição do desalento

Quero a disseminação da boa-nova
O vírus alvissareiro
O contágio da alegria

Quero a extinção do desastre
A anemia da descrença
A agonia do pessimismo

Quero o tráfico da poesia
A precisão exata da anomia
A epidemia noite e dia
Da utopia